segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Manuel da Silva Mendes (1867-1931): in memoriam

A 30 de Dezembro de 1931 morreu um dos maiores vultos da sociedade macaense da primeira metade do século XX, Manuel da Silva Mendes (MSM). Foi há 82 anos.
Personagem multifacetada que foi (advogado, escritor, filósofo, professor, sinólogo, etc...), fica em jeito de homenagem neste post, apenas uma das suas múltiplas facetas: a paixão pela arte chinesa.
Foi dos primeiros a coleccionar e a estudar a arte da província de Guangdong.  Ao longo da vida reúniu um vasto espólio que inclui cerâmicas de Shiwan, uma grande colecção de pintura chinesa de Cantão, cerâmicas do Palácio do Governo, desenhos e aguarelas de Chinnery, Wattson, Borget, Lam Qua, entre outros. Por ocasião da sua morte a sua colecção foi posta à venda. Os jornais de Macau reclamaram ao governo a necessidade e a importância da aquisição desse espólio. Foi constituída uma comissão para a avaliação da colecção que acabou por concluir que o governo não tinha dinheiro suficiente.Os membros da comissão sugerem então que sejam recolhidos fundos junto de 'capitalistas' chineses locais e que a colecção seja doada ao Museu Luís de Camões o que acabou por acontecer.
Em 1959 o Museu Luís de Camões foi transferido (só a gestão) para o Leal Senado de Macau que ficou responsável pela sua conservação e administração, mediante um subsídio anual concedido pelo governo. O Museu ficava no que é hoje a Casa Garden e encerraria em 1989. Com a construção em 1999 do Centro Cultural de Macau e do Museu de Arte de Macau (MAM), este herdou todo o espólio do antigo Museu Luís de Camões, incluindo a colecção de MSM que é hoje uma das exposições permanentes do MAM e que merece uma visita atenta.
A sua preciosa e valiosa colecção acabaria assim por ser a única (embora não integralmente), entre as grandes colecções da sua época - as de Camilo Pessanha e José Vicente Jorge ‘perderam-se’ para sempre - que permaneceu em Macau, a terra onde já na fase final da vida, mesmo muitíssimo doente, quis regressar para terminar os seus dias. Assim aconteceu e a 30 de Dezembro de 1931 partiu para sempre do mundo dos vivos. Tinha 64 anos.
Desse riquíssimo espólio, destaco apenas uma parte das peças de cerâmica: uma colecção de figuras, algumas em grande escala, de cerâmica de Shiwan (província de Guangdong), produzidas nos anos 20 do século passado. MSM visitou várias vezes Shiwan para estudar e escrever sobre a cerâmica local e tornou-se assim o primeiro coleccionador do mundo a estudar esta forma de arte. MSM foi ainda coleccionador de peças Ming e Qing. Na década de 1920 MSM encomendou ainda figuras em larga escala a Pan Yu Shu e a Chen Wei Yan, os mais famosos mestres de cerâmica de Shiwan naquela época. O advogado convidou Pan Yu Shu para ir a Macau negociar a encomenda de várias obras e pediu ao artista para lhe facultar miniaturas das obras encomendadas. Pan esmerou-se nas miniaturas, antes de as apresentar a uma fábrica de cerâmica em Guangzhou, onde colaborou com Chen Wei Wan, utilizando as miniaturas para produzir as peças em escala maior. Algumas dessas miniaturas estão no Museu de Arte de Macau. (imagens abaixo)


Santo budista, também chamado Luo-Han, que tem o poder de ler o pensamento dos outros quando está em meditação.
Pan Yu Shu - 58 cm

Lao Zi, fundador do Tauismo.
Chen Wei Yan 
48 cm

Hua Tuo - Médico famoso do período dos Três Reinos, fundador da cirurgia na China e que era conhecido como ‘o médico milagreiro’.
Pan Yu Shu 
74 cm

Lu Yu , autor do 'Livro do Chá, era também conhecido como 'O Deus do Chá.
Pan Yu Shu 
91 cm

Yang Gui Fei, concubina do Imperador Xuan Zhong da Dinastia Tang.
Pan Yu Shu
36 cm




Li Tie Guai Um dos Oito Imortais do Tauismo.
Huang Bing 
67.5 cm

Autoretrato de Chen Wei Yan, um dos grandes mestres de cerâmica de Shiwan dos finais do século XIX ao início do século XX.





domingo, 29 de dezembro de 2013

500 anos de Macau

Intitula-se “Os 500 anos de Macau: emergência e desenvolvimento de uma cidade chinesa atípica” e conta, através de mapas e imagens recolhidos pelo académico Victor Sit, toda a história do território (5 capítulos) desde a ocupação dos portugueses no século XVI.
“Conta-nos a chegada dos portugueses, em meados do século XVI, quando se desenvolveu um importante interposto comercial e onde ocorreram mudanças culturais entre o Oriente e Ocidente. Mostra como essa interacção com os locais e o continente ao longo dos anos contribuiu para tornar Macau numa cidade moderna, com uma mistura entre as culturas chinesa e portuguesa”, explicou o autor em Abril de 2012 ao jornal Hoje Macau.
NA: A propósito da chegada de Jorge Álvares - o primeiro navegador europeu a chegar à costa da China (1513) e que neste ano que agora chega ao fim se assinalaram os 500 anos.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Retrato de Macau no século XIX: 2ª parte

