sábado, 21 de janeiro de 2017

Silva Mendes e as Figuras em Cerâmica de Shiwan


colecção de figuras de cerâmica de Shiwan do Museu de Arte de Macau foi pertença de Manuel de Silva Mendes (1867-1931), advogado português estabelecido em Macau e grande apaixonado por esta cerâmica produzida na província de Guangdong.
Nos primeiros anos do século XX, Silva Mendes visitou muitas vezes Shiwan/Shek Wan para ficar a conhecer a cerâmica local e depressa se tornaria no primeiro coleccionador e especialista na matéria. Na década de 1920, Silva Mendes encomendou uma série de figuras em grande escala a Pan Yushu (1889-1936) e a Chen Weiyan (?-1926), os mais famosos mestres de cerâmica de Shiwan naquela época. Antes da versão final das obras, Pan Yushu realizava modelos em pequena escala para que MSM pudesse avaliar e tomar uma decisão.

Para além da cerâmica de Shiwan, Silva Mendes foi ainda colecionador e peças Ming e Qing.
Shiwan situa-se na cidade de Foshan no sul da província de Guandong. Durante o século XVI, novas técnicas cerâmicas foram apresentadas aos habitantes de Shiwan, por emigrantes vindos das províncias centrais da China. Uma das características fundamentais desta cerâmica é a variedade cromática dos vidrados, sendo o branco, o vermelho sangue de boi, e o azul os mais frequentes. Destacam-se ainda os ricos e complexos efeitos obtidos à semelhança, mas subtilmente diferentes, dos vidrados produzidos nos fornos Jun, Guan, Ge, vermelho de bronze e celadon.
Os artistas de Shiwan descobriram posteriormente que ao usar o barro para as zonas corporais das figuras e o vidrado apenas para as vestes, podiam conferir aos personagens representados uma grande expressividade. Esta característica fundamental conduziria, em finais da dinastia Qing, ao apogeu artístico desta cerâmica.
As figuras esculpidas foram inúmeras e, a maior parte, eram personagens do teatro, da ficção e do folclore. Nos finais da dinastia Qing e início do século XX, assiste-se a uma grande diversificação temática: foram incluídas figuras históricas e heróis do povo, para finalmente surgirem as pessoas anónimas, os bustos, os nus…
Actualmente, junto ao rio Dongping, está instalado o Museu da Cerâmica. É ali que funciona desde os inícios do século XVI o forno imperial Nanfeng, o mais antigo do género ainda em laboração. Em 2001 foi proclamado como uma relíquia histórica e cultural e registado em 2002 no “Livro Guiness dos Recordes”.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

"Silêncio"... os mártires do Japão

"Silêncio" é o título do mais recente filme de Martin Scorsese e  conta a história de dois padres jesuítas portugueses no Japão, no século XVII, altura em que o cristianismo era proibido naquele país. Baseado no romance homónimo de Shusako Endo (de 1966), este é o relato das aventuras e desventuras de dois padres jesuítas portugueses, Sebastião Rodrigues e Francisco Garupe cuja fé é posta à prova durante a busca do mentor desaparecido, Cristóvão Ferreira.

Face à perseguição religiosa, que apenas terminou em 1873, Ferreira parece ter renunciado à fé cristã através da participação num ritual conhecido como fumie durante o qual os cristãos eram forçados a pisar um símbolo cristão como sinal de renegação da fé cristã. Durante o filme, com uma duração de 159 minutos, os dois jovens padres acabam por ser colocados na mesma situação que Ferreira.
São 205 os beatos mártires, que deram a vida pela fé, entre 1617 e 1632, na perseguição que foram alvo em Nagasáki e Tóquio, e que durou 15 anos. Foram beatificados por Pio IX, a 7 de Julho de 1867. Dos 205, 166 eram cristãos leigos (quase todos japoneses) e 39 sacerdotes. Entre os sacerdotes, treze eram jesuítas, doze dominicanos, oito franciscanos, cinco agostinhos e um sacerdote diocesano japonês. Dos treze jesuítas, cinco eram portugueses: João Baptista Machado, Ambrósio Fernandes, Francisco Pacheco, Diogo de Carvalho e Miguel de Carvalho.

A estreia em Portugal do filme de Martin Scorsese “Silêncio” é acompanhada pela apresentação, inédita no país, da carta de Miguel Carvalho, um jesuíta português morto pelas autoridades japonesas no século XVII. Na carta, que motiva a exposição, Miguel Carvalho despede-se do irmão Simão Carvalho, depois de o jesuíta português ter sido preso em Julho de 1623 por pregar o cristianismo. Passou vários meses na prisão antes de ser condenado à fogueira e torturado a 25 de Agosto de 1624 pelas autoridades japonesas. Antes de ser missionário no Japão, Miguel Carvalho, que entrou para a Companhia de Jesus em 1597, foi professor de teologia em Goa e Macau durante 15 anos. 
Contemporâneo dos portugueses retratados em “Silêncio”, Miguel Carvalho foi beatificado em 1867 pelo papa Pio IX. No filme, os protagonistas Sebastião Rodrigues e Francisco Garupe viajam de Macau para o Japão, no século XVII, em busca do mentor, o padre Cristovão Ferreira para confirmar se o jesuíta, perseguido e torturado pelas autoridades japonesas, renunciou à fé cristã. Em território nipónico, sob o xogunato de Tokugawa Ieyasu – que baniu o catolicismo e quase todo o contacto com os estrangeiros –, os dois jovens religiosos testemunham a perseguição dos japoneses cristãos pelas autoridades. 
A exposição “Japão: a última carta de um mártir” vai estar patente até 19 de Fevereiro, no Museu de São Roque, em Lisboa. 
Sugestão de leitura: este post sobre o tema e ainda este sobre o livro "A Embaixada Mártir", de Benjamim Videira Pires.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

“Ano do Galo” : eventos em Macau e Portugal

Se visita Macau entre 28 de Janeiro e 4 de Fevereiro, não pode perder as celebrações da chegada do Ano Novo Lunar, a festividade mais importante do calendário chinês!
São muitas as actividades programadas para celebrar a chegada do “Ano do Galo”, das quais se destacam a habitual Parada do Dragão Dourado e Dança do Leão, onde um dragão dourado de 238 metros de comprimento e 18 leões irão animar várias zonas da cidade, como as Ruínas de São Paulo, o Largo do Senado, o Templo de A-Má, entre outros locais.
O programa de celebrações inclui ainda a grandiosa “Parada de Celebração do Ano do Galo”, que decorrerá nos dias 30 de Janeiro e 4 de Fevereiro e onde desfilarão exuberantes carros alegóricos e centenas de artistas, de grupos artísticos locais e também de diversos países convidados, como será o caso de Portugal, que estará representado pela Marcha de Alfama, vencedora da 84.ª edição das Marchas Populares de Lisboa, em 2016.
Celebrações do ano novo chinês no final da década de 1970 frente ao hotel Lisboa
Em Portugal estão agendados eventos nas cidades de Lisboa, Porto e Portimão.

Lisboa
21 Jan, sábado
Desfile: 11h -12h Av. Almirante Reis
(Igreja dos Anjos e Praça do Martim Moniz)
Espectáculo: 13h/ 16h30 Praça Martim Moniz
Feira: 10h/ 17h Praça Martim Moniz
22 Jan, domingo:
Espectáculo: 14h/16h – Praça Martim Moniz
24 Jan, terça-feira:
Inauguração Exposição Fotográfica: Celebrações do Feliz Ano Novo Chinês no Mundo – 18h – Centro Científico e Cultural de Macau
Porto 
 19 Jan, quinta-feira:
Espectáculo da Companhia de Ópera Wu de Zhejiang – 21h – Coliseu do Porto
Dança do Dragão – 11h/ 12h, 15h/16h – Rua de Santa Catarina (Porto) e Vila do Conde
Portimão
19 Jan, quinta-feira:
Demostração de atividades artesanais tradicionais (recorte de papel, tecelagem de cânhamo, escultura de argila e apresentação de teatro de sombras) – Casa Manuel Teixeira Gomes

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Rua das Estalagens, nº 80

Em Dezembro último, a farmácia de medicamentos ocidentais Chong Sai, de Sun Yat-sen, reabriu ao público em Macau, mais de 120 anos após a fundação, sendo agora uma casa museu. O trabalho esteve a cargo do ICM.
  
Sun Yat-sen, que viria a ser o primeiro Presidente da China, chegou a Macau em 1892 para exercer medicina no Hospital Kiang Wu e um ano depois abriu a farmácia, onde além de assistir pacientes no seu consultório.
Com um pequeno espaço museológico com recibos, documentos, recortes de jornais e fotografias, na nova farmácia pode-se ver como a casa era originalmente e conhecer um pouco mais da relação entre Macau e o Dr. Sun Yat Sen.
O número 80 da Rua das Estalagens encontra-se no coração do bazar chinês, numa das mais antigas zonas comerciais da cidade. O prédio estreito, de dois andares, faz parte de um tipo de estrutura típica, em que o rés-do-chão é uma loja e os andares de cima são para habitação.

