sábado, 31 de maio de 2014

Semana da Marinha: anos 50 e 60

Esquerda: Maio de 1950: nesta altura estão estacionados em Macau os NRP's "Pedro Nunes" e "João de Lisboa" (foto abaixo).
Direita: 31 Maio 1968 comandante da defesa marítima e governador
Local: Estátua Vasco da Gama, jardim Vasco da Gama.  

Fotos de AJMN Silva
Em Portugal, desde 1998, o Dia da Marinha celebra-se a 20 de Maio, em homenagem ao feito de Vasco da Gama que neste dia, em 1498, pela primeira vez na história, ligou, por via marítima, a Europa ao Oriente, com a chegada a Calecute, na Índia. Antes de 1998, o dia era celebrado a 8 de Julho, data da partida da armada de Vasco da Gama de Lisboa em 1497. Vasco da Gama tem uma estátua em Macau desde Janeiro de 1911.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

A viagem de Henry Reynolds em 1927

Porto Interior
Neste post apresento partes do álbum de recordações de viagem de um oficial da marinha norte-americana, Henry Reynolds. Adorava viajar e foi isso que fez um pouco por todo o mundo, em especial na Ásia. No registo dessas viagens onde privilegiou as cidades portuárias (China, Macau, Japão, Malásia, Singapura e Filipinas) coleccionou cerca de 200 imagens, entre fotografias e postais. A viagem à China levou-o também até Macau. Ocorreu durante a guerra civil chinesa (1927-1937). tinha começado a 12 de Abril de 1927, seis semanas antes da chegada de Reynolds a Shangai.
Henrry Reynolds was an american navy officer who had a keen interest in navigation, as seen in the numerous vessels photographed in the Far East harbours, and the complexity of his travels which consisted of innumerable cruises between port cities of Asia and SE Asia, and even a trans-Atlantic voyage to Vancouver. With almost 200 views, a few of which are printed in postcard format, his visit to China took place during the Chinese Civil War, which had begun on 12 April 1927 only 6 weeks before his arrival at Shanghai. He arrived Macau on May 29th, took a few pictures and attended a horse race at Areia Preta for an admission of only $2 mop.
A visita a Macau acontece a 29 de Maio de 1927. No território tirou cerca de uma dezena de fotografias, assistiu a corridas de cavalos no hipódromo da Areia Preta e guardou o bilhete de admissão que lhe custou 2 patacas no seu álbum de recordações.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

84ª Feira do Livro de Lisboa

A Livraria do Turismo de Macau vai estar na 84ª edição da Feira do Livro de Lisboa, a ter lugar no Parque Eduardo VII, de 29 de Maio a 15 de Junho.
No pavilhão C25, os interessados podem encontrar uma ampla oferta de livros sobre Macau, a China e o Extremo Oriente, em áreas tão diversas como a literatura, arte, saúde, história, turismo e culinária.
A feira abre às 12h30 nos dias úteis e encerra às 23h, excepto sextas, sábados e véspera de feriado, quando fecha à meia-noite. Nos fins-de-semana e feriados, abre às 11 da manhã.
Este sábado, 31 de Maio, entre as 15 e as 17h, o programa “Terra-a-Terra” da TSF, será transmitido em directo do pavilhão com entrevistas a vários autores ligados a Macau. Também nesse dia acontecem sessões de autógrafos com Rogério Puga (14h), João Botas (16h) e Eduardo Ribeiro (19h).
Outros dias: 1 Junho: Maria Helena do Carmo (15h), Ernesto Matos (17h) e Eduardo Ribeiro (19h). 7 Junho: António Graça de Abreu (17h). 8 Junho: J. Arrimar (17h): 10 Junho: Vasco Bobone (19h30); 14 Junho: I. P. Correia (17h).

quarta-feira, 28 de maio de 2014

30 anos de Estado Novo (1926-1956)

"30 Anos de Estado Novo 1926 – 1956"  é um livro editado em Portugal em 1957 com coordenação de F. Matos Gomes. É manifestamente um instrumento de propaganda do regime que assim evocava três décadas passadas sobre o golpe militar de 28 de Maio de 1926. Macau ocupa o capítulo 7. A partir da página 573 pode ler-se...
“A província portuguesa de Macau tem sido verdadeiro porto de abrigo de milhares e milhares de necessitados. Fundada em 1557, a cidade de Macau encontra-se situada na China Meridional, em dois terços de uma pequena península da ilha chinesa de Heung San, a que os portugueses chamam Anção. Compreende esta província além da cidade de Santo Nome de Deus de Macau, as ilhas de Taipa e de Coloane.
Macau é uma cidade florescente, limpa, airosa e pitoresca. os seus edifícios e tabuletas chineses dão-lhe uma nota de exotismo, que é tanto mais viva e impressionante, quanto é certo que a fisionomia da cidade é tipicamente europeia. Possui largas avenidas, como as de vasco de Gama e de Almeida Ribeiro – a principal artéria da cidade – , bons edifícios públicos, como o Leal Senado, a Biblioteca Pública, a Escola Primária Oficial, o Hospital Conde de S. Januário, o Tribunal de Justiça, o Palácio do Governo e a Capitania dos Portos, Fortes, cheios de recordações, histórias, templos católitos e chineses, hospitais, escolas, etc. constituem um conjunto de grande beleza e grandiosidade.
Macau é um dos mais importantes centros comerciais do Extremo-Oriente. As suas indústrias são importantes, destacando-se a da pesca que emprega cerca de 20.000 pessoas, chegando a atingir um rendimento de 5 milhões de patacas anuais. A indústria dos panchões ou estalos da China, os pivetes, os fósforos, os tecidos, o vinho chinês e os artefactos de malha, constituem as principais indústrias de Macau. O movimento dos portos é intensíssimo. As gravuras que ilustram estas páginas mostram, ao alto, um pormenor do bairro económico; ao centro, o Palácio das Repartições Públicas; e em baixo o Palácio do Governo” .                                                                     PS: as duas últimas legendas estão erradas; trata-se do Hospital de S. Rafael e do Edifício das Repartições. O 28 de Maio era uma referência para o regime e assinalada em todo o território português com pompa e circunstância. Deixou marcas também ao nível da toponímia e de alguns edifícios e/ou equipamentos públicos. Em Macau o espaço conhecido por Canídromo tem a designação Campo Desportivo 28 de Maio. Existia ainda um bairro social com essa designação. Foi construído em 1932 e ficou conhecido por Bairro Tamagnini Barbosa.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Ma Man Kei (1919-2014)