(continuação)
Os aspectos económicos
Como já apontámos, a administração de Macau era, de facto, complexa. Paradoxalmente, só no campo económico a situação dos moradores não parecia dramática, apesar dos inúmeros abusos que levavam ao enriquecimento de particulares e ao aumento da dívida pública. Macau não dava contratempos às finanças do império e até lhes acodia de quando em quando, o que não quer dizer que as contas públicas apresentassem desafogados saldos positivos. D. Maria I por alvará régio de 1783, de 8 de Janeiro, já procurara estimular o comércio entre Macau e a Metrópole, tendo o decreto de 15 de Outubro de 1788 dado o exclusivo do comércio chinês a barcos de Macau. Dos vários produtos chineses há a destacar a seda, a porcelana e outros mas, é na verdade, o comércio do ópio ou anfião o produto que dá grandes ganhos, tanto no comércio com estrangeiros como com a distribuição na China em acordos negociados com diversos mandarins.
Em 1796, o Vice-Rei das Províncias do Sul proibiu a importação do ópio, proibição essa reforçada em 1800, o que levou a que o tráfico se tornasse contrabando, em conluios entre os mercadores e os altos funcionários imperiais e até 1820, altura em que os grandes armazéns passaram para Lintin, eles encontravam-se em Macau. Entretanto, a China ditava as regras e cobrava direitos. Já em 1725 o Imperador Yung Cheng limitara a 25 os barcos de comércio de Macau, o que fez que durante mais de 100 anos os nomes dos navios se repetissem para ludibriar tal ordem11, mas as maiores rendas do comércio que passava por Macau iam sempre parar às mãos dos súbditos do Império do Meio. A primeira licença atirar por qualquer navio que aqui aportasse, era feita ao tribunal do Tso-Tang. Depois, então, é que vinham as cobranças do lado português. Do total dos direitos alfandegários, 1/5 era pertença da Coroa mas, desde 1714, o Senado passou a controlar toda esta contabilidade, o que veio até aos inícios do séc. XIX.
Também o Procurador do Senado cobrava uma razoável percentagem pela carga de cada navio, o tesoureiro 2% para emolumentos e ainda havia os lucros obtidos pela venda em leilão dos produtos confiscados e distribuídos em quinhões pelos próprios senadores12. Era uma política de terrorismo fiscal para os estrangeiros não apaniguados que passassem por aqui com interesses comerciais, o que levou mesmo, como veremos adiante, a alguns avisos régios proibindo o aumento das taxas alfandegárias, já ao tempo de Arriaga como Juiz da Alfândega, sobre esse comércio estrangeiro, em nome da oficialmente instituída liberdade de concorrência.
Paralelamente a este processo, tínhamos um outro e ilegal meio de enriquecimento particular à custa do erário público. A fornecedora aqui, era a Caixa Pública que deveria funcionar como seguradora mútua para riscos do mar. Os armadores tanto depositavam, nesta Caixa, dinheiro por empréstimo, nem sempre de primeira necessidade, a juros de 10%, como pediam dinheiro emprestado que, não sendo a fundo perdido, o reembolso ia sendo adiado «sine die» até, muitas vezes, prescrever.
São sintomáticas as cartas reais de reprimenda ao Senado em relação a empréstimos recebidos com ordem imediata de suspensão de juros e instruções de amortização. Muitas vezes estas amortizações não eram devidamente satisfeitas e com a oportunidade de novos empréstimos, agora sim, a uma Coroa falida, a retribuição acabava por se fazer em comendas e outros títulos, garantes de novas mordomias. O comendador Manuel Pereira e o Barão de S. José de Porto Alegre estarão nestes casos.
No que tocava à saída de dinheiros da Caixa, diz Ljungstedt que «a consanguinidade, a amizade e o patronato levam a que os empréstimos aumentem sem exigência de reembolso», o que forçava aquele fundo a não ter qualquer liquidez para acudir a outras dividas. Tentando pôr cobro a este estado de coisas, já em Março de 1799, o Príncipe Regente amnistiara as dívidas até 291.193 taéis, mas não foi esta medida que recuperou a situação. Desde o Ouvidor Lázaro da Silva Ferreira, em 1784, até 1803 ter-se-ão tentado forçar o pagamento de dívidas e juros até 30 dias após a chegada de cada navio com bens do devedor e é já precisamente depois daquela data, com a magistratura de Miguel de Arriaga que se voltou ao ponto das dívidas imparáveis vendo-se nos Livros de Termos Gerais do Senado existentes no Arquivo Histórico de Macau, que raros são os balanços enviados pelo Senado a Goa que não voltam de lá com anotações para correcção, esclarecimentos ou simplesmente reprovados.
Estrutura administrativa
Numa teia administrativa tão emaranhada, resta saber como estava estruturada a gestão pública. Quem efectivamente governava Macau?
Por um lado e como já vimos, tínhamos o podei chinês bem representado pelos vários mandarins e sobretudo pelo de Mong-Ha ou Casa Branca. Todas as negociações com os mandarins passavam pelo Senado. Esta Câmara, era um corpo governativo que não só tinha aquela incumbência como a de se corresponder com todas as potências estrangeiras que alguma coisa tivessem a ver com Macau.
Todos os vassalos livres podiam votar para o governo municipal e era esta a grande novidade democratizante dentro do império português.
O corpo do Senado era composto por:
- 2 Juízes que executavam as ordens senatoriais ou eram Juízo de 1ª Instância do qual se poderia recorrer para o Ouvidor;
- 3 Vereadores que tratavam dos negócios municipais;
- 1 Procurador que desempenhava várias funções, desde porta-voz do Senado junto aos mandarins, era a autoridade civil equivalente ao Regedor, fiscal do movimento de pessoas e mercadorias no Território, até fiscal da construção civil e do planeamento viário.
Dos Presidente e Vice-Presidente falaremos adiante.
Havia ainda um tesoureiro que geria os impostos, que tinha assento no Senado mas não ao lado dos vereadores e quanto ao Secretário, lavrava as actas e outro expediente e o seu cargo era equivalente ao do tesoureiro. Dos outros oficiais municipais ou almotacés sabemos que tinham atribuições de oficiais de justiça e juizes de paz, dependentes do Senado e o homem encarregado da logística militar era o almoxarife.
Juiz da Alfândega era um dos cargos inerentes ao de Ouvidor. No caso de Arriaga, Ljungstedt não o poupa. Vejamos: «A este magistrado foi sempre proibido fazer comércio e os regulamentos reais datados de 26 de Março de 1803 renovam esta proibição que esteve a dormir até 13 de Dezembro de 1824, porque o cavalheiro que esteve durante o período de 22 anos à testa da repartição judicial, veio a Macau destituído de bens com a ambição de enriquecer, mas falhou».
O Senado pagava ainda todas as despesas do Território e comandava a Polícia Municipal, baluarte contra a tentativa de intromissão de alguns governadores. Eudore Colomban diz que só a partir do início do Séc. XIX, os governadores tentam assumir o comando da governação de Macau em favor do poder real e em desfavor do Senado e outros interesses chineses. É com Lucas de Alvarenga que se vê pela primeira vez um propósito nítido de enfrentar os poderes senatoriais, com as suas prerrogativas que ele enfatiza ao longo das suas «Memórias ...» e que se confirmam com o que Andrew Ljungstedt dirá mais tarde. Ao Governador cabia presidir aos actos políticos, militares e económicos, sendo assim o Presidente do Senado. Ganhava 2000 taéis por ano «e casa decente na Praia Grande». Dava conta a Goa de todos os actos da Câmara e quando a sua opinião e a do Juiz coincidiam, sobrelevavam todos os demais votos. Este Juiz togado era o Ouvidor, também chamado Ministro.
A Ouvidoria tinha sido suspensa em 1734 devido a inépcia e permanentes atritos com o Senado, mas é esta mesma instituição que, constatando a necessidade de um juiz letrado em leis, pede à Rainha um novo magistrado. Em 1784 retornam, então, os Ouvidores a Macau com Lázaro da Silva Ferreira e com a intenção de, conjuntamente com o governador, fazerem prevalecer a centralização de poderes. Por inerência do cargo, o Ouvidor era o Juiz da Alfândega, o Juiz dos Feitos da Misericórdia, dos Órfãos, e a partir de 1803 o Presidente da Junta da Justiça. Era o substituto do Governador e o Vice-Presidente do Senado.
Artigo da autoria de Acácio Sousa, licenciado em História e Mestrando em Estudos Luso-Asiáticos

