domingo, 28 de fevereiro de 2010

Fotógrafos de Macau: zona do Liceu na Praia Grande

Anos 60: fotografia de Ip Chor Fung
1972: fotografia de Au Peng
Anos 70 - Foto de Ip Chun
1984: Foto de Kuong Ion Long

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Notícia da ANI de 1956

Secção estrangeira - A China e os portugueses de Macau
Macau, 10 (Fevereiro) - Como um sinal das relações de boa vizinhança entre os chineses por um lado e os portugueses de Macau e os ingleses de Hong Kong pelo outro, foi interpretada aqui a notícia pubicada pelo jornal comunista de Cantão 'Takungpao', segundo a qual, durante as solenidades do Ano Novo Chinês, que começam hoje, os chineses residentes em Macau e Hong Kong podem ir à China sem autorização especial, apenas apresnetando na fronteira os seus bilhetes de identidade. É a primeira vez, desde o estabelecimento do regime comunista, que esta facilidade é conhecida. (ANI).
NA: Reprodução integral da notícia (a imagem não se refere à notícia); para ajudar a contextualizar deixo alguns dados: a ANI era a Agência de Notícias e de Informações, tb conhecida por Agência Noticiosa de Informação, criada em 1947, em paralelo com a já existente Agência Noticiosa Lusitânia (1944); o regime comunista foi implementado na China em 1949.

Universidade Ásia Oriental

28 de Maço 1981: Universidade da Ásia Oriental
Cerimónia inaugural que teve lugar na sala da pelot basca do Casino Jai Alai.
Stanley Ho, Ho Yin, Gov. Almeida e Costa
Vista da UAO em 1983
Samuel Mak and his family's life in Macau from 1981 to 1987. The Maks was the first group that moved into the University of East Asia's staff quarter on August 28, 1981. Photos: E. Mak
"História de um jubileu" título do artigo de Ana Isabel Dias publicado na Revista Macau em 2006 e do qual se reproduz um excerto.

Primeiro chamou-se Universidade da Ásia Oriental e destinava-se sobretudo a alunos de Hong Kong. Acabou por se transformar na universidade pública local e agora percorre o caminho da internacionalização
A 28 de Março de 1981 nascia a Universidade da Ásia Oriental, visando sobretudo potenciais alunos de Hong Kong, uma vez que, à altura, não era permitida a abertura de mais universidades no território vizinho. Tinha por accionistas empresários de Hong Kong, mas também alguns de Macau. O Governo de Macau apoiou o projecto cedendo o terreno no qual se ergueu a célula base da Universidade da Ásia Oriental. A universidade funcionou com programas curtos, de fim-de-semana, ou de Verão, destinados a alunos de Hong Kong, embora tivesse já alguns cursos de três anos seguindo o modelo britânico. Assim operou durante cerca de cinco anos, pouco ou nada beneficiando a população local, não só pelos preços praticados como pelas áreas académicas disponíveis. Os residentes de Macau que queriam prosseguir estudos para além do ensino secundário, continuavam a ter de procurar universidades estrangeiras ou em Portugal, o que não era acessível para todos.
Ao ser assinada a Declaração Conjunta Sino-portuguesa, em 1987, Macau despertava para a necessidade de formar quadros superiores locais que garantissem a governação e administração do território após a transferência de poderes em 1999. Restavam 12 anos para formar aqueles que iriam assegurar o funcionamento de Macau nos moldes estabelecidos e acordados entre a China e Portugal .
A transição
Criar uma nova universidade poderia atrasar ainda mais todo o processo formativo. A solução encontrada pelo Governo foi a compra da Universidade da Ásia Oriental, através da Fundação Macau, o que aconteceu em 1988. Manteve-se o mesmo nome, mas havia já intenções de transformá-la em universidade pública. A reestruturação começou com o estabelecimento de várias faculdades: Faculdade de Artes, Faculdade de Gestão de Empresas e Administração, Faculdade de Ciências Sociais e Faculdade de Ciência e Tecnologia. Os cursos de três anos foram alargados até aos quatro anos, seguindo os modelos de Portugal, China e Estados Unidos. A criação dos cursos de Direito e de Educação levou, mais tarde, ao estabelecimento das respectivas faculdades. O objectivo principal era formar tendo em vista as necessidades locais.
Decorridos dez anos desde a fundação da Universidade da Ásia Oriental, o número de estudantes tinha aumentado de algumas centenas para dois mil.
A 9 de Setembro de 1991 surge a grande mudança: a Universidade da Ásia Oriental torna-se uma universidade pública e passa a chamar-se Universidade de Macau. Na sequência desta transformação e da aquisição feita pelo Governo de Macau, a Universidade da Ásia Oriental viria, assim, a dar origem à Universidade de Macau (UM), ao Instituto Politécnico e à Universidade Aberta Internacional da Ásia, sendo esta a única privada.
A Universidade de Macau tinha nos oito anos que se seguiam a missão de servir os estudantes de Macau, respondendo às necessidades do período de transição tendo em conta a transferência de administração a 19 de Dezembro de 1999. O número de estudantes aumentou para três mil, 90 por cento dos quais residentes locais.
A internacionalização
A partir de 2000, e com a Região Administrativa Especial de Macau entretanto estabelecida, a Universidade de Macau, considerando que parte dos objectivos na formação de quadros locais tinha sido alcançada, começa a mudar a sua missão tentando inserir-se na competitividade académica internacional. Uma nova fase de expansão que passa pela afirmação da qualidade do ensino e pela captação de professores e alunos de diferentes países.
Um novo enquadramento jurídico aprovado este ano pela Assembleia Legislativa garante à UM maior autonomia relativamente ao Governo passando a ser gerida pelo Conselho da Universidade que, deixando o papel meramente consultivo, se tornou num dos órgãos de gestão, juntamente com o Reitor e o Senado. As alterações verificadas nos estatutos de pessoal viabilizam a contratação de docentes com contratos que podem ser de três ou mais anos de duração. Medidas que, na opinião do vice-reitor, Rui Martins, servirão os propósitos de melhor qualidade considerando que para atrair professores associados e catedráticos de muito bom nível não é possível fazê-lo com contratos de um ou dois anos. Refere o vice-reitor que com esta nova estrutura foram já atraídos três directores de faculdade, Gestão de Empresas, Ciências Sociais e Humanas e Educação. Eram professores do quadro nos Estados Unidos, Taiwan e Inglaterra e aceitaram integrar a UM, dado o novo regime contratual. Foi ainda criada a figura de catedrático de mérito, cujo nível salarial está acima do professor catedrático, de modo a atrair professores mais qualificados. Para Rui Martins é óbvio que não será possível ter cinquenta ou trinta professores catedráticos de mérito, mas pelo menos cinco, um por faculdade, farão a diferença, contribuindo essencialmente para a investigação e o reconhecimento de excelência.
Com mais de seis mil alunos e uma equipa de trezentos professores, a Universidade de Macau, cuja principal língua veicular é a inglesa, pretende conquistar um lugar de prestígio entre a comunidade académica internacional. Este ano, no jubileu de prata, entre uma agenda carregada de actividades comemorativas, a UM promove mais de quatro dezenas de seminários com nomes de destaque no mundo académico internacional, como é o caso do Prémio Nobel da Física 2005, Roy Glauber.
Decorreram 25 anos, em três etapas distintas, que viram também triplicar o espaço físico da Universidade. Do edifício nuclear de 1981, o complexo universitário expandiu-se por vários blocos distintos. O plano de desenvolvimento da UM proposto ao Governo da RAEM, orçado em 300 milhões de patacas, ficará concluído este ano com a remodelação da zona de acesso à Biblioteca Internacional, o Complexo Desportivo e uma nova zona de entrada. Tem desde o ano passado um novo edifício, construído para os Jogos da Ásia Oriental e que serve de residência a cerca de mil alunos. Entre salas de aulas, laboratórios, e auditórios, a UM conta com um Centro Cultural, um Centro de Convenções, possui a maior Biblioteca de Macau e um dos melhores centros de documentação da região Ásia-Pacífico. Para o futuro e como refere o vice-reitor, a aposta está cada vez mais focada na qualidade dos cursos e da própria instituição.