Arquivo SCMP
Político e empresário proeminente em Macau Ma Man Kei morreu esta segunda-feira em Pequim aos 95 anos. Nascido em 1919, (filho de de comerciantes da província de Cantão) no início dos anos quarenta  participou em “actividades anti-japonesas organizadas pelos círculos culturais de Hong Kong e Macau "com grande risco pessoal”, segundo uma biografia oficial que especifica que Ma Man Kei forneceu munições, aço e medicamentos à guerrilha anti-japonesa.
Ma Man Kei foi presidente do conselho de administração de várias empresas em Macau e na China. Chegou à Associação Comercial de Macau em 1950 (vice-pres.) Ocuparia o cargo de presidente durnate vários anos desde 1984. Um anos antes foi eleito para a direcção da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (principal órgão consultivo do governo da RPC) cargo que ocupou por quatro mandatos consecutivos. Teve um papel activo na concepção da Lei Básica e nos preparativos para a transferência de soberania de Macau. Em 1988 publicou um livro de poemas cujo título é uma caligrafia de Deng Xiaoping.
Em 2001 num discurso na Associação Comercial de Macau
Ma Man-kei, 95 years old, a renowned entrepreneur in Macau and senior official of China's top political advisory body, passed away in Beijing on Monday. Ma was a distinguished social activist and close friend of the Communist Party of China. He served as vice chairman of the eighth, ninth, tenth and 11th National Committee of the Chinese People's Political Consultative Conference. He also held positions as permanent president of Macao Chamber of Commerce and chairman of Chinese Literature Foundation. Ma Man Kei was one of Macao's leading industrialists. He was actively involved in drafting the Basic Law for the Macao Special Administrative Region and in the preparations leading up to the Macao handover. 

segunda-feira, 26 de maio de 2014

"Bosco e a China"

"Dom Bosco e a China - Contributo para a História dos Salesianos" pelo Padre Carlos António Kirschner, S. D. B.
 
Na imagem separata do Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau composta e impressa na Tipografia da Missão do Padroado (nº 26 da Rua Central) em Maio de 1970.
João Bosco (1815-1888), fundador da Sociedade de S. Francisco de Sales (1859), conhecida por salesianos, composta por sacerdotes e leigos e vocacionada para a educação infantil, juvenil e ensino profissional, foi criador do designado "sistema preventivo" em educação. Foi canonizado em 1934.
Os salesianos chegaram a Macau em 1906 para tomar conta do Orfanato da Imaculada Conceição. Em 1939 o bispo D. José da Costa Nunes concedeu-lhes licença para erigirem uma "Casa Salesiana em Macau". 
Em Fevereiro de 1949 foi lançada a primeira pedra do Colégio Dom Bosco que viria a ser inaugurado a 10 de Fevereiro de 1951.
Existe uma estátua no jardim da Montanha Russa.

domingo, 25 de maio de 2014

Gastronomia macaense: 3 receitas

Chau chau pele (tacho)
Ingredientes: água e vinagre chinês – q.b.; alho – 4 ou 5 dentes; banha ou óleo – q.b.; carne de vaca – 600 g; cebola da Índia – 200 g; [tong-gu] – 6 a 8; galinha ou capão – 1; [láp áp pêi] – 5; [láp cheong] – 5 a 6 pares; [láp yôk] – 2 a 3 pedaços; mão de porco – 900 g; pele de porco seca – 90 g; repolho ou couve – 2; sal e pimenta – q.b.; tomate – 800 g.
Preparação: Para tirar a gordura da mão de porco deixar ferver em água e vinagre por aproximadamente 15 minutos e deitar fora essa água e vinagre. Demolha-se a pele em água quente. Tiram-se todos os pêlos. Corta-se em pedaços triangulares. Se a pele vier muito suja e preta, lava-se primeiro com vinagre chinês antes de a demolhar em água. Corta-se em pedaços pequenos a galinha ou o capão, o chouriço chinês [láp cheong], a mão de porco, a carne entremeada de porco fumada [láp yôk], as pernas de pato salgado [láp áp pêi], e a carne de vaca. Demolham-se os cogumelos [tong-gu] em água fria, lavando bem primeiro. Lava-se o tomate. Corta-se ao meio e deita-se fora as grainhas. Pica-se bem o tomate. Corta-se a cebola em meias rodelas. Parte-se o repolho em 4 ou 6 pedaços. Põe-se banha ou óleo no tacho. Frita-se o alho. Quando este ficar queimado deita-se for a. Põe-se cebola da Índia. Frita-se e quando estiver cheiroso junta-se o tomate e continua a fritar. Põe-se a pimenta. Mistura-se bem e deixa-se a fritar. Deita-se a pele, a mão de porco, a galinha e a carne de vaca. Deita-se água por cima de tudo (até quase cobrir). Deixa-se ferver por cerca de 60 minutos. Deitam-se então os cogumelos e as carnes secas fumadas [láp áp pêi], [láp cheong], e [láp yôk]. Quando as carnes estiverem quase cozidas é que se deita repolho e se põe sal. Se vir que a água está a evaporar pode-se acrescentar água fervida. Depois desta maratona está pronto a servir e a ser saboreado.

Diabo
Ingredientes: caril de galinha/ou aba grossa – 500 g; [chá siu] e [siu yôk] – 250 g; costeletas de carneiro assado – 300 g; costeletas de porco panadas – 3 ou 4; galinha frita ou assada – ½; lombo de porco assado – 300 g; [siu áp] – 1 inteiro; perú assado – 300 g; pombo assado ou frito – ½; vaca estufada – 500 g; alho – 6 dentes; azeite – 1 colher de sopa; batatas – 600 g; cebola da Índia – 250 g; gengibre azedado – 200 g; gengibre fresco – 50 g; [kiu tau] – 200 g; Worcestershire – 250/300 ml; mostarda francesa – 1 colher de sopa; óleo/banha – 3 colheres de sopa; ovos cozidos – 3 ou 4; sal e pimenta – q.b.; tomate – 350 g; vinagre – 100 ml; vinho doce – 150 ml (Porto).
Preparação: Põe-se um tacho grande ao lume com o óleo. Deita-se alho, gengibre fresco, cebola picada e tomate também picado. Depois põem-se todas as carnes, com os respectivos molhos; cobre-se o tacho, deixando cozer por aproximadamente dez minutos. Abre-se, remexem-se as carnes e deitam-se as batatas e um pouco de água conforme for a quantidade das carnes. Tapa-se outra vez; deixa-se cozer até quase secar a água, acrescenta-se o molho Worcestershire, o gengibre azedado e o [kiu-tau] cortados às fatias. Mistura-se numa tigela o vinagre, as gemas de ovo (esmagadas), o azeite e a mostarda e junta-se às carnes. Deixa-se ferver por cinco minutos, põem-se as claras de ovo (cozidas) cortadas aos bocadinhos e o vinho do Porto e retira-se para uma terrina. NB: Quanto maior a diversidade de carnes, melhor. É muito importante não omitir o pato assado [siu ap] e o molho de caril.