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Retrato de Macau no século XIX: 1ª parte

No séc. XIX o Governador e Capitão-Geral do Território dependia do Vice-Rei de Goa e superintendia um Senado que, por sua vez, deveria executar a gestão pública e apresentar contas àquele representante real. No entanto, iremos ver que esta cadeia hierárquica, por vezes, é apenas aparente ou mesmo claramente quebrada. Com a pretensão da «real governação» em que o Governador venha a ter uma cada vez maior acção sobre o Senado, nem sempre ele é da confiança do Vice-Rei e mesmo a sua nomeação e a de outros altos funcionários escapam-se-lhe e só as assume por recurso. Exemplos flagrantes serão as nomeações e substituições tanto de Bernardo Aleixo de Lemos e Faria e Lucas José de Alvarenga, como da recondução, em 1811, do Ouvidor Arriaga.
1808 map of Macao, Canton, Lantau and parts of Hong Kong by Chretien-Louis-Joseph de Guignes
Na verdade, pressente-se uma luta surda, principalmente no tempo do Conde de Sarzedas, entre este Vice-Rei e a Corte no Rio de Janeiro. O próprio estatuto de Macau favorece estes desencontros. Terra longínqua, incrustada num mundo de velhos mitos e informações fantasiosas, de tradicional má imagem na Corte como se vê nas Provisões Régias de D. Maria, de 1783, assinadas por Martinho de Melo e Castro e muito acenadas por Lucas Alvarenga, enviava, ao mesmo tempo, chorudos empréstimos dos negociantes macaenses a uma Coroa falida, que viriam a ser pagos em comendas e outros títulos.
A situação não de colónia assumida mas, de administração dúbia com as autoridades chinesas e com a existência de um Senado poderoso que, até finais do séc. XVIII deixava apenas para o Governador as atribuições de Capitão-Geral das tropas, tudo isto seria permitido a troco da inexistência de prejuízos que atingissem gravosamente o tesouro real mas, criava obviamente, situações equívocas no que respeita ao escalonamento dos poderes. O Senado não só se assumia como o verdadeiro poder da cidade, em diversos acordos que estabelecia com os mandarins e o Vice-Rei (Suntó) de Cantão, como preferia manter correspondência directa com a Corte, situação que não deveria desagradar ao governo central porque as rivalidades e desconfianças em relação a Goa não deveriam escassear e dai a manutenção dessa linha directa com Macau.
1844
À ambiguidade da situação não seriam alheias a duplicação de funções que aconteceriam entre o Conselho Ultramarino e a Secretaria de Estado da Marinha e dos Domínios Ultramarinos, criada em 1736, o que trará outros impasses com a suspensão do primeiro em 1807, quando a Corte parte para o Brasil e a criação do Tribunal do Desembargo do Paço, em 1808. Se juntarmos a tudo isto os conflitos por ambição aos principais cargos e as dificuldades de comunicação, não eram de estranhar as desconexões no veicular de mensagens. Na melhor das hipóteses, o correio de ida e volta a Goa, demorava cerca de 4 a 5 meses e com a Corte em Lisboa ou no Rio de Janeiro, entre 1 ano a ano e meio.
 
Mapa levantamento hidrográfico de 1804
Macau, nos inícios do séc. XIX é, pois, uma possessão difícil sobre a qual, tanto a Régia Majestade como o Vice-Rei da Índia, viriam, desde Pombal, a tentar deter um mais efectivo controlo mas, denotando visíveis incapacidades face às escorregadias manobras chinesas e do Senado. Uns a não permitirem a perda do controlo e de rendimentos numa terra que consideravam sua e apenas cedida, temporariamente, como entreposto a estrangeiros, os outros, enriquecidos à custa deste entreposto comercial, não só do que carreavam de e para a Metrópole mas, sobretudo, do tráfico do ópio que mantinham num equilíbrio difícil, mas rentável, com os vizinhos dignitários de Cantão.
Macau face à vizinha China
Nas suas relações com a China, isto é, com o Suntó de Cantão, representante do Imperador e com os mandarins, seus representantes aqui em Macau com diversas jurisdições autónomas, como já se disse, a situação caracterizava-se por um equilíbrio instável. Datam apenas de 1784 as preocupações oficiais portuguesas em comprovar a legítima posse do território2. Tanto antes como depois, no entanto, a corrente oficial chinesa era a da usurpação inicial tendo-se permitido aos portugueses, graças a posteriores acordos temporários, irem-se fixando, apenas, para fins comerciais e em condições bem específicas.
Era complexo o protocolo com as autoridades do Império do Meio, não só pela necessidade permanente de uma política de apaziguamento com os mandarins de diferentes graus instalados na periferia da cidadela portuguesa, como principalmente, com o da Casa Branca, em Mong Ha, delegado local do Governador da Província de Cantão. As interferências na política da cidade eram permanentes. Tendo já sido criada, em 1688, uma alfândega chinesa em Macau, em 1736 com a criação do referido mandarinato especial de Mong Ha estabeleceram-se ali, quase, as atribuições de governador.
Por outro lado, as provisões de 1783 passaram a obrigar que qualquer homicida, em Macau, fosse julgado por tribunal português, proibindo assim que caísse na alçada da lei chinesa. De qualquer dos modos, o tribunal chinês de Tso-Tang continuava com uma vasta jurisdição. Intervinha no estacionamento de estrangeiros na cidade, nas rixas públicas, no controlo e aplicação de tarifas a qualquer barco de comércio que lançasse ferros na rada e ainda no contencioso protocolar que se verificasse com os súbditos imperiais. Ficando o Senado com o restante poder, Macau tornou-se numa «pequena república urbana», de governação mista, tendo-se logo verificado em 1738 as primeiras e infrutíferas tentativas régias para controlo da administração municipal. No entanto, nem mesmo as reformas pombalinas de 1774 tiveram êxito, de que as queixas dirigidas por moradores ao Rei, em 1810, são disso um bom exemplo.
Macau e as potências europeias
Em relação às mais poderosas potências europeias, Macau enfrentava, igualmente, grandes problemas. Tendo os portugueses, desde o séc. XVI, a primazia do estacionamento para comércio nestas paragens, Macau era, desde há muito, alvo da cobiça de holandeses, franceses e ingleses. Passando por diversas atribulações, à passagem do séc. XVIII para o séc. XIX encontra-se, mais uma vez, numa situação de difícil diplomacia e novamente verificamos um posicionamento tripartido com o grande império vizinho, entre acordos ora mais ora menos claros, com os estrangeiros, entre a hostilidade ou o aproveitamento para negócios, com Goa e a Corte entre a expectativa ou a recusa de apoio, conforme a necessidade de defesa ou a conveniência de autonomia.
Das várias imposições restritivas do comércio dos estrangeiros com a China, ressaltava o impedimento de residência em Cantão. É assim que vários se procuram estabelecer em Macau ou mesmo ganhar a cidadania portuguesa, enquanto os influentes junto ao Senado de Macau, adoptam uma atitude tolerante e conveniente dando permissão de residência a alguns, fazendo mesmo sociedades mas, face à intromissão chinesa que mesmo nesta cidade apenas permitia a estadia até à concretização do negócio, aqueles surgiam, oficialmente, como empregados dos mercadores portugueses. Àquela data, Macau era um ponto estratégico vital para o comércio asiático. Daí a velha Aliança luso-britânica se tornar uma lâmina de dois gumes para a Nação menos poderosa, Portugal. Com o pretexto de ajuda ou protecção, vinha de longa data o nosso saldo negativo como potência imperial face à Inglaterra. A propósito das já faladas pretensões franco-espanholas à Coroa portuguesa, em 1802 há uma efectiva ameaça de ocupação britânica em Macau a que só uma providencial notícia da paz de Amiens, vem pôr cobro. O caso voltar-se-á a repetir em 1808, como veremos, com a protecção inglesa a Portugal quando das invasões napoleónicas. Na verdade, este país, sem meios e sem homens suficientes para formar um exército capaz na Metrópole, muito menos o conseguiria nas colónias.
 