Feira do Carmo – Antigo mercado da Vila da Taipa

O Governo de Macau ordenou a construção do Mercado da Taipa no segundo semestre de 1886, como se comprova pelo relatório das Obras Públicas, inscrito no Boletim da Província de Macau e Timor de 14 de Setembro de 1886, suplemento nº.36.
A obra foi suportada em partes iguais pelas Obras Públicas e pela Comissão Municipal da Taipa e Coloane, perfazendo $ 800.000 reis, equivalente aproximadamente a 1.600.000 patacas “É estabelecido este mercado com 990 metros quadrados sendo este separado da Rua Carlos Eugénio, e da que confina com o novo aterro, por muros adornados de balustrada, e nas partes laterais foram levantados dois telheiros, divididos em dezoito lugares para os vendedores, sendo distribuído a cada um uma área superior a nove metros quadrados.”
Trata-se de um edifício de características mistas, com um telhado de construção ao estilo chinês, com “…apenas uma ordem de telhas bem ligadas, e bem cobertas as juntas com argamassa” e as colunas são uma interpretação local da arquitectura neoclássica de inspiração greco-romana.
O surgimento do Antigo Mercado da Taipa, perdeu-se inicialmente com a necessidade de acompanhar o crescimento da Vila da Taipa e o desenvolvimento económico inerente. Na altura da sua construção era a única infra-estrutura do género construída para comercialização de bens alimentares, alguns dos quais produzidos localmente.
No rearranjo da zona envolvente do mercado foi construído este 'mural' que conta a história
A sua localização privilegiada, entre as principais vias de acesso à vila, a rua Direita Carlos Eugénio e a rua Correia da Silva, e a actividade que aí se desenvolvia, faziam deste espaço, em finais do século XlX, um dos principais pontos de encontro e de convívio da população local.
Naquela altura, a maior parte da actual Rua do Regedor e do Largo Tamagnini Barbosa eram zonas costeiras, com muito lodo das sedimentações do Rio das Pérolas e a principal actividade era a recolha de ostras transportadas para o mercado a par de produtos derivados, do pescado, dos produtos agrícolas e da própria água.
No início do ano de 1970, este mercado deixou de ser utilizado. Entretanto, num diferente contexto social, em 1983 entrava em funcionamento o novo Mercado da Taipa. O aparecimento da primeira ponte de ligação Macau-Taipa em 1974, e da Ponte da Amizade, em 1994, os novos aterros, construções e demais infra-estruturas, transformavam a Taipa num novo, populoso e agitado centro urbanístico.
Texto e fotografias de Bessa Almeida

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Imprensa Nacional de Macau

Em cima uma imagem do símbolo utilizado nos livros impressos pela Imprensa Nacional de Macau nas décadas de 60 e 70.
Em baixo reprodução de partes do Boletim Oficial, também impresso pela INM.
NA: utilizando o campo da pesquisa encontra um outro post que conta a história da INM.

Baluarte da Penha

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Escavações arqueológicas

Em Março deste ano o Governo de Macau vai demolir quatro prédios no centro históricos da cidade, dois dos quais construídos numa área que foi ocupada pelo antigo Colégio de S. Paulo e onde se pretendem realizar escavações arqueológicas.
Boa ideia, digo eu. E até acrescento que também se deveria aproveitar para classificar e salvaguardar certas construções: Ponte Nobre de Carvalho (1974), Edifício da Escola Comercial (actual Escola Portuguesa), 1966, Bairro de S. Lázaro, etc... E já agora vedar ao trânsito certas zonas do centro histórico...
Imagem da década de 1960
Bairro de S. Lázaro

1995: Postal Fortaleza do Monte

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Nota de 10 avos de 1952

Naturais de Macau na Guerra do Ultramar

Consultando documentos oficiais conclui-se que no que diz respeito aos mortos na Guerra do Ultramar, no capítulo de "nascido em Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Índia, timor e Macau" apenas se encontra um caso de morte num militar natural de Macau. Foi João de Oliveira Marques, "Tenente-coronel 176/E/QG/CEM/RMA (Angola). Faleceu vítima de "acidente" a 10.11.1961. O corpo está sepultado em Carnaxide.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Francisco de Carvalho e Rêgo

É uma figura algo controversa mas nem por isso deixa de ser uma referência na vida cultural de Macau entre as décadas de 20 e 50 do século XX, onde foi, essencialmente, professor, mas também se destacou na música, escrita e represnetação. Francisco Ernesto Palmeira de Carvalho e Rêgo nasceu em Coimbra em 1898. Foi o fillho mais novo (de um total de 5) de José Maria de Carvalho e Rêgo que foi em Macau por diversas vezes Juíz, Procurador, Advogado e Jornalista.
Francisco chegou a Macau em 1908 e aí completou a instrução primária e os cursos liceal e comercial. Prossegiu os estudos universitários em Portugal mas a morte de seu pai e as saudades da terra que já chama sua, fizeram-nos regressar a Macau. Nesse regresso passa a desmepenhar as funções de professor de ensino primário e as de procurador forense. Ocupa-se ainda no campo artístico. Foi um dos grandes impulsionadores da formação da Academia de Amadores de Teatro e Música com muitos espectáculo no Teatro D. Pedro V. Deste grupo faziam parte nomes como Maria Amália de Senna Fernandes, José e Maria Guilhermina, José de Arede e Soveral, Maria Margarida Gomes e o seu irmão Luís Gonzaga Gomes, Mário e Lucília Nery, Constâncio José da Silva, entre outros.
Era conhecido entre os amigos como "Chico" Rêgo e teve ainda um papel importante na vida macaense ao nível da escrita. Prikeiro pela colaboração em diversos jornais e revistas (foi o principal umpulsionador da revista "Renascimento"), estendeu a sua colaboração à rádio sendo locutor-chefe do Rádio Clube.
Em suma, falar de Macau durante o segundo quartel do século XX é falar do nome de Francisco de Carvalho e Rêgo, um vulto marcante da cultura do Território.
Francisco de Carvalho e Rêgo foi aluno de Camilo Pessanha no Liceu de Macau e em 1944, sob o pseudónimo de Francisco Penajóia escreveu um artigo intitulado "Camilo Pessanha"... uma biografia do poeta, publicada na revista Renascimento, de Macau, v.4, nº 4, em 1944 e disponível no volume Homenagem a Camilo Pessanha, organizado por Daniel Pires e editado em Macau em 1990, p. 40-44). Francisco Carvalho e Rêgo não terá sido, segundo Paulo Franchetti escreveu no livro "O essencial sobre Camilo Pessanha," Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2008... o único a escrever algo com menor rigor acerca do poeta. "Outro é Guilherme de Castilho, que escreveu “Apontamentos dum caderno de viagem -- Camilo Pessanha em Macau”, artigo publicado n´O Comércio do Porto, de 13/4/1954, e “Dois elementos para a ‘pequena história’ de Camilo Pessanha”, que saiu n´O Primeiro de Janeiro, do Porto, de 15/8/1962, textos, aliás, que serviram de base para a parte biográfica do livro Camilo Pessanha, de João Gaspar Simões (Lisboa, Arcádia, 1967)."

Obras de Francisco de Carvalho e Rêgo:
Macau: Imprensa Nacional, 1950 (na imagem)*
Lendas e contos da velha: Imprensa Nacional, 1950
Da virtude da mulher: Imprensa Nacional, 1949
O caso do tesouro do templo de A-Ma: Imprensa Nacional, 1949
Momentos musicais: 1949
Cartas da China: Imprensa Nacional, 1949
* voltarei a esta obra editada em 1950 um destes dias já que ainda recentemente a adquiri num antiquário.

