sábado, 28 de fevereiro de 2015

Rua do Guimarães - 海邊新街

A Rua do Guimarães começa na Rua da Ribeira do Patane, à entrada da Rua 5 de Outubro e da Travessa da Guelra e termina na Rua das Lorchas à entrada da Travessa das Virtudes. Nesta caso, Guimarães era o apelido do Visconde da Praia Grande, Isidoro Francisco Guimarães, antigo governador de Macau. 

A rua fica no Porto Interior e nesta imagem da década de 1960 pode ver-se a sede de uma empresa de autocarros.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Gaiolas tradicionais chinesas


É um dos hábitos mais enraizados na comunidade chinesa em Macau (conheci também alguns macaenses que o fazem) e ainda hoje pode ser apreciado, em especial ao amanhecer. A devoção aos pássaros é tal que os seus donos os levam a passear praticamente todos os dias. Transportam-os em gaiolas e  depois juntam-se com os demais amigos, em igual ritual, num jardim do território. 
As gaiolas tradicionais chinesas existem nos mais diversos formatos e têm várias particularidades por comparação com as ocidentais: têm uma pega no fundo o que permite que uma pessoa possa transportar várias em simultâneo carregando-as com um só braço; são feitas de bambu (material leve mas ultra-resistente), os recipientes para comida e água são feitos de porcelana; a portinhola de acesso usa um mecanismo elevatório simples.

As imagens que ilustram este post são de uma série de postais e selos editados em 1996 em Macau.
Numa entrevista a Marcial Alves, em 1995, Henrique de Senna Fernandes explicava assim este hábito: 
"Os chineses gostam muito de jardins. Esses pássaros nas gaiolas, no fundo, traduzem também um sentimento de paz, de estar em contacto com a Natureza. Pintassilgos, melros, etc. Mas já rouxinóis, não. Muitos deles são criados para combater. Há combates de rouxinóis em que, aquele que perde, nunca mais pode combater... Fazem-se apostas fortíssimas. Mas, a maioria, leva o pássaro a passear, pendurando a respectiva gaiola num ramo e deleitando-se a ouvir a melodia do piar libertado no meio da folhagem toda. É, contudo, tarefa para os homens. Não se vê uma mulher a passear pássaros."
Num artigo publicado em 2008 no Jornal Tribuna de Macau Leonel Barros escrevei assim sobre o tema: 
"A partir dos anos trinta, o Jardim de Camões tornou-se o local mais procurado pelos criadores de pássaros, que ainda hoje frequentam aquele emblemático espaço verde citadino. É ali que os turistas de Macau podem encontrar as mais abundantes e variadas espécies de vegetação tropical que, com o decorrer do tempo, transformaram o recinto do jardim num local verdadeiramente aprazível, onde os raios solares dificilmente conseguem penetrar, devido à abundância de árvores, arbustos e plantas trepadeiras. Este e outros pontos da cidade são frequentados por elementos da comunidade chinesa, desprovidos de qualquer formalismo, que ali se refugiam, em dias de frio ou de calor, levando consigo as suas gaiolas. À semelhança do que sucede na China, em Macau os criadores de pássaro reúnem-se ao pequeno almoço em casas de chá, típicas, a fim de trocarem impressões sobre o canto e comportamento das suas aves de estimação. Os principais locais de convívio concentravam-se na Rua dos Mercadores e na Rua Cinco de Outubro, onde ainda hoje é possível escutar, às primeiras horas do dia, o chilrear dos passarinhos, que entoa no interior de uma ou outra casa de chá". 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Eduardo Brazão (1907-1987)