Fotos: M. J. Freitas
Neste post pode ver o edifício antes de ser restaurado.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Instituto de Macau: Associação Scientifica, Literária e Artística

A 17 de Junho de 1920 é criado (Portaria nº 198 - B.O. 19.6.1920) o “Instituto de Macau” por um grupo de 12 intelectuais onde se inclui MSM que será presidente desta “Associação Scientifica, Literária e Artística”. Segundo os estatutos, a agremiação visa promover “o estudo da acção e influência portuguesas no Oriente e o da sinologia sob todos os seus aspectos."
Numa foto que o grupo tira junto à Gruta de Camões em Junho de 1920, numa homenagem ao poeta, podem ver-se, da esquerda para a direita: Eng. Eugénio Dias de Amorim, Camilo Pessanha, D. José da Costa Nunes, Com. Correia da Silva (Paço d´Arcos), Eng. Humberto de Avelar, Alm. Hugo de Lacerda Castelo Branco, Dr. José António F. de Morais Palha, Padre Régis Gervais, José Vicente Jorge, Dr. Manuel da Silva Mendes (que foi presidente da associação), Dr. Telo de Azevedo Gomes e Ten. Francisco Peixoto Chedas.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Terras onde se fala português



"Terras onde se fala português: Portugal - Madeira - Açores - Cabo Verde - Guiné - São Tomé e Príncipe - Angola - Moçambique - Estado da Índia - Macau - Timor - Brasil."  Livraria Editora Casa do Estudante do Brasil, Rio de Janeiro, 1957 (imagem ao lado)
A autora, Maria Archer, nasceu em Portugal, viveu em Moçambique, Guiné e Angola, tendo em Luanda iniciada a carreira de escritora.
De regresso a Portugal, em 1945, aderiu ao Movimento de Unidade Democrática (MUD), grupo de oposição ao regime salazarista e as suas obras passaram a ser censuradas.
O romance Casa Sem Pão (1947) foi apreendido. Refugiou-se no Brasil a partir de 1955 onde continuou a escrever e a colaborar com diversas publicações.
Regressou a Portugal em 1979 tendo morrido três anos depois, em 1982. Escreveu ainda "Roteiro do Mundo Português", "Herança Lusíada", "África sem Luz", "Os Últimos dias do Fascismo Português".
Na época de "Terras onde se fala português" estava a viver no Brasil. Maria Archer classifica Macau como “Uma cidade famosa no Oriente". Excerto:
"Macau, hoje em dia, é uma cidade famosa no Oriente, e tão alegre, tão luxuosa, tão urbanizada, como as cidades portuguesas ou brasileiras de primeira categoria.
As suas ruas e avenidas são largas, de bom pavimento de asfalto ou cimento, perfeitamente sinalizadas e de circulação regulamentada. Possui parques arrelvados, jardins floridos, e profusa arborização. É uma cidade policroma, elegante e moderna, que se impõe ao primeiro olhar. Os forasteiros gabam os hotéis de Macau, luxuosos, cômodos, e adaptados, uns à vida européia, outros à vida chinesa.
Cabo submarino, que a liga, na profundidade dos mares, a toda a Terra, estação de Rádio, com que comunica, pelos ares, com Portugal e o mundo civilizado, rede de telefones automáticos, instalada um ano antes da de Lisboa, ascensores nos edifícios, iluminação elétrica, indústrias movidas a eletricidade, água canalizada, esgotos, serviços de autocarros, camionagem e automóveis, estabelecimentos comerciais dignos de Paris, bancos, fábricas, hospitais, asilos, escolas, tribunais, cinemas, clubes, edifícios magníficos, uma intensa vida elegante, um forte movimento comercial — eis o expoente da beleza, do conforto e da riqueza da Leal Cidade.
Imagem da edição brasileira
A população é enorme, comprimida na pequena área. Orçava, antes da guerra, por uns 200 mil indivíduos, dos quais 4 mil portugueses, 500 de nacionalidades diversas, e chineses os restantes. Agora tem uma enorme população de refugiados chineses, grande parte vivendo em cima de barcos ancorados no porto interior.
As comunicações são mantidas por carreiras marítimas regulares, sendo o maior movimento de passageiros dirigido para Hong-Kong, grande porto duma antiga concessão estrangeira instalada nas proximidades de Macau. Não há carreiras marítimas, diretas, entre a colônia e Lisboa, fazendo-se o movimento do comércio e passageiros por intermédio dos navios ou aviões ingleses. O correio chega, geralmente, por terra, atravessando a Ásia nos trens dos comunistas chineses e russos.
Macau deve grande parte da sua prosperidade à circunstância de ser porto livre, isto é, um porto sem alfândega, o que o valoriza como centro de reexportação. Certos artigos pagam, porém, ao entrar na cidade, um pequeno imposto de consumo, o que se dá com o álcool, as bebidas alcoólicas, o café, o cimento, os fósforos, a gasolina, o petróleo, e os tijolos, etc.
Quanto às sedas, os perfumes, as louças preciosas, os esmaltes lindíssimos, os marfins rendilhados, os sândalos de maravilha, o charões fascinantes, enfim, todas as coisas belas do Oriente, essas podem passar por Macau sem pagar direitos aduaneiros ou outros quaisquer, bem como os luxuosos artigos europeus que se vendem na colônia, aos brancos e amarelos.

Como porto de pesca Macau é importantíssimo, sendo o mais frequentado e movimentado de todo o Extremo Oriente, em competência com os portos de pesca do Japão.
Industriosa, inteligente, ativa, a sua população exerce vários misteres. Os europeus ocupam lugares preponderantes, na indústria, no comércio, e na administração, mas há também chineses ricos que se dedicam ao comércio em grande escala, e outros industriais, donos de fábricas com larga produção.
As principais indústrias de Macau foram as fábricas de artigos de malha, que exportavam, geralmente, para a índia e América do Sul, as de conservas, - de frutas, marisco, e peixe, - de cal das ostras, de estalos chineses, fogos de artifício, de fósforos, de inseticidas, de tabacos, de tijolos, de calçado europeu e chinês, de gelo, de perfumes, de vidros, de vinho chinês, de artigos de cobre. Todo este comércio e indústria, porém, foi perturbado pela guerra e o comunismo chinês. Porque Macau existe à beira da grande China Comunista. Não se sabe por que milagre esse nacionalismo absorvente tem respeitado a colônia portuguesa.
Os estaleiros locais trabalham em construções navais chinesas, a que chamam ali juncos e lorchas. As oficinas litográficas de Macau, célebres na China, executam obras de extrema perfeição, recebendo encomendas não só da cidade como doutros pontos do país. Os seus cartazes são maravilhosos, dum desenho arrojado, dum colorido seguro, dum gosto de bom quilate, e demonstram o nível artístico que ali atingiu a arte litográfica. (...)
Edição feita no Brasil em 1962. 280pp
Sugestão de leitura para saber mais sobre a vida e obra de Maria Archer: "Acerca de Maria Archer", de Guilherme Bordeira. Edições Vieira da Silva. Lisboa. 2014



quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

China Machado: 1929-2016

China Machado: foto de 1958 publicada em 1959
A luso-chinesa China Machado, considerada pioneira no mundo da moda por ter aberto caminho para a diversidade, morreu no passado dia 18 de Dezembro de 2016, aos 87 anos, na sequência de problemas cardíacos. Filha de pai português, comerciante de ouro em Hong Kong e com investimentos na banca - Frederico Machado, e mãe de Macau, a avó materna era goesa. Nasceu em Xangai (na concessão francesa) no dia de Natal de 1929 - daí chamar-se Noélie - e vivia nos Estados Unidos, país onde fez história ao ser uma das primeiras manequins não caucasiana a posar para a capa de uma revista de moda do país e por mostrar que mesmo nesta indústria exigente pode ser-se activo aos 80 anos.
Noelie de Souza Machado, de seu verdadeiro nome, cresceu a falar português, mandarim, francês e inglês. Em 1946, os seus pais trocaram Xangai por Buenos Aires devido à ocupação japonesa. Tinha então 16 anos. Aos 19 era hospedeira na Pan Am quando conheceu o toureiro espanhol Luis Miguel Dominguin - com quem fugiu entretanto para o México - que a integrou no círculo social de artistas como Pablo Picasso e Andy Warhol. O amor acabou – foi trocada pela atriz norte-americana Ava Gardner – e refugiou-se em Paris, onde começaria o seu percurso no mundo da moda, pela mão de Hubert de Givenchy, que a colocou pela primeira vez numa passerelle. Seguiram-se casas de renome como Dior e Balenciaga e rapidamente se tornou na modelo mais bem paga da Europa.
Em 1959, aos 28 anos, foi capa da revista americana Harper’s Bazaar graças ao fotógrafo Richard Avedon (foto acima e abaixo), que ameaçou despedir-se caso as suas fotografias não fossem publicadas com o devido destaque, e que a descreveu como “provavelmente a mulher mais bonita do mundo”.