A organização militar e alguns aspectos demográficos
Em Macau, subsistiam as milícias temporárias ou o recurso às tropas mistas de Goa, onde também muita falta fariam. Já em 1744 o Governador Manuel Pereira Coutinho fizera, por mandado do Vice-Rei, um relatório do estado calamitoso da situação militar8. Esta situação manter-se-ia conforme se pode ver pelos mapas apresentados ao longo dos livros de correspondência do Leal Senado, depositados no Arquivo Histórico de Macau e só a partir de 1810 começarão a chegar de Goa tropas e remessas regulares de armamento.
O comando das forças de defesa pertencia ao Capitão-Geral e Governador mas, a polícia cabia à jurisdição do Senado e mesmo em relação às demais forças nem sempre era muito claro a quem deviam disciplina. No caso das forças marítimas, tendo patentes militares nos comandos dos barcos, era frequente estes prestarem-se a fretes comerciais, muitas vezes aos próprios vereadores. Para além das tropas fixas, a população não deveria diferir muito do que constava, em 1821, numa Representação a D. João VI9. Como primeiro dado a reter, temos o pequeno número de população de ascendência portuguesa, por outro lado não nos são referidos os estrangeiros aqui residentes. Porque não podiam ocorrer em dados oficiais? Talvez. Mas, já vimos, que os que pretendiam negociar em Cantão, geralmente, procuravam aqui acolher-se.
Artigo da autoria de Acácio Sousa, licenciado em História e Mestrando em Estudos Luso-Asiáticos.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Boas Festas/Season's Greetings/祝聖誕節快樂/祝圣诞节快乐

Sino ta rapicá na tudo gréza,
N´altar, candia têm fôgo sandido.
Alma crente, masquí sofrê tristéza,
Nádi sintí esp´ránça cai perdido.
Sâ Natal, j´olá? Céu ficá luzido,
Istréla ta dá cor, mostrá grandeza
Di unga dia nunca isquecido,
Di unga anôte inchido di beléza!
Si têm fé, nádi lô iscurecê.
Nôs sã já uví falá di salvaçám,
Di tánto uví, qui certo logo crê.
Alegrá co Jesus, alma cristám,
Dessá luz di Natal vêm devolvê
Esperánça pa tudo coraçám.

Poema em patuá, “Luz di Natal”, da autoria de Adé, José dos Santos Ferreira (1919-1993)

Postal editado em Macau em 1954
PS: Sabia que a Igreja da Madre de Deus foi inaugurada na noite de Natal de 1603?
Com mais um ano quase a terminar agradeço a preferência demonstrada pelo blog Macau Antigo. Sem vocês este projecto - a caminho dos seis anos de vida - não faria sentido. 
Obrigado e votos de...
Boas Festas / Season's Greetings / 祝聖誕節快樂 / 祝圣诞节快乐
João F. O. Botas 

domingo, 22 de dezembro de 2013

Associação Piedoza: 1835

Associação Piedoza anno 1835... provavelmente refere-se ao Asilo de S. José

Para além dos inúmeros estabelecimentos e serviços sociais mantidos pelas ordens e congregações religiosas, existem também em Macau várias instituições de solidariedade social de inspiração católica mas de carácter laico: Cáritas, Secretariado Diocesano dos Serviços de Assistência Social, Santa Casa da Misericórdia, Sociedade de São Vicente de Paulo e Associação Piedosa Asilo de São José de Macau.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Rua de S. Lourenço

Começa na Rua da Imprensa Nacional e termina na Rua Central. Ficou com o nome da igreja que ali se situa. Para os chineses é conhecida por "Fong Son T'ong Kai", qualquer coisa como, "rua da igreja do vento favorável". Imagem do início do século XX.
 

