domingo, 31 de outubro de 2010

Os bons e maus momentos do hóquei em campo

A propósito do anterior post, aqui fica um artigo da autoria de Henrique Manhão publicado salvo erro em 2009 no Jornal Tribuna de Macau, "um jornal com memória". O título do post é o do artigo assim como as imagens.
 
O Hóquei em Campo foi talvez a modalidade mais favorita dos macaenses e a que mais prestigiou Macau não só em Hong Kong como em Singapura, na Malásia e no Japão.
A juventude macaense tinha certa queda e gosto pelo esse desporto, introduzido em Macau pelo tenente O’ Costa na década de 1930. Quase todos os jovens tinham um “stick”. Jogava-se o hóquei em campo num terreno baldio ou mesmo na rua, com o apoio dos agentes da policia que fechavam os olhos.
Foi durante a segunda guerra mundial que mais se praticou o hóquei em campo em Macau. Havia um campeonato anual para homens em que participavam nove equipas, das quais o habitual favorito era o Hóquei Club de Macau. Havia outro campeonato de Macau para senhoras.
Assisti a vários encontros em que jogava o Hóquei Club de Macau. Houve um desafio que terminou num empate de 0-0 e nunca vi tanta alegria e aplausos da parte da assistência para o adversário do Hóquei Club de Macau.
Era deveras impressionante ver tantos jovens a praticarem o hóquei em campo à tarde no relvado da Caixa Escolar, nos anos cinquenta e sessenta, principalmente pela malta nova dos Bairros de São Lázaro e do Tap Seac de onde, aliás, apareceram excelentes hoquistas que muito honraram a sua terra natal.
O primeiro “Interport” entre estudantes de Macau e Hong Kong realizou-se em Macau em 1953 e Macau triunfou por 2-0.
Já quanto ao hóquei em campo feminino, não havia muitos praticantes. Só muito mais tarde quando vieram os portugueses de Xangai para se fixarem em Macau é que surgiu o primeiro “encontro entre hoquistas femininas de Macau e Hong Kong. Macau perdeu por 8-0, resultado que espelha como as senhoras estavam ainda pouco aptas.
Albertino Alves de Almeida que fazia parte da equipa de honra do Hóquei Club de Macau, continuou com a tarefa de reorganizar e treinar o grupo de estudantes de Macau e a equipa feminina. Não foi um trabalho muito fácil. Tinha que estar sempre a descobrir novos talentos porque periodicamente os elementos com maior capacidade deixavam Macau.
O mesmo se passava com os rapazes, porque o hóquei em campo era um “hobby”. Quando tinham convites para melhores posições a nível profissional, naturalmente que ninguém olhava para trás e ia tentar ganhar a vida em novos horizontes.
Mesmo assim Albertino conseguiu arranjar um forte grupo novo de rapazes para continuar com o intercâmbio entre estudantes de Macau e Hong Kong e como nessa altura não havia subsídios do governo, a rapaziada quando se deslocava a Hong Kong ia jantar à casa do seu irmão Alberto Almeida.
Devidos aos esforços de Albertino Almeida, também se conseguiu formar uma equipa feminina rejuvenescida, equipa essa que alcançou alguns resultados prestigiantes para Macau frente às suas congéneres de Hong Kong.
Em 1956, foi uma grande pena que Macau não tivesse participado nos Jogos Olímpicos de Melbourne, por decisão do ministro de Educação. Houve uma subscrição pública para ajudar as despesas com a deslocação da equipa de Macau que estava a ser treinada pelo tenente Filipe O’Costa.
Macau fazia parte do grupo que integrava a Índia, njuma altura em que o Paquistão e a India eram consideradas as melhores equipas de hóquei em campo.
Dois anos depois, a famosa selecção de Moçambique de hóquei em patins representou Portugal em Montreux e a Europa pôde apreciar o talento de hoquistas como Adrião, Bouçós, etc.
Nessa altura a população portuguesa de Macau mostrou o seu desagravo através dos jornais locais porque o mesmo ministro de Educação que autorizou Moçambique a representar Portugal não dera a mesma oportunidade a Macau na modalidade mais querida dos jovens locais: o hóquei em campo.

Dutch Hockey Club: testemunho de um jogo a 8 de Maio de 1950

Há algum tempo que estava para corrigir uma informação colocada num dos primeiros post's aqui do blog... Várias pessoas já me tinham solicitado a correcção e, em boa hora, o Sr. Albertino Almeida enviou-me mais alguns detalhes que agradeço e partilho agora com todos os leitores do blog. Este é o post a que me refiro: onde se lê selecção holandesa deve ler-se Dutch Hockey Club.
http://macauantigo.blogspot.com/2009/09/holanda-vs-macau-hoquei-em-campo-1950.html
Segundo Albertino Almeida, o Dutch Hockey Club de Hongkong era "um grupo constituido por cidadãos holandeses residentes na então colónia britânica. Esses homens eram quási todos funcionários superiores da «Royal Inter-Oceans Line» uma prestigiosa companhia de navegação holandesa operando em Hong Kong. Macau venceu o encontro por sete bolas a uma mas nada de mérito a registar.O «Dutch Hockey Club» de Hongkong, umas das mais simpáticas equipas que anualmente nos visitavam, brilhava mais no consumo do nosso bom e barato vinho tinto e da nossa apetitosa gastronomia do que no manejo do «stick de hóquei» Assim, no dia do encontro, uma grande parte dos jogadores ainda não estavam completamentamente restabelecidos da «torcida» do dia anterior."
Mais informações em vários posts utilizando a palavra "rogge" no campo de pesquisa... como neste:

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

"Historic Macao" em leilão por 4 mil dólares

Esta edição de "Historic Macao" de Montalto de Jesus está à venda num leilão da internet por 4 mil dólares... Para mais informações sobre a obra e o autor consultar este post, por exemplo, existem outros...
http://macauantigo.blogspot.com/2009/10/historic-macao-de-montalto-de-jesus.html
Quem colocou o livro à venda descreve-o assim..


This is something that you will probably never see again on eBay or anywhere else: a 2nd edition copy of "Historic Macao - International Traits in China Old and New" with hand-written corrections for the 3rd edition in the margins and throughout the book by the author himself! C. A. Montalto de Jesus took a paperback 1926 printing of his literary classis, Historic Macao, and made all of the corrections that he intended for the 3rd edition, which never came about because of his passing.
The book is approximately 510 pages with extra pages of corrections inserted throughout the book. There are hand-written everywhere: in the margins; at the tops and the bottoms; in between words and in sentences; everywhere! But it is in very poor condition: the binding is coming apart in most places to the point where you can see the threads; many of the pages are loose and bent at the corners (but not really dog-earred); there are some tears and rips, but surprisingly few considering its age. I have enclosed some pictures so that are representative of what the rest of the book looks like.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