Frederico Maria Machado nasceu em 1894 em Shangai. O pai era Julião Máximo Machado (1869-1936). Casou com Maria Augusta Carolina de Sousa, mãe de Noélie, nascida em Hong Kong em 1890 e que morreu ainda jovem, em 1933. Tiveram mais dois filhos e Frederico voltaria a casar em 1935
Sugestão de leitura: a sua biografia intitulada "Sempre corri atrás do riso".
China Machado, a model, muse and editor who was one of the first women to break high fashion's color barrier, has died at 86. She was one of the first non-Caucasians to appear in the pages of an American glossy fashion magazine and a model who helped break not only the race barrier but also the age barrier.
She was born Noelie de Souza Machado on Christmas Day 1929, in Shanghai; fled the country with her parents in 1946, after the Japanese occupation and went to Argentina; She was only 16. With 19 she became Pan Am hostess. By that time she had an affair with Luis Dominguín, the Spanish bullfighter, who left her for Ava Gardner; and socialized with François Truffaut.
Her father was a Portuguese from Hong Kong and chinese mother from Macau. Her grandmother was from Goa and the parents met in Hong Kong.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Personalidades de Macau recordam um "lutador incansável"

Um "grupo de amigos" de Mário Soares promove, na próxima quarta-feira, no Clube Militar em Macau uma "sessão evocativa da figura e ação" do antigo Presidente da República Portuguesa.
Segundo um anúncio publicado no Jornal Tribuna de Macau "Toda a comunidade é convidada a estar presente nesta sessão que pretende homenagear um político que enquanto Presidente da República Portuguesa, responsável pela vida política do Território, muito contribuiu para a pacificação interna e para o reforço da ligação fraterna entre Portugal e a República Popular da China, que em última análise levou à criação da Região Administrativa Especial de Macau".



A seguir reproduzo um artigo publicado no JTM a 9.1.2017 com testemunhos de personalidades de Macau sobre a vida e o legado de Mário Soares.
Mário Soares lutou até ao fim como era da sua natureza, marcando amigos e pessoas com quem contactou nas suas visitas oficiais a Macau.
“Um lutador incansável desde a juventude, participou em todas as actividades da vida política portuguesa durante os longos anos da sua vida. Combateu a ditadura tendo sofrido por várias vezes a prisão e o exílio e foi um elemento indispensável na política portuguesa desde o 25 de Abril”, disse Jorge Neto Valente, presidente da Associação dos Advogados de Macau, em declarações ao JORNAL TRIBUNA DE MACAU. Destacando que “Mário Soares foi uma figura que modelou a democracia portuguesa e a quem todos os portugueses ficam a dever muito”, o causídico sublinhou que o antigo Presidente da República “foi sempre um combatente dos ideais que o norteavam”.
Responsável pelo restabelecimento das relações diplomáticas entre Portugal e a China e pela entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia, actual União Europeia, a presidência de 10 anos de Mário Soares é vista por Neto Valente como uma “marca muito forte na política portuguesa”. Deixar a presidência não significou no entanto abandonar a vida política, já que Mário Soares manteve-se activo na política e através da sua fundação “prestou relevantes serviços a Portugal”, conforme frisa o advogado. “Não há dúvida para todos os portugueses que o conheceram que ele é de facto insubstituível”, afirmou categoricamente Neto Valente, salientando que, embora se recorde de muitos episódios em Macau, não vale a pena “entrar no concreto e esmorecer a grandiosidade da figura”.
No mesmo sentido, José Maneiras, ex-presidente do Leal Senado, destacou o percurso político do antigo governante. “Conhecemo-nos de longa data, nos meus tempos de estudante em Portugal, nos tempos da ditadura. Mário Soares era uma figura de referência e nós acompanhámo-lo dentro do possível, dentro das notícias censuradas. Acompanhámos a trajectória até ao 25 de Abril, até à constituição do Partido Socialista na Alemanha, já estava eu em Macau”, recordou. “No 25 de Abril, exultámos quando Mário Soares chegou no Comboio Liberdade e falou na varanda de Santa Apolónia. Daí em diante era livre e ficámos a conhecer com mais pormenor o seu percurso”, disse o arquitecto, acrescentando que “foi um grande líder e não há dúvida de que é a grande figura do século”. Para José Maneiras, “é significativo” que Soares “tenha lutado mesmo até à morte, até para continuar viver”. Aos portugueses deixa o mote: “Devemos lutar pelo estado democrático”. “Socialistas ou não, todos sabem que têm uma dívida de gratidão e de admiração por Mário Soares porque se vivemos num país democrático e europeu em liberdade, devemos muito a Mário Soares”, afirmou.
Das cinco visitas a Macau, considera que deixou um “rasto de simpatia muito grande junto da comunidade chinesa”, ao andar pela cidade a pé, optando por fugir ao protocolo de segurança. “Dirigia-se ao público que se apinhava nos passeios e todos os chineses estendiam a mão para terem o privilégio de um aperto de mão ou fotografia com ele”, lembrou José Maneiras. “Uma senhora de certa idade estava com a neta ao colo e ele até pegou na criança. Foi uma alegria, a senhora exultou. Havia um toque de simpatia, era natural nele, não era cultivar a simpatia, não era populismo, era espontâneo e do coração e foi assim que deixou esse rasto aqui”, disse o arquitecto. Apesar da doença prolongada do ex-Presidente, José Maneiras contou que “não obstante saber que se encontrava num estado muito débil, a notícia do passamento foi como tivesse sido inesperada”.

Arauto da liberdade e homem de cultura
Manuel Geraldes focou-se na figura de Mário Soares como “grande arauto e lutador pela liberdade”. “As pessoas da minha geração lembram-se de Mário Soares como o homem que nasceu na ditadura, que sempre lutou contra a ditadura, ao lado de Humberto Delgado e tantas outras lutas do Movimento Democrático, e que foi um lutador incansável. Um homem que pôs a sua liberdade em causa porque esteve várias vezes preso, mas em luta pela liberdade dos outros”, afirmou o coronel na reserva, alferes durante o 25 de Abril.
Já após a Revolução dos Cravos, Manuel Geraldes vê em Mário Soares um “homem que teve uma importância extraordinária para que a revolução não inquinasse novamente para uma ditadura”. “Foi com ele, e posso dizer que estive com ele, nas lutas pela consolidação da liberdade e pela liberdade no âmbito do processo revolucionário nomeadamente antes do 25 de Abril. É, de facto, uma pedra básica na definição da democracia portuguesa”, afirmou ao JORNAL TRIBUNA DE MACAU, recordando que Mário Soares presidiu à reabertura do Clube Militar a 9 de Abril de 1995. No que diz respeito a Macau, Manuel Geraldes confessa não ter acompanhado esta vertente, porque acompanhou o antigo Presidente de outras maneiras. “Conheci-o pessoalmente mas vemos pelos documentos que é um homem que nasceu na cultura, que conviveu, nomeadamente através do pai, num ambiente onde a cultura tinha sempre a primazia”. Recordando que Mário Soares foi fundador do Partido Socialista (PS), lembra-se que ainda antes do 25 de Abril, e no âmbito da luta contra a ditadura, distribuiu o primeiro programa do partido e “que Mário Soares liderou e teve um papel extraordinário no informar e no processo de consolidação da democracia portuguesa”.
Por sua vez, José Luís Sales Marques começa por destacar que Mário Soares é “talvez a figura pública portuguesa mais importante do século XX, ou pelo menos a mais conhecida, com maior projecção internacional”. “Foi sobretudo o grande defensor da Liberdade, o arauto da Liberdade”, afirmou.Esta personalidade política com uma “grande ligação a Macau” é para o antigo presidente do Leal Senado uma “figura muito especial, até do ponto de vista humano, com uma forma de estar na vida muito interessante, com grande carisma”. “Estive com ele nos banhos de multidão que gostava de ter, até aqui em Macau, desde as Ruínas de São Paulo até ao Senado. Não só portugueses, mas sobretudo muitos chineses a tentar ter contacto directo com um Chefe de Estado o que é algo pouco usual”, referiu Sales Marques, para quem “esta memória de proximidade e do carisma e a empatia que era capaz de gerar com todas as pessoas à sua volta é uma das características mais significativas”.
Carlos Monjardino, Stanley Ho e Mário Soares. Foto de Arquivo