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Emissão monetária de 20 Dezembro 1999

A 19 de Dezembro de 1999 efectuou-se a transferência da soberania de Macau de Portugal para a China pondo fim a mais de 400 anos de  história. No dia 20 surgiu a RAEM - região administrativa especial de Macau. 
Na emissão monetária desta data surgiram novas notas de 1000, 500, 100, 50 e 20 patacas.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Antologia da Terra Portuguesa

Subtítutlo - O Ultramar Português: Cabo Verde, Guiné, S. Tomé, Macau e Timor. Edição da Bertrand em 1963, 241 páginas. Introdução, selecção de textos e notas de Luís Forjaz Trigueiros. Inclui textos - págs 169 a 190 - de Camilo Pessanha, Joaquim Paço d'Arcos, Barradas de Oliveira, Carlos Estorninho e Pe. Benjamim Videira Pires.
Nascido em Lisboa em 1915, Luís Forjaz Trigueiros foi contista, cronista, ensaísta e crítico. Desempenhou o papel de director do Diário Popular entre 1946 e 1953 e colaborou na página literária do Diário de Notícias. A partir de 1984, dirigiu o Centro de Estudos Luso-Brasileiros do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa. Homem de teatro, foi um dos fundadores do Teatro Experimental de Lisboa e colaborou no Dicionário de Teatro Português, dirigido por Luís Francisco Rebello. Foi director literário de empresas editoras de Lisboa e do Rio de Janeiro. Dirigiu, em 1965, uma Antologia da Terra Portuguesa em 19 volumes quatro dos quais são dele: O Minho, África Portuguesa, Macau e Timor. Organizou, também, as antologias Raul Brandão (1960) e O Natal na Poesia Portuguesa (1987). Sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa e sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras, foi nomeado Doutor Honoris Causa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Morreu em 2000.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Peripécias de uma emissão de 100 patacas