Porco de vinha-de-alho
Ingredientes: açafrão em pó – 3 colheres de sopa; alho – 12 dentes; chili em pó – 2 colheres de sopa; coentro em pó – 3 colheres de sopa; cominho em pó – 3 colheres de sopa; louro – 2 folhas; malaguetas vermelhas – 5 pisadas; óleo – 2 colheres de sopa; pimenta preta em grão – 1 colher de chá; perna de porco – 600 g; sal – q.b.; vinho chinês ou brandy – 250 ml.
Preparação: Pica-se bem com um garfo e esfrega-se toda a carne com sal. Corta-se a carne em pedaços pequenos e coloca-se num recipiente a marinar com os alhos picados, o açafrão, o chili, o coentro, o cominho, as folhas de louro, as malaguetas pisadas, a pimenta em grão e o vinho, por dois ou três dias, tendo o cuidado de todos os dias voltar a carne e picá-la com um garfo. Numa caçarola com óleo quente, junta-se a carne de porco marinada e deixa-se refogar por cerca de 10 minutos. Acrescenta-se água suficiente para cozer a carne em lume brando por 20 a 30 minutos.
in "O Livro de Receitas da Minha Tia/Mãe Albertina”, de Cíntia Conceição Serro, IIM, 2012

sábado, 24 de maio de 2014

Um "souvenir" curioso

Este álbum de "24 choice photographic views" - editado em Hong Kong nos primeiros anos do século XX - intitula-se "Souvenir of Hong Kong, Canton and Macao" e era suposto apresentar fotografias daquelas três cidades. Misteriosamente, e apesar do título, Macau não surge em nenhuma das 24 imagens. Na época a Sternberg editava também postais ilustrados. Curiosidades...

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Tratado das cousas da China e de Ormuz (1569)

Tractado em que se co[m]tam muito por este[n]so as cousas da China, co[n] suas particularidades, [e] assi do reyno dormuz
Na reedição em 2010 pode ler-se na sinopse: Esta obra do missionário dominicano foi a primeira monografia impressa na Europa (Évora, 1569) sobre o Celeste Império (China). Sintetiza um conjunto de notícias que haviam sido recolhidas pelos nossos navegantes ao longo de várias décadas de intensos contactos luso-chineses e dá a conhecer o que viu e sentiu quando esteve em Cantão durante um mês em 1556, partindo de Macau.
Frei Gaspar da Cruz apresenta uma imagem extraordinariamente positiva da China e dos chineses, que, no seu modo de ver, superam todos os outros povos asiáticos «em multidão de gente, em grandeza de reino, em excelência de polícia e governo, e em abundância de possessões e riquezas». Frei Gaspar da Cruz foi um dos muitos religiosos portugueses que no século XVI passaram ao Oriente. Após um curto período de trabalho evangélico em diversos estabelecimentos portugueses do litoral ocidental da Índia, iniciou um largo périplo pela Ásia marítima, que o conduziu nomeadamente a São Tomé de Meliapor, a Malaca, ao Camboja, a Cantão, às Celébes e a Ormuz. É provável que o incansável viajante, no cumprimento de ordens dos seus superiores, estivesse na realidade a efectuar um levantamento sistemático das possibilidades de missionação que se abriam aos dominicanos em terras orientais. Por volta de 1564 regressou a Portugal, tendo provavelmente fixado residência no Alentejo. Nos anos seguintes, aproveitando elementos colhidos durante as suas deambulações asiáticas, Frei Gaspar da Cruz dedicou-se à composição de um extenso Tratado das cousas da China, que seria publicado em Évora, em 1569, pelo impressor André de Burgos, já depois da morte de Gaspar da Cruz.
Alguns exemplos do muito que descreve sobre a China no século XVI
Sobre a criação de patos: "h~uas asas feitas de caniçada (...) nas quais agasalham dous ou três mil adens (...) e porque nem sempre pelo tempo acertam de ficar alg~uas que se nam recolhem, ha por todas as partes muitos bandos de adens brabas, e ho mesmo ha de patos."Gaspar da Cruz diz ainda, que os chineses tinham muito e muito bom trigo com o qual aprenderam a fazer muito bom pão com os portugueses. O dominicano refere, ainda, que os chineses faziam dos porcos muito "singulares lacões, de que levam muita copia os Portugueses pera india quando ia vam por via de trato."
Excerto de artigo de Rui Manuel Loureiro sobre este missionário:
"Partiu para o Oriente em 1548, integrado num grupo de missionários dominicanos, dedicando-se durante cerca de seis anos ao trabalho apostólico no litoral hindustânico. Em 1554 encontrava-se em Malaca, fundando uma casa da sua Ordem, e demorando-se na cidade até Setembro do ano imediato, pois nesta data embarcou num navio de mercadores portugueses com destino ao reino do Cambodja.
O incansável missionário permaneceu durante cerca de um ano em território cambodjano, viajando um pouco através do reino, mas em Dezembro de 1556 estava já no litoral da China, tendo oportunamente conseguido autorização para visitar Cantão, onde estanciou durante cerca de um mês.
Apesar de se terem gorado por completo os seus eventuais projectos de missionação, pois a China permanecia então fechada aos estrangeiros, com excepção precisamente do porto de Cantão, Frei Gaspar não perdeu tempo, e parece ter aproveitado ao máximo a sua curta estada no litoral chinês, calcorreando exaustivamente toda a cidade, observando ruas, casas e templos, trocando impressões com gente oriunda de variados estratos sociais, frequentando andiências dos mandarins, avaliando hábitos e costumes, documentando-se sobre práticas culturais e religiosas, enfim, recolhendo preciosas informações sobre os mais variados aspectos da realidade chinesa.
Paralelamente, o nosso Dominicano entrevistou portugueses bem experientes em assuntos chineses, "pessoas dignas de fé", como ele próprio referirá, chegando mesmo a obter uma cópia de "um compêndio de um homem fidalgo que cativo andou pela terra dentro". Frei Gaspar referia-se ao trabalho de Galiote Pereira, antigo prisioneiro que chegara a Sanchoão em finais de 1552 ou princípios do ano seguinte, depois de passar vários anos em prisões chinesas. Em princípios de 1557 estava novamente de partida, e, depois de escalar Malaca, inicou um périplo pela Insulíndia, visitando nomeadamente o porto de Macassár, antes de regerssar ao litoral do Industão, quase três anos mais tarde. Passou ainda por Ormuz, antes de embarcar em Goa, em 1564, com destino a Portugal. Viria a falecer anos mais tarde, em Setúbal, vítima de uma virulenta epidemia de peste que ajudava a combater.
Em Fevereiro de 1570, duas semanas após a morte de Frei Gaspar da Cruz, o impressor André de Burgos publicava em Évora o célebre Tratado das Cousas da China, que era a primeira monografia exclusivamente dedicada ao Celeste Império a conhecer na Europa as honras da impressão. (...) O relato de Frei Gaspar, de uma forma brilhante, sistematizava as notícias, as imagens e as vivências resultantes de um longo, e nem sempre pacífico, convívio lusitano com a realidade chinesa. A obra do nosso autor, contudo, não se destacava apenas pela riqueza do conteúdo, pelo rigor da informação e pela variedade das fontes utilizadas, já que o Tratado das Cousas da China é atravessado do princípio ao fim por uma atitude de flagrante simpatia em relação às realidades sínicas.
O missionário, ao longo de muitas páginas, elogia quase sem medida a eficácia das formas de governo, a imparcialidade da justiça, a exemplaridade dos castigos, o respeito pelas hierarquias, a habilidade manual extrema, que desenvolve as soluções mais inesperadas para os problemas da vida quotidiana, a caridade e a benevolência das instituições de assistência, o apurado ordenamento urbano, a organização meticulosa do sistema produtivo, etc. Enfim, a China é apresentada aos leitores da obra como um verdadeiro modelo social, digno da maior admiração e interesse, que apenas é manchado pelo facto de os chineses viverem na "ignorância da verdade", totalmente apartados da "fé de Cristo".
O Tratado das Cousas da China parece ter conhecido alguma circulação além fronteiras, pois vários escritores estrangeiros a ele se referirão em anos subsequentes, os mais célebres dos quais seriam talvez Bernardino de Escalante, autor de um Discurso de la navegación de los portugueses (Sevilha, 1577) e Frei Juan Gonzáles de Mendoza, autor da celebérrima História de las cosas más notables, ritos y costumbres del gran reino China (Roma, 1585)."