Comezaina di Macau

O livro “Macau’, de Francisco de Carvalho e Rêgo, foi editado pela Imprensa Nacional no Território em 1950. Compreende os seguintes capítulos: “Um pouco de História”, em que é feita uma síntese histórica de Macau, dos primórdios até à implantação do regime comunista na China, em 1949; “Os Macaenses”, explicando a origem e a caracterização dos macaenses; “O Dialecto Macaense”, apresentando elucidativos exemplos de diálogos e missivas, além de um poema na “língu maquista”; “A Cozinha Macaense”; e “Macau”, descrevendo a cidade, as suas paisagens e os seus atractivos. Sobre o livro em geral colocarei outro post.
“Poucas terras deve haver onde o prazer da mesa seja tão bem gozado como em Macau”, escreve o autor, no capítulo dedicado à cozinha macaense.
“‘Galinha-molho’: - galinha cortada em bocados; cogumelos; sutate preto; sutate vulgar (molhos salgados, extraídos do feijão amarelo e muito usados na cozinha chinesa); sangue da própria galinha, etc. É um guisado.
‘Minxi’: - carne de porco ou de vaca, ou de porco e vaca, picada; sutate de duas qualidades e cebola picada, etc. Devemos dizer que a palavra ‘minxi’ vem do inglês ‘minced’.
‘Brédo raba-raba’: - mistura de várias hortaliças fritadas no tacho com banha de porco e balichão. O balichão é um molho feito de camarões pequenos, moídos, folha de louro, pimenta em grão e vinho.
‘Capela’: - a capela é um assado de carne de porco picada e enrolada em forma circular; queijo; ovos; amêndoas picadas; sal e pimenta.
‘Pexe depinado’: - peixe cozido e desfiado; manteiga; alho; sal; pimenta; balichão; vinagre e malaguetas, tudo posto no tacho a fritar.
‘Vaca cabab’: - é um guisado: vaca aos bocados pequenos; muita manteiga; gengibre às rodelas; sal e pimenta e malaguetas.
‘Tamarinhada’: - é um guisado: camarões; açafrão; pimenta; salsa; cominhos; cebola seca; tamarindo; sal e malaguetas.
‘Porco bafá-assá’: - porco; açafrão; sal; pimenta; cebola verde e alho.
‘Galinha chau-chau parida’: - é um guisado: galinha; açafrão; gengibre; sal; pimenta; e vinho chinês (liu-pun – vinho de fermentação do arroz).
‘Chau-chau péle’: - galinha; pé de porco; costeletas de porco; chouriço; pato salgado; pele de porco; presunto; repolho e couve. É um cozido.
‘Galinha frito-marêlo’: - galinha; cebola; alho; sal; pimenta; cebola seca e açafrão.
‘Diabo’: - galinha assada; porco assado; presunto; caril de vaca estufada; batatas; mostarda; ovos; tomates; azeite de oliveira; e tudo mais que possa entrar na confecção deste guisado precioso, sem o prejudicar. Este prato, modo geral, é apresentado no dia seguinte a um banquete ou lauto jantar e representa o mais precioso aproveitamento das sobras.
A ‘vaca cabab’ é prato de origem indiana e a ‘galinha chau-chau parida’ reflecte a influência chinesa, sendo de recomendar às parturientes. Como estes pratos há outros que fazem parte da cozinha macaense, como o caril (pouco semelhante ao caril indiano); o ‘porco à indiana’, assado primoroso de sabor picante; o ‘porco com ananás’; ‘porco bambú’; ‘Macau bifi’; ‘pexe cu-cus’(em banho-maria); ‘pexe com ham-choi’ (hortaliça salgada); ‘chau-chau com aletria’, etc., etc.”

Outros petiscos
Como petiscos isolados, para servir ao chá da tarde ou à ceia, temos pratos curiosíssimos. Entre outros citaremos:
‘bibinca de rábano’; ‘apa-bico’; ‘xilicote cu-cus; ‘chau-chau lacassá’; ‘chau-chau Barra’; ‘pão recheado’, etc.
Vejamos o que entra na confecção dos três primeiros pratos referidos:
‘Bibinca de rábano’: - farinha de arroz; rábano ou nabo; presunto chinês; carne de porco; cebola e banha de porco. Este prato apresenta-se como uma massa compacta e serve-se cortada em fatias.
‘Apa-bico’: - farinha de arroz; banha; carne de porco e hortaliça salgada. Com a farinha fazem-se uns pequenos bolos que são recheados com carne de porco e hortaliça salgada.
‘Xilicote cu-cus’: - farinha de arroz; banha; nabo; presunto e carne de porco. Estende-se a farinha de arroz, coloca-se-lhe em cima um recheio de nabo, presunto e carne de porco, dobra-se a massa sobre o recheio e embrulha-se em folha de bananeira, sendo cozinhada a banho-maria.”
Bolos e doces
“Em bolos e doces é rica a cozinha macaense, sendo de apreciar, entre outros, os seguintes bolos: ‘bolo-minino’, ‘bolo-amanti’, ‘magazoti’, ‘saran surabe’, etc. Claro é que estes bolos são, como quase todos, confeccionados com farinha, ovos e outras variantes.
O bolo ‘saran surabe’, muito tipicamente macaense, é possivelmente de origem malaia, e feito com o seguinte: farinha de trigo e ‘corn-starch’, ovos, coco e pó de feijão amarelo-torrado.O bolo é simples, feito das farinhas e dos ovos e sobre ele espalha-se coco ralado, coberto com pó de feijão torrado.
O ‘magazoti’ é uma variante do pão-de-ló.
Ainda há a considerar doces próprios de certas épocas, imprescindíveis à mesa dos macaenses. São eles, entre outros: ‘barba’, ‘dodol’, “ladu’, ‘aluar’, ‘bicho-bicho’, ‘bagi’, ‘fula-fula’, ‘camalenga’, etc.
‘Barba’é um doce feito com jagra, manteiga e farinha de arroz.
“Ladu’ é doce feito de jagra, coco, pó de feijão e farinha.
‘Aluar’ é feito de farinha de trigo, coco e amêndoas, e é doce próprio da época festiva do Natal.
‘Dodol’ é doce feito de perada, farinha de arroz pulú, amêndoas, coco, jagra e manteiga.
‘Bagi’ é uma espécie de arroz doce, feito de arroz pulú, coco e leite.
‘Bibinca de leite’ assemelha-se ao manjar branco e na sua confecção entra o seguinte: farinha ‘corn-starch’, coco, manteiga e leite.
“Bicho-bicho’ são pequenos bolinhos fritos, feitos de farinha de trigo, açúcar, ovos e sal.
Temos ainda o doce de ‘camalenga’ que mais não é que doce de abóbora cristalizada; a ‘perada’, a ‘goiabada’, e outros doces feitos de frutas variadas.
O macaense teve e tem a preocupação de receber bem, e, como é, na generalidade, muito bem educado, é sempre um prazer assistir aos seus jantares e festas, que surgem a propósito de tudo e de nada.”

Chá gordo
“O chá-gordo é muito usado e consiste numa lauta refeição que se serve entre a hora do chá da tarde e a hora do jantar, abrangendo com vantagem as duas. Sobre uma ou mais mesas estão expostas as iguarias variadíssimas à gula dos convivas. São carnes frias de toda a espécie, sanduíches, croquetes, pastéis, ‘fois-gras’, doces variadíssimos, bolos de todas as qualidades, vinhos, whisky, brandy, tudo enfim que possa ser apetecido e desejado em momento de bom apetite. É uma espécie de bufete permanente.
E aqui fica uma pálida ideia da cozinha macaense e da vida dos macaenses em relação à mesa. Poucas terras deve haver onde o prazer da mesa seja tão bem gozado como em Macau”.

Receita de Chau-Chau de Pele

Ingredientes
Entrecosto: 1/2 kg; Carne de vaca: 1/2 kg; Frango: 1; Presunto: 1 pé; Courato desidratado (pele):4 pedaços; Chouriço chinês: 4; Couve chinesa: 1 (ou ½ couve lombarda); Espinafre: 1 molho; Nabo: 2; Cenoura: 4; Orelha de rato desidratada (pele): 1/2 chávena; Cogumelo chinês seco: 1/2 chávena; Sal e pimenta q.b.
Preparação
Cozem-se as carnes todas juntas com o pé de presunto e os chouriços chineses. Uma vez cozidos, retiram-se (não se aproveita o pé de presunto), e reserva-se o caldo; neste cozem-se os legumes, começando pelos nabos e cenouras,em seguida a couve, sendo o espinafre junto apenas no fim, só para receber uma fervura. As orelhas de rato, a pele e os cogumelos devem ficar previamente de molho até aumentarem de volume e amolecerem, altura em que se escorrem e juntam aos nabos e cenouras, cozendo com estes. Tempere de sal e pimenta a gosto.
Antes de servir, juntam-se as carnes partidas aos legumes, deixa-se aquecer e leva-se para a mesa no Tacho em que este cozido foi feito. (Pode ser num tacho de barro.)
Acompanha-se com arroz branco cozido sem sal e Molho de Balichão, a que, para 2 colheres de chá deste, se junta uma cebola finamente cortada ás rodelas e o sumo de 2 limões. Este molho deve ser servido numa molheira, para que cada pessoa possa utilizar a quantidade desejada.
*Pele:
Difícil de encontrar em Portugal (onde é conhecida por courato), talvez nalgumas casas de especialidades chinesas, e nada a substitui; encontra-se com facilidade nos bairros chineses de Londres e Paris e come-se como petisco em várias cidades de Espanha, da Galiza à Andaluzia.
*Molho de Balichão:
Feito á base de camarão pequeno esmagado e perservado com sal, aguardente, especiarias e malaguetas, já é possível encontrar este molho preparado nas lojas de comida chinesa sob o nome inglês de Shrimp Paste.
Receita de Graça Pacheco Jorge do livro Cozinha de Macau

Lição da Gastronomia Macaense em verso!