"Liceu de Macau"... foi há 3 anos

Há 3 anos - 27/10/2007 - aconteceu a apresentação pública da minha estreia nas lides da escrita de carácter histórico com o livro "Liceu de Macau 1893-1999" na Casa de Macau em Lisboa. Podem ver as fotos aqui http://www.casademacau.pt/eventos/eventos-passados/2007
A edição de 1000 exemplares - quase esgotada - está à venda nos seguintes locais.
Internet (portes grátis) http://liceumacau.googlepages.com/, Portugal: Casa de Macau (av. Almirante Gago Coutinho), Delegação do Turismo (av. 5 de Outubro); Livraria do Museu do Oriente (Alcântara); Macau: Livraria Portuguesa.
Década de 1960 
1977 - foto de José Basto da Silva
Algum tempo depois da edição do livro, criei um blog - aberto à participação de todos os antigos alunos, professores e funcionários do Liceu de Macau - para que os conteúdos estejam em constante revisão e actualização.
Neste endereço http://liceudemacau.blogspot.com/ podem acompanhar esse processo e, caso pretendam, enviar os v. contributos para o e-mail liceumacau@gmail.com
As vossas histórias e imagens merecem ser contadas e partilhadas. Acreditem!
A equipa de futebol do Liceu fotografada no Campo do Tap Seac em 1956
Em pé da esq./direita: Gustavo de Senna Fernandes (dirigente), Eduardo Francisco (treinador), Alberto Noronha (jogador), Alberto Nunes (jog), João Basto e Silva (jog.  e capitão de equipa), Mário Assumpção (jog.), Manuel Valoma (jog), Francisco Rodrigues (g.redes), Severino Silva (jog.), Henrique de Senna Fernandes (dirigente).
Agachados: Alexandrino Boyol, (g.redes suplente), Alberto Oliveira (jog.), João Simões (jog.), Sérgio Luz (jog.), Victor Serra (jog.), Jorge Basto Silva (jog.), Miranda (jog.), Alberto Fernandes (jog.).
Foto enviada por Rui Francisco (Macau)
Aos patrocinadores, leitores e todos os que me fazem chegar imagens e documentos (no caso o Rui Francisco e o José Basto da Silva) aqui fica mais uma vez o meu agradecimento público.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Última entrevista de HSF - Jornal "O Globo"

Nascido em Macau em 1923, Henrique de Senna Fernandes sempre se orgulhou de ser um dos poucos habitantes de seu país - colonizado pelos portugueses durante séculos e que só em 1999 passou novamente ao domínio da China - a fazer literatura. Nesse círculo intelectual praticamente inexistente, que pouco contribuía para a divulgação de seus autores, Senna Fernandes destacou-se e sua literatura ultrapassou as fronteiras do pequeno país. No Brasil, a editora Gryphus lançou “Nan Van”, “Amor e dedinhos de pé” e mais recentemente “A trança feiticeira”. O escritor morreu no início de outubro, depois de um longo período de doença. A entrevista a seguir foi feita por Miguel Conde há vários meses. Por conta do seu estado de saúde já frágil, o autor demorou a responder e a conversa acabou não sendo publicada na época.
Quando o senhor começou a escrever? Sempre escreveu em português?
Comecei a escrever desde os meus onze anos e sempre em português, pois embora em Macau a comunidade portuguesa local entendesse o chinês (ou melhor, o dialecto de Cantão), não o domino a ponto de me exprimir nessa língua. Foi sempre em prosa, sob forma de contos. Cheguei a publicar nos anos 40 do século passado no semanário diocesano “O Clarim” três contos, infelizmente não fiquei com nenhuma cópia.
Que autores de Macau estiveram entre suas primeiras leituras? E autores brasileiros?
Os autores macaenses foram sempre muito esporádicos. Em Macau nunca houve condições para desenvolver uma verdadeira literatura macaense. A pequenez do território e, por conseguinte, da comunidade portuguesa, aliada ao facto de Macau ter uma parca importância para Portugal, não proporcionava a existência de uma comunidade literária. Por isso, as minhas leituras não começaram com autores locais. Sempre tive uma admiração pelos autores brasileiros. A forma ‘despreendida’ de se escrever português, quase como brincando com a língua de Camões, pondo e dispondo das suas palavras, deram-me uma visão completamente diferente do que ela pode ser, levando-me à sua autêntica redescoberta. Machado de Assis, Erico Verissimo, Gilberto Freyre e Jorge Amado marcaram presença nas minhas leituras.
Escrevendo em português num pequeno país ao lado da China, o senhor se sente de alguma forma solitário?
Sempre me senti solitário nessa senda da escrita em português, na Ásia. A falta de incentivo e a indiferença do público desencorajavam sobremaneira quem tivesse o sonho de cingrar pela escrita. Atrevo-me a dizer que escrever em português neste canto do mundo é puro desporto, que só a paixão o pode justificar. Quem tenha pretensões para voos mais elevados, a escrita em português não lembraria o diabo! Mas a verdadeira solidão está no facto de não haver uma literatura portuguesa, na acepção mais comum da palavra. Existiram sempre escritores em língua portuguesa, mas em Macau nunca houve uma comunidade literária portuguesa. Os livros que se leem em Macau são de autores oriundos do exterior. Durante a administração portuguesa houve uma actividade editorial mais intensa. Não obstante ter havido publicação de obras de natureza vária, estava-se longe de se falar de uma literatura macaense. Neste ambiente, escrever é penosamente solitário. O que vale é a paixão e a persistência em construir o meu espaço, o meu mundo, em que eu me sinta plenamente realizado.
O fato de tematizar com frequência casos de amor entre macaenses e chinesas fez com que o senhor sofresse algum tipo de censura?
Talvez. Há que entender que em Macau, não obstante a administração portuguesa ter perdurado durante séculos, as comunidades chinesa e portuguesa em regra não se misturavam. Viviam paredes meias uma com a outra, mas o cruzamento das gentes era tabu, quer para uma, quer para a outra. Tendo eu nascido no seio de uma comunidade católica e muito conservadora que foi a comunidade macaense luso-descendente, não era fácil abordar o tema de amor entre macaenses e chinesas. E de certa forma fui censurado. Todavia, isso não me demoveu, antes, pelo contrário, me incentivou a apaixonar-me por este tema, pois, contra tudo e contra todos também eu me casei com uma chinesa.
Como a transferência de Macau para administração chinesa mudou a vida dos macaenses?
A transferência trouxe mudanças para a comunidade portuguesa de Macau. De um modo geral, não se pode queixar muito. Se historicamente o luso-descendente tinha um papel de intermediário entre chineses e portugueses, com o retorno de Macau à República Popular da China o seu papel adquiriu um cunho diferente. O macaense (luso-descendente) é um tradutor nato, característica que continua a manter. Todavia, agora ele é instrumento vivo para a aproximação da Grande China aos países lusófonos, entre os quais se destaca o Brasil. A administração chinesa em Macau soube ao longo desses dez anos manter o espaço natural da comunidade portuguesa e dar voz às suas manifestações culturais. Nesse aspecto, apesar de as mudanças poderem ser do desagrado pontual de alguns, elas revelaram-se benéficas para a comunidade.
Qual o atual estado da literatura em língua portuguesa em Macau? Há muitos outros autores escrevendo em português?
Infelizmente, há poucos que escrevem em português aqui em Macau. E há muito que não se realizam lançamentos de obras de autores locais. Não existe uma comunidade de escritores em língua portuguesa de Macau, o qual por isso mesmo torna parca ou mesmo inexistente uma literatura macaense, com todo o respeito por todos os que, como eu, fazem da pena a sua sublime paixão.
O senhor pretende aderir às normas do acordo ortográfico da língua portuguesa? O que pensa dessa meta de padronização da ortografia da língua?
Ainda não me sinto atraído pelo fulgor da “unificação” da língua. Sou um ortodoxo no que respeita à ortografia. Não menosprezo a utilidade da sua padronização. Há que reconhecer que os escritores de Portugal possam extrair daí algum proveito, apenas no sentido de que as suas obras possam ser apreciadas pelo grande público brasileiro, sem terem de passar pelo crivo da prévia revisão ortográfica pelas editoras do Brasil, como tem acontecido até à presente data. Quanto a mim, a língua é meu instrumento de criação e obvimente é algo com que tenho que me identificar. O português do novo acordo ortográfico não é a minha língua, e desta feita, vou mesmo ter que correr o risco de me considerar mau escritor.
in "O Globo" suplemento Prosa & Verso 25-10-2010