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Edifício das Repartições / Tribunal: 21 Maio 1951

A 21 de Maio de 1951 ficou concluído o Edifício da Repartições que veio substituiur o antigo Palácio das Repartições. No rés-do-chão foram instalados os Serviços de Fazenda e Contabilidade, no primeiro andar os Serviços de Justiça (Tribunal Judicial da Comarca) e no segundo andar os Serviços de Administração Civil, Administração do Concelho e Tribunal Administrativo.
O edifício projectado por António Lei em 1949 seria formalmente inaugurado em Junho de 1952 aquando da visita do ministro do Ultramar, Sarmento Rodrigues.
Segundo a arquitecta Ana tostões "o edifício compõe‐se de um único volume massivo onde se abrem fiadas de janelas organizadas numa intencional faixa horizontal, que se repete canónica e ritmadamente, conferindo uma presença austera e marcante na paisagem urbana. Com a colaboração dos engenheiros José Baptista, na altura diretor das Obras Públicas, e Zhou Zifan, constitui uma das obras públicas mais interessantes da época porque o desenho se aproxima de uma expressão muito depurada, assente numa clara e racional linguagem clássica, o que lhe confere um deliberado sentido de modernidade. (...)
Actualmente o edifício tem o estatuto de património protegido na sequência da sua designação como “um edifício de valor arquitectónico e artístico” e foi seleccionado para acolher a nova Biblioteca Central. Na fachada pode verificar-se que o escudo português e a numeração romana (1951) foram retirados.
Imagem ca. 1955 com a estátua de Jorge Álvares

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Simbologia do morcego

A profusão de sinais e símbolos em Macau é de tal ordem que alguns têm uma história que passa despercebida à maioria das pessoas. Refiro-me por exemplo ao símbolo das casas de penhor que tem traços que se assemelham à figura do morcego. Neste caso, de asas abertas, tendo por baixo uma moeda. Em muitos casos o fundo é de cor vermelha e as letras douradas.
O morcego é um animal que chupa/absorve sangue. Está assim explicada a razão pela qual o símbolo/figura do morcego está associado a estes espaços. Chamar a si o dinheiro, a fortuna, a prosperidade. Uma prosperidade que também pode ser entendida como destinada aos clientes pois só assim poderão regressar para retirar o bem penhorado.
Agora proponho que visualizem a entrada principal do velhinho hotel Lisboa. Notam alguma relação com o que acabei de dizer?
Pois é, para além de ser vista nas casas de penhores a figura do morcego está bem patente nos traços arquitectónicos do edifício. E não é a despropósito. Na tradição oral do território diz-se que nos primeiros tempos do casino (década 1970) a maioria da população chinesa não entrava pela porta principal do hotel por causa disso. Mas claro que também aqui a simbologia reparte-se entre quem a exibe e quem a usufrui. Nenhum negócio prospera com clientes sem dinheiro...
A este propósito refira-se ainda o efeito 'gaiola' que sobressai do desenho do edifício cuja 'função' simbólica não é mais do que 'fechar' os clientes depois de os convidar a entrar.
Mas a figura do morcego também pode ser vista nos templos chineses. No livro "Pagodes de Macau" o Padre Manuel Teixeira explica o significado da imagem do morcego nesses locais. "O morcego é o símbolo da graça, ventura e felicidade. A razão é engenhosa: o morcego em chinês chama-se fôk su; ora o vocábulo fôk é homófono de fôk, felicidade; em virtude desta homofonia, o morcego veio a ser o símbolo da felicidade".
Curiosidades da milenar cultura chinesa tão rica em simbolismos que tem seguidores em termos de significado na Polónia e em alguns países árabes. Ainda assim, excepções face à interpretação generalizada no mundo ocidental onde a figura do morcego foi associada desde a Idade Média ao medo e ao terror (e aos vampiros) uma vez que os morcegos habitam em cavernas escuras. No México, Irlanda ou costa do Marfim, por exemplo, o morcego está associado à imagem da morte. 
Na África Ocidental é considerado um animal sagrado. Em alguns países asiáticos o morcego fez parte durante muito tempo dos hábitos alimentares, mas nos últimos anos essa prática tem vindo a cair em desuso.
Nota: publicado no JTM a 15.5.2014