A versalhada com que hoje vos contemplo, fazem-nos abrir o apetite e sorrir e mais, são isso sim, uma verdadeira lição da Gastronomia Macaense! Já agora, o autor que me perdoe por não o enunciar, mas a verdade é que os encontrei no meio da minha papelada dedicada á “Comizaina Maquista” e como não queria deixar de os partilhar convosco, nesta “altura do campeonato,” mesmo assim, eles aí vão sem o nome do seu legítimo autor.
Já agora aproveitamos para lançar o repto e até damos “alvíssaras”a quem nos faça o favor e queira esclarecer a sua proveniência!

Pratos macaenses:

É um prazer assistir
Aos seus jantares e festas,
Em pó, com folhas de louro
Levezinhas e indigestas.

E até o mais exigente,
Lambareiro ou comilão,
Gosta de um chau-chau pele
Com molho de balichão.

Minxi, brêdo raba-raba,
Diabo, tamarinhada,
Só com banha e “balichão”,
Apa bico, goiabada.

Capela, vaca cabad, Bagi, porco bafá-assá,
Galinha frito amarelo,
Dodol, chau-chau lacassá.
Ladu, peixe depinado,

Caldo de carne com lula,
Barbá, bibinca de rébano
Bicho-bicho, fula-fula

Chá gordo, bolo menino,
Saran surabe, aluar;
Doces, manás, acepipes,
Que são de nos consolar!

Chau-chau pele; pel ’de porco,
Pé, costeletas com molho,
Chouriço, pato salgado,
Galinha e couve repolho.

Balichão é um molho, feito
De camarão miudinho
Em pó, com folhas de louro
E pimenta em grão e vinho.

Minxi é carne tenra e magra
De porco ou vaca trilhada,
com sutate doce e branco
Banha e cebola picada.

Brêdo raba-raba: várias
Hortaliças misturadas,
Só com banha e “balichão”,
Num tacho ao lume fritadas.

Diabo: ovos, porco assado
Caril de vaca estufada,
Mostarda, azeite, tomate,
Presunto e galinha assada.

Leva ainda esta comida,
Batatas e outras misturas:
Um prato de arrebentar
Mesmo ao diabo as costuras!

Galinha Chau-chau, parida:
(Outro prato de “arrebenta”!)
Galinha, açafrão, gengibre,
Vinho chinês, sal, pimenta.

Capela é carne de porco
Moída e no forno assada,
Com ovos, queijo, pimenta,
Sal e amêndoa pisada.

Peixe depinado; quando
Já cozido e desfiado,
Num tachozinho a fritar
Desta forma preparado:

Capela é carne de porco
Moída e no forno assada,
Com ovos, queijo, pimenta,
Sal e amêndoa pisada.
Peixe depinado; quando
Já cozido e desfiado,
Num tachozinho a fritar

Desta forma preparado:
Põe-se-lhe manteiga e alho
Sal, pimenta,“balichão”,
Umas gotas de vinagre,
Malagueta até mais não

Vaca cabad: um pratinho
Todo de origem indiana,
Próprio para parturientes,
Como fina “comezana”.

Caldo di carne com lula:
De tão forte, causa arrotos
E é feito de lulas secas,
Com porco e raiz de lótus.

Porco bafá-assá: de porco
Carne comprada no talho
Com muito açafrão, pimenta,
Sal, cebola verde e alho.

Galinha frito amarelo:
Galinha ou galo capão,
Com pimenta, sal e alho
Cebola seca e açafrão.

Apa bico: bolos feitos
Com farinha de arroz, banha,
Porco, hortaliça salgada…
(Mimo de quem os apanha!)

Goiabada: um doce feito
De goiaba (o que mais há),
Havendo ainda perada,
Outro doce de “alto lá”!

Ladu é também um doce.
Que entra em muita refeição,
Feito só de jagra e côco,
Farinha e pó de feijão.

Bagi: s’pécie de arroz doce
Que se come com deleite,
Feito (dizem) simplesmente,
De arroz pulú, coco e leite.

Dodol: doce de perada,
Farinha de arroz pulú,
Amendôas, coco, manteiga,
Jagra, (ficando um beijú!)

Chau-chau lacassá: de arroz,
Massa, (a mais fina que há)
Com porco,ovos,gengibre;
Servido à ceia ou ao chá.

Barbá: espécie de doce
A que apreço se consagra,
Feito apenas com manteiga,
Farinha de arroz e jagra.

Quando à bibinca de rábano,
Depois de estar preparada,
Fica uma massa compacta
E é-nos servida à talhada…

Faz-se com rábano ou nabo,
Farinha de arroz, presunto,
Cebola, carne de porco
E um pedacinho de unto.

Bicho-bicho são também
Pequenos bolinhos fritos;
Levam sal, farinha e ovos
E açúcar aos quadraditos.

Fula-fula é um bolinho
De arroz seco e amendoim.
Bolo-menino: uma espécie
De bolacha ou coisa assim.

Chá gordo é refeição lauta
Que alguns costumam a dar,
(Passada a hora do chá)
Horas antes do jantar.

Saran surabe: outro bolo,
Mas este, tipicamente
Macaense, e é tão gostoso
Que até nos “regala o dente”…

Só de farinha de trigo
E pó de feijão torrado,
“Corn-Starch”, ovos e coco,
Este bolo é preparado

Aluar: bolo festivo
E muito tradicional…
De farinha, côco, amêndoa,
Que se faz pelo Natal.

Além destas iguarias,
A outras se hão-de dar vivas,
Quando expostas, sobre a mesa,
À gula dalguns convivas.

Se não houver convidados,
(O que é raro acontecer)
Ou sozinho ou em família,
Come-se com igual prazer.

Sim, porque o maior consolo
Que o bom macaense tem,
Seja de noite ou de dia,
É comer e comer bem!

Aqueles que são mais pobres,
Que menos podem gastar,
Pequeninas guloseimas
Andam sempre a mastigar.

Comer bem, fazer desporto,
Torna uma pessoa harta,
E portanto dizem eles:
-“Morra Marta, morra farta”!

E aqui temos mais ou menos,
Sem mentiras nem urdumes,
O que são os Macaenses
Nos seus usos e costumes.

A verdade não ofende,
Mas se alguém lesei contudo,
Só tenho a pedir desculpa
Porque a realidade é tudo.

Peço-te meu caro amigo
Que mal de mim
nunca penses;
E crê na boa amizade
que dedico aos Macaenses.