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Seminário Homenagem a Henrique Senna Fernandes esta 6ª feira

29 de Outubro, a partir das 14h30 na Casa de Macau de Lisboa, Av. Almirante Gago Coutinho, n. 142 organizado pelo CETAPS (Centre for English, Translation and Anglo-Portuguese Studies), FCSH, Universidade Nova de Lisboa/FCT.
Entre as 14.30 e as 18.30 horas serão apresentadas várias comunicações sobre a obra literária e as mais variadas dimensões da vida do autor, bem como testemunhos pessoais. Serão ainda lidos poemas dedicados a Henrique de Senna Fernandes por poetas de Macau e portugueses. Uma parte dos participantes, mesmo não podendo estar presente enviou os seus textos para serem lidos.
14.30h Sessão de abertura
João Paulo Ascenso Pereira da Silva, Vice-coordenador do CETAPS
Gustavo Augusto de Senna Fernandes, Presidente da Casa de Macau, Lisboa
14.40h Sessões contínuas:
- Ana Paula Laborinho (Instituto Camões, Portugal): Testemunho pessoal
- Rodrigo Leal de Carvalho (escritor): “O Henrique e Eu”
- Vanessa Sérgio (Universidade de Paris Ouest Nanterre La Défense): “Henrique de Senna Fernandes, Um Incansável Contador de Histórias”
- David Brookshaw (Universidade de Bristol): “Senna Fernandes em Londres”
- Maria Antónia Espadinha (Universidade de Macau): “"Conhecer Macau pela Mão de Henrique de Senna Fernandes”
- José Carlos Venâncio (Universidade da Beira Interior, Portugal): “O Escritor do Inconformismo Macaense: Henrique de Senna Fernanades”
- Mónica Simas (Universidade de São Paulo, Brasil): “Macau, Identidade Além do Tempo”
- Gustavo Infante (Universidade de Bristol): “‘Nan Van’: Contos-Lugares de Memória”
- Beatriz Basto Silva (Portugal): Testemunho pessoal
- Michela Graziani (Universidade de Florença, Itália): “Nam Van e a Essência de Cereja. O Sentido da Amizade em Henrique de Senna Fernandes”
- João Basto Silva (Portugal): Testemunho pessoal
- Lurdes Escaleira (Instituto Politécnico de Macau): “Henrique de Senna Fernandes: Um Legado a Não Esquecer”
- João Botas (jornalista, investigador, autor do blog Macau Antigo): Testemunho pessoal
- Lúcia Lemos (fotógrafa e autora da fotobiografia O Olhar de Henrique de Senna Fernandes: Fragmentos, Macau): “Quatro Anos”
- Henrique J. Manhão (Casa de Macau, Califórnia, Estados Unidos da América): “Dr. Henrique de Senna Fernandes – Homem Extraordinário”
- Miguel de Senna Fernandes: Testemunho pessoal
16. 30h Intervalo
- Celina Veiga de Oliveira (Sociedade de Geografia de Lisboa, editora e investigadora): “O Conto na Obra de Henrique de Senna Fernandes”
- António Estácio (Portugal): “Na Peugada de Henrique de Senna Fernandes”
- Margarida Duarte (Instituto Camões): “Ver o Outro – A Pedagogia do Olhar”
- Leonor Diaz de Seabra (Universidade de Macau): “Testemunho (de Amizade)”
- Joseph Abraham Levi (George Washington University, Estados Unidos da América): “Henrique de Senna Fernandes (1923-2010): Um Vulto, um Povo, uma História”
- Vítor Serra de Almeida (Sociedade de Geografia de Lisboa): “O Papel do Dr. Henrique de Senna Fernandes no Ensino em Macau: Os Anos do Liceu Nacional Infante D. Henrique”
- Perpétua Santos Silva (CIES/ISCTE-IUL): "Breve Olhar Sociológico sobre a Obra de Henrique de Senna Fernandes"
- António Graça Abreu (Portugal): Testemunho pessoal
- Rogério Miguel Puga (CETAPS): “Amor e Dedinhos de Pé: Um Bildungsroman Duplo”
18.30h Cerimónia de encerramento:
Yao Jingming (Universidade de Macau): Leitura dos poemas “Baía” e “Filho da Terra”.

sábado, 23 de outubro de 2010

"Shangai" / Xangai: década 1940

O filme é de 2010 e permitiu-me 'viajar' até às décadas de 1930-40 (2ª Guerra Mundial - Guerra do Pacífico, precisamente o meu mais recente projecto sobre Macau).
Passa-se em Xangai, uma cidade repleta de particularidades naquela época, e retrata um período da história com ligações a Macau: a ocupação japonesa da China e a fuga de milhares de refugiados - a cidade tinha várias comunidades estrangeiras - para Macau.
Sinopse: Nos anos de 1940, apenas quatro meses antes dos ataques a Pearl Harbor, um americano viaja para a Xangai ocupada pelos japoneses (para além dos demais países que 'ocupavam' da cidade) e é informado que um amigo foi assassinado. Enquanto tenta solucionar os mistérios sobre a morte, acaba por se apaixonar por uma jovem e descobre que existem segredos ainda maiores do que aqueles que seu governo está escondendo. Declarada a guerra entre Japão e EUA em Dezembro de 1941, os protagonistas abandonam Xangai rumo a... Macau (a referência vem quase no final do filme) à semelhança do que aconteceu com milhares de pessoas nessa época e não só provenientes de Xangai.
Este filme começou a ser planeado em 2008 e esteve para ser rodado na China (a pré-produção chegou a ser feita lá). Os cenários no valor de milhões de euros já estavam prontos quando em cima da hora as autoridades chinesas recusaram a autorização. Hong Kong e Macau foram tidos como alternativa mas as filmagens acabaram por decorrer na Tailândia e em Inglaterra.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

The great typhoon of 1874

Edited version (by Henry d'Assumpcao) of an article published in the Casa Down Under  - Áustrália - Newsletter, vol 20 Issue 4, Sept 2008 by Stuart Braga.
Igreja Sto António
A  grande calamidade. So begins the report of the session of the Leal Senado (the Macau Council) of 29 September 1874, quoted by the prolific Macau historian, Father Manuel Teixeira 1. Writing in 1974 on the centenary of the typhoon, Teixeira described it as the most destructive ever experienced in the history of Macau. As cyclones are to Northern Australia and hurricanes to the southern United States, so typhoons are to the South China Coast. Over the centuries they have brought death and disaster on a huge scale. The horroroso tufão of 1738 was the greatest disaster to have befallen Macau up to that time. About a century later, two typhoons created havoc only a year apart, in 1847 and 1848. By 1847, meteorological records had commenced, and the mercury dropped to 745 mm. The following July, another grande e violento tufão swept the coast of South China.
Macau had already suffered substantial loss of population with large numbers leaving for Hong Kong, occupied by Britain since 1842. Typhoons grew worse, with more buffeting in the next 25 years from typhoons which took barometric readings in Macau down to 726mm in 1862 and 717mm in 1871. Hong Kong was relatively protected from the worst violence of typhoons because of its sheltered harbour. However Macau faced the full force of a typhoon sweeping in from the South China Sea. A scientific journal in 1874 observed, 'Macau fares worst, for it is situated precisely where the typhoon is arrested by the high land of the coast.'2. The article went on to point out that the typhoon had crossed from Hong Kong to Macau in half the time taken by the typhoon of 1871. The low point of the barometer occurred in Hong Kong at 2.15am and in Macau at 3.15am In 1871 the typhoon had taken more than two hours to reach Macau from Hong Kong. So Macau was hit in 1874 twice as fast and even harder than it had been three years earlier.