terça-feira, 20 de maio de 2014

A Embaixada Mártir

A fixação dos portugueses em Macau que se pensa ter sido pelo ano de 1557, deveu-se em grande parte, não a um interesse directo no comércio com a China, mas decorreu antes da rivalidade existente à época entre a China e o Japão. De facto, as duas nações estavam de costas voltadas e os portugueses aproveitaram essa oportunidade, para servirem de intermediários no comércio.
Macau passava também a ser uma excelente escala na rota da “grande nau” que anualmente efectuava a viagem entre o Japão e a Índia. Aliás, antes de existirem governadores, quem administrava Macau era precisamente o “capitão da nau da viagem”, como lhe chamavam nesses tempos os cronistas e que o historiador Charles Boxer tão cuidadosamente estudou, nomeadamente no seu livro a “Grande Nau de Amacon”. Não é de admirar por isso, que os canteiros que fizeram a admirável fachada das ruínas de S. Paulo tenham sido, e poucos saibam, japoneses. Igualmente japoneses foram os construtores e moradores das casas da Rua da Palha.
Hoje, desses tempos, restam creio que apenas uma, ou duas, que conservam a traça original, junto à embocadura da rua com a escadaria que dá acesso às ruínas. Portanto nessa época, eram os portugueses que serviam de intermediários entre a China e O Japão, comprando nomeadamente a seda chinesa, com a prata abundantemente extraída das minas do Império do Sol Nascente.Mas porquê japoneses construtores em Macau.
A razão está explicada neste livro de Benjamim Videira Pires chamado “A Embaixada Mártir”. Nesta obra, dada à estampa em 1965, embora a edição que tenho aqui seja do Instituto Cultural datada de 1988, o historiador jesuíta relata os tempos conturbados do Japão, à época da unificação do império e da luta entre os “shoguns”, ou seja os grandes senhores da guerra que dividiam o arquipélago nipónico em feudos.
Essa luta apanhou de permeio os portugueses, que acabariam por ser atingidos. É que, principalmente através dos jesuítas, a religião católica encontrava-se na altura em pleno florescimento e alguns “shoguns” tinham mesmo adoptado o novo credo nas regiões que dominavam.
Esta situação verificava-se principalmente no Sul do país e particularmente em Nagazaqui o grande porto onde os navios portugueses ancoravam. Na luta pelo predomínio entre os “shoguns”, alguns deles adoptaram mesmo o catolicismo como bandeira política e saíam para a guerra com os estandartes de Cristo, da Virgem e de vários santos em vez das flâmulas militares. Os que o fizeram porém acabariam por se ver derrotados. Em consequência, os decretos de proibição da religião católica sucederam-se a partir de 1614 e um conjunto de massacres contra cristãos foi tendo lugar nas décadas subsequentes, cada um mais sangrento que o seguinte.
Tudo isto concorreu para que o comércio de Portugal com o Japão conhecesse um fim dramático com o encerramento dos Portos, a fuga dos comerciantes, soldados, marinheiros, e também dos japoneses convertidos. Já depois do fim das relações entre Portugal e o Japão, Macau fez ainda uma tentativa de reabrir o comércio com o Império do Sol Nascente que tinha cessado e arruinado, por isso, a cidade. É dessa tentativa que Benjamim Videira Pires nos fala em a Embaixada Mártir. Uma tentativa fracassada que terminou em mais um massacre, ou seja o de toda a embaixada enviada por Macau, trucidada em Nagazaqui.
Resta lembrar quem foi o autor desta monografia. O padre jesuíta Benjamim Videira Pires nasceu em Torre de D. Chama, Mirandela, em 1916 e ali faleceu, em Janeiro de 1999. A maior parte da sua vida viveu-a aqui em Macau. Exactamente meio século. Licenciado em teologia pela universidade Cartuja, foi ordenado padre em 1945. Em 1948 embarcou para Macau. Este homem que viria a notabilizar-se, sobretudo, como historiador, iniciar-se-ia na escrita com uma biografia, intitulada “Carminda”, obra dada à estampa no Porto, em 1939, seguindo-se-lhe, já em Macau, a publicação, em 1954, de duas pequenas peças de teatro, “Liberdade de Consciência” e “Fé como Grão de Mostarda”. Dedicou-se também à poesia, escrevendo nomeadamente “Jardins Suspensos”, publicado em 1955, e “Descobrimentos: Poesias” de 1958. “Espelho do Mar” encerraria a sua obra poética. De resto distribuiu colaboração na imprensa local também portuguesa, publicando várias monografias sobre Macau. Uma obra que merece também referência é “Portugal no Tecto do Mundo”, onde relata a descoberta europeia do Tibete, protagonizada pelo padre Jesuíta, português António de Andrade em 1624.
Artigo da autoria de João Guedes publicado no seu blog Tempos d'Oriente em Junho de 2010
Nota: aos títulos mencionados por JG acrescento mais dois: "Taprobana e mais além... presenças de Portugal na Ásia" (1995) e "A vida marítima de Macau no século XVIII".

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Xavier Roquete, Marta Merop e Santa Casa