NA: publicado no JTM por Luís Machado

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Vida cultural nos anos 50

Transcrição de um excerto (não se inclui aqui cinemas e outros...) de um pequeno capítulo do livro “Roteiro do Oriente”(Agência Geral do Ultramar, 1954), do jornalista Barradas de Oliveira que, em 1952, acompanhou o Ministro Manuel Maria Sarmento Rodrigues na viagem oficial a Macau. O capítulo intitula-se “Notícias da vida cultural de Macau” e é uma síntese síntese das principais actividades e instituições culturais desta então Província Ultramarina de Portugal no Oriente:
“O nível cultural de Macau é acentuadamente elevado. Não admira. Começou por ser a cidade um pequeno centro comercial e de expansão religiosa, e a certa altura atingiu, neste último aspecto, uma importância enorme, com larga influência em todo o Império do Meio. O Colégio de S. Paulo Grande, que foi dos jesuítas (e estes, como é sabido, marcaram sempre os lugares por onde passaram pelo alto grau de cultura desenvolvida), teve a honra de primeira universidade católica do Extremo-Oriente. O actual Colégio de S. José, a maior recordação dos antigos institutos religiosos, ainda hoje é um centro de estudo excelente, para mais enriquecido com alguns categorizados professores de universidades católicas chinesas, ao presente encerradas pelos comunistas. Bastariam os estudos históricos sobre a vida da missão de Macau, centro de uma actividade que permitiu, só aos evangelizadores da Companhia na terra china, escrever 1.330 obras sobre os mais variados assuntos, para constituir um ramo de actuação de alto valor.
Afora o Seminário, não faltam escolas primárias e institutos secundários, oficiais e particulares, onde se ministram os ensinamentos basilares da aquisição de cultura. Mas o desenvolvimento desta tem outros meios: a biblioteca, o museu, o observatório meteorológico, o Círculo Cultural de Macau, a delegação do Círculo de Cultura Musical, os jornais, as emissoras, os espectáculos, as exposições de arte e, acima de tudo, o convívio de homens cultos.
A Biblioteca
A Biblioteca Pública ocupa quatro salas da Casa do Leal Senado, duas das quais inteiramente revestidas de magníficas estantes e com galerias, tudo em estilo D. João V, acomodando cerca de 14.000 volumes, na sua maioria portugueses e ingleses. Foi fundada em 1931 por um professor do liceu e formada por alguns livros do fundo próprio e outros depositados por amigos, na proporção aproximada de meio por meio. Grande parte dos livros pode ser emprestada aos leitores que, até ao máximo de três volumes por cada pessoa, têm a faculdade de levá-los para casa, retendo-os por espaço não superior a uma semana. Tem uma frequência média de 15 leitores por dia, entre os quais muitos soldados expedicionários.
Dispõe de alguns livros preciosos, entre os quais velhíssimas edições do ‘Catecismo’ mandado fazer por D. Fr. Bartolomeu dos Mártires e impresso em Braga, em 1564; da ‘China Monumentalis’, de Kircheri; das ‘Décadas’, de Couto e Barros; do ‘Nobiliário’, de D. Pedro; e da ‘Monarquia Lusitana’. (...)
Estas notas talvez fossem desnecessárias no caso de se tratar de uma biblioteca erudita, restrita a estudiosos; mas pareceu-nos útil para determinar a categoria de uma biblitoeca popular, aberta ao grande público. Resta acrescentar que o Ministro do Ultramar, quando da sua recente viagem à Província, conferiu à biblioteca o título de Nacional, com o inerente direito a receber um exemplar de cada uma das obras publicadas em qualquer ponto do Império Português.
Ao mesmo tempo, diga-se de passagem, foi criado o Arquivo Geral da Província, a fim de arrecadar, coligir e conservar a importante massa documental existente, já conhecida, bem como as espécies que forem sendo descobertas.
O Museu
O Museu Etnográfico Luís de Camões é, por enquanto, e apenas, uma colecção de coisas preciosas, especialmente porcelana e pintura chinesa antiga, às quais se juntaram algumas peças de interesse duvidoso. Carece de ser enriquecida, estudada e exposta em instalações apropriadas – conforme já foi concertado entre o Ministro do Ultramar e o director do Museu, o Cónego Morais Sarmento.
O Observatório Meteorológico
Poderá dizer-se que o Observatório é um elemento de utilização técnica ao serviço de actividades precisamente determinadas. E daí o estranhar-se a sua inclusão entre os instrumentos principais da cultura da cidade de Macau. Sucede, porém, que um observatório é, também, por definição, um centro de estudo, que é como quem diz, de investigação, de trabalho científico. A categoria científica deste provém-lhe, em primeiro lugar, do nível do observador; em segundo lugar, dos métodos empregues; e, por último, da própria natureza dos elementos colhidos. Os meios de que dispõe são dos mais modernos que existem – desde o radar aos detectores de radiações cósmicas – e os resultados do labor realizado estão publicados em grandes, enfartados e misteriosos cartapácios. No Extremo-Oriente, pode dizer-se, a navegação é orientada pelas indicações dos observatórios de Manila, Hong-Kong e Macau. E este último marca com notória galhardia o seu lugar.
O Círculo de Cultura Musical
Depois da actividade, tão pertinaz como educativa, que tem desenvolvido na Metrópole, o Círculo de Cultura Musical alargou a órbita do seu movimento às terras ultramarinas do Império. Se, em todas as oportunidades que se me deparam, tenho feito ressaltar sempre a importância basilar de uma verdadeira obra de educação musical no conjunto formativo de nova mentalidade do povo português, pelo recurso a novas fontes de seiva espiritual e pela adaptação a novas situações de ordenamento colectivo, não será possível agora deixar de louvar a iniciativa de expansão do Círculo de Cultura Musical. Não visa directamente, como na orientação exposta, a formação do maior número, mas a elevação das élites. Nem por visar objectivos diferentes, porém, a obra deixa de ser igualmente útil e merecedora dos maiores aplausos.
Todavia, se não há louvores a regatear ao Círculo, não poderão também ratinhar-se ao homem que, no caso preciso de Macau, deu possibilidades da criação ali de uma delegação do Círculo de Cultura Musical, inaugurada por sinal com um grande espectáculo em que tomaram parte artistas de tão grande categoria como o violinista Silva Pereira e o pianista Sérgio Varela Cid. Refiro-me ao Dr. Pedro Lobo, dinamizador e mecenas de todas as actividades culturais. A ele se devem, no aspecto que vimos tratando, dois espectáculos de categoria artística em qualquer parte do Mundo: o primeiro, com os artistas que citámos; o segundo, com óptimos executantes de orquestra, solistas e intérpretes de canto.
De desejar agora será que o auspicioso início mantenha a mesma altura dos primeiros passos.
O Círculo Cultural
Ao mesmo Dr. Pedro Lobo se deve a magnífica realização do Círculo Cultural de Macau, centro de estudos e ponto de irradiação de iniciativas e trabalhos. A sessão inaugural, a que nos foi dado assistir, ilustrou logo as paredes veneráveis do salão nobre do Leal Senado com uma conferência curta, mas altamente elucidativa, do Dr. Manuel Cabrita. Que a actividade futura, com seu boletim e sua vida de pequena academia local, corresponda ao início promissor!
Imprensa
Passemos agora a um meio de expansão cultural tão vasto como é a Imprensa. Limitemo-nos ao presente, abstraindo da memória de tão bons periódicos, dos 92 que existiram, como foi a revista ‘Tai-Sai-Yang-Kuoc’ – o que em português significa ‘Grande Reino no Mar do Ocidente’, ou seja, ‘Portugal’.
Há presentemente em Macau um jornal diário escrito em português – o ‘Notícias de Macau’ – e cinco escritos em língua chinesa: ‘Va Kiu Pou’ (A Comunidade Chinesa); ‘Cheng Va Pou’; ‘Si Man Pou’ (O Cidadão); ‘Tai Chung Pou’ (O Jornal para Todos); e ‘Sai Kai Pou’ (O Mundo).
Devemos convir em que, para uma população entre 200 a 300 mil pessoas, não é nada mau. Quanto às outras publicações, cumpre registar: ‘O Clarim’ (semanário); ‘Religião e Pátria’ (quinzenário); ‘Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau’ (mensal); e ‘Mosaico’ (trimestral).
Da mesma maneira que nos jornais, além do noticiário e das transcrições, há artigos originais de verdadeiro interesse e não faltam, em qualquer das revistas que apontamos, trabalhos originais de autêntico valor.
À lufa-lufa dos jornais pode associar-se, por lhe ser conexa, a de 35 tipografias que há na cidade, 6 litografias e 8 livrarias. Livrarias de vender livros, note-se. Não confundir com papelarias, que estas são muitas mais."