Porto Interior
On this occasion, the barometer in Macau dropped to 709mm, the lowest pressure ever recorded at that time in China2. While Hong Kong endured a terrific battering, Macau was almost obliterated. C.A. Montalto de Jesus, then a boy of eleven living in nearby Hong Kong, wrote about it a quarter of a century later.3 'As if nature too were bent on the downfall of Macao, a terrific typhoon, its very centre, swept over the ill-fated colony on the memorable 22nd of September 1874; and a fateful shift of the wind from north to east, at the equinoctial spring tide doomed the fairest part of the city to the full havoc of cyclonic blasts and waves. Battered, flooded, Macao was at the same time assailed by pirates.'

Praya Grande
Fires broke out throughout the city, possibly lit by arsonists intent on forcing people to flee from their houses so that they might be looted more easily. Montalto de Jesus went on, 'the lurid glare revealed many an imminent peril in that night of unspeakable horror and tribulation.'
The official report, dated 23 October 1874, lists street by street Chinese houses lost. They totalled 1,1724. Between 4,000 and 5,000 people died and 2,000 fishing and trading craft were lost. On Taipa more than 1,000 bodies were found and another 500 on Coloane, chiefly of fishermen. The value of houses, goods and ships lost came to roughly $2 million, a vast sum at that time3.
The brig Concordia, high but not exactly dry, in a paddy field near Ilha Verde, MacauThe dead were buried in a new cemetery opened for the purpose on Taipa. So great was the devastation that there was speculation that an earthquake probably occurred at the same time as the typhoon.5.
In those days there were no weather forecasts or typhoon warnings. These came later, and the old typhoon signals – 10 large black geometric shapes – are still housed on Guia. They used to be hoisted on a mast when a typhoon threatened, but this elementary system has long since been replaced by radio, television and the Internet. So this typhoon struck very quickly and without warning. Augusto Nolasco told Graciete Batalha something of what happened. On 22 September 1874,
Mud everywhere
'It was a very hot and still night and people were out in the Praia Grande in search of a little fresh air. A full moon … filled the night sky. As people began to make their way home, it started to rain heavily and a strong wind started up. Everyone firmly secured and locked their doors and windows … Never had there been such a strong typhoon. The sea level rose so high that a lorcha [a light vessel with a European hull, and the rigging of a Chinese junk] was washed up close to the cathedral.'

Another view of Praya Grande with Guia in the background
Things grew worse. 'Roofs were blown off and houses collapsed and a great fire swept through Santo Antonio.' Nolasco went on to recount the story of an old couple whose house was unroofed, and as they fled to the church seeking sanctuary, were robbed by pirates. Next morning they found their house destroyed by fire. They ended their days destitute.6
Most of the 2,000 vessels lost were fishing craft, and the Chinese boat people were all but wiped out. Larger vessels were lost too. A Portuguese gunboat, Principe Carlos, was landed in a paddy field 14 miles away to the south3, and Teixeira7 names three other ships that were driven ashore or suffered damage in the Porto Interior.
The loss of ships in Hong Kong was greater than that in Macau, because the commerce of Macau had diminished during the previous thirty years. The London newspaper The Times reported on 30 September that five ships had been sunk, six were missing, three had run aground and another nine dismasted. (30 September 1874). A week later on 5 October the paper printed another long list of vessels damaged which had struggled back to Hong Kong harbour for repairs. It is interesting to note that the British papers reported only the loss of shipping. There is no mention of loss of lives or property. The British were concerned only with commerce.
Destruction of sampans
Montalto de Jesus went on, 'the disastrous typhoon consummated the ruin of the Macanese'3. In the next two years, the Catholic population of Hong Kong increased from 4,520 to 5,250. It is likely that much of this increase, of 730 people or 15%, is the result of an influx of refugees from the stricken Portuguese colony. The enrolment of St Joseph's College, Hong Kong, increased greatly for the same reason. However, whereas the earlier Portuguese immigration of the 1840s was readily absorbed by the rapidly growing Hong Kong, this large influx could not readily be accommodated and they became for many years an underclass. This led to social tensions discussed at some length by the fiery young J.P. Braga, who in 1895 wrote a hard-hitting pamphlet against the injustices experienced by the Portuguese community: The rights of aliens in Hongkong. It was the beginning of a long and distinguished public career.
Destruction of junks
In Macau there was a detailed report on damage to churches and public buildings. The Bishop's Palace was largely destroyed and church archives were lost. The churches of São Lázaro, Santo Agostinho, São Domingos and Santo António all suffered heavy damage, particularly Santo António which was severely damaged by fire. The cathedral too suffered major structural damage.8
When the Leal Senado spoke of 'a great calamity', they didn't know the half of it. Hong Kong recovered fairly quickly, but it took Macau many decades. The economy was already in a poor state, and with the exodus of population, things grew worse. Montalto de Jesus mournfully quoted a pessimistic prediction made soon after Hong Kong was set up in 1842: that Macau would become a bare rock where fishermen spread their nets to dry.3 It would be more than a hundred years before prosperity returned to Macau, longer still before today's casinos brought vast wealth.
Another view of Praya Grande
Nevertheless, Macau would fulfil a vital role between 1942 and 1945 when more than 10,000 British and American people flocked there during World War II, as a calamity far greater than any typhoon overtook Hong Kong – the Japanese Occupation. If Macau had not been there for these refugees, their situation would have been unimaginably desperate. Macau, abandoned by the British for a century, generously gave them relief and safety in their time of need.
References:
1 Padre Manuel Teixeira, O Maior Tufão de Macau, p38
2 Nature, 31 December 1874, p169
3 C.A. Montalto de Jesus Historic Macao, 2nd ed., Oxford University Press, 1984 p423
4 >Padre Manuel Teixeira, ibid, p. 34)
5 Nature, ibid, p168
6 The letter is held by the Lisbon Geography Society. A.M. Amaro, The 1874 typhoon: a Story, Macau (magazine), 1997, pp140-1
7 Padre Manuel Teixeira, ibid, p17
8 Padre Manuel Teixeira, ibid, pp26-28, 42
A note on sources:
The Macau Collection Room of the Macau Central Library, Av. Conselheiro Ferreira de Almeida, contains all the local sources used. I am grateful to Marie Imelda MacLeod, Directora do Arquivo Histórico, for her assistance in locating printed and photographic sources there. Other printed sources are in the National Library of Australia, notably the JM Braga Collection. I appreciate also the efforts made by António M. Jorge da Silva in enhancing the photographs.
Informações adicionais em português neste post: http://macauantigo.blogspot.com/2009/04/tufao-em-1874.html

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A propósito de uma fotografia de uma equipa de Hóquei em Campo: década 1940

Este post é mais um exemplo do quanto o blog Macau Antigo tem sido uma mais valia no partilhar de memórias individuais e colectivas. Sem mais delongas... vamos ao que interessa. Recebi um e-mail do Reinaldo Amarante pedindo ajuda na identificação de uma foto de uma equipa de hóquei em campo tirada em Macau (ainda fez outra pergunta que espero conseguir obter resposta em breve.. talvez até com a publicação deste post). Fiz de intermediário na obtenção da resposta e eis o resultado tal qual tudo se passou no espaço de poucos dias graças à generosidade de João Bosco Basto da Silva. Obrigado aos dois!
e-mail do Reinaldo Amarante:
Caro Amigo João,