Sales Marques frisa ainda o papel do ex-Presidente da República como “homem de cultura, porque foi durante o seu mandato que algumas das mais significativas realizações culturais de Macau começaram a ter lugar, nomeadamente o Festival Internacional de Macau”.
É nesta vertente cultural que Carlos Marreiros, que o conheceu enquanto presidente do Instituto Cultural, destaca em Mário Soares qualidades como o carisma e a “grande qualidade intelectual”. “Ser um político culto não acontece normalmente na classe política. Era um político a tempo inteiro, mas tinha tempo para escrever os seus livros, para apreciar arte e assistir a uma boa peça de teatro, bailado ou música. Aliás, toda a gente sabe que ele gostava mais de literatura e tinha uma grande paixão pela obra de Sophia Mello Breyner”, afirmou o arquitecto. Embora ressalvando que não foi íntimo do fundador do PS, Carlos Marreiros lembra o apoio dado pelo governante na inauguração da Livraria, na Missão Económica e Cultural de Macau, em 1991, e outras actividades e edições do Instituto Cultural. “Como Presidente da República fez um prefácio para uma revista cultural que era editada em Macau o que me sensibilizou muito. Outros gestos que teve para com Macau e algumas actividades do instituto, principalmente a promoção editorial apraz-me registar com sensibilidade e gratidão”, disse. Para Carlos Marreiros, “era um homem inteligente e um animal político” a quem as pessoas se rendiam rapidamente perante a “capacidade de um homem que ganhou e perdeu muitas vezes mas que lutou até ao fim”. “Estou a falar com uma grande emoção porque tenho uma grande admiração pelo homem, independentemente do político, que em ocasiões tão difíceis conseguiu levar Portugal a etapas de modernização e de avanço. Um homem que nunca desistiu de lutar pela liberdade e pela democracia de Portugal. Não sendo um homem consensual é sintomático”, salientou Carlos Marreiros, recordando a frase do ex-Presidente da República: ‘só é vencido quem desiste de lutar’. Salientando que a política era a grande paixão de Mário Soares, indica que serve de “grande ensinamento para os políticos em Portugal, Macau e em todo o mundo” que devem governar deste modo, disse Marreiros, rematando com uma lembrança da passagem de Mário Soares em Macau quando visitou um mestre adivinho que lhe leu as mãos e apertou as bochechas.
Um legado para história
Para Tiago Pereira, secretário-coordenador da secção de Macau do Partido Socialista, “Mário Soares foi porventura a principal figura política portuguesa dos últimos anos. Sem dúvida, tem um papel que fica para a história portuguesa”. Sublinhando o papel fundamental no estabelecimento do regime democrático em Portugal pós-25 de Abril “num contexto muito complicado, altura em que as coisas podiam ter corrido muito mal”, Tiago Pereira considera que o fez com “enorme habilidade, algo que só está ao alcance dos grandes políticos. O representante local do PS defende que Mário Soares “conseguiu grande parte dos objectivos a que se propôs: estabelecimento de um estado social forte, consolidação do regime, tudo objectivos enormes num curto espaço de tempo”, sendo um “legado que fica para a história portuguesa”. Sendo uma “enorme perda para o PS, do qual foi fundador, e para o país”, Tiago Pereira vê em Mário Soares um “socialista democrático de corpo inteiro”, que procurava o contacto com as pessoas, “à imagem dos grandes políticos e de grandes convicções”. “Em Macau há um grande respeito pela sua figura, não só a comunidade portuguesa como os locais, foi uma pessoa que comandava admiração enorme em todo o Mundo, incluindo Macau. Sempre se preocupou com Macau, em desenvolver e dotar Macau de infra-estruturas e de preparar Macau para a transição e em salvaguardar a população local”, tendo um papel importante no território.
Também António Freitas, Provedor da Santa Casa da Misericórdia, afirmou que o fundador do PS foi “uma figura marcante na história de Portugal”. “Gostando-se ou não dele, colocou Portugal no mapa da grande Europa, com os seus prós e contras, seja como for tornou Portugal moderno. Foi um grande político, com muito valor e de muitos valores imperativos da Liberdade, liberdade de expressão e pensamento. Foi o pai da democracia em Portugal”, sublinhou. Recordando que na visita a Macau no Inverno de 1995, Mário Soares participou na Marcha de Caridade, António José de Freitas disse ter sido “um momento especial”. “Portugal perdeu uma figura de referência política. O papel que desempenhou para os portugueses e não só, foi muito positivo”, concluiu.
Por seu lado, Amélia António recorda a imagem marcante de como Mário Soares se comportava em Macau, da mesma forma que em Portugal, com uma “maneira de estar liberta, fugindo aos esquemas protocolares”. “Era um grande contraste com a cultura habitual e isso inevitavelmente trazia uma grande simpatia e um certo carinho relativamente à pessoa de Mário Soares”, destacou a presidente da Casa de Portugal. Referindo que apenas teve encontros breves, Amélia António nota que, independentemente de muitas vezes os portugueses não estarem de acordo com ele, Mário Soares “é uma figura incontornável que merece respeito e admiração de todos os portugueses”.
Soares em Macau. Foto Arquivo FMS
Carinho nas ruas
Anabela Ritchie, antiga presidente da Assembleia Legislativa (AL) de Macau, recorda que durante o período de transição as tarefas eram muitas e por isso registaram-se várias oportunidades de partilha de ideias entre os dois. “Sempre obtive o melhor aconselhamento e orientação para as tarefas que cabiam à AL nessa altura. Vai-me ficar na memória a homenagem, a admiração e muita gratidão a Mário Soares por aquilo que ele conseguiu congregar em torno deste projecto de desígnio nacional que era Macau”, afirmou. “Ele tinha uma ideia de que cinco séculos é uma presença longa e que as relações que Portugal foi mantendo com a China tiveram altos e baixos, mas foram sempre boas e que devíamos lutar para que elas continuassem. Acho que isto fazia parte da visão dele e de que Macau tinha uma identidade e singularidade muito próprias e que podem ser preservadas até como um exemplo de boa convivência entre os povos”, destacou Anabela Ritchie. Lembrando as visitas ao território e a pessoas de “trato muito agradável”, a ex-presidente da AL recorda que Mário Soares sempre que vinha passeava pelo Centro Histórico e “eram sempre banhos de multidão, onde era abordado por portugueses e chineses”. “Tinha uma simpatia muito natural, parecia que estabelecia laços com as pessoas com uma facilidade muito grande e fiquei sempre com a impressão que os portugueses gostavam dele e os chineses também gostavam pela simpatia e abertura”, afirmou.
Já o jurista António Marques da Silva destaca Mário Soares como “homem com uma figura determinada, característica que penso que todos temos de respeitar”. “Enquanto político e concretamente em relação a Macau há desde logo ele e Almeida Santos, elementos pacificadores. Recordo-me das visitas dele e da maneira como ele abraçava e contactava as pessoas e o gesto de legalização de alguns ilegais que foram gestos que tranquilizaram e prestigiaram Portugal perante os chineses”, salientou. Macau não passa despercebido, porque quando ele foi Ministro dos Negócios Estrangeiros, lembro-me de uma visita a Macau em que ele diz algo como ‘estaremos em Macau enquanto a China e as pessoas de Macau quiserem’ e realçou toda a história dos 400 anos de convivência. Penso que Macau nunca terá sido alheio a Mário Soares”, referiu, salientando as “visitas e o carinho com que era recebido pela população nas ruas de Macau”.
Soares em Macau. Foto Arquivo FMS
Problemas de perspectiva
Apesar das qualidades apontadas, Sales Marques considera que Mário Soares “se calhar não entendia muito bem Macau, porque embora tivesse a famosa expressão de que Macau era um desígnio nacional, este ficava a muitos milhares de quilómetros de Lisboa”. “A partir de certa altura, algumas coisas não correram bem e afastou-se um pouco. Houve entendimento com o Primeiro-Ministro de então, Cavaco Silva, e decidiram nomear para Macau um general, um homem das Forças Armadas. Foi uma forma de se distanciar das confusões de Macau e do peso político que lhe trazia”, disse Sales Marques em relação ao “caso do fax de Macau”, envolvendo o governador Carlos Melancia, posteriormente ilibado das suspeitas de suborno.
António Marques da Silva também aponta este caso “que choca” como o motivador de “um certo afastamento”. “Talvez a partir daí Mário Soares não tenha feito intervenções públicas sobre Macau”, disse o jurista a este jornal.
Jorge Morbey, antigo presidente do Instituto Cultural de Macau, também entende que a perspectiva de Mário Soares sobre o território poderia não ser a exacta. “É muito difícil para quem não tenha passado e não tenha sentido Macau ter uma perspectiva correcta. Mas não foi ele o primeiro a não ter uma visão exacta da questão de Macau. Já os negociadores da Declaração Conjunta não tiveram a sensibilidade necessária para distinguir a história de Hong Kong e de Macau, que tinha mais quatro séculos de história”, disse ao JORNAL TRIBUNA DE MACAU. “Em relação a Macau, como tudo o que é humano houve coisas boas e menos boas, nomeadamente o empenho dele na criação da Fundação Oriente, que hoje praticamente não existe em Macau, e a própria demissão do Governador Melancia. Esta foi a primeira vez em que alguém do PS caiu, mas Mário Soares se manteve como Presidente da República”, afirmou, notando que em política os erros acontecem. “Em determinada altura poderá ser feita a leitura de que ele encarava Macau como um excelente negócio para determinados interesses portugueses e por essa razão, tentou corrigir rapidamente a nomeação do engenheiro Melancia, com a sua sagacidade política, com a nomeação do General Rocha Vieira, uma pessoa que não estava tão conotada com os negócios da construção do aeroporto”, explicou. Apesar disso, Jorge Morbey defende que o “saldo global da actuação política de Soares foi extremamente importante na história de Portugal”. “É um ciclo da nossa história que acabou com ele”, frisa. “Os dois mandatos dele foram de grande prestígio para Portugal no exterior e interior, porque apesar das bancarrotas que aconteceram nos governos e presidências dele, era um homem com um grande prestígio, especialmente, a nível da Internacional Socialista. Aliás no arranque da Revolução do 25 de Abril ele é quem acelera o reconhecimento do novo regime implantado pelos líderes socialistas na Europa”, disse.
Quem à primeira vista não teve uma boa impressão foi Jorge Fão, actual presidente da Assembleia Geral da Associação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas de Macau. “Na altura era dirigente sindical e quando ele chegou pela primeira vez em 1993, não tive um boa impressão dele, nem ele de mim, porque fui mentor de uma manifestação sobre as questões da função pública e ele foi recebido com uma manifestação junto ao Palácio do Governo”. “Estávamos nos anos 90 e Portugal ainda não tinha decidido se pagava as pensões”, conta o dirigente. Depois deste episódio encontrou-se com Mário Soares em São Bento onde percebeu que este “não estava a par do que se estava a passar ou porque não sabia, porque não acompanhou o dossier ou não foi devidamente informado”. “Informei-o de forma que ficou mais agradado e, quando regressou [a Macau], reunimo-nos na actual residência consular e voltamos a falar com a presença do Governador General Rocha Vieira. A reunião não correu da melhor forma, porque colocámos uma série de questões, mas o Governador não soube explicar ou esclarecer certas situações que, para nós eram ambíguas e perigosas. Mas, Mário Soares é uma pessoa muito inteligente, um bom político que conseguiu amenizar o ambiente e abriu espaço para alterar a lei”, explicou. Para Jorge Fão, o antigo Presidente da República é “o paladino da democracia portuguesa”. “Sempre foi um sério defensor da liberdade e da democracia. Presto-lhe a devida homenagem e sinceros votos de condolências aos seus familiares. Gostei de ter privado com ele”, disse.
Apesar disso, nota que “na verdadeira ascensão da palavra, Portugal abandonou a função pública que residia nas suas antigas colónias”. “Como Ministro dos Negócios Estrangeiros, Mário Soares foi um fracasso político pela forma como abandonou as colónias, porque não teve a devida consciência de ter posto muitas famílias em situações terríveis”, apontou, referindo-se ao regresso massivo dos retornados. Já como Presidente e Primeiro-Ministro, Jorge Fão considera que Mário Soares “fez algo para Portugal e Macau”. “A vida de uma pessoa deve mudar segundo as circunstâncias e, como ele próprio disse, ‘só os burros é que não mudam’. Repare-se que foi membro do partido comunista, depois afastou-se pelo menos da ala radical do regime”, concluiu.
Questões complicadas
Mas os funcionários públicos não foram os únicos problemas encontrados. Amélia António recorda que, logo após a primeira eleição, Mário Soares enfrentou “problemas complicados como a questão da negociação da data da transferência de soberania, reconhecimento da nacionalidade portuguesa aos chineses”. “Houve algumas questões que acabaram por ser resolvidas dentro dos interesses portugueses e isso foi importante. Mário Soares apanhou problemas pouco simpáticos e do ponto de vista diplomático menos fáceis ou mais complicados e desagradáveis como a questão da Fundação Oriente, outras relacionadas com o aeroporto, a nomeação do Governador e da saída do primeiro Governador nomeado por ele, o Pinto Machado. Houve todo um conjunto de coisas que acabaram por se resolver mas foram pontos mais complicados que teve de enfrentar e que deixam Macau assim um bocadinho desaparecido no contexto da sua acção política”, afirmou. Deste modo, a presidente da Casa de Portugal considera que ao olhar para as biografias e entrevistas do governante “Macau não aparece”. “Fala-se da questão de Timor, da descolonização dos países africanos, mas praticamente não se fala de Macau, isto porque há um incómodo relativamente a alguns assuntos ligados ao território, o que leva a que também não se fale do que ficou bem resolvido”, frisou. “No fundo é um pequeno episódio numa vida política longa e activa e que tem toda ela uma história extremamente importante no contexto do país. Há que valorizar toda a acção de Mário Soares, durante o período da ditadura em que teve sempre uma posição de luta, coerente e que merece o nosso respeito e consideração”, afirmou Amélia António, sublinhando que “as coisas que correram melhor ou pior relativamente a Macau não devem influenciar aquilo que sentimos em relação a uma vida inteira ligada à política, no seu melhor sentido de defender ideais e princípios e isso é de valorizar”.
Artigo (texto) de Liane Ferreira e Catarina Almeida publicado no JTM 9.1.2017