O que hoje se conhece por Travessa do Roquete começou por se chamar Rua do Roquete. Vai do Largo do Senado, ao lado do edifício da Santa Casa, até à Sé. Francisco Xavier Roquete nasceu em Lisboa e era piloto da praça de Macau. Morreu em Calcutá (ca. 1826) e deixou à Santa Casa uma herança de 62.220 patacas, o maior legado de sempre. O testamento é de 1812.
Macau foi durante os primeiros três séculos da sua existência uma terra democrática por excelência. E - ó ironia das coisas - foi com o advento do liberalismo, que esse regime democrático se afundou para não mais se erguer. Durante três quartos de século (1553-1623) não houve aqui governador; e quando este apareceu era um simples Peng-Táu, ou seja comandante militar.
O Senado, eleito anualmente, era o órgão da administração. A S. Casa da Misericórdia, mais velha que o Senado uns 15 anos, não recebeu, antes deu lições democráticas a este. As eleições eram inteiramente livres e à mesa eleita é que estava confiada a assistência pública.
A Misericórdia existia em todo o espaço português, quer metropolitano, quer ultramarino. A de Lisboa, fundada pela rainha D. Leonor sob a inspiração do bispo Contreiras, tinha o seu regulamento, que foi o modelo de todos os outros.
Macau possuía um regulamento próprio; mas quando em 1626 os irmãos examinaram os compromissos das Misericórdias da Lisboa e de Goa, acharam que o seu era «muito diminuto, confuso e indigesto» e então resolveram reformá-lo. Em Janeiro de 1627, foram eleitos 12 adjuntos que com os outros irmãos resolveram adoptar o de Goa, mas com ligeira modificação, conforme «a qualidade e usança da terra». Hoje diríamos, «conforme os condicionalismos da terra».
Quais eram esses condicionalismos? A vida económica e financeira dependia única e exclusivamente do comércio, de tal forma que, segundo o dizer pitoresco dum bispo desta diocese, «tudo em Macau comerciava, inclusive os mortos, pois os legados pios eram ordinariamente deixados com a condição de andaram a risco de mar.
Que quer dizer risco de mar? As instituições públicas, quer civis quer religiosas, e os indivíduos particulares empregavam o seu dinheiro no comércio marítimo com lucros bastante compensadores. Estes eram tão elevados que muita gente contraía empréstimos com 20 e 25% de juro para colocar esse dinheiro a risco. Ora este risco era muito real, pois o naufrágio duma nau de prata ou o seu apresamento pelos holandeses, um assalto de piratas a um barco, uma viagem desastrosa significava a ruína de muitos, reduzindo os ricos à miséria.
Os chefes de família andavam embarcados, deixando as suas casas abandonadas por 6 a 8 meses cada ano. Quando o barco se perdia, entrava nesses lares a viuvez e a orfandade com todo o seu cortejo de misérias físicas e morais. Estes condicionalismos chamaram desde o início a atenção da democracia macaense por meio do seu democrático Senado. Foi este, que, nos direitos da cidade, consignou percentagem para a Misericórdia, o Convento de S. Clara e Ordens Religiosas. Fundaram-se os cofres dos Pobres, do Senado, do Cabido, etc., para acudir a esses casos desesperados. Muita gente deixava legados à S. Casa para com os juros socorrer os pobres e os órfãos, para dotes de casamento de raparigas pobres e ainda para missas, festas, funerais, cera e azeite para a lâmpada do SSmo. etc. Povo essencialmente religioso, providenciava não só às necessidades materiais, mas também às espirituais da comunidade.
Foi para isso que a Misericórdia instituiu os seus fundos, segundo escreveu o nosso saudoso amigo Dr. José Caetano Soares: «Quer dizer, a idea de criar fundos de previdência a que os moradores pudessem recorrer por meio de empréstimos, era não só reconhecida, como até apoiada por todos, e desde que o Senado, órgão principal da administração assim dava o exemplo, lógico seria, que proceder análogo fôsse também adoptado na Misericórdia, tanto mais que cedo os recursos acusaram relativo desafôgo, devido em parte à percentagem anualmente consignada nos direitos da cidade, mas na maior parte, a legados e outas doações particulares.
Ora, se quanto à Misericórdia, o sistema, mesmo em princípio não deixava, já então, de ser reputado extremamente perigoso, na prática, dada a maneira como durante algum tempo ia ser aplicado, com honestidade e cautela dignas do maior elogio, grande soma de benefícios trouxe de facto à Instituição, que nos fins do século XV possuía já em giro para cima de 50.000,(tael, unidade de peso equivalente a 37,5 gr. de prata fina, ou seja na moeda local de hoje, $1,55). Verdade é, que à dedicação e escrúpulo com que os assuntos da Misericórdia eram assim tratados, não podia ser estranha a cuidadosa escolha de ordinário feita nas eleições das Mesas, constituí das quase sempre pela gente mais abastada e presididas em geral por individualidades de categoria, no lugar de Provedor, sendo frequentes os Capitães Gerais e os Bispos.
É deste conjunto de circunstâncias em extremo favoráveis, que grande desenvolvimento advem naturalmente aos serviços, a abranger em dentro em pouco: assistência a doentes dos 2 sexos no «Hospital dos Pobres», protecção a infância na «Casa dos Expostos», asilo para lázaros, assistência domiciliária com dinheiro e géneros aos velhos e desvalidos, recolhimento para órfãos e desamparadas, além de tantos actos e funções meramente de culto, o que era seguramente menos importante. Ainda à influência e auxílio da Misericórdia ficou a terra a dever o fisico da cidade, contratado pelo senado, mas ao dispor de quem desde logo ia ser pôsto o hospital e a competente farmácia».
Ljungsted, no seu Historical Sketch pp. 40-41, escreve acerca da S. Casa:
«Dona Leonor, esposa do rei D. João II, fundou em Lisboa em 1458 uma Irmandade de misericórdia, conhecida pelo nome de «Confraria de Nossa Senhora da Misericórdia». O alicerce da Santa Casa da Misericórdia, em Macau, foi lançado em 1596, e o seu primeiro provedor foi Melchior Carneiro, governador do Bispado de Macau. Auxiliar os indivíduos cujos meios de subsistência eram mui pequenos e insuficientes para manter uma família numerosa, socorrer os doentes pobres de certa respeitabilidade e aqueles que com relutância sairiam à rua para pedir esmola, sustentar órfãos e enjeitados-- tais são os sagrados deveres que esta digna sociedade professa cumprir. Em todos os paises onde os portugueses se estabelecem, logo que eles têm uma igreja, pensam em formar instituições iguais àquela de que falamos.
Em 1617 foram formuladas novas regras para a sua administração e em 1649 foram elas confirmadas por D. João IV, que tomou a Santa Casa da Misericórdia sob a sua imediata protecção. Em conformidade com o compromisso de 1627, os membros colectivos nomeiam eleitores, os quais escolhem um provedor, um secretário e tesoureiro, com dez vogais para formar uma Mesa de treze. Os indivíduos assim escolhidos têm liberdade de regeitar o cargo ou de aceitar as suas respectivas funções pelo tempo de um ano, que ter mina a 3 de Julho. O provedor, com o apoio da maioria da Mesa, toma certas resoluções; mas em alguns casos, tais como a eleição de novos membros, precisa-se da reunião da assembleia geral. Há cerca de 15 anos só os portugueses ou os seus descendentes podiam ser admitidos; mas desde 1821, seguiu-se o sistema contrário.
A Mesa reune-se duas vezes cada semana numa sala espaçosa, não longe da sua igreja dedicada a Nossa Senhora da Misericórdia. Os membros desta irmandade não estão obrigados a contribuir para a formação de fundos produtivos; eles tratam apenas da administração. Certos artigos volumosos do comércio são sujeitos ao pagamento de um imposto aduaneiro adicional de 1%, sendo metade deste rendimento recebida pelo tesoureiro no fim do ano; a outra metade vai, como dissemos, para o mosteiro de Santa Clara. Em 1833 esse rendimento subiu a 3.806 taéis; além disso, a Mesa administra todas as somas que são deixadas (à Santa Casa) para fins bem definidos por escrito por pessoas vivas ou defuntas. Executar conscienciosamente a vontade do testador ou doador é um dever inviolável de todos os homens honestos, mas é ainda uma vantagem para uma associação caritativa. Porém há queixas amargas dum comportamento contrário:--«O provedor dissipa e esbanja o dinheiro deixado pelos testadores em benefício das suas almas, e os legatários são privados dos seus bens».
Aceitam-se riscos de mar sem prudência, e por uma criminosa cumplicidade na cobrança perdem-se tanto o capital como os juros. Uma irmandade que quiser esforçar-se para se ilibar destas acusações, deve cumprir a sua obra de sustentar crianças e órfãos; de salvar da morte, em troca de insignificâncias dadas aos desgraçados pais, as crianças chinas; de auxiliar os pobres, que forem membros respeitáveis da comunidade, com socorros periódicos em dinheiro ou arroz, bem como com medicamentos nos casos de doença».
As crianças enjeitadas confiadas às Canossianas
Em 1876, a Sta. Casa confiou os Expostos às Filhas de Caridade Canossianas, que tomaram conta deles, a princípio no próprio edifício dos Expostos e, mais tarde, no Asilo da Sta. Infância, em Sto. António.
Os termos do acordo, redigido pela superiora, foram os seguintes: 1º Que a contribuição anual da Santa Casa não será menor de 750 patacas anuais, só para sustento e vestuário. Qualquer despesa extra ficará a cargo da Sta. Casa.
2.º Que a Comissão Administrativa se obriga a receber de volta as enjeitadas, se por qualquer eventualidade as religiosas canossianas se retirarem de Macau, ou quando as enjeitadas, uma vez chegadas a idade de se emanciparem, quizerem voltar à Santa Casa, ou se esta Administração faltar ao pagamento devido da anual contribuição.
3.º Que a contribuição não será diminuída, no caso de alguma morrer ou ser colocada a servir.
4.º Com a dita contribuição obriga-se esta congregação a sustentar não menos de 20 enjeitadas, deixando toda a faculdade de substituir outras, que sejam, porém, de bons costumes.
5.º Em caso de doença o custo dos medicamentos será à custa da Santa Casa e se o mal for contagioso será permitido enviá-la ao Hospital da Misericórdia.
6.º A congregação obriga-se a dar educação gratuita às enjeitadas, segundo a condição delas, isto é, instrução catequística, estudo simplesmente elementar, trabalhos de agulha e manuais. Julga-se inútil pôr aqui que as enjeitadas... devem vir providas das coisas necessárias para uso próprio».
A 8-9-1876, os expostos da S. Casa da Misericórdia foram transferidos para a Casa de Beneficência das Irmãs Canossianas.
Travessa do Roquete no século 21
Uma grande benfeitora da S. Casa e dos Conventos
Marta Merop é a protagonista dum romance de Austin Coates, intitulado «City of Broken Promises»--«A Cidade das Promessas Quebradas», ou seja, Macau.
Na introdução desse romance, que pretende ser histórico, lê-se: "Tendo por teatro a antiga colónia portuguesa de Macau na costa da China do Sul, durante o período áureo da Companhia das Índias Orientais e do comércio do chá, City of Broken Promises conta a história duma das mais famosas mulheres nos anais de Macau. Chinesa de nascimento, abandonada nos degraus duma igreja poucos dias depois de vir ao mundo, Marta Merop foi vendida para a prostituição na idade de treze anos. Analfabeta, sem nada de seu, e obrigada pelas rígidas convenções dos tempos a permanecer perpetuamente emparedada em casa do seu dono, tornou-se a mulher mais rica da costa da China e a maior benfeitora pública de Macau. Como ela conseguiu isto, é o que nos conta esta autêntica novela dos primórdios do comércio ocidental com a China em que nenhuma mulher europeia podia entrar na China e em que a Companhia das Índias Orientais proibia aos seus empregados casar com mulheres indígenas. Nas condições ambivalentes de Macau multi-racial, Austin Coates reconstrói vividamente os anos cruciantes da vida de Marta, de 1780 a 1795, durante os quais ela foi a amante dum oficial da Companhia das Índias Orientais de descendência anglo-holandesa, Thomas Kuyek van Merop, filho do primeiro presidente da Companhia Lloyd e primo de Jeremias Bentham".
O livro de Coates é um romance empolgante; mas tudo o que diz acerca da sua heroína nada tem de verdadeiro, senão a sua existência. Acresce que ela não era amante, mas legítima esposa de Thomas Merop. Marta declara no seu testamento que casara à face da Igreja com o inglês Merop. Este morreu cedo. Adoecendo gravemente em Macau, embarcou num navio, que o conduziu a Londres, onde faleceu. Sendo riquíssimo, deixou grandes somas de dinheiro às suas duas irmãs e a dois primos e a Mr. Rous, Administrador dos seus negócios em Londres. No seu testamento declara: "A minha querida esposa Marta da Silva deixo a soma de dez mil libras e a minha casa na Rua do Hospital e toda a mobília. Se ela mudar de ideias de passar a vida em Macau e vier para a Europa, deve receber mais três mil libras". Ela não mudou de ideias e passou toda a vida em Macau, onde faleceu na sua casa, na Rua do Hospital, a 8 de Março de 1828, sendo sepultada na capela-mor de Convento de S. Francisco. No seu testamento, lavrado a 3 do mesmo mês, diz: "Declaro que sou moradora e natural desta Cidade do Nome de Deus na China, filha de Pai e Mãe gentios. Item declaro que fui casada com Thomas Merop ora defuncto in facie Ecclesiae, segundo manda a Santa Madre Igreja. Item declaro que deste Matrimonio não tive filho algum». Marta Merop amava a sua terra de Macau, à qual legou toda a sua fortuna e amava também Portugal. Basta dizer que, quando a 18 de Outubro de 1805, se fez em Macau uma subscrição para auxiliar o Governo Português, o governador de Macau contribuiu com 500 patacas ao passo que Marta deu mil.
A S. Casa da Misericórdia quis manifestar o seu perpétuo reconhecimento a esta sua insigne benfeitora, mandando colocar o seu retrato, a corpo inteiro, na sala das sessões.