Li em tempos um post no "Macau Antigo", onde João Bosco falava de Hóquei em Campo em Macau. Aliás, tive o ensejo de deixar um pequeno comentário sobre o Hoquei feminino. Envio-lhe em anexo uma fotografia não datada de uma equipa masculina onde não aparece nenhum familiar meu. Tenho uma certa curiosidade em saber porque razão ela surge no espólio fotográfico de minha Mãe. Talvez João Bosco consiga identificar os elementos da equipa e por aí eu me esclareça.
Outra questão que lhe queria colocar, a propósito dos posts que colocou sobre o falecimento de Henrique Senna-Fernandes. O meu irmão Mário, é afilhado de Baptismo de uma "Luísa Senna-Fernandes". Será possível saber qual o grau de parentesco dela com HSF, sabendo que deverá ter nascido por volta de 1925 (era amiga de minha Mãe e tinham mais ou menos a mesma idade)?
Muito obrigado. Um abraço. Reinaldo Amarante
e-mail do João Bosco Basto da Silva:
Olá J. Botas

Já estou em condições de identificar a foto sobre a equipa de hóquei de Macau:
de pé, da esquerda para a direita - Reinaldo Angelo, Lourenço Ritchi, Herculano Rocha, Vítor Rosário, Eng. Humberto Rodrigues e Frederico Nolasco;
agachados, da esquerda para a direita - Augusto Jorge, José Santos Ferreira, Eurico Rosário, Armando Basto e Albertino Almeida.
Dessa foto, apenas 4 deles continuam vivos: Vítor Rosário, Augusto Jorge, Eurico Rosário (emigrado na Austrália) e Albertino Almeida. Também estou em condições de informar que essa equipa não era a mais forte e que deve ser dos finais dos anos 40, pouco depois da 2ª guerra. Um abraço. João Bosco
e-mail do Reinaldo Amarante (depois de lhe ter reenviado a resposta do João Bosco)
Caro Amigo, Antes de mais o meu muito obrigado pela identificação da foto. A maior parte dos nomes é-me familiar, quanto mais não seja no apelido. A pessoa que terá feito a minha Mãe guardar a foto é José Santos Ferreira (Adé) que ela dizia ter sido seu treinador em Atletismo, algo que nunca consegui confirmar. Já pensei e tentei adquirir o Vol. Desporto de José Santos Ferreira, Obras Completas de Adé, mas ia adiantar-me pouco, porque, pelos vistos está escrito em Patuá. Eventualmente, poderá ser também Reinaldo Ângelo, porque disse-me uma vez que o meu nome (pouco frequente) era de um amigo. Pode utilizar a fotografia no Macau Antigo.
Relativamente Luísa Senna-Fernandes, já pedi ao meu irmão para ver na sua certidão de baptismo o nome completo da madrinha. Logo que o tiver comunico.
Muito obrigado pelas informações. Um grande abraço. Reinaldo Amarante

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Patuá e Miguel Senna Fernandes

Miguel de Senna Fernandes é um dos rostos que 'teima' em preservar o patuá de Macau...
A lawyer by profession, Miguel de Senna Fernandes is also a playwright, director and linguist dedicated to preserving the Macanese culture. As a founding member of the amateur theatre group Dóci Papiaçám di Macau, literally ‘sweet talk’, Senna Fernandes has written a number of plays in Patuá since the group’s stage debut in 1993. Every year the group’s comedy is a highlight of the Macau Arts Festival, which is set to again dazzle audiences with its 20th staging this May.
“Patuá is a Creole language that fuses Portuguese with Chinese, Malay and other languages,” Senna Fernandes explains. “It was once stigmatised as bad Portuguese. People weren’t allowed to speak it publicly.” Today, among the 20,000 Macanese-born Portuguese in Macau and overseas, only a handful are able to communicate in this highly endangered language. “Before putting pen to paper, I had to learn my ‘mother tongue’. Patuá is a very funny language, phonetically and syntactically. it’s absolutely a language for comedy. That explains why our plays are all light-hearted, topical and, above all, humorous.”
Traditionally, only Macanese would take part in the plays, but since 2000, a chinese character has been added. “Our plays have to reflect all walks of life in Macau. it’s very narrow-minded if we exclude the role of chinese in the play. The Filipino community in Macau is growing. This year, we have an additional Filipino role to show their importance in our society.”
But how do the actors and actresses master this at-risk language so quickly during rehearsals? “Maybe it’s because we are Macanese,” says Senna Fernandes. “We’re of mixed Portuguese and chinese blood blended with strains of everything from Malay to indian. Perhaps our hybrid nature helps us grasp the essence of this hybrid language.”
Excerto de um artigo da revista da Air Macau em 2009 Texto de Chung Wah Chow e fotografia de Gary Mak

Extinção do patuá “não é inevitável”

Uma tese de doutoramento sobre o patuá, que será apresentada nos próximos dias, envolveu trabalho de campo em Vancouver e São Francisco, onde reside o maior grupo de falantes. Muitos deles são idosos e a UM quer documentar o seu legado.
Existem casais de idosos que, no seu dia a dia, comunicam entre si em patuá. Mas não estão em Macau. Mário Pinharanda foi encontrá-los entre a vasta diáspora macaense radicada nas cidades de São Francisco e Vancouver. O investigador da Universidade de Macau (UM), que irá defender uma tese de doutoramento sobre o patuá nos próximos dias, esteve naquelas cidades do continente americano, onde recolheu dados sobre o maquista, tendo efectuado gravações com pessoas que o falam fluentemente.
A recolha sócio-linguística faz parte da pesquisa realizada no âmbito da tese de doutoramento daquele investigador, que se intitula “Estudo da expressão morfo-sintáctica das categorias de tempo, modo e aspecto em maquista”. A tese aborda as variações nas formas de falar crioulo macaense ao longo dos tempos, incluindo uma comparação com o kristang, de Malaca.
Os registos recolhidos deverão “funcionar como base de dados para futuras pesquisas e também para a comunidade em si”, segundo explica Pinharanda. As gravações foram captadas apenas em áudio, mas o áudio-visual deverá ser o momento seguinte da investigação. A documentação imagética torna-se mais pertinente dada a idade da população em causa: “Temos que ser rápidos, eu trabalhei com pessoas na faixa dos oitenta, noventa anos. Na véspera de eu chegar a Vancouver tinha falecido um informante com 107 anos, eu ia muito entusiasmado para o conhecer”, comenta o investigador, que está radicado em Macau desde 1997.
Os macaenses que Mário Pinharanda foi encontrar no Canadá e nos Estados Unidos são, sobretudo, provenientes da comunidade de Hong Kong. Trata-se de pessoas que saíram de Hong Kong nos anos sessenta e que já estão na América há cerca 40 anos. Apesar disso — ou talvez por causa disso - mantêm o patuá em contexto familiar, de uma forma bastante viva. Os dados recolhidos junto das Casas de Macau indicam que a maior comunidade de macaenses residirá na baía de São Francisco.
Com o andar do tempo, torna-se prioritário registar a herança destes macaenses, constituída por elementos como diários, livros de receitas e cartas. Mas, para isso, será necessário que os estudiosos tenham a possibilidade de passar mais tempo entra a comunidade, argumenta Pinharanda: “É preciso a pessoa ter um contacto prolongado com a comunidade, que não foi o caso, eu fui por uma semana, o projecto era assim e não permitia mais. Futuros investigadores têm que ter um projecto que lhes permita uma maior permanência. Até porque as pessoas não vão, de um dia para o outro, disponibilizar as cartas pessoais e coisas assim. Mas era fantástico que as várias comunidades começassem a pensar no sentido do legado, para quem cá fique”.
Os falantes de patuá pertencem a uma “geração bastante mais velha”, sendo que os filhos dessa geração “já pouco falam”, caracteriza o investigador: “Nas entrevistas que lhes fiz iam sempre ‘bater’ nessa questão da perda da língua e das tradições. Por outro lado, achei, estando inserido no contexto norte-americano - onde há tantos grupos minoritários linguísticos e onde há um grande incentivo para manter associações - que há uma camada jovem de macaenses, já nascida lá, e que é muito activa nas associações.”
BOLSAS PARA MALACA. Alan Baxter reconhece que há falantes de patuá, mas que estes não estão em Macau. “Com plenas funções linguísticas, aqui em Macau há cinco pessoas. Há depois muitas outras pessoas que sabem alguma coisa e que conseguem comunicar. Onde há falantes funcionais em maior número é em São Francisco e Vancouver”, revela o director do Departamento de Português da UM.
Com o patuá “à beira da extinção”, Alan Baxter considera que o que lhe acontecerá “vai depender da comunidade, dado que os especialistas podem dar conselhos, mas a própria comunidade fará o que bem quiser com a sua língua”. O responsável valoriza a iniciativa de conseguir a classificação por parte da Unesco do maquista como património imaterial da humanidade: “Acho interessante e poderia fornecer os meios para dar alguma continuidade simbólica ao patuá. O patuá não será reactivado como uma língua com funções plenas, mas pode ser reactivado no sentido simbólico, com mais presença, mais participação por parte dos jovens. Se entre os jovens houvesse um interesse para falar fluentemente o patuá, a sugestão que venho propondo há quase dois anos é que poderíamos criar umas bolsas e mandar alguns jovens a Malaca por uns meses. No regresso, faríamos ajustes no sotaque e no léxico e teríamos alguns falantes do patuá”.
A última ligação do “Ethnologe” lista 6909 línguas, mas há estimativas que apontam para que subsistam cerca de metade no início do próximo século. Baxter argumenta que a comunidade macaense continua a “gostar do teatro e de celebrar a sua cultura, sendo o patuá é parte da cultura local” e não considera, portanto, que seja inevitável a extinção do idioma. Embora seja difícil que venha a ter outro destino: “No século XXI, é cada vez mais inevitável [essa extinção], mas as minorias podem manter as suas línguas e podem utilizar outras línguas para o funcionamento sócio-económico. É uma questão de vontade, mas a língua precisa de funções e a comunidade tem que compreender como é que funcionam os factores condicionantes que vão afectar negativamente a língua, ou de maneira positiva, para aproveitar os efeitos positivos. A língua minoritária não tem de desaparecer, há muitos exemplos no mundo de línguas minoritárias bem conservadas em situações multilingues,” analisa o académico australiano.
Artigo da autoria de Paulo Barbosa publicado no Jornal Tribuna de Macau a 18-10-2010