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Soares e a "Operação Dragão"

Um aparente ato espontâneo de Mário Soares, dado às fugas ao protocolo, durante uma visita a Macau, teve um resultado inesperado: ao consolar uma criança, deu um empurrão à legalização de 50 mil pessoas.
O jornalista João Guedes, já então repórter da TDM (Teledifusão de Macau), recorda-se de quando, em 1989, Soares visitou Macau e foi abordado por um grupo de trabalhadores ilegais chineses, que pediam a regularização da sua situação -- um problema que se arrastava há anos "mas ninguém tinha coragem" de resolver.
O Jornal Tribuna de Macau descreveu como Mário Soares foi confrontado com uma "pequena manifestação" que incluía "quatro crianças empunhando um cartaz com inscrições chinesas" que pediam "a intervenção do Presidente para a obtenção dos documentos de identificação de Macau para as suas mães".
As crianças "abriram um pano onde se lia a frase 'Por favor dá o bilhete de identidade à minha mãe'", escreve o jornal, explicando que as mães estavam ilegalmente em Macau, casadas com maridos em situação legal e com filhos já nascidos no território, "devidamente documentados".
"Ao notar a presença de cidadãos de etnia chinesa que insistentemente o pretendiam interpelar junto ao Palácio da Praia Grande, Mário Soares cruzou a avenida para apurar o que se estava a passar. Quando (...) se aproximou do local, um cidadão de etnia chinesa (...) prostrou-se no chão aos pés de Soares pedindo a sua intervenção para resolver a situação da sua mulher", escrevia o Tribuna na edição de 03 de março de 1989.
Soares, "visivelmente chocado com a situação e com o choro das crianças, (...) prometeu resolver a situação". Tendo em conta que a mulher corria risco de ser repatriada para a China, o Presidente declarou que "as crianças não podem ser separadas da mãe". "Vamos tratar disso", afirmou.
Soares em Macau. Novembro de 1990. Foto de Alfredo Cunha
Segundo João Guedes, este episódio desencadeou uma operação de legalização, cerca de um ano mais tarde, preparada "entre os maiores segredos", tentando evitar que multidões acorressem a Macau para conseguir um documento de identificação. Esta é uma ligação comum na memória de quem vivia na cidade na altura.
"O governador [Carlos Melancia] ficou à rasca, toda a gente ficou à rasca e é quando o governador não tem alternativa se não virar-se para o comandante das forças de segurança e dizer 'Legalize-me toda a gente que está em Macau'. E pronto, legaliza 50 mil pessoas", conta à Lusa.
O jornalista refere-se à "Operação Dragão", em março de 1990, que começou com um anúncio das autoridades de que seriam legalizados os pais indocumentados de cerca de 4.200 crianças. A notícia gerou tal afluência que acabou por resultar na legalização de "um número mais avultado do que se imaginaria", escreve o Tribuna.
Durante anos, recorda João Guedes, surgiam rumores, periodicamente, de que Macau ia legalizar a população em situação irregular, cerca de 15% à época. "Eram nuvens de chineses a tentar chegar a Macau das formas mais imaginosas. Havia rumores, o pessoal vinha por vários meios, a nado ou em sampanas, havia até passadores chamados 'cabeças de cobra'", explica. Apesar de os rumores nunca se concretizarem, os ilegais -- empregadas domésticas, trabalhadores da construção -- iam-se acumulando.
"Era uma questão que se pressentia como necessária, mas ninguém tinha coragem para pôr isso em andamento. Até essa coisa do Soares", explica o jornalista, lembrando que já decorriam preparativos para a transferência de administração de Macau de Portugal para a China (em 1999) e era necessário saber exatamente quantas pessoas havia na cidade.
Surge, então, este anúncio, indicando os locais onde as pessoas se deviam reunir para iniciar os procedimentos. "Um dos pontos era o canídromo", onde se deu "uma grande bronca", devido à concentração de uma "multidão enormíssima" junto aos portões da pista de corridas de cães, recorda Guedes. O jornalista encontrava-se no alto do forte de Mong-Ha com um operador de câmara. "Tinha uma vista perfeita para o canídromo e assisti àquilo, estivemos a transmitir em direto", conta.
O Tribuna de Macau descreve como "milhares de imigrantes" vieram "a salto para Macau", atraídos por "boatos" de "uma possível amnistia que lhes possibilitasse manterem-se no território".
"A multidão não arredou pé, exigindo que o Governo lhes desse garantias quanto à legalização. (...) Ao princípio da noite o caso encontrava-se num beco sem saída, com alguns manifestantes a avançarem com a ideia de greve de fome", descreve o jornal.
O Governo chegou a anunciar a suspensão das legalizações e mandou 'limpar' a cidade, mas voltaram a criar-se grupos: "Cerca das duas horas da manhã a situação foi-se deteriorando com a chegada de mais centenas e centenas de ilegais (...) A situação manteve-se tensa durante largas horas, com a multidão aos gritos a exigir ser também registada, uma multidão que ia engrossando à medida que o tempo passava".
Com dificuldade em controlar a multidão, as autoridades "decidiram fazer a listagem" dos ilegais, sendo conduzidos para o Campo da Polícia, nas Portas do Cerco, e o Estádio do Canídromo. Neste último "estabeleceu-se o pânico", com disparos para o ar pela polícia e pessoas "no chão espezinhadas", "chegando a haver rumores, não confirmados, que uma criança teria sido morta".
Nesta operação foram registados mais de 50 mil ilegais, escreveu a Lusa na altura.
O macaense Miguel Senna Fernandes diz "não ter dúvidas" de que esta operação foi uma consequência da reação de Soares aos manifestantes em 1989. "Naturalmente é um gesto humanitário de Mário Soares para uma política consentânea à realidade de Macau e das suas gentes. Seja como for, a visita de Soares em 1989 teve um efeito praticamente direto quanto à Operação Dragão, não aconteceu antes porque, enfim, tinha de se ver a logística e oportunidade", disse à Lusa.
José Rocha Diniz, antigo diretor e agora administrador do Tribuna, considera que a operação "evidentemente que teve" relação com a visita de Soares, já que "foi por causa disso que apareceram as pessoas".
"Dizer que diretamente há uma relação é difícil de provar, mas eu estou convencido que houve uma relação causa efeito", conclui.