José Tomás de Aquino, em carta dirigida à Mesa Directora da S. Casa, pedia desculpa quanto à demora dos retratos de Francisco Xavier Roquete, que legou $62.000 a essa instituição e de Marta da Silva Merop; os quais foram executados pelo retratista china Vo Qua, «mas sob o meu contorno e direcção», diz ele. Foi esta senhora uma das mais ricas, senão a mais rica, que teve esta cidade e, sem dúvida, a sua mais generosa benfeitora. Ainda hoje a S. Casa e o Colégio de S. Rosa de Lima continuam a beneficiar da sua generosidade. Bem merecia que o seu nome figurasse numa via pública, como figura o de Francisco Xavier Roquete na «Travessa do Roquete».
Largo do Senado; década 1970. Foto Lei Chiu Vang
Santa Casa em 1915: é ainda visível no topo da fachada o busto de D. Belchior Carneiro. Foto M. Russel
Asilo de órfãs
Ljungstedt escreve: «A irmandade da Misericórdia pensou desde o princípio em instituir um estabelecimento desta espécie, mas não encontrou meios para o tornar durável. Em 1726 fundou-se uma instituição temporária para trinta viúvas e órfãs que foram aí recolhidas e sustentadas; as órfãs eram instruídas para serem mães de família. Uma das órfãs - a mais necessitada - era anualmente escolhida para receber um dote nupcial, que consistia em meio por cento sobre os direitos de importação, que o Leal Senado punha de parte para esse fim. Esse meio por cento subiu a 406 taéis, mas em 1726 chegava apenas a 60 taéis. Desde essa época ficou suspensa a instituição até 1782, quando a irmandade da Misericórdia fez uma proposta para estabelecer um novo asilo de acordo com o Leal Senado, proposta esta que foi aceita. Deu o Senado quatro mil taéis e o nome de Recolhimento de Santa Rosa de Lima.  Este capital aumentado com generosos donativos e legados, é dado a juros a risco de mar. Conforme o produto desses juros regulava-se o número de meninas, que podiam ser admitidas. Nenhuma era admitida sem o consentimento o bispo que é quem nomeava um capelão (pois há um capela na casa), um inspector, e uma mulher de boa reputação para regente da comunidade. Uma mestra ensina a religião, ler, escrever e obras de agulha. As meninas cujos pais podem pagar pelo sustento, alojamento etc., são também admitidas quando há lugares vagos e o bispo não faz objecções. As órfãs ai educadas podem, com o seu consentimento, aceitar o lugar de mestras em qualquer família, bem como propostas de casamento (quando se apresenta uma proposta conveniente). Em tal caso era concedido um dote, mas a quantia desse dote dependia das receitas e da boa vontade do bispo.»
Nota: texto datado de 1974 da autoria do padre Manuel Teixeira
Antigo asilo órfãos Santa Infância

domingo, 18 de maio de 2014

Cavaco Silva: a visita de 1987


(...) "Cavaco Silva é um dos raros políticos europeus no activo que se encontrou com Deng Xiaoping, o "arquiteto-chefe das reformas" que transformaram a China na segunda economia mundial. O encontro ocorreu em Abril de 1987, quando o então primeiro-ministro português assinou em Pequim a Declaração Conjunta sobre Macau.
Presidente da Comissão Militar Central, Deng Xiaoping tinha mais poder do que o homólogo de Cavaco Silva, Zhao Ziyang, e do que o próprio secretário-geral do Partido Comunista Chinês, Hu Yaobang. Sob a sua liderança, a República Popular da China abriu-se à iniciativa privada e ao investimento.
"Era visível que ele era o homem forte da hierarquia chinesa", recordaria mais tarde Cavaco Silva. "Na sua pequena estatura, vestido de cinzento à Mao, sobressaía um olhar vivo e astuto e um sorriso malandro". Deng já tinha 83 anos, mas "o raciocínio era fluído e claro e evidenciava uma convicção própria de um jovem politico", escreveu o Presidente português na sua "Autobiografia Política" (2002)."
in Ponto Final
Cavaco Silva visitou Macau quando era primeiro-ministro, no tempo do governador Pinto Machado (1930-2011) que governou Macau por pouco mais de 12 meses, entre 1986 e 1987, altura em que terminaram as negociações sobre a Declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre a Questão de Macau, documento que definiu, entre outros assuntos, a data da transição de Macau para a China.