"Macao: L'enfer du jeu"

Cartaz da Suécia - o título em francês é o original
Filmed in 1939 as "Macao, l'enfer du jeu" with Erich von Stroheim but released in 1942 as "L'enfer du jeu" without von Stroheim. His films were banned in all German-occupied countries, so Delannoy, the director, could not release the film. Instead of shelving it, all scenes with von Stroheim were reshot with Pierre Renoir. The von Stroheim version was rereleased in 1945.

Filme muito atribulado este.... rodado em 1939 mas estreado em 1942 (na Europa) e em 1950 nos EUA (Gambling Hell). Teve duas versões com dois actores diferentes pois o primeiro, Von Stroheim, estava 'proibido' na Alemanha de então... As suas cenas foram rodadas uma segunda vez tendo como actor Pierre Renoir. A primeira versão seria editada depois da guerra, em 1945. 
Em Portugal chamou-se "Labaredas"... talvez porque era essa a imagem do inferno... da Segunda Guerra Mundial. Foi filmado em dois estúdios de França.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Homenagem a Henrique Senna Fernandes 29 Outubro, Casa de Macau, Lisboa

A Casa de Macau em Portugal, em parceria com a Universidade Nova de Lisboa numa iniciativa coordenada por Rogério Miguel Puga, realiza nas suas instalações em Lisboa (av. Almirante Gago Coutinho) ao longo do dia 29 de Outubro - programa ainda em elaboração -, um seminário dedicado ao escritor macaense recentemente falecido. O evento conta já com um grande número de oradores que acederam ao convite e que se fazem representar com estudos inéditos ou já publicados sobre o autor.
Estão confirmados, entre outros, os nomes de Ana Paula Laborinho, António Estácio, António Graça Abreu, Beatriz Basto Silva, Celina Veiga de Oliveira, David Brookshaw, Henrique J. Manhão, João Basto Silva, João Botas, Joseph Levi, Lúcia Lemos, Maria Antónia Espadinha, Rogério Miguel Puga, Yao Jinming. Posteriormente as apresentações serão publicadas em livro.
Organização: CETAPS (Centre for English, Translation and Anglo-Portuguese Studies), FCSH, Universidade Nova de Lisboa/FCT.

domingo, 17 de outubro de 2010

Ponte Cais 16: 1949

Neste local exisitia uma antiga ponte-cais. Em 1947 iniciou-se o processo de reconstrução. Fu Tak Lam, comerciante e proprietário, morador no Hotel Central, desejava construí-la por considerar a obra urgentíssima e de grande interesse para o Governo. Charles Lun Chou, engenheiro civil e construtor, assinou o projecto e encarregou-se da obra de demolição da antiga estrutura e da edificação da nova Ponte Cais no. 16. O edifício foi sucessivamente alterado, ampliado e modificado. Mas foi durante muitos anos o principal lugar de chegada à cidade de Macau.
Fotografias de Jack Birns para a Time Life Magazine em 1949:
um ano depois da inauguração da Ponte Cais nº 16 no Porto Interior
 em baixo: o mesmo local na década de 1960