Eduardo Brazão (1907 – 1987), diplomata e académico da Academia Portuguesa da História, foi cônsul de Portugal em Hong Kong durante cinco anos (1945-1950), no rescaldo da guerra.
Telegrama de Eduardo Brazão para o Encarregado 
do Governo de Macau, o comandante Samuel Vieira em 1947
Filho de Eduardo Joaquim Brazão (1851-1925) e de Maria José da Silva Reis Brazão, nasceu em Lisboa, freguesia do Coração de Jesus, a 1 de Fevereiro de 1907. O pai tinha abandonado a carreira da marinha para abraçar o teatro. Casado em primeiras núpcias com a célebre actriz Rosa Damasceno (1849-1904), era amigo pessoal do rei D. Luís, com quem colaborou na tradução de algumas peças de Shakespeare. Foi considerado o maior actor do seu tempo, numa época em que os grandes intérpretes eram também criadores, alcançando relevante prestígio social. A sua casa, na Rua Barata Salgueiro, era frequentada pelos mais conhecidos dramaturgos e artistas do seu tempo. Foi neste ambiente que cresceu o jovem Eduardo, fascinado pelo teatro e pensando seguir as pisadas do pai. Aos nove anos, escrevia e encenava uma peça teatral - Pedro, o cru - representada com os primos e amigos no barracão do jardim.
a mãe enviou-o para o Colégio de La Guardia, onde se tinham refugiado os jesuítas, expulsos novamente de Portugal com a implantação da República. Aí fizeram sucesso as suas interpretações, nas peças teatrais que os padres levavam à cena por ocasião das festas do colégio. Em História e Literatura alcançou sempre as melhores notas, mas, em Ciências, ficava, frequentemente, entre os piores classificados. Regressou a Lisboa para fazer o exame do 7º Ano do Liceu e, a conselho de Lino Neto (1873-1961), acabou por optar pelo curso de Direito mas já se sentida fascinado pela História.
A morte do pai, cujas Memórias tinha, entretanto, compilado e publicado, trouxe-lhe um enorme desgosto. Corria o Ano Santo de 1925 e o futuro diplomata dirigiu-se em peregrinação a Roma. A cidade pontifícia fascinou-o. Mais tarde irá desenvolver numerosos trabalhos sobre as relações de Portugal com a Santa Sé. Receosa de que as distracções da capital o desviassem dos estudos, a mãe enviou-o, no seu 2º Ano, para a Universidade de Coimbra, onde se albergou numa república de rapazes católicos.
Em Lisboa, frequentou a boémia literária, escrevia para os jornais e compôs um livro de poemas – Maria do Mar (1928) – com ilustrações de Arlindo Vicente. Conviveu com intelectuais e artistas das mais variadas inclinações políticas, de João Ameal ou Alfredo Pimenta a Almada Negreiros e Álvaro Cunhal, de quem conservou um desenho (Memorial, p. 26). Monárquico, foi um entusiasta partidário do Integralismo Lusitano, seguiu Maurras na sua orientação e Sardinha na propaganda nacionalista, vibrou com Sidónio e entusiasmou-se com D. Duarte quando o viu, pela primeira vez, em Portugal (Memorial, pp. 178 e 308, 309). Pouco estudou, mas acabou por se licenciar em Leis, no período regulamentar de cinco anos. Findo o curso, a sua tendência histórica estava consolidada.
Casou em 1930 e pouco depois publicou dois volumes da História Diplomática de Portugal.
Depois de várias tentativas ingressou na carreira diplomática em 1940 e esteve colocado em Itália, Espanha e Hong Kong.
De acordo com Ana Leal de Faria, que escreveu uma biografia sumária do embaixador Eduardo Brazão, "A ligação à longínqua Mãe-Pátria já praticamente não existia, tanto mais que tinham atravessado os difíceis tempos da guerra sem qualquer apoio do governo português. Num dos seus primeiros relatórios, referindo o estado de «desnacionalização» que encontrou, terminava lembrando que «a culpa do desaportuguesamento dos que andam espalhados pelo mundo, é quase sempre nossa», situação tanto mais condenável quanto «é de resto tão fácil falar ao coração dos portugueses» (Relatório, 29 de Abril de 1947). A maior preocupação do diplomata, elevado a Cônsul Geral, em 1949, foi retomar as linhas perdidas da comunidade portuguesa, começando pelos factores aglutinadores do sentimento nacional: a língua e a cultura. Abriu uma creche para filhos de portugueses; deu início ao ensino da língua portuguesa em todas as escolas católicas inglesas, chegando a contar com 400 alunos; organizou um curso bi-semanal para adultos; inaugurou um centro de cultura e divulgação, o Instituto Português; realizou concertos com música e cantares nacionais; e pôs a funcionar, semanalmente, uma «meia-hora portuguesa» na Rádio de Hong-Kong.
Considerava que o principal objectivo das missões consulares no Extremo-Oriente devia ser uma melhor e maior colaboração local, tanto com os ingleses como com os chineses,retomando a tradição dos interports entre Macau, Hong-Kong e Shangai. Nas vésperas da sua despedida, a imprensa local lembrava que o diplomata tinha chegado a Hong Kong «full of entusiasm and built up new hopes in the hearts of his people» (China
Mail, 5 de Outubro de 1950). O Cônsul deixou na colónia a imagem de um homem «whose modesty is only exceeded by his indefatigable desire for work»: nunca tirou um único dia de férias e depois de cumprida a rotina consular ainda aproveitava o tempo livre para se consagrar à preparação dos seus numerosos trabalhos historiográficos (Morning Post, 5 de Fevereiro de 1949). Nas palavras do Governador, Sir Alexander Grantham, Eduardo Brazão tinha feito mais pela comunidade portuguesa que qualquer um dos seus predecessores, incutindo-lhe confiança e orgulho (Hong-Kong, 11 de Junho de 1950). Foi grande a sua desilusão, ao regressar a Lisboa depois de cinco anos de lutas e de um péssimo clima, não ter recebido nenhuma palavra de apreço pelo seu «portuguesismo que não esmorecera com a distância» (Memorial, p. 243). 