Padre Morais Sarmento

Macau no século XX, assistiu a diversas convulsões sociais, umas delas terrível e horrorosa, como foi a tão documentada, Guerra do Pacífico, durante o período da segunda guerra mundial, que foi antecedida pela a selvática ocupação da China pela superpotência bélica dos primórdios do século, o Japão, que flagelou esta parte do planeta!
Ao longo desta época deu-se um movimento de refugiados muito grande, no interior do continente chinês passando por Macau e Hong Kong e com eles veio a miséria e a fome que assolaram estas duas cidades do mar do sul da China, como não podia deixar de ser visto á enorme concentração desta massa humana que arribava diariamente, tornando de todo impossível saciar estes desgraçados ao mesmo tempo.
Há mesmo relatos de cadáveres encontrados diariamente espalhados pelas arcadas da Almeida Ribeiro e por vários becos e ruas de indivíduos exaustos que perdiam a vida… no esgoto! Tempos horríveis!
Para tentar aligeirar o sofrimento destes refugiados, diversas entidades governamentais a Igreja, associações católicas e não só, assim como o organismo fundado para este efeito pelas Nações Unidas, faziam o que podiam e estava ao seu alcance , mas sempre com imensas dificuldades financeiras e de meios humanos.
É sobre uma figura ímpar que se notabilizou nesse período que irei hoje contar um episódio engraçado ocorrido nos anos 1956/57.
Refiro-me a uma personagem marcante desse tempo longínquo, que foi o Chantre (*) Morais Sarmento – um eclesiástico forte, desassombrado, que irradiava simpatia, que estava sempre “em todas” e muito apreciava a boa mesa, como me contaram os meus Pais que aqui chegaram em 1954 e o conheceram muito bem.
Viveu e trabalhou quase toda a sua vida em Macau e sentia-se macaense pelo coração. Em tudo, a última palavra era sempre dele. Sabia viver e conviver. Usava geralmente um capacete colonial branco, como branca era a cor da sua longa sotaina. Teria nessa altura 85 anos bem sadios. Uma figura inesquecível!
Ora, numa tarde de Outono após mais um funeral e à saída do Cemitério de S. Miguel Arcanjo, houve quem convidasse o reverendo Chantre a tomar um “chasinho” da Escócia no Clube Militar, convite que ele aceitou de bom grado sem se fazer rogar.
Pelo caminho, um dos oficiais que iam com ele, jovem capitão, disse-lhe em tom meio irónico:
-Hoje morreu este justo. Amanhã, outro fechará os olhos e qualquer dia será a sua vez, Senhor Padre ...?!?
-Pois é – respondeu ele pensativamente – A morte é assim, não escolhe idades, por isso o mais certo é verem-me fazer mais uma vez esta caminhada ... mas é à frente ... cantando!...
O capitão embatucou e nunca mais quis fazer de engraçadinho com o Chantre Morais Sarmento que Deus haja.
São estas figuras que fazem parte da história de Macau e que os mais novos têm o dever assim como todo o direito de conhecer!
NA – Chantre é o eclesiástico que dirige o coro na Sé.
Artigo de Luís Machado publicado no Jornal Tribuna de Macau.

NG Magazine de 1932

Na edição de Setembro de 1932 a National Geographic Magazine dedica 2 artigos a Macau profusamente ilustrados. A saber: Macao "Land of Sweet Sadness": The Oldest European Settlement in the Far East, Long the Only Haven for Distressed Mariners in the China Sea, with 13 Illustrations; e Miniatures of Macao, 11 Natural Color Photographs. Em breve darei mais pormenores.

Companhia Caçadores 5040/72


Não tem na simbologia qualquer referência a Macau... pois é originária de Timor tendo sido transferida para Macau em 1972. Na sua origem está o BC10. Passou a designar-se/incorporar-se na Companhia de Caçadores 8 em Janeiro de 1973. Terá sido extinta em final de 1974. Imagem cedida por Carlos Coutinho.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Aterros Porto Exterior ca. 1960

Vivenda - provavelmente - no início da av. Dr. Rodrigo Rodrigues
à direita, muralha do Quartel de S. Francisco e subida para o Hospital
à esquerda, construções recente na Av. Dr. Rodrigo Rodrigues
ao fundo, a baía da Praia Grande e a Penha
em 1º plano, hortas e algumas construções nos aterros do Porto Exterior

Esplanada e Hotel Lisboa: 1981

Foto de Samuel Mak

Artigo sobre o patuá

À procura do reconhecimento internacional é o título deste artigo da autoria de Harald Bruning publicado na Revista Macau em 2009.
A classificação internacional do patuá pela UNESCO como património cultural intangível* permitiria fortalecer a identidade de Macau e elevar ainda mais o estatuto da Região Administrativa Especial de Macau no palco da cultura mundial
"O Homem age como se fosse o modelador e o dono da língua, mas na verdade é a língua que continua a ser dona do homem." Martin Heidegger (1889-1976)
No seguimento da classificação internacional do “Centro Histórico” de Macau como património mundial tangível, em Julho de 2005, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), parecem ganhar consistência os esforços para a obtenção do reconhecimento de Património Intangível para o patuá, o crioulo luso-asiático de Macau que se encontra em situação crítica.
O patuá é a língua materna híbrida, e agora quase extinta, da minoria euro-asiática habitualmente conhecida como “Macaenses”. A comunidade abrange oito mil residentes em Macau, ou 1,5 por cento da população da região administrativa especial, e cerca de 20.000 emigrantes e respectivos descendentes espalhados pelo mundo, nomeadamente em Hong Kong, Califórnia, Canadá, Brasil, Austrália e Portugal.
O patuá começou a desenvolver-se gradualmente em Macau no final do século XVI, princípios do séc. XVII, entre os descendentes de raça mista dos navegadores, tanto de Malaca como de Macau. Num registo coloquial, podemos descrever o patuá como uma associação linguística entre a Europa e a Ásia. O patuá é, assim, um crioulo, definido pelos linguistas como uma língua materna resultante do contacto de uma língua europeia com outras línguas locais, nomeadamente em África, na Ásia, no Pacífico e nas Caraíbas.
O processo de formação das línguas crioulas é gradual, iniciando-se com a criação de um sistema de comunicação “misto”, ou “pidgin”, no seio dos povos que não partilham uma língua comum. Podemos descrever o crioulo como uma língua “pidgin” que evoluiu até se tornar a língua mãe de uma comunidade específica – como o macaense, no caso de Macau.
O termo português “crioulo” designava, a princípio, um descendente de europeus que tivesse nascido (ou sido “criado”) numa colónia ultramarina. Posteriormente, o termo passou a designar o tipo de língua falada pelas comunidades que habitassem essas colónias.
As semelhanças surpreendentes entre os “pidgins” a nível mundial e a língua crioula podem explicar-se assumindo uma origem “monogenética”. Alguns linguistas acreditam que muitos dos crioulos existentes no mundo são baseados numa “proto-língua” – um “pidgin” português do século XV, que poderá ter resultado de uma língua franca mediterrânica ou do Médio Oriente, conhecida como sabir (“saber”), uma variante do provençal do sul de França tornada “pidgin”.
Acredita-se que os navegadores portugueses terão usado esta “língua de contacto” durante as explorações em África, na Ásia e nas Américas.
Por exemplo, o patuá de Macau tem semelhanças flagrantes com o crioulo de Cabo Verde no oceano Atlântico e com o papiamento luso-afro-holandês nas Caraíbas. “Con tai bai?” significa “Como está?” em papiamento e “Mi ta bon” significa “Estou bem”.
Existem, claro, vários tipos de crioulo em diferentes partes do mundo, como os crioulos Hispânicos, conhecidos como “criollo” em espanhol, crioulo francês no Louisiana, Estados Unidos, crioulo do Alasca, crioulo holandês (papiamento) e crioulo português, nomeadamente em África, nas Caraíbas, na América do Sul e na Ásia.