Em 1950, chegaram à administração do Banco Nacional Ultramarino relatórios da filial em Macau que reportavam o aparecimento de várias falsificações de notas de 100 patacas, da emissão em curso nessa ex-colónia. Em resposta, foi comunicado por aviso para a recolha das notas desse valor. Ao mesmo tempo, começou-se a projetar nova emissão de notas para substituir essa denominação. Desde a conceção, passando pela produção e pelo transporte, esta foi uma emissão que sofreu vários percalços até ser colocada finalmente em circulação.
O BNU, através do departamento da Inspecção Geral do Ultramar, enviou dia 28 de setembro de 1950, o pedido de encomenda para notas de 100 patacas a duas casas fabricantes inglesas: Bradbury, Wilkinson & Co. Ltd. e Waterlow & Sons Ltd.. Para efígie a figurar na nota foi selecionada a figura do governador colonial de Macau, Ferreira do Amaral. Como de costume neste tipo de pedido, o banco descreveu os elementos que compunham a nota, desde desenhos, símbolos, marcas de água, tanto para a frente como o verso. Para o verso, optou-se por uma gravura do Arco das Portas do Cerco. De modo a que o fabricante pudesse começar a elaborar os desenhos-modelos, em conjunto com a carta de encomenda seguiram duas fotografias – uma do Arco, outra de Ferreira do Amaral. 
Efígie de Ferreira do Amaral: nunca chegou a circular e no verso a Porta do Cerco.
Curiosidade: a primeira Porta do Cerco é de 1573 e foi construída pelos chineses onde colocaram a seguinte inscrição: Temei a nossa grandeza, respeitae a nossa virtude.
Após o BNU enviar por carta, em setembro de 1950, a efígie, das fotografias e da escolha das molduras, a devolução dos modelos das notas para a emissão Ferreira do Amaral sofreu alguns atrasos. Estes deveram-se à demora na expedição da parte do fabricante e a questões logísticas, relacionadas com o transporte efetuado pelos correios. Os desenhos, as amostras do papel a imprimir e o orçamento foram finalmente recebidos pelo BNU em outubro e novembro de 1950, consoante o fabricante.
Após análise da parte dos Serviços Fiduciários, o BNU atribuiu o contrato para a produção de 300 mil notas à Waterlow & Sons Ltd., por esta apresentar um orçamento mais baixo. A 7 de março de 1951, a Inspecção Geral do Ultramar aceitou a alteração – aconselhada pelo fabricante – da marca de água para o brasão de armas da cidade de Macau em alternativa à utilização da efígie do governador. Esta modificação implicou também nova moldura para a nota. Curiosamente, foram também efetuados pedidos de correções ortográficas a alguns dizeres na nota.
No dia 2 de abril, o fabricante comunicou atrasos no início da produção por motivos de greves dos trabalhadores industriais no Reino Unido. Tal facto conduziu à ausência de fornecimento de papel para a impressão das notas. Adicionalmente, essa escassez implicou um acréscimo no orçamento. A administração do banco assentiu, a título excecional, ao aumento mas somente por metade do valor exigido.
A 11 de maio, o BNU reclamou a demora na entrega das provas definitivas. Nessa mesma comunicação, foi solicitado que se melhorasse a qualidade do papel a utilizar nas futuras notas, de modo a que estas ficassem mais resistentes à humidade. Tal pedido resultou de um relatório da filial de Macau que informava que tal não acontecia com a emissão que, na altura, aí circulava e que também tinha sido produzida pela Waterlow & Sons Ltd..
Em resposta, as provas definitivas das notas foram recebidas pelo banco no dia 29 de maio. Em simultâneo, foi sugerido ao banco a incorporação de um composto de resina (melamine) no papel a imprimir, para resolver a questão reportada da resistência à humidade. Essa operação teria um custo acrescido, ao qual o banco assentiu.
Após o envio dos desenhos da nota para a aprovação do Ministério das Colónias, sucedeu a interrupção da produção das notas, devido a um ofício desse Ministério recebido pelo BNU a 2 de julho de 1951. Este requeria precisamente para que não se utilizasse a efígie de Ferreira do Amaral «por evocar graves incidentes ocorridos há um século», o que faria com que as notas não tivessem uma aceitação positiva da parte da população macaense, tanto a portuguesa como a chinesa.
Como consequência ao ofício de 2 de julho de 1951 do Ministério das Colónias, o BNU solicitou verbalmente aos representantes do fabricante inglês em Lisboa para que se suspendesse a impressão das notas. Estes, dado a urgência, executaram o pedido via telegrama para Londres. A confirmação da suspensão chegou ao banco no dia 5 de julho, indicando o fabricante que ficaria a aguardar até que fosse indicada a nova efígie a aplicar.
Este revês incalculado provocou a paragem do processo de encomenda da emissão e o reiniciar da avaliação dos desenhos. O BNU, no início da projeção da emissão, tinha ponderado duas efígies a aplicar nas notas de 100 patacas. No entanto, a efígie que havia sido preterida era do militar macaense, Nicolau Mesquita, cuja participação na "Batalha do Passaleão" também remetia para o momento histórico que motivou a recusa da parte do Ministério das Colónias da primeira efígie apresentada. Assim sendo, o banco solicitou ao Ministério que comunicasse qual a efígie que pretenderiam aplicar.
A 30 de outubro de 1951, o Ministério das Colónias escolheu a efígie que iria substituir a de Ferreira do Amaral para figurar nas novas notas de 100 patacas. A nova figura passava a ser o magistrado, Brum da Silveira, cujo papel de diplomata teria mais aceitação em Macau. O BNU elaborou nova gravura, tendo por base um retrato reproduzido numa entrada na "Encyclopédia Luzo-Brasileira". A resposta de aprovação do Ministério da nova gravura foi recebida apenas a 18 de dezembro. O envio e comunicação ao fabricante da efígie de Brum da Silveira foram no dia 22 seguinte.
 Ouvidor Miguel Brum da Silveira (1776-1824) tem a particularidade de ter a assinatura de Marcelo Caetano que pertencia à administração do BNU.
A 17 de janeiro de 1952 foi recebida pelo BNU, uma prova de nota enviada pela Waterlow & Sons Ltd., com os desenhos anteriores da nota e substituindo somente a efígie. A resposta com a aprovação da nova emissão Brum da Silveira foi enviada dois dias depois.
No dia 24 de março, o fabricante enviou as provas de notas com a efígie integrada nas molduras da nota, que ficaram iguais às provas da efígie do governador. Tais desenhos continham a situação curiosa do verso manter a gravura com o Arco das Portas do Cerco, que homenageava as duas primeiras efígies selecionadas pelo BNU, quando a frente passava a ter a efígie de Brum da Silveira, que não tinha qualquer relação com o referido monumento.
Nessa mesma carta enviada pela Waterlow & Sons Ltd., foi submetido à apreciação o novo valor do orçamento. Três itens aumentavam o valor: alteração da chapa de gravação; custo de produção devido a atualização salarial dos operários fabris no Reino Unido; custo do papel de impressão. Após receberem o parecer dos Serviços Fiduciários do banco, a Inspecção Geral do Ultramar anuiu ao aumento mas recusou a parcela referente ao custo do papel, alegando que haviam suportado aumentos anteriores e que tinham a indicação, da parte do próprio fabricante, que o papel já estava na sua posse desde julho do ano anterior. O fabricante aceitou os valores indicados pelo banco a 7 de abril.
A 23 de maio de 1952, aquando da comunicação de que as provas estavam em apreciação pelo, renomeado, Ministério do Ultramar, o BNU solicitou pequenas modificações aos dizeres nas notas. Uma das alterações relacionava-se precisamente com a reforma administrativa do Ultramar de 1951, que atribuía o estatuto de províncias ultramarinas às colónias portuguesas. Assim sendo, a expressão que surgia no verso, «Pagável na Colónia de Macau», tinha de ser modificada para «Província de Macau».
Outra atualização era a data de emissão para «19 de Maio de 1952». A nova data implicava também a correção das assinaturas dos corpos gerentes do BNU, uma vez que tinha ocorrido uma alteração na administração a 11 de maio de 1951. Esta alteração tinha recuperado a normalidade estatutária do BNU, após os anos de apoio financeiro do Estado ao banco. A nova orgânica eliminou o cargo de "Vice-Presidente do Conselho Administrativo" – que figurava nas ‘versões Ferreira do Amaral’ da nota – e foi substituído pelo de "Governador". Desta maneira, as alterações implicavam mudanças nos dizeres da nota: na nomenclatura dos cargos e na inclusão de novas assinaturas dos novos membros da administração.  
 Emissão de 1966 semelhante à de 1952 que só começou a circular em 1953 num total de 300 mil unidades
Os desenhos definitivos para as novas notas de 100 patacas foram aprovados e a Inspecção Geral do Ultramar devolveu-os a 27 de junho de 1952 ao fabricante, bem como a concordância com o acréscimo no orçamento devido às alterações dos dizeres.
Após estas sucessivas contrariedades, que implicaram várias alterações ao desenho e repetidos atrasos na execução das notas, o BNU foi, por fim, informado do embarque dos caixotes com as notas encomendadas. Estas partiram de Londres a 17 de janeiro de 1953 com destino a Macau. A conclusão de todo o processo de encomenda ocorreu quando a administração do banco autorizou a transferência do pagamento à Waterlow & Sons Ltd., a 2 de março. A emissão Brum da Silveira foi colocada em circulação em Macau algumas semanas depois.
Todos estes avanços e recuos presentes no processo de encomenda, de produção e de colocar em circulação das novas notas de 100 patacas, refletiram-se localmente em Macau com a ausência dessa denominação, devido à recolha das da emissão anterior.
Todo o desenrolar está também marcado pelos atos de negociação, entre o banco e o fabricante, próprios de uma transação comercial; mas que aqui, nas cartas trocadas, traduzem-se numa linguagem mais contida e formal.
Outro fator que se deteta nesta encomenda são os momentos de alteração administrativa, tanto a nível estatal (quando o Ministério das Colónias passa a Ministério do Ultramar), como a nível da estrutura orgânica do BNU (alterações na administração de 1951).
Para além destes factos materiais, este processo tem presente a componente da conexão sociopolítica do Estado português com a sua, então província ultramarina de Macau. Constata-se essa relação, na medida em que o recordar dos episódios conturbados de 1849 entre Portugal e a China seria algo a evitar de modo a manter uma postura mais de diplomacia para com a população macaense no seu todo. Nomeadamente, a escolha do ‘ouvidor das justiças’ para efígie, reflete essa opção de conciliação entre portugueses e chineses – como foi o caso de Brum da Silveira –, em detrimento de outra mais representativa da ocupação colonial – como era a visão que os macaenses tinham de Ferreira do Amaral. 
Texto da autoria de Nuno Fernandes Carvalho - Novembro de 2012 
Imagens, título e legendas: João Botas


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Mosteiro/Convento das Carmelitas