Ainda de acordo com Ana Faria "A lista das suas obras testemunha a missão historiográfica que empreendeu como parte integrante das funções diplomáticas, com sentido de serviço e em coerência com as circunstâncias de uma carreira que o levou praticamente a todos os continentes. Em cada um deles encontrou a presença da diáspora portuguesa ligada ao destino nacional. Não podia apagar-se a memória de um passado comum para a continuação e fortalecimento desses laços no futuro. Foi esse o sentido que Eduardo Brazão deu aos seus numerosos trabalhos, procurando, com eles, superar a «desconsoladora amnésia sobre os reais valores que vão passando» (Prefácio, Estudos Históricos, 1984). Uma incansável recolha de fontes nos arquivos estrangeiros deu origem a numerosas publicações sobre a História Diplomática portuguesa, ao mesmo tempo que os seus relatórios - A França em Abril de 1944, A Internacionalização da Santa Sé ou Os portugueses em Hong Kong - revelavam uma arguta observação sobre a realidade contemporânea, que veio a trazer-lhe alguns dissabores, nomeadamente no caso da monografia Portugal e a Inglaterra na China (1947), apresentada para concurso de Conselheiros e Cônsules Gerais. O pedido para publicação foi recusado, não tanto pelas opiniões políticas sobre o reconhecimento do governo de Mao Tse Tung - embora consideradas inoportunas (para Eduardo Brazão todas as nações deveriam ter seguido Inglaterra no reconhecimento do novo leader chinês, logo que ele dominou uma parte substancial da China) - nem pela tese - estimada «historicamente muito contestável», de que Portugal ficou devendo à Inglaterra as possibilidades colonizadoras no Extremo Oriente -, mas sim, e sobretudo, porque os censores do texto consideraram que ele tinha subjacente a ideia «de que não soubemos realizar em Macau a obra colonizadora que ali
iniciámos» (Processo individual nº 94, Relatório, 1 de Julho de 1952)."