Artigo de Inês Santinho Gonçalves, agência Lusa 7.1.2017 

"As autoridades policiais do Território montraram esta madrugada uma gigantesca operação de legalização de imigrantes ilegais que, em número que rondará os 50 afluíram em massa, logo após a meia-noite, à zona das Portas do Cerco. A multidão que se aglomerou naquela área provocou mais de cem feridos por espezinhamento, dois dos quais, pelo menos, estão neste momento internados, em estado considerado grave, no hospital Conde S. Januário. O clima de tensão bem evidente durante largas horas, de início no centro da cidade e depois junto à fronteira, foi-se esbatendo com o correr da manhã, à medida que os clandestinos iam sendo registados pelas autoridades que montaram “quartel general” nos campos do Canídromo e da Polícia, onde acabou por se concentrar a grande maioria dos indocumentados que desde terça-feira à rua para exigirem a atribuição de cédulas de identificação policial. Adivinha-se, pois, um desfecho justo e razoável num caso que, resolvido doutra forma, poderia ter consequências dramáticas. A concentração de clandestinos nas ruas de Macau teve início às 18 horas de terça-feira, logo após a divulgação, em conferência de Imprensa, de um comunicado das Forças de Segurança de Macau (FSM) que anunciava a intenção das autoridades de legalizar os pais em situação irregular de cerca de 4200 menores que, em Janeiro do ano passado, receberam documentos de identificação, numa iniciativa que ficou conhecida no Território por “Operação Dragão”. O comunicado das FSM garantia que todas as mães e pais documentados cujos os filhos foram legalizados em consequência da “Operação Dragão” seriam contemplados com cédulas de identificação policial e solicitava aos clandestinos para comparecerem no serviço de identificação da PSP “apenas no dia constante da convocatória que vão receber”. A notícia espalhou-se rapidamente pela cidade, levando muitas famílias de clandestinos não contempladas no citado plano de legalização a descer à rua para exigirem igualdade de tratamento.
“Cédulas para todos” e o “Governo tem de tratar todos da mesma maneira” foram, desde essa altura, as palavras de ordem entoadas em chinês pela multidão de indocumentados com filhos em situação legal no Território e que apenas tiveram a desdita de, por mera coincidência, não constar do lote abrangido pela “Operação Dragão”. No início da manhã de ontem, as escadarias exteriores do Palácio estavam totalmente ocupadas pela multidão, o que forçou, ao longo do dia, o Governador Carlos Melancia e a maior parte dos membros do executivo a utilizarem um acesso nas traseiras para entrar e sair do edifício. A meio da tarde, cerca de trinta manifestantes entraram em greve de fome para pressionarem as autoridades, enquanto os agentes da polícia, de megafone em punho, faziam apelos à calma.
Apesar da tensão, que ali se viveu e dos naturais congestionamentos de trânsito naquela área, situada em pleno coração da cidade, nunca chegou a registar-se qualquer confronto violento entre as forças da ordem e a multidão de imigrantes, entre os quais se encontravam muitas crianças. Uma reunião realizada, ao fim da manhã, entre uma delegação com seis manifestantes e o chefe do Gabinete do Governador revelara-se inconclusiva, o mesmo vindo a suceder nos contactos esboçados com o comandante das Forças de Segurança, coronel Proença de Almeida, que comunicou aos clandestinos que não dialogaria com eles enquanto a manifestação não dispersasse. Os imigrantes, por seu turno, afirmavam que não abandonariam as imediações do palácio enquanto as autoridades não lhes garantissem a emissão de cédulas de identificação policial. À medida que as horas iam decorrendo, a multidão estacionada no palácio da Praia Grande engrossava lentamente o que levou, por fim, à intervenção das forças policiais. Ao mesmo tempo, as FSM reforçavam a vigilância na fronteira, com receio de uma eventual entrada maciça de clandestinos em Macau. Nos últimos dois dias, os traficantes de clandestinos, mais conhecidos por “cabeças de cobra”, terão introduzido no Território um número de imigrantes muito superior aos 120 que, em média, afluem diariamente a Macau."

In JTM e Jornal de Macau 31.3.1990

domingo, 8 de janeiro de 2017

Soares e Macau...