As Carmelitas vieram de Hong Kong para Macau a 22 de Outubro de 1941, estabelecendo-se na "Vila Flora" (Guia). Com um donativo de uma senhora compraram um terreno em Mong-Há onde pretendiam construir o seu mosteiro. Com o 'rebentar' da Guerra do Pacífico a 8 de Dezembro desse ano o desejo malogrou-se.
Em 1949 o Bispo D. João de Deus Ramalho ofereceu-lhes o Monte do Bom Jesus em troca do terreno de Mong-Há e elas aceitaram. A 21 de Janeiro de 1950 é adjudicada a construção do mosteiro ao construtor civil Oseo Acconci. Na altura da construção foi encontrado um  poço que remonta às utilizações anteriores do espaço. 
O mosteiro foi inaugurado a 2 de Abril de 1951, sendo a respectiva Capela dedicada a N. Senhora do Carmo. A antiga, ali construída cerca de 1740, era dedicada ao Bom Jesus e foi ela que deu o nome ao monte. O mosteiro/convento das Carmelitas foi demolido na década 1970.
 Década 1960

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Traços Impressionistas de Macau

Como era Macau no final da década de 1920 aos olhos de um estrangeiro? Uma das respostas possíveis está neste excerto de um artigo intitulado “Macao, replica of Portugal – an impression of Macao”, da autoria de Bella Sidney Woolf publicado no jornal “The Macao Review Illustrated” em 1929.
Bella Woolf foi autora de obras como “The Twins in Ceylon” (1909) e “How to See Ceylon” (1914). Lady Bella Southorn, como também era conhecida, era casada com Wilfril Thomas Southorn que de 1925 a 1936 foi Secretário do Governo da Colónia de Hong Kong.
O artigo foi ainda reproduzido no Boletim Geral das Colónias (vol. V nº 53 de Nov. de 1929) em Portugal com o título “Traços Impressionistas de Macau”.
«Terras há que se impõem à nossa atenção por certa feição particular. Macau acha-se neste caso, - com o exotismo que a caracteriza. Além disso, Macau sugere-nos a acção de todos esses velhos navegadores portugueses por mares desconhecidos, como o grande Vasco da Gama. A Inglaterra é também uma nação de navegadores e esta circunstância leva-nos a sentir que um elo nos prende a eles. E quanto de interessante há em ver, em mais dum ponto do Extremo Oriente, associados, com os vestígios e as recordações dos seus feitos, aos nossos compatriotas, os velhos nautas lusitanos! A dentro da sua baía, como nas colinas que a cercam, - Macau tem mantido apesar do seu exotismo um puro espírito português que ao longo dos séculos tem conservado inalteravelmente os seus traços. Assim, ao percorrer as suas ruas, numa breve visita, os meus olhos pousando nas frontarias das casas, de graciosas taboínhas verdes corridas sobre as janelas, me ocorreu este velho dizer: Il ne change pas de pays celui qui voit toujours le soleil."
Os portugueses fizeram de Macau, tão cheia de sol, uma pequena réplica da sua pátria. E a verdade é que é deveras admirável que, a poucas horas de jornada, se possa encontrar naquelas colónia um ambiente completamente diverso. Macau vibra de sonoros nomes portugueses; são os das ruas, ao longo das quais fizemos algumas milhas, a Praia Grande, Estrada de Flora, rua de S. Lourenço; e as denominações de certas instituições, como a Escola de Artes e Ofícios, o Orfanato da Imaculada Conceição, a Santa Casa da Misericórdia. A despeito da vizinhança do vasto país que é a China, a que geograficamente está ligada, - Macau não perdeu nenhuma das suas características rigidamente portuguesas, tanto que hoje, como à data da sua fundação, isto é, há quatro séculos aproximadamente, - não deixa de ser uma colónia em absoluto portuguesa. Os confortáveis salões do palácio, onde o Governador e a sua esposa (NA: refere-se a Artur Tamagnini Babosa e Maria Ana Acciaioli Tamagnini) nos fazem uma recepção amável e cortês, - ainda mais avivam, na nossa imaginação, a encantadora sugestão dos países do sul da Europa. Sobre o brunido pavimento em mosaico dessas salas, decoradas de mobília dourada e de velhos brocados, - homens e mulheres, que, pelos nomes que usam, representam algumas das famílias mais ilustras de Portugal, passam conversando na sua língua de sonoro timbre - espectáculo este que tem o que quer que seja dum estranho e fascinante sonho.
 
Sonho que prossegue... cá fora, ao percorrer-se as ruas, ao observar-se o admirável panorama que proporciona a Praia Grande, sob cujas frondes, ao longo de esbeltas avenidas, muitos moços de barba negra passeiam a par de raparigas de negros olhos; e ao visitar as nobres ruínas de S. Paulo que, duma eminência, um memento moris, dominam, entre tantas coisas risonhas e belas, a cidade. De resto, esplêndidos hotéis, escolas, hospitais, estabelecimentos de comércio. Tudo isto vão vendo os nossos olhos, até que chegamos a um jardim de recolhido aspecto, onde as árvores dizem uma venerável velhice, de longos ramos frondosos. Diante de nós está o busto de Camões, o grande cantor dos Lusíadas, que, neste local, longe dos seus, na solidão, compôs aquele poema mundialmente famoso. Da árvore que ensombra o monumento mão amiga ofereceu-me então uma vagem contendo umas sementes castanhas, luzidias, a que os botânicos, na sua peculiar indiferença, pela beleza, dão o nome de Sterculia Lanceolata ...
Para mim, - que me importa? - representa Macau, - a leal cidade, que através dos tempos brilha, forte e altiva como o génio dos homens que a fundaram.»

domingo, 15 de dezembro de 2013

"A Lorcha"