sábado, 16 de outubro de 2010

João Guedes, jornalista e investigador

Camarada de profissão (e com quem tive o prazer de trabalhar), o João Guedes (jornalista e investigador) estreou-se há alguns meses no mundo dos blogs com o seu "Tempos do Oriente" de onde por vezes reproduzo aqui com a devida autorização alguns dos seus artigos. Para além dos vários livros que tem escrito sobre temas menos conhecidos da história de Macau há vários que escreve semanalmente nas páginas do Jornal Tribuna de Macau uma página tb dedicada à história do território. Pessoas como ele deveriam ser mais apoiadas para que os temas que investiga vissem a luz do dia em forma de livro. 
Porque a homenagem é mais do que merecida, reproduzo artigo sobre a vida e obra de João Guedes publicado na edição em português do jornal Tai Chung  Pou a 29 de Janeiro de 2008. O texto é de Isabel Castro a fotografia de António Falcão.
O investigador presente do passado
São duas vidas completamente distintas, como se fossem as de dois homens, com Macau a marcar o fim de uma e o início de outra, em tudo diferente. Ou então não: a vinda para o território só alterou o método e o objecto. Ninguém pode ser quem não é e João Guedes transportou os hábitos e capacidades para um novo meio.
Já lá vão 27 anos desde que deixou de ser investigador criminal para passar a vestir a pele do jornalista. A verdade é que “o jornalismo é muito parecido, há muita investigação”. Hoje em dia, não tanta quanto gostaria, que a velocidade do tempo não o permite. É o jornalismo do quotidiano que faz os dias. Mas a investigação está lá sempre, de uma forma ou de outra.
Nascido na região de Lamego, há quase três décadas no território, João Guedes, jornalista da Teledifusão de Macau desde o início das operações da televisão, autor de vários livros, apaixonado por literatura e história, sente-se mais daqui do que de outro local qualquer. “É interessante, acaba-se por se gostar de Macau… e ao fim destes anos todos perde-se muito a ligação a Portugal”, sorri. “Vou lá todos os anos, mas é um país que já não tem muito a ver comigo. Tenho a família toda aqui, de modo que Macau é a minha pátria”, abrevia, com uma gargalhada.
Foi precisamente por questões familiares que se mudou para Macau. Para trás deixou a carreira de investigação criminal na Polícia Judiciária, que o levou a passar por Paris e Inglaterra. Em 1981, pediu uma licença ilimitada, que lhe foi concedida. Começava então a segunda vida, a de Macau.
O Gabinete de Comunicação Social era o destino à chegada. “Na altura, estava a formar-se a televisão e fui convidado para integrar a TDM. Estive dois ou três anos na rádio, depois passei para a televisão.” Contam-se um ano na Tribuna de Macau, um período no Correio de Macau e colaborações com outros jornais. Mas o território é significado de televisão, muita televisão.
“Colaborei no lançamento do novo figurino da informação, juntamente com Judite de Sousa, Fernando Maia Cerqueira e José Alberto de Sousa”, conta. “Em 1984, passei a apresentar o resumo da informação na televisão, segmento de notícias emitido, então, diariamente às 18 horas.” Um ano depois, chegava a apresentação do telejornal. Em 1987, começou a dirigir a informação da TDM. Treze anos depois, foi nomeado director de informação e programas portugueses. Desde Junho de 2005 que é assessor da informação para os canais portugueses de rádio e televisão.
Pelo meio, perde-se o número às entrevistas a nomes sonantes da política e da história, umas quantas viagens, programas e documentários sobre questões tão diversas como a presença de Camões em Macau, a história portuguesa no Japão e a vida no final da década de 1980 na Coreia do Norte. Ao trabalho na TDM junta o de correspondente, tanto de televisão como de imprensa, com colaborações para Agência France Press, a revista Sábado, o Hong Kong Standard e o Expresso, entre outros. Foi correspondente da CNN e da portuguesa RTP.
João Guedes tem uma ligação forte à forma de comunicação que a televisão assume, mas gosta também de rádio. “E gosto essencialmente de escrever”, sintetiza. E é aqui que entram os livros e que a capacidade de investigar encontra espaço para fugir aos limites que o jornalismo do quotidiano impõe. Quando chegou a Macau, descobriu que havia muito para descobrir. “As pessoas passavam por aqui um ano ou dois, a história ia-se esquecendo”, conta. “Lembro-me que, quando cheguei, encontrei temas que não fazia ideia sequer que existiam e só as pessoas mais velhas se lembravam de ter ouvido falar.” Depois, havia também os assuntos “tabu”, como o “1,2,3”. “Ninguém falava disso, acabei por escrever sobre o tema. O mesmo se passou com os conflitos de 1922, que já tinham caído no esquecimento.”
João Guedes escreveu sobre temáticas variadas, sempre com os séculos XIX e XX a servirem de enquadramento, e é o autor de um livro sobre uma questão sensível que nenhum escritor de língua portuguesa tinha, até então, abordado: as seitas. “Tive contacto com as seitas de Macau quando estava na Polícia Judiciária em Portugal”, recorda. “Quando cheguei aqui fascinou-me esse mundo. Tinha bons contactos na polícia, fui investigando a história e reparei que não havia nada em português sobre as seitas.” E assim escreveu livro “As Seitas – Histórias do Crime e da Política em Macau”, obra que aborda as associações secretas chinesas em Macau desde inícios do século XIX até 1978.
“Não é um trabalho muito profundo, mas foi o primeiro a aparecer em português. A bibliografia em inglês é extensíssima, mas em português só havia alguns artigos de jornal e um ou outro livro muito antigo que fazia referências às seitas”, analisa. O tema é “fascinante”, porque se trata de “um mundo de facetas, de aparências, de coisas que não se conhecem e, por isso, muito interessante de investigar”, sendo que continua a despertar interesse ao investigador que pediu licença ilimitada para ser jornalista em Macau. “Ainda hoje vou guardando coisas sobre as seitas mas não tenciono escrever mais nada sobre o assunto.”
Sobre outras questões João Guedes poderá ainda escrever mas, diz, está numa fase de “pouca produção literária”. No computador vão-se guardando textos mas não existem datas nem metas para cumprir. É o tempo que corre demasiado depressa e deixa poucas horas do dia para a pesquisa, trabalho do qual sente saudades, quer no papel de investigador, quer enquanto jornalista.
Macau tem pano para mangas para quem se interessar por história. E porque não o presente, investigar o que se passa agora? “Não acho que tenha grande interesse, mais a mais porque é difícil discernir as coisas, está tudo a acontecer muito depressa. Ao se escrever sobre o que se passa hoje corre-se o risco de dizer asneiras”, atira. É que Macau é um enigma.
“Não é possível conhecer Macau”, diz. Os 27 anos de residência a Oriente não acabam com a capacidade de ser surpreendido. “O território tem uma população flutuante muito grande, esta sociedade está em permanente mudança, ainda mais agora com os novos casinos e esta americanização, que traz coisas novas, forma movimentos diferentes”, analisa. “O quotidiano altera-se. Macau está hoje radicalmente diferente do que era antes de 1999, em todos os aspectos.”
Por uma questão de nostalgia, João Guedes “gostava mais do Macau antigo”, mas não vira as costas ao momento presente. “Não tenho nada contra este desenvolvimento. Acho que se está a desenvolver o melhor possível dentro dos condicionalismos que tem, porque Macau é uma cidade pequena e tem investimento a mais.”
É este desenvolvimento que faz com que o trabalho do dia-a-dia continue a ser “aliciante”. “Macau está numa nova fase, em que acontecem muitas coisas, é interessante ir acompanhando, continuam a acontecer coisas que não esperava.” Ao final de tantos anos, a cidade continua a surpreendê-lo. “Quanto mais conheço Macau, mais surpresas acontecem”, constata.
O jornalista que divide o seu tempo entre a televisão e os livros (os seus e os dos outros) descobriu que gostava de escrever ainda em adolescente, quando começou a ser redactor da revista do colégio onde estudou. Tinha uns 13 ou 14 anos e era colaborador da revista “Contr’O Vento”, publicação que acolhia artigos de escritores externos. “Alguns, como Frias dos Santos, eram apenas conhecidos a nível regional. Outros, como António Quadros e Aquilino Ribeiro, eram universalmente reconhecidos e dignavam-se inserir artigos nessas páginas.” Agora, “mais de quarenta anos passados, a honra que tal significa mais se me afigura importante”, diz. “Era um miúdo a redigir artigos tolos e eles os grandes escritores que escreviam coisas sérias e importantes”.
A paixão pela literatura vem desses tempos, “em casa toda a gente lia, havia essa mania”, e embora “a escrita a sério” tenha começado só em Macau, os hábitos de leitura vêm de sempre. Não é fácil fazer a lista de favoritos; Dostoievsky acaba por surgir em primeiro lugar. “Foi um dos escritores que me marcou fortemente. São romances densos, com aspectos sociais intensos, e que ainda tinham a ver com a vida do meu tempo.” João Guedes descodifica a comparação: “Portugal, antes do 25 de Abril, ainda não estava muito distanciado da Rússia do século XIX.”
Tolstoi faz parte também das preferências, bem como “alguns brasileiros”. “Vou enchendo a minha casa de livros. Ficar com o que leio só para mim é um bocado redutor.” Às terças-feiras, João Guedes partilha as palavras que lê com os espectadores da TDM. “Conto às pessoas o que leio e do que gosto.” É a literatura sempre presente. E a eterna ligação ao ecrã.