Das edições de 7 de Janeiro de 2017 dos jornais publicados em Portugal escolhi dois artigos que se referem a Macau a propósito da morte do ex-Presidente da República e que por inerência do cargo era quem nomeava o Governador de Macau.
Visita a Macau em 1995
No jornal Público, Luciano Alvarez assina o artigo "Os três momentos mais polémicos na vida de Soares", sendo o momento de Macau o segundo da lista.
"A vida de Mário Soares marcou a vida de Portugal. Uma vida rica em batalhas políticas e também em decisões e actos polémicos. O PÚBLICO elegeu três dos mais controversos do pós 25 de Abril de 1974 e que marcaram a vida fundador do PS. Decisões que lhe valeram inimigos para sempre; que quase “mataram” o soarismo e que terminou com sua mais pesada derrota de sempre. Três palavras: descolonização, Macau, Alegre. (...)
2. Macau, o maior abalo político do soarismo
Ficou conhecido como o “caso do fax de Macau” ou “caso Emaudio” e foi o episódio que mais beliscou a carreira política de Mário Soares. O caso remonta a factos ocorridos entre 1988 e 1989, cumpria Soares o seu primeiro mandato de Presidente da República. Contado de uma forma muito resumida: Em Abril de 1988, menos de um ano depois de Carlos Melancia ser empossado governador de Macau por Mário Soares, a empresa alemã Weidleplan manifestou interesse em ser consultora na construção do aeroporto local. No entanto, em Fevereiro do ano seguinte, Luís Vasconcelos, membro do Governo macaense, concessionou o contrato à Aeroportos de Paris.
Menos de um mês depois, a Weidleplan enviou ao governador de Macau um fax pedindo-lhe que devolvesse o dinheiro (50 mil contos, hoje cerca de 250 mil euros) alegadamente pago para garantir a vitória no concurso. Este fax acabaria por ser divulgado pelo semanário O Independente e a polémica que se seguiu acabaria por levar à demissão do governador e seguir para os tribunais.
Esses 50 mil contos serviriam para financiar a actividade da Emaudio, uma empresa pensada por Soares e gerida por socialistas da sua total confiança, que tinha como objectivo criar um grande grupo de comunicação social que serviria de base de apoio ao PS. O fax foi entregue a O Independente por Rui Mateus, amigo e conselheiro de Mario Soares e um dos administradores da Emaudio, que nessa altura já andava de candeias às avessas com Soares devido às contas da empresa. Mateus sempre afirmou que Soares sabia de tudo desde o primeiro minuto. O ex-presidente da República sempre negou ter conhecimento do alegado suborno, garantindo que só soube do caso e do fax quando ele foi publicado pelo O Independente.
Soares e Mateus cortaram relações e mais tarde (1996, já nos últimos meses do segundo mandato de Soares em Belém) o homem da Emaudio escreve o livro “Contos proibidos, memória de um PS desconhecido”, em que conta a sua história dos financiamentos do PS de Soares, com detalhe para o caso de Macau, em que mais uma envolve directamente o principal fundador do PS.
O assunto foi muito incómodo para Soares e para os socialistas que sempre fugiram a falar dele. Mas 20 anos depois da ocorrência dos factos, Almeida Santos, antigo presidente do PS que também esteve na Emaudio, acaba por desmentir Soares numa entrevista ao Expresso. “Mário Soares teve conhecimento prévio do Fax de Macau. Era uma situação complicada, punha problemas ao PS – ele tinha de ter conhecimento. Mas não tem culpas nisso. Eu sabia que o PS não tinha responsabilidades nisso, e Mário Soares muito menos”, afirmou.
Na sequência de um inquérito realizado em 1991, o Ministério Público acusou Melancia de ter recebido 50 mil contos de uma empresa alemã para influenciar um concurso relacionado com a construção do aeroporto de Macau, o que lhe valeu a acusação por corrupção passiva. O processo Melancia andou pelos tribunais, com recursos atrás de recursos, e só em Outubro de 2002 foi dado por encerrado pela Justiça. Melancia saiu absolvido, não ficando nunca provado que tenha sido subornado ou objecto de qualquer promessa de suborno.
No jornal I Ana Sá Lopes assina o artigo "Macau: o maior embaraço da vida política de Mário Soares".
O caso do fax de Macau e os negócios da Emaudio foram o elemento mais tóxico da vida política de Soares, usados na campanha da reeleição. O livro de Rui Mateus foi uma bomba. Macau é um mistério na vida de Mário Soares – e um assunto tabu, de que sempre odiou falar. As suspeitas de que o financiamento do PS – e das campanhas eleitorais para a Presidência da República – provinham da ‘árvore das patacas’ que caía daquele que foi território português até 1999, foram sempre constantes. Mas provas que ligassem o antigo Presidente da República a financiamentos ilegais provenientes de Macau nunca existiram.
Na biografia que escreveu sobre Mário Soares, Joaquim Vieira afirma que o então procurador-geral da República, Cunha Rodrigues, perguntou ao já falecido procurador Rodrigues Maximiano – que investigava o caso do fax de Macau – se haveria «elementos para se ouvir Mário Soares». Rodrigues Maximiano responderia que não.
Cunha Rodrigues em discurso direto: «Se ele me disse que não havia elementos para ouvir Mário Soares e não conhecendo eu o processo, naturalmente concordei com ele. Não tenho dúvidas que se ele tivesse encontrado elementos teria avançado. Eu só pedi ao dr. Rodrigues Maximiano que trabalhasse com urgência, dado que se aproximava um ato eleitoral [as presidenciais de janeiro de 1991]. A única coisa que fiz relativamente ao processo foi tratar de promover que se contactasse os alemães com prioridade e urgência».
O caso do fax de Macau leva à queda do Governador do território, Carlos Melancia, grande amigo de Mário Soares, acusado de corrupção – acabaria mais tarde por ser absolvido numa estranha decisão judicial onde foram condenados os corruptores mas não foram descobertos os corrompidos. Melancia é obrigado a demitir-se depois de uma reunião em Belém com o Presidente Soares. Manteve-se em silêncio até muito recentemente quando, numa entrevista para a biografia de Fernando Esteves sobre Jorge Coelho, O Todo-Poderoso, acusa Mário Soares de «traição». Soares sempre elogiaria Carlos Melancia e defenderia a inocência do antigo governador de Macau. Mas Melancia esperava uma manifestação de confiança do Presidente da República que nunca chegou.
Tudo começa – como conta Joaquim Vieira na biografia – quando «por sugestão de [Rui] Mateus, Strecht Monteiro levou os homens da Weidleplan [empresa alemã que se candidatou à construção do novo aeroporto de Macau] a enviarem por telefax a Melancia uma carta exigindo a devolução dos 50 mil contos antes doados à Emaudio, invocando um alegado incumprimento na celebração de um contrato relativo ao aeroporto de Macau. Na ausência de reação do governador e pressionado pelos alemães, Mateus resolveu então, em fevereiro de 1990, fazer o impensável: entregar uma cópia do fax ao semanário O Independente para divulgação pública». A divulgação acontece quando Soares já se encontra em pré-campanha para a reeleição. Aliás, o assunto vai ser tema de campanha quando o candidato do CDS Basílio Horta acusa Mário Soares de estar envolvido no escândalo. Basílio, num debate na televisão com Mário Soares, acusa-o de ser «o padrinho», no sentido mafioso. Soares escreverá mais tarde, na sua biografia política: «Basílio Horta (...) aproveitou os debates televisivos para atingir a minha idoneidade pessoal. Cortei relações com ele, porque uma tal acusação – feita a uma pessoa que se orgulha de ser impoluta, como eu – não se perdoa. Bastantes anos depois, pediu-me desculpa e fizemos as pazes».
Com Rui Mateus – fundador do PS e envolvido desde o início no escândalo do fax de Macau – nunca haverá pazes. Quando escreveu o livro, desaparecido dos escaparates das livrarias há anos, Contos Proibidos – Memórias de um PS desconhecido, Mateus (que foi durante anos o responsável do PS pelas relações internacionais) fez uma declaração de guerra a Mário Soares.                      
No livro, Rui Mateus acusa Soares de estar envolvido no fax de Macau e no financiamento da Emaudio – grupo de comunicação social ligado aos socialistas. «Recebemos instruções de Mário Soares para receber Strecht [Monteiro] e o dinheiro relativo ao aeroporto de Macau. Não estávamos autorizados a receber dinheiro sem ser por ordens de Soares. A Emaudio funcionava com dinheiros da sua campanha e os que ele e Almeida Santos arranjavam». Pouco depois da publicação do livro, Rui Mateus desaparece de circulação – nunca mais deu entrevistas. Vive fora do país.
Mário Soares acusará Mateus de vingar-se, ao escrever o livro, de lhe ter sido negado o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros. Dirá Soares: «Mais grave foi, nessa altura, a ofensiva que fizeram contra mim, vinda da direita extrema, para me comprometerem com o caso da Emaudio (...) Na origem disso esteve um fundador do PS, de poucas letras mas que falava bem inglês, que conheci em Londres, onde era empregado num restaurante. Depois do 25 de abril regressou a Portugal ocupando-se do departamento internacional do PS. A ambição cegou-o. Pediu-me para ser ministro dos Negócios Estrangeiros. Disse-lhe que não era possível porque não tinha habilitações nem competência para tanto. Ficou ressentido comigo e chegou a escrever um livro – com a ajuda de quem? – que aliás nunca li e alimentou a intriga».

sábado, 7 de janeiro de 2017

Mário Soares: 1924-2017

Internado em estado muito grave desde 13 de Dezembro último, o antigo Presidente da República, Mário Soares, morreu este sábado a meio da tarde no hospital da Cruz Vermelha.
Mário Alberto Nobre Lopes Soares foi co-fundador do Partido Socialista (1973). A carreira política inicia-se nos grupos de oposição ao Estado Novo, actividades que levariam o governo de Salazar a deportá-lo para São Tomé, onde permaneceu até o governo de Marcello Caetano lhe permitir o exílio em França.

No processo de transição democrática subsequente ao 25 de abril de 1974 afirma-se como líder partidário no campo democrático, sendo ainda Ministro de alguns dos governos provisórios. Em seguida foi Primeiro-Ministro dos I, II e IX governos constitucionais, acompanhando o processo de construção de políticas sociais pré-adesão à Comunidade Europeia.
Foi Presidente da República durante dois mandatos, entre 1986 e 1996. Foi eleito pela primeira vez Presidente da República, à segunda volta, em Fevereiro de 1986, com mais de três milhões de votos. Em 1991 foi reeleito com mais de 70% dos votos.

Mário Soares visitou Macau diversas vezes enquanto presidente da República. A primeira viagem aconteceu entre 28 de Fevereiro e 5 de Março de 1989. A segunda visita oficial foi de 29 a 31 de Outubro de 1993. Regressaria em Abril e Novembro de 1995 (Macau e China) e ainda em 1997. No território um troço da antiga av. Oliveira Salazar (mais tarde denominada av. da Amizade) receberia o seu nome.
Registo fotográfico de uma visita a Macau em 1980 

Pagode de Lin Kai

Construído em 1740 sofrendo alterações em 1830 e ampliado entre 1875 e 1908, o Pagode/Templo de Lin Kai fica na Travessa da Corda. Antigamente, havia um ribeiro chamado Lin Kai que passava por Bairro San Kio (Ponte Nova numa tradução literal). O templo foi fundado à margem direita do ribeiro, sendo denominado Templo Lin Kai, tb conhecido como templo do Regato Plangente ou Regato de Lótus.

Luís Gonzaga Gomes, nas "Lendas Chinesas de Macau", escreveu assim sobre este templo:

"Lá para os lados de Sân K'iu (Ponte Nova)encontra-se um edifício que, por ser composto de três corpos, se destaca do restante casario de acanhado aspecto que forma este bairro, quase totalmente habitado por artífices que se dedicam ao exercício de variados misteres.
O referido edifício - o Templo de Lin-K'âi - é de traça bastante comezinha e, a não ser um ou outro insignificante pormenor, não possui qualquer beleza arquitectónica nem decorativa, digna de nota.