O quadro de Marciano António Baptista, "A Lorcha" foi doado a Macau pelo bisneto do artista, Filomeno, numa sessão organizada pelo Instituto Internacional de Macau, no dia 4 de Dezembro último, no Centro de Actividades Turísticas, durante o Encontro das Comunidades Macaenses 2013.
A entidade que acolheu a pintura é a Associação dos Treze Hongs para a Promoção da Cultura e do Comércio de Macau cujo presidente, William Ho, obteve o concurso de peritos do Museu do Palácio Imperial de Pequim, para apoiar uma equipa na recuperação e renovação do quadro do século XIX. A referida associação foi criada na RAEM para dar a conhecer a histórica reputação de Macau de séculos no relacionamento com povos estrangeiros.
O quadro a óleo com mais de 150 anos é uma peça de inegável valor patrimonial que vai ficar em exibição permanente num museu que está a ser criado em Macau por entidades privadas na zona do Patane, em cujos cais, nos tempos remotos, atracavam os barcos de comércio que iam e vinham de Cantão, transportando os familiares daqueles que negociavam com os comerciantes (“hongs”) que, durante o período de 1757 a 1852, detinham o exclusivo privilégio de trabalhar com as feitorias estrangeiras.
A pintura (60 x 45 cm) foi feita em homenagem ao seu pai que comandava a lorcha que está retratatada e faz parte da memória colectiva da família, tendo figurado tradicionalmente, através de sucessivas gerações, na sala de jantar dos descendentes de Baptista: herdado por Marciano Jr., passou  pela casa de Marciano III (conhecido por Naneli) estando ultimamente na posse de Filomeno Marciano Baptista, bisneto do pintor.  De acordo com Filomeno, o quadro teria de “ir para Macau, local de nascimento de Marciano Baptista, ou para Portugal”, para “uma instituição que pudesse cuidar devidamente dele e exibi-lo”.
Marciano António Baptista (1826-1896), considerado o melhor pintor de Macau do século XIX, aprendeu as técnicas da pintura europeia com o pintor irlandês, George Chinnery, tornando-se seu discípulo, quando este se estabeleceu em Macau, fugido dos credores.  Dizia-se que pintava as cores, em aguarela ou em óleo, sobre os esboços que Chinnery lhe entregava, quando este cumpria os trabalhos encomendados da Companhia das Índias Orientais Inglesas que usava Macau como base dos seus lucrativos negócios com a China.  Em finais de 1840, juntando-se ao maciço êxodo de macaenses para Hong Kong, Marciano Baptista mudou-se com a família para colónia britânica, onde foi professor no St. Saviour’s College e na Victoria Boys’ School.
As suas pinturas iniciais assemelhavam-se no estilo às do seu mestre mas, com o passar dos tempos, ele desenvolveu técnicas e feições próprias. Marciano gostava de pintar o Templo de A-Ma e existem quadros de diferentes perspectivas sobre o tema que, no parecer de peritos de arte, são as pinturas mais apreciadas.  O Museu de Hong Kong conta na sua colecção um quadro sobre esta construção histórica de Macau.  Existem também outros quadros de cenas de rua e da vida marítima da Costa do Sul da China, feitos cerca de 1850, que fazem parte da colecção do Museu de Arte de Macau.  Marciano Baptista pintou também o tecto e o altar das igrejas de Santo António e de São Lourenço.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Jorge Álvares e as origens da estátua

Albertino Dias de Almeida recorda no texto que se segue as origens da estátua de Jorge Álvares que existe em Macau.
"Como nós sabemos, encontram-se por esse mundo fora estátuas de grandes homens que levaram até às mais longínquas paragens os conhecimentos de outras civilizações, os benefícios das suas artes e ciências e a fé cristã, com o fim altruísta de fazer com que partilhassem desses bens temporais e espirituais, num admirável espírito de abnegação, que tantos e tantos portugueses levaram através do Mundo, onde ainda hoje o nome português é relembrado e respeitado. Faltava, assim, nestas paragens, pagar uma dívida de gratidão a um grande português – o primeiro a demandar a China no princípio do século XVI.
«Antes tarde do que nunca!» e, talvez por isso, o Governo da Metrópole achou que era tempo de prestar uma homenagem a Jorge Álvares, encarregando um escultor português de grande mérito, Euclides Vaz – irmão do meu antigo professor do Liceu de Macau, Cândido Vaz – de fazer a estátua do navegador.
Construída em mármore de lioz, com um pedestal em azulino de Sintra, a estátua chegou a Macau em Junho de 1954, a bordo do paquete português «Índia», propriedade da Companhia Nacional de Navegação. A fim de escolher o local mais apropriado para a sua colocação, o então governador de Macau, almirante Joaquim Marques Esparteiro, nomeou uma comissão para se pronunciar sobre o assunto.
A comissão apreciou a opinião do conhecido historiador e investigador, Jack Braga, o qual sugeriu que a estátua devia ser colocada no Miradouro da Estrada D. Maria II, voltada para o mar, pois ficaria de frente para a ilha Lin Tin, onde Jorge Álvares pisara pela primeira vez terra da China. Esta opinião, com muito peso histórico, foi, porém, desvalorizada por dois membros da comissão, nomeadamente, pelo director das Obras Públicas, José dos Santos Baptista e pelo reitor do Liceu de Macau, Pedro Guimarães Lobato, com o argumento de que o local não era o mais apropriado, não só por estar afastado do centro da cidade, como pelo facto da estátua ter sido construída em mármore de lioz e, naquele ponto, estar mais exposta às inclemências do tempo e a brincadeiras de mau gosto. Para ambos, a estátua devia ser erguida numa das praças da cidade. Falou-se também no Jardim de São Francisco, mas, examinados alguns esboços, chegaram à conclusão de que, devido à sua disposição, não se prestava para o fim em vista, sem grande prejuízo da sua estética, tornando-se oneroso o seu arranjo, pois seria necessário demolir a biblioteca chinesa que lá se encontra e construir outra no mesmo jardim.
Finalmente, Luís Gonzaga Gomes, conhecido historiador e escritor macaense, também membro da comissão, disse que, como as estátuas se destinam a ornamentar as praças de uma cidade, portanto, os centros, achava que um dos pontos mais centrais – passagem obrigatória de todas as pessoas que vivem ou visitam a cidade – era em frente do Palácio das Repartições Públicas, à Praia Grande, no começo da então Avenida Salazar.
A comissão submeteu à apreciação do governador os resultados a que chegou, tendo o mesmo dado o seguinte despacho: «Examinando as três hipóteses consideradas, reconhece-se que:
a) o Miradouro de D.Maria II, se bem que haja razões históricas a seu favor, tem o inconveniente de deixar a estátua à acção do tempo e dos homens, como friza a comissão;
b) o Jardim de S.Francisco, a ser usado, implicaria a mudança da biblioteca chinesa, com grande aumento de despesas;
c) na Praia Grande, em frente do Palácio das Repartições Públicas, evitam-se os inconvenientes apontados.
Por estas razões escolho este último local.»

Junto ao Hotel Metrópole e o Solmar no início da década de 1980
Em cumprimento desse despacho, a estátua de Jorge Álvares foi erguida no local escolhido pelo governador, onde hoje, felizmente, ainda podemos contemplá-la, toda inteirinha, muito embora, em tempos idos, tivesse sido «abusada» – deceparam-lhe um braço – pelas diabruras importadas da Revolução Cultural da China, no ano de 1966. E onde está o problema?"
Este sábado cerca de uma centena de cidadãos em Macau reuniram-se junto à estátua e numa cerimónia simbólica assinalaram os 500 anos da chegada do navegador ao estuário do Rio das Pérolas.
Foto de Paulo Godinho, um dos organizadores da iniciativa