Os livros de João Guedes
As Seitas – Histórias do Crime e da Política em Macau, Livros do Oriente, Abril de 1991.
Macau Via da Seda, Missão de Macau em Lisboa, 1992.
O Sortilégio de Macau, com fotografias de António Conceição Júnior (inédito)
Laboratório Constitucional, Livros do Oriente, IPOR, 1995
História do Desporto em Macau, Inédito (Aguarda publicação).Instituto  Desportos de Macau, 1995.
Duas Instituições Macaenses (1871–1878–1998) parceria com José Silveira Machado. APIM, 1998
Dicionário da História de Macau (em fase de publicação),Inst. Estudos Portugueses Universidade de Macau.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Transporte "Pêro de Alenquer": anos 20

Pertenceu à Esquadra de Guerra Portuguesa de 1910:
estes dois postais testemunham a sua passagem por Macau no final da década de 1920
Em 1927 o navio de transporte de guerra "Pêro de Alenquer" é enviado ao Extremo-Oriente. Parte de Lisboa no dia 13 de Abril para uma viagem de 11 meses de apoio à esquadra portuguesa no Oriente. Chega a Macau a 22 de Outubro desse ano. Uma viagem repleta de peripécias que o comandante capitão-de-mar e guerra Álvaro de Freitas Morna - que só assumiu a chefia do navio em Lourenço Marques em 29 Julho 1927 - publicou em 1931 na Imprensa da Armada o relatório dessa viagem no livro "Transporte de guerra «Pêro de Alenquer» : relatório da viagem ao Extremo Oriente, 1927-1928".
A 16 de Junho de 1928 o "Pêro de Alenquer" chegou ao Tejo e terminou  a sua missão. Antes deixou em Macau 3 hidroaviões Fayreys para o Centro de Aviação Naval inaugurado a 10 de Novembro de 1927, deixou militares e recolheu outros para regressarem à metrópole, transportou material de guerra (nomeadamente para os cruzdores portugueses que estavam na região) e presos, visitou Xangai e a comunidade de portugueses que ali existia e voltou a Macau de onde partiu rumo a Lisboa a 3 de Maio de 1928.
Na pág. 77 do seu relatório pode ler-se "Macau, embora muito pequeno, é sem dúvida uma das nossas mais bonitas colónias, um verdeiro mimo, pela situação, pelo aceio e conforto, pela vida e movimento que he dá a sua grande população indígena". (...) "É sem dúvida uma terra que não nos envergonha aos olhos dos estrangeiros. (...)
O Pêro Alenquer (na imagem acima em 1946) foi um navio alemão construído em 1913 e apresado em 1916. Serviu nos Transportes Marítimos do Estado, uma empresa estatal criada para gerir a frota de navios alemães e austríacos apresados na 1ª Guerra Mundial. Foi vendido à Armada Portuguesa em 1925, e novamente à marinha mercante em 1929.
Tinha 104 metros de cumprimento e 4450 toneladas de peso. a propulsão era assegurada por uma máquina de E.T. de 1870 h.p. - 1 veio, atingindo uma velocidade de 11 nós. A guarnição era consituída por 90 homens.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Rodrigo Leal de Carvalho recorda Henrique Senna Fernandes

O último adeus a Henrique de Senna Fernandes aconteceu este fim-de-semana com as exéquias fúnebres que levaram muitos dos residentes de Macau a deslocarem-se à igreja de São Lázaro e à Sé Catedral para uma homenagem sentida ao escritor macaense. Um dos testemunhos que solicitei  para o Blog sobre HSF  a pessoas que o conheceram de perto foi Rodrigo Leal de Carvalho.
Fechada a última página da capítulo vida, é preciso começar desde já delinear e efectivar o perpetuar da sua memória e o honrar do seu legado. É este o grande desafio e responsabilidade que se coloca a todos em Macau, governantes e governados, chineseses, macaenses e portugueses. Estátuas, nomes de rua, seminários, bolsas de investigação e, acima de tudo, uma marca na História de Macau que é preciso ensinar aos jovens.
Por mim, vou fazendo o que posso, casos da publicação de testemunhos que passaram ao lado da imprensa local...
HENRIQUE E EU
A notícia da morte do Henrique de Senna Fernandes apanhou-me de chofre. Abalou-me forte e relembrou-me que também eu estou já na linha da frente para a grande viagem; mas teve o mérito de me trazer à memória dias passados cuja recordação o tempo, esse comparsa cruel e inabalável de todos nós, ia fazendo esquecer.
Quando, há mais de 50 anos, passageiro do ferry Tai Loy, desembarquei pela primeira vez em Macau como jovem delegado do procurador da República, o Henrique, então substituto nomeado e em exercício nesse cargo, estava à minha espera, com outros profissionais do foro, na Ponte-Cais nº 16, ao Porto Interior. E a partir de então desenvolveu-se uma saudável amizade, alimentada pela convivência profissional e, mais ainda, por uma afinidade de interesses que até então raramente tinha encontrado nas minhas deambulações por esse mundo de Cristo e do Império: para além das questões profissionais, o mesmo gosto pela literatura, pelo cinema, pela História e pela vivência de um passado de Macau que eu não vivera mas que falava alto à minha imaginação de romancista (então apenas em potência ), e até pela saborosa culinária local, alimentavam largas horas de amena cavaqueira, no meu gabinete, na mesa do Solmar ou até no seu gabinete, ali à Almeida Ribeiro, mesmo na esquina com uma Travessa de cujo nome já me esqueci.
Foi ele quem me abriu o álbum de recordações macaístas que ainda hoje folheio com saudade. Com a sua generosidade tipicamente macaense, abriu-me as portas da sua casa – vivia então e ainda na casa dos pais, (pessoas encantadoras de quem me tornei amigo por direito próprio), na Rua da Penha da cidade cristã – e me iniciou em inúmeras histórias reais ( ou porventura temperadas pela sua viva imaginação de romancista, já então sobejamente revelada em livros publicados: "A-Chan, A Tncareira", ou a publicar: "Amor e Dedinhos de Pé" e a "A Trança Feiticeira".
Mas ainda mais do que estes romances, objecto depois de tratamento cinematográfico em fitas do mesmo nome, encantaram-me as crónicas regulares que escrevia para o então "Notícias de Macau": críticas de filmes, pequenos estudos sobre escritores que eu também tinha lido, recordações da guerra do Pacífico, ou de um passado macaísta que eu não vivera, mas com tão vívida nitidez que me parecia perceber-lhe a cor, os cheiros, os ruídos e os sabores de Macau, a minha pátria de adopção.
Por tudo isto - e por muito mais que as escassas linhas deste “ad memoriam” me não permitem alargar – estou-te, Henrique, muito grato e saudoso. Para toda a família – e em particular para o Miguel, seu primogénito – a minha amizade e as minhas sinceras condolências.
Rodrigo Leal de Carvalho
RLC é Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, na situação de jubilado. Nascido em 1932 nos Açores, viveu em Macau entre 1959 e 1999 (com pequenos interregnos).
A sua faceta de escritos levou-o a escrever até hoje oito livros onde Macau está sempre presente: Requiem por Irina Ostrakoff (1993) ; Os Construtores do Império (1994) ; A IV Cruzada (1996) ; Ao Serviço de Sua Majestade (1996) ; O Senhor Conde e as Suas Três Mulheres (1999) ; A Mãe (2000) ; O Romance de Yolanda (2005) ; As Rosas Brancas do Surrey (2007).