Posto que este templo se chame de Lin-K'âi não é, no entanto, dedicado a essa divindade - como seria lícito inferir-se - pelo mero facto de não existir nenhuma com tal nome no hagiológio chinês. A divindade a quem foi consagrado este templo é Pâk-Tái, mas o povo tomou o hábito de lhe chamar Lin-K'âi por ser este o nome dum diminuto ramo do delta, o qual figura nas velhas cartas topográficas de Macau com a designação de Canal de Sân-K'iu, significando "Regato de Lóto", sendo este último termo derivado do facto desta cidade ser, em geomância nativa, comparada a uma folha da mística planta. O pequeno curso de água em questão infiltrava-se por aquele bairro, na altura em que se encontra o arruinado cinema de Sân-K'iu, sinuosava caprichosamente, passando em frente do templo Seàk-Kâm-Tóng, e seguia para o sítio onde é hoje a Rua da Barca, depois de alagar todo o terreno actualmente atravessado pela Rua da Alegria.
Ora era exactamente o local em frente deste templo que numerosas embarcações escolhiam para seu ancoradouro, sendo este o motivo por que uma das principais ruas desse bairro se chama ainda Rua das Barcas.
Um dia, foi visto a boiar à tona da água um boneco. Os marítimos, estranhando tal aparecimento, atribuíram ao boneco uma origem sobrenatural e, receosos, trataram de "bater cabeça" e acender pivetes, a fim de ver se conseguiam convencer o boneco a afastar-se daquele local. O boneco insistia, porém, em aparecer todas as tardes com a preia-mar e sempre no mesmo sítio. Houve, então, um marítimo menos supersticioso que ousou retirar o boneco da água para o examinar e, assim, todos puderam verificar que ele representava a imagem de um indivíduo extremamente calvo, de longas barbas e com os pés descalços, condizendo em tudo com a conhecida figura do deus Pâk-Tái.
Resolveram, portanto, os mareantes quotizarem-se entre si para edificar uma capelazinha, com o fim de prestar culto a essa divindade que, por lhes ter aparecido tão espontaneamente, decerto lhes deveria proporcionar muitas venturas. Porém, no dia das encénias, instalaram, por equívoco, no altar, a estatueta do deus Uá-Kuóng em vez da de Pâk-Tái e, para não melindrar nem um nem outro, tiveram de construir mais um altar a fim de se poder venerar ambos os deuses". 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

"Macau Antigo" em destaque no Macau Daily Times


Na edição de 4 de Janeiro de 2017 o jornal Macau Daily Times escreve um artigo de página inteira com chamada de capa onde o 'prato forte' é o blogue Macau Antigo. A peça jornalística é assinada pelo jornalista Daniel Beitler e pode ser lida aqui.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Gambling in Macao: The New York Times, 2 Janeiro 1876

"Gambling in Macao" é o título do artigo publicado no jornal The New York Times a 2 Janeiro 1876. No final do artigo pode ler-se "These houses are frequented by all classes - high and low, rich and poor, and cannot but be considered sources of demoralization".

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Uma embaixada portuguesa ao Sião em 1890

Em 1890 António Gonçalves Pereira (1855-1942) viaja até ao Reino do Sião (actual Tailândia). É uma das muitas viagens que este oficial da marinha (captião-tenente médico no início do século XX) faz ao longo de 28 anos de serviço no Oriente (1888-1916). Eis um excerto.
"O governador de Macau, que era também embaixador de Portugal junto da corte do rei do Sião, tinha de ir ali apresentar as suas credenciais. Mandou aprontar a canhoneira que deveria ir esperá-lo a Saigão, visto ele e a sua comitiva irem a bordo de um navio francês até aquele porto. De Saigão iriam a bordo da canhoneira por ser rara a navegação para o Golfo do Sião.
Viagem óptima até Saigão e, se alguma coisa a perturbou, foi o imenso calor que sofremos. Principalmente depois de passarmos a ponta de Saint-Jacques e entrarmos no rio, onde se tornou insuportável. (...) No dia seguinte ao da chegada, levantamos ferro e começamos a descida para o Golfo do Sião. Depois de contornarmos a costa do Vietname, entrámos no Golfo. Começaram as chuvas torrenciais, as trovoadas medonhas e o calor abrasador. A canhoneira fundeou quase a meio do Golfo, e tão distante da terra que esta nem com um binóculo se via. O Golfo está muito assoreado, as margens são muito baixas e não há balizas que mostrem com segurança a foz do Menam. Havia, pois, toda a necessidade de cautela para que o navio não ficasse todo encalhado no lodo. Depois de fundearmos apareceu uma lancha a vapor para conduzir o governador a Bangkok. Nós seguimos a bordo da nossa lancha a vapor. A distância da canhoneira à foz do Menam era muito grande e tinha de ser feita com toda a cautela. Entrámos no Menam. Na margem esquerda está a povoação de Pak-nam, fortificada para a defesa da entrada do rio. Vê-se um pagode branco, em forma de pirâmide cónica e muito alta.
Uma linha férrea dali para Bangkok ia ser inaugurada dentro de poucos dias. Subimos o rio que é larguíssimo, caudaloso, e onde podem navegar navios de grandes dimensões. As margens do rio são quase impenetráveis pela compacta vegetação que as cobre, estendendo-se pelas encostas das montanhas que de um e outro lado se erguem. Não se vêem sinais de existência de seres humanos naquelas matas virgens a perderem-se de vista: árvores colossais e afluentes caudalosos. Assim seguimos, com a mesma paisagem, até Bangkok num percurso de trinta quilómetros em que se gastam sete horas a subir o rio, debaixo de um forte calor tropical. Numa curva do rio avistam-se, ao longe, esguias torres de várias formas e feitios e, por fim, entrámos no estuário de Bangkok. (...)

Atracámos a um pequeno cais nos jardins do consulado português e  dirigimo-nos para um hotel onde nos instalámos. A cidade de Bangkok é a capital do reino do Sião. Fica a 25 quilómetros da foz do rio Menam, que a divide ao meio, ficando à direita uma parte composta de choupanas, jardins e grande número de pagodes, e à esquerda a cidade propriamente dita, que tem dez quilómetros de raio. Entre elas fica o grande estuário, onde flutuam milhares de embarcações e jangadas de todas as formas e tamanhos, paradas ou em movimento, sempre embandeiradas, parecendo que se está em festa. As margens são guarnecidas de casas, todas de madeira, parte delas em terra e parte delas sobre o rio, assentes em fortes estacas, havendo entre elas magníficos e grandes jardins. Muita gente habita em casas construídas sobre jangadas, entre as quais a do embaixador da Noruega, que numa delas tinha a sua embaixada. 
Na cidade propriamente dita está a cidadela com o Palácio Real e todas as dependências dele. É rodeada por uma muralha com várias portas e torreões, alguns dotados de peças de artilharia. 
Tanto dentro como fora da cidadela vêem-se numerosas e formosas torres de templos e pirâmides, maravilhosamente recortadas, guarnecidas de cristais e porcelanas, onde se reflectem os raios solares, produzindo um efeito deslumbrante. Dentro da cidadela está o palácio real, construção semi-europeia e siamesa. É sumptuoso, mas sem obedecer a uma arquitectura clássica, quer europeia, quer oriental. Os salões que nos foi permitido ver são amplos, bem mobilados e há um onde estão os bustos de todos os monarcas europeus trabalhados em mármore e grandes vitrinas com valiosíssimos presentes dados por esses monarcas. Entre eles está o busto do nosso saudoso rei D. Luís e o seu respectivo presente: um binóculo de ouro todo cravejado de brilhantes e esmeraldas.
Ao lado do palácio destacam-se: o Mahaprasat, majestoso de quatro fachadas com magníficas esculturas, terminando num alto pináculo dourado. É ali que o rei recebe os embaixadores e é ali que jaz o rei defunto, encerrado numa urna de ouro durante um ano, até que se proceda à sua incineração. É ali que vão pregar os monges mais sábios. O Wat-Phra-Keo, o templo de Buda Esmeralda é riquíssimo. As portas são de ébano com incrustações de prata, o chão é coberto por uma esteira de prata, as paredes maravilhosamente pintadas com assuntos da vida siamesa. No corochéu dum elevado altar está um Buda feito de uma só esmeralda, de três palmos de altura e dois de largo, cujo valor é inestimável. Os pagodes reais são de uma tal magnificência que não se faz ideia na Europa. Há onze dentro da cidadela e uns vinte fora das muralhas. Vêm depois os currais dos elefantes brancos que são admiráveis exemplares de paquidermes, e muito numerosos. Foram-nos apresentados pelos tratadores, que lhes deram uma refeição de palha diante de nós. Não são totalmente brancos, mas de cor amarelada. Em todo o caso, não são pretos como os que em geral se vêem."
António José Gonçalves Pereira in "Imagens do Oriente: impressões de viagens". Macau: Museu Marítimo, 1999.