Sem os crioulos humanidade seria mais pobre
À sua maneira, as línguas crioulas têm contribuído para os fenómenos extremamente positivos do multiculturalismo, do entendimento internacional e da tolerância racial. A formação de línguas crioulas é a prova evidente de que povos com passados diferentes a nível cultural, religioso e étnico são perfeitamente capazes de construir novas formas híbridas de coexistência pacífica. É por isso que os crioulos devem ser conservados e protegidos como manifestações bem vindas do património mundial intangível. Não há dúvida de que sem os crioulos a humanidade seria mais pobre em termos de desenvolvimento cultural.
Se sabemos que o português-padrão é a língua oficial de 225 milhões de pessoas em oito países de quatro continentes, dos quais 185 milhões no Brasil, o número de falantes de crioulo português fica por adivinhar. Alguns académicos estimam que, a nível mundial, haja dois milhões de pessoas que falam crioulos portugueses, nomeadamente em Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Caraíbas.
O termo português patuá deriva do francês “patois”, o qual, segundo o New Oxford Dictionary of English, significava originalmente “falar rude”. Hoje em dia, tanto em inglês como nas outras línguas europeias, “patois” designa o dialecto do cidadão comum de uma região específica, diferindo em vários aspectos da língua-padrão do resto desse dado país. Por outro lado, definiu-se dialecto como uma forma específica de uma língua “nacional”, falada num dado país ou região, como o cantonês no sul da China ou o alemão suíço, em partes da Suiça.
O patuá é conhecido entre os linguistas por diferentes designações, tais como “macaísta chapado” (“puro macaense”), “crioulo de Macau”, “macaense”, “papia cristam di Macau” (“língua cristã de Macau”) e “doci papiaçam”. Em patuá, “papia” significa “conversar”. O verbo “papia” é também usado no português de Malaca e no crioulo de Cabo Verde. O nome papiamento, falado por cerca de 330 mil pessoas nas Caraíbas, deriva, claro, de “papia”.
O patuá integra a vasta família dos crioulos portugueses constituída por: crioulos luso-africanos; crioulos luso-asiáticos que compreendem os crioulos luso-indiano (abrangendo as cidades de Goa, Damão e Diu) e luso-malaicos (nomeadamente Malaca); e os crioulos luso-americanos, falados nas Antilhas e no Suriname, incluindo o papiamento.
Os crioulos portugueses podem ser classificados por ordem geográfica (Malaca, Cabo Verde, Macau, Sri Lanka, etc.) e por línguas “substrato”, como por exemplo as línguas locais que estiveram em contacto com o português.
A origem dos crioulos portugueses remonta à época dos Descobrimentos, século XVI, quando a língua portuguesa entrou em contacto com as línguas locais na Ásia, nas Américas e em África. Como já foi referido, estes contactos linguísticos foram gradualmente formando pidgins estilo-português. Ao longo de mais de dois séculos, estes pidgins portugueses foram usados como línguas francas em certas partes da Ásia e de África.
Os linguistas descrevem pidgin (o termo deriva, aparentemente, de uma alteração chinesa à palavra inglesa business) como uma forma de linguagem gramaticalmente simplificada, com um vocabulário limitado, parte do qual oriundo das línguas “indígenas” locais, e que é utilizada na comunicação entre pessoas que não partilhem uma mesma língua. O chamado “pidgin inglês” é falado, por exemplo, na Papua Nova Guiné (“Tok Pisin”).
Os pidgins portugueses evoluíram gradualmente, ao nível da gramática e do vocabulário, para línguas nativas completas – os crioulos. Enquanto todos os crioulos portugueses têm, com alguma lógica, o vocabulário português como a sua principal fonte de palavras, as suas estruturas gramaticais já são bastante diferentes da língua portuguesa.
O patuá de Macau começou a desenvolver-se após o estabelecimento de portugueses no lado sul da península, por volta de 1557. O estabelecimento de portugueses em Malaca começou em 1511, quase meio século antes do de Macau. Em Malaca, os homens portugueses cedo começaram a casar-se com mulheres malaias, resultando isso na criação de um crioulo local, malaio-português, normalmente conhecido por “papia kristang” (“língua cristã”), que se acredita ainda ser falada por cerca de mil pessoas na Malásia, em Singapura e na Austrália (sobretudo Perth). O papia kristang é muito próximo ao malaio em termos gramaticais, mas o vocabulário deriva sobretudo do Português.
Língua ameaçada
Embora os holandeses tenham conquistado Malaca aos portugueses em 1641, o papia kristang sobreviveu enquanto língua materna activamente falada naquela região. O crioulo malaio-português teve uma forte influência no desenvolvimento do patuá de Macau no século XVII, especialmente no que toca ao seu riquíssimo vocabulário malaio. A partir dos finais do século XVI, colonos euroasiáticos portugueses oriundos de Malaca “transplantaram” o seu crioulo para Macau.
Ao contrário da sua irmã mais velha de Malaca, o patuá é, actualmente, falado por escassas dezenas de pessoas, sobretudo mulheres com idades superiores a oitenta anos, em Macau e Hong Kong, e talvez alguns milhares (ou centenas, dependendo das estimativas) entre a diáspora macaense espalhada pelo mundo, mas sobretudo na da Califórnia. O patuá é, sem dúvida, uma língua criticamente ameaçada. Alguns descrevem-na, com dramatismo, como uma “língua que está a morrer” ou como “língua moribunda.”
O estabelecimento de portugueses em Malaca, incluindo o seu crioulo malaio-português, serviu de base avançada para o subsequente estabelecimento de portugueses em Macau na segunda metade do século XVII. É por isso que o patuá tem uma forte influência do malaio, além de influências mais ou menos significativas do cantonês, de várias línguas indianas, do inglês, do japonês, espanhol e de várias outras línguas europeias e asiáticas. Num certo sentido, o patuá é um “cocktail” linguístico de línguas europeias e asiáticas que de uma forma ou de outra tiveram impacto no desenvolvimento social e comercial de Macau entre os séculos XVI e XIX.

Múltiplas influências
O patuá conheceu o seu auge como principal língua de comunicação entre os residentes euro-asiáticos de Macau entre os séculos XVII e XIX. No entanto, mesmo durante esse período, o número total de falantes era relativamente pequeno, provavelmente nunca passando de poucos milhares de pessoas em qualquer altura.
A forte influência do malaio no patuá também se deve ao facto de os primeiros colonos portugueses de Macau terem procurado mulheres primeiro em Malaca, além da Índia e do Japão, e não na China continental. Entre as palavras malaias adoptadas pelo patuá encontram-se “sapeca” (moeda) e “copo-copo” (borboleta). O vocabulário do patuá absorvido de línguas indianas inclui “fula” (flor) e “lacassa” (vermicelli).
A ocupação britânica de Hong Kong a partir de meados do século XIX resultou na inclusão de vocabulário inglês no patuá, como por exemplo “adap” (“hard-up”, ter muito pouco dinheiro) “afet” (“fat”, gordo).
Ao longo dos séculos, da mesma forma que qualquer outra língua ou dialecto, o patuá passou por mudanças ao nível da expressividade, da gramática, da sintaxe e do vocabulário. O cantonês influenciou de sobremaneira o patuá desde os finais do século XIX, à medida que mais e mais macaenses iam casando com mulheres chinesas de Macau e da região do Delta do Rio das Pérolas. Entre as palavras do patuá derivadas do cantonês encontram-se “amui” (rapariga) e “laissi” (presente pecuniário).
É pouca a investigação científica feita sobre a gramática do patuá, nomeadamente no que concerne às suas diferentes fases de desenvolvimento entre os séculos XVI e XX. Um dado assente é que a sua estrutura gramatical incorpora elementos europeus e asiáticos. Tal como acontece em outras línguas asiáticas, não existem artigos definidos e a utilização de pronomes e adjectivos possessivos é peculiar. A palavra “io” significa “eu” e “meu”. A palavra “olitro-sua” significa “deles”. O patuá, por outro lado, não utiliza a inflexão verbal do português. “Io sam”, por exemplo, significa “eu sou”, e “ele sam” significa “ele/ela é.” A “língua doce” de Macau também contém partículas específicas para demonstrar acções em progresso (“ta”) e acções terminadas (“ja”). Há nomes plurais (“casa-casa”= casas) adjectivos plurais (“china-china” = várias pessoas chinesas ou coisas chinesas), e advérbios plurais (“cedo-cedo” = muito cedo).
Nos finais do século XIX e início do século XX, o patuá ainda era falado como língua materna por alguns milhares de pessoas em Macau, Hong Kong e outros locais. Nessa altura, o patuá era conscientemente diferenciado do português “metropolitano” pelos seus falantes. No princípio do século XX, o patuá também era utilizado de forma muito frequente com intuitos “satíricos”, nomeadamente em manifestações de humor visando figuras da autoridade, por exemplo escarnecendo de funcionários públicos originários de Portugal.
A determinação das autoridades portuguesas, sobretudo na recta final do século XIX, em ensinar aos macaenses o português “correcto” terá sido – talvez inadvertidamente – a sentença de morte ao futuro do patuá enquanto língua comunitária activamente falada. Gradualmente, a alta sociedade macaense foi abandonando o patuá no início do século XX, dado que começaram a entendê-lo como a língua “da classe baixa” e “português primitivo”. O triste é que o patuá, que tem uma sonoridade melódica e doce, nunca atingiu o estatuto de uma língua cabal na sua vertente escrita, apesar de alguns escritores, como o já desaparecido – e muito amado – José (Adé) dos Santos Ferreira, terem escrito lindos poemas na “língua doce”. Mesmo hoje, o patuá não tem uma ortografia completamente definida. Para além disso, também nunca gozou de estatuto oficial – ao contrário do seu congénere caraibenho papiamento.
Um poema em patuá

Nhonha na jinela – A moça na janela
Co fula mogarim – Com uma flor de jasmim
Sua mae tancarera – Sua mãe é uma chinesa pescadora
Seu pai canarim – Seu pai é um Indiano Português