sábado, 17 de maio de 2014

Combate de Kung Fu na Piscina Municipal (1954)

Fotografia de Tam Kai Hong em 1954

Torneio de lutas - wu chen, arte marcial - é a legenda desta fotografia num ringue improvisado nas piscinas municipais.
"A luta épica de Ng Gong Yee e Chan Hak Fu ocorreu em Janeiro de 1954 e foi evocada no início de 2014 em Macau como noticiou o jornal Ponto Final na sua edição de 27.1.2014 num artigo de Iris Lei.
Cerca de 800 aficionados das artes marciais marcaram presença ontem na Piscina do Estoril, junto ao Tap Seac, para testemunharem a repetição do combate em memória dos mestres chineses de artes marciais Ng Gong Yee e Chan Hak Fu, realizada há 60 anos.
No tatame construído sobre a água da piscina, à semelhança do que aconteceu há mais de uma década, perante o comité de organizadores, nos quais se inclui o empresário Kuan Vai Lam, actuaram praticantes de Tai Chi, Shaolin Kungfu, Wing Chun e, também, da dança do leão. O combate revivalista teve como protagonistas o atleta de artes marciais local Leong Hong Man, como Chan Hak Fu, e Lou Kuok Meng, no papel do mestre de Tai Chi, Ng Gong Yee.
“Não há extravagância” numa luta de kunfgfu ao vivo, disseram os dois lutadores. Mas, de maneira a introduzirem entretenimento e não apenas história, os atletas acrescentaram alguns elementos dos seu próprio estilo para tornar o espectáculo mais do que “uma mera imitação da epopeia de luta” de há 60 anos.
No meio da multidão, o senhor Tam, faz questão de se juntar ao espectáculo da repetição do combate. Na época do combate épico tinha três anos, mas ainda se lembra de alguns detalhes. “O tatame é semelhante, mas o ambiente é completamente diferente”, diz o senhor Tam, cujo neto também o presenteou com o gosto pelas artes marciais.
Outro elemento do público, senhor Chan, 81 anos, ainda se recorda de estar a andar de bicicleta em redor da Piscina do Estoril durante o combate. “Eu podia sentir o ambiente e ouvir a alegria do público, apesar de estar lá fora. Foi um grande evento à época, com a presença de muitas super-estrelas”. Lam Chi Chio, nos seus cinquentas, não assistiu pessoalmente à luta, mas sabe os pormenores só de ouvir os amigos contarem. Lam espera que este evento ajude a promover as artes marciais, especialmente no seio da geração mais jovem, que precisa de cultivar “o hobby certo”.
Há mais de seis décadas, o mestre de Tai Chi, Ng Gong Yee, e o mestre do estilo Garça Branca, Chan Hak Fu, foram convidados por Ho In – pai do primeiro Chefe do Executivo da RAEM, Edmundo Ho – para o combate na Piscina do Estoril, para a recolha de fundos destinadas às vítimas de um incêndio que aconteceu em Hong Kong na altura.
De acordo com as notícias da época, apesar de ambos os atletas serem aclamados como “imbatíveis”, e de Ng ser bem conhecido e reputado no círculo do kungfu, Chan, que tinha então pouco mais de 30 anos, sendo mais jovem, era tido como o atleta com maiores capacidades de dominar o combate. Acontece que ambos acabaram por se lesionar. “Sem vitória, não há perda nem sorteio”, foi o resultado anunciado então por Ho In no final do combate. A epopeia de luta ajudou, então, a recolher fundos, mas também a impulsionar a criação de novos heróis de artes marciais na literatura, destacando-se “O Livro e a Espada”, a primeira publicação de Jin Yong, e os romances de Liang Yusheng, considerado o pioneiro de histórias sobre grandes mestres de artes marciais do século XX."
O combate aqui referido fez parar a cidade. Foram aos milhares os que quiseram assistir. O evento contou com a presença da maior autoridade do território, o Governador, e foi a sua mulher que 'inaugurou' a cerimónia. O Hotel Estoril (ficava - e fica já que está ao abandono mas não foi demolido - na parte da frente) foi inaugurado em 1963 e foi o primeiro casino da STDM de Stanley Ho em Macau. As piscinas foram inauguradas em Junho de 1952
 O clube/casino Sun Fa Yuen antes de surgir o hotel Estoril
Link para um filme de ca. 10 min.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Casa de Penhores e Torre Prestamista

Casa de Penhores (centenária e hoje museu) na San Ma Lou e por trás a torre prestamista na Rua do Bocage. Postais do final do século XIX com uma perspectiva do Porto Interior sobre o Largo da Caldeira permitem visualizar a imponência destes edifícios na época.A Casa de Penhores Tak Seng On (Virtude e Sucesso) foi fundada em 1917. A arquitectura, decoração interior e mobiliário seriam muito semelhantes às antigas casas de penhores da China naquela época. Segundo Leonel Barros, estes edifícios (torres) "assumem o formato de um paralelepípedo quadrangular, com uma média de sete pisos de altura, exibindo nas paredes laterais (a partir do segundo piso) estreitas aberturas semelhantes às seteiras dos antigos castelos, que serviam para vigiar e para disparar armas de guerra contra o inimigo".
«Não há visitante estrangeiro, primeira vez chegado a qualquer cidade chinesa, que não fique surpreendido com umas estranhas e sombrias construções com aspecto de torres de vigia, que surgem espalhadas em óptimas situações estratégicas, dominando com a sua rígida altura o confuso e baixo casario de diversos bairros. As sua janelinhas, muito pequenas e estreitas, gradeadas de ferro e reminiscentes das barbacãs de velhos castelos, evocarão decerto no seu espírito, as tumultuosas épocas de desordenados fossados, acaudilhados por ambiciosos barões feudais, sempre impetuosos e sempre irrequietos, épocas essas em que os habitantes dos velhos burgos se viam forçados a encerrar-se dentro das suas fortalezas, para defenderem as suas vidas e as dos seus.
Ora esses edifícios maciçamente construídos de tijolo cinzento, embora fossem capazes de sustentar um assalto, não se integravam contudo no sistema de fortificações das cidades chinesas, pois são simplesmente "casas de penhor", uma das instituições das mais importantes, na curiosa e complexa sociedade chinesa.»

Luís Gonzaga Gomes, «Casas de Penhor», in Chinesices. ICM, 1994