Apesar de ter uma história de cinco séculos, e de ser certamente uma das línguas híbridas mais interessantes do mundo, o patuá foi alvo de muito pouca investigação. A excepção mais notável é a já falecida filologista de Macau Graciete Nogueira Batalha, que publicou uma série de estudos sobre o patuá, que ela considerava e descrevia como o “dialecto macaense”. Graciete Batalha faleceu há dez anos. Alan Baxter, um linguista australiano fluente no crioulo português-malaio de Malaca, o papia kristang, está a investigar o patuá no âmbito do seu trabalho com o Departamento de Português da Universidade de Macau. O patuá deve ser um dos crioulos menos investigados do mundo.
O patuá nunca foi ensinado como disciplina ou cadeira em nenhum estabelecimento de ensino de Macau. Os macaenses aprendiam-no com os pais, principalmente a mãe. Numa abordagem literal, pode dizer-se que o patuá funcionou genuinamente como a língua materna da comunidade macaense. Por outras palavras, ao longo da sua longa história o patuá sempre foi uma língua sobretudo familiar, que nunca foi alvo de um reconhecimento oficial por parte das autoridades coloniais portuguesas. Na verdade, muitos dos professores enviados de Portugal para Macau empenharam-se bastante em “apagar” o patuá, uma vez que o viam como “português mal falado.” Infelizmente, quase conseguiram atingir o seu objectivo.
Em todo o mundo não há mais do que duas dúzias de académicos e jornalistas de alguma forma empenhados no estudo da “língua doce.”
O patuá atingiu o estatuto crítico de língua ameaçada. É necessário correr contra o tempo para manter viva a “língua doce” de Macau. O patuá é, afinal, parte integrante da alma multicultural de Macau e do seu incomensurável património intangível sino-português. É preciso agir com urgência para parar a maré, caso contrário o patuá desaparecerá em pouquíssimo tempo e juntar-se-á à lista das línguas extintas, que deploravelmente não pára de crescer.
Para além de algumas investigações académicas, na prática pouco tem sido feito para sensibilizar o público para a existência muito frágil e ameaçada do patuá. Uma das louváveis excepções foi a publicação, em 2001, pelo Instituto Internacional de Macau, instituição privada, de um glossário de Patuá-Português. A edição foi orientada por Miguel Senna Fernandes e Alan Baxter.
Miguel Senna Fernandes, advogado macaense e entusiasta do patuá, disse-me uma vez que o patuá “ainda não está morto, mas a sua forma arcaica já morreu”, acrescentando que o patuá “moderno” pode ser considerado “um dialecto derivado do patuá arcaico”. Senna Fernandes sublinhou ainda que o patuá “moderno” foi fortemente influenciado pelo cantonês, especialmente desde o início do século XX, considerando que “é um milagre” que o patuá tenha conseguido sobreviver durante quatro séculos em Macau, uma vez que, lembrou, não podemos ignorar que a “cultura chinesa é muito absorvente.”
“Vamos reavivar uma memória quase perdida”, nota Senna Fernandes sobre o esforço que os fãs do patuá estão a desenvolver para garantir a sobrevivência da “língua doce” de Macau que, nunca é demais dizê-lo, é um dos compoentes da sua riquíssima História. Alguns destes fãs propuseram a criação de um centro de estudos do patuá em Macau. De acordo com a proposta, o centro não só empreenderia investigações linguísticas e antropológicas, como, e isto é o mais importante, ofereceria cursos de língua – a um nível básico – a todas as classes sociais e diferentes gerações de interessados.
O patuá conheceu um regresso triunfante aos palcos no início da década de noventa do século XX, quando o Grupo de Teatro Doci Papiaçam di Macau foi formado e lançado pelos mais entusiastas dos seus defensores. Julie de Senna Fernandes, que morreu em 2005 e esteve, em 1993, entre os pioneiros desta iniciativa de formar um grupo de teatro amador, disse-me uma vez que o “poder do teatro” era a “melhor forma pública” de preservar a “única língua e identidade da nossa comunidade, que muito, muito poucos de nós ainda falam mas que muitos ainda percebem.”
Afinal, língua e identidade são fenómenos intimamente ligados na existência humana.
A boa notícia é que o patuá assume finalmente um carácter de potencial candidato ao título de Património Cultural Intangível da Humanidade, conferido pela UNESCO.
De acordo com a UNESCO, o património cultural imaterial, também muitas vezes referido como o “património cultural vivo”, manifesta-se, inter alia, em tradições orais, expressões e línguas – como o patuá. O património cultural intangível confere a pessoas e comunidades um sentido de identidade e preservação, continuidade. A protecção do património cultural intangível mantém, desenvolve e promove a diversidade cultural e a criatividade humana.
A Convenção para a Protecção do Património Histórico Intangível foi aprovada em Paris em 2003 (ver artigo nesta edição). Entrou em vigor em 2006, quando a Roménia se tornou no trigésimo estado membro da UNESCO a ratificar o documento. A China ratificou-o em Dezembro de 2004.
Tal como ocorreu com a candidatura – coroada de sucesso – de Macau à classificação como Património Mundial da UNESCO do seu espólio histórico arquitectónico, a candidatura do patuá a Património Intangível Mundial tem de ser submetida pelo Governo nacional do país a que pertence – a China. Numa atitude bastante prometedora, sete associações macaenses juntaram forças, em Outubro de 2006, para promover a candidatura do patuá. O Chefe do Executivo da RAEM, Edmund Ho Hau Wah, e representantes do Comissariado dos Negócios Estrangeiros da República Popular da China assistiram, no afamado restaurante Portas do Sol, à cerimónia que comprometeu as associações com o apoio ao projecto “património intangível’, que inclui o estabelecimento de uma comissão de coordenação dos trabalhos.

Património vivo
A UNESCO descreve o património cultural intangível como um “património vivo” que é a “essência da nossa diversidade cultural, e a sua preservação como a garantia de uma criatividade contínua.”
Não restam dúvidas de que o patuá é uma língua em risco de extinção e que já devia ter sido colocada sob assistência há muitas décadas atrás. Está, agora, no seu leito de morte. Tudo o que possa ser feito deve ser feito para garantir que a nossa “língua doce” seja mantida no património “vivo” do mundo.
De acordo com a UNESCO, mais de metade das seis mil línguas existentes no mundo estão em risco de extinção. E o preocupante é que 96 por cento dessas seis mil línguas são faladas por apenas quatro por cento da população mundial. Segundo a média, a cada semana que passa uma destas línguas desaparece. Qualquer pessoa que ame Macau deve ajudar no esforço que está a ser empreendido para garantir que o patuá não se junte à cada vez maior lista de línguas mortas.
A língua é a maior das criações da mente humana e cada uma delas, individualmente, incluindo crioulos como o patuá, são, à sua maneira, a prova viva da fantástica capacidade linguística da humanidade. Como disse o filósofo alemão Martin Heidegger, e muito correctamente, “a língua é que continua a ser dona do homem”.
Qualquer língua, tanto as faladas por muitos milhões de pessoas como as faladas por alguns milhares ou mesmo apenas centenas, reflecte, de facto, uma perspectiva do mundo, funcionando como o veículo de valores sociais e expressões culturais. O patuá não é excepção.
Macau devia ter um orgulho imenso pelo facto de ter a sua própria língua local, algo que, por exemplo, Hong Kong já não tem. (O pidgin de Hong Kong morreu no início do século XX após uma curta existência). O estatuto de Macau enquanto cidade de cultura e um dos mais antigos pontos de encontro entre o Oriente e o Ocidente clama por uma vigorosa “cultivação” da sua língua macaense: o patuá.
O patuá também merece, claro, ser incluído no livro vermelho da UNESCO referente às línguas em risco de extinção, pois tal seria uma forma de aumentar a consciência pública para a sua existência ameaçada.
Para além de tudo isto, o patuá é também uma das características que fazem de Macau um lugar único. É por isso que todos deveríamos trabalhar para garantir que jamais o patuá seja acrescentado à triste lista de línguas mortas do mundo.
A classificação internacional do patuá pela UNESCO como património cultural intangível permitiria fortalecer a identidade de Macau e elevar ainda mais o estatuto da Região Administrativa Especial de Macau no palco da cultura mundial. É necessário, porém, agir com sentido de urgência para assegurar que o estado de saúde precário do patuá não passe de ameaçado para morto antes da UNESCO receber a respectiva candidatura, algo que poderá demorar anos a finalizar.
N.A. - O meu interesse pelas línguas crioulas baseadas no português surgiu durante os meus estudos universitários, em Munique, na década de setenta. Este artigo é baseado numa série de peças jornalísticas que tenho escrito desde o início dos anos noventa e que já foram publicados em vários jornais e revistas em inglês e chinês.
PS: Parte das ideias expressas no meu artigo foram inspiradas em The Cambridge Encyclopedia Of Language de David Crystal, 2ª edição, 2001.
Reprodução integral do texto. As imagens aqui apresentadas não pertencem ao artigo original.