Algumas obras relativas à presença portuguesa no Oriente:
- A Política europeia no Extremo Oriente no século XIX e as nossas relações diplomáticas com a China, Porto, Livraria Civilização, 1938
- Subsídios para a história das relações diplomáticas de Portugal com a China: a embaixada de Alexandre Metelo de Sousa e Meneses 1725-1728 e […] a embaixada de Manuel de Saldanha 1667-1670, Macau, Imprensa Nacional, 1948
- Em demanda do Cataio: a viagem de Bento de Goes à China (1603-1607), [Lisboa], Agência Geral do Ultramar, 1954
- Macau: cidade do nome de Deus na China, não há outra mais leal, Lisboa, Agência Geral do Ultramar, 1957 
Resumindo, "em mais de uma centena de trabalhos, manifestou o seu profundo patriotismo, o seu amor a Portugal, que se traduzia numa imensa admiração pelo seu passado histórico e num enorme sentido de serviço na defesa dos interesses nacionais, através de uma carreira diplomática que o levou aos quatro cantos do mundo. Deixou essas memórias no seu Memorial de D. Quixote (1976), escrito com tranquilidade, elegância e muito sentido de humor. Morreu em Cascais, a 7 de Dezembro de 1987." 
Eduardo Brazão deixaria parte do seu espólio e da sua biblioteca ao Ministério dos Negócios Estrangeiros português.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Turismo de Macau na BTL 2015

Depois de há poucas semanas ter marcado presença na FITUR (Madrid), o Turismo de Macau volta a estar presente na maior feira portuguesa de turismo, a BTL (Bolsa de Turismo de Lisboa), que se realiza de 25 de Fevereiro a 1 de Março, através de um stand (3 E21) onde irá mostrar as potencialidades turísticas de Macau.
A flor-de-lótus, símbolo da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), ocupa a parte central do stand, mostrando o Macau moderno e dinâmico, mas não esquecendo o património singular classificado em 2005 pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade.
A mensagem a deixar neste certame "passa pelo novo posicionamento como Centro Mundial de Turismo e Lazer, prosseguindo com a promoção de produtos diferenciados sob o tema "Momentos Memoráveis – Sentir Macau", consolidando a imagem de turismo de qualidade e da oferta turística, de forma a criar uma atmosfera favorável para o desenvolvimento do turismo de lazer e de negócios".
Na edição deste ano destaque para a presença de uma caligrafa e uma artista que tocará peças musicais chinesas num Guzhang, instrumento musical tradicional chinês, pelo sorteio de duas viagens a Macau, e por um espaço dedicado à artista plástica Joana Vasconcelos, que irá expor a sua mais recente obra brevemente em Macau.Haverá ainda uma "happy hour" no dia 27 de Fevereiro, pelas 17h, no espaço da APAVT.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

"Porto Interior" por Pedro Barreiros


"Porto Interior" é o título da mais recente exposição de Pedro Barreiros que pode ser vista até 10 de Abril, de segunda a sexta, das 9h às 20 horas, na Delegação Económica e Comercial de Macau - Av. 5 de Outubro, 115 - Lisboa.
O blogue Macau Antigo - onde o Porto Interior que inspirou Pedro Barreiros também pode ser visto - desvenda alguns dos quadros e apresenta um excerto do texto do autor que acompanha esta mostra de 20 óleos sobre tela.
(...) Passei muitas horas muitos dias a olhar para cada um dos recantos, ruelas becos e pátios do meu porto interior e dialoguei em profundo silencio com os seus moradores que foram lá postos por nós os dois com uma arrumação que só podia ser aquela sem que isso resultasse de um estudo prévio e baseado em qualquer relação ponderada e discutida. A ordem daquilo tudo saiu de dentro de nós de forma espontânea comum, cúmplice e íntima.
Durante esse tempo de olhar as coisas e reflectir em diálogo mudo com elas, veio-me o desejo de as pintar, de fixar aqueles momentos com os meus pincéis e as minhas tintas – ia pois, pela primeira vez na minha vida fazer o que classicamente se chama Naturezas Mortas. (...)
Só coisas com alma entram nos receptáculos de emoções que são os pintores que por sua vez transmitem estas últimas para as obras que fazem. São pois 20 naturezas mortas com alma estas imagens dos momentos que vivi intensamente nos diversos recantos do meu Porto Interior.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Conversa de Pacheco Jorge com Marcello Caetano (1946)

No espólio do Arquivo Salazar da torre do tombo está um documento que atesta a "Conversa entre o Ministro das Colónias, Prof. Marcello Caetano, e o Dr Américo Pacheco Jorge" a 21 de Fevereiro de 1946. Recorde-se que a guerra terminara meses antes e entre 1939 e 1945 Macau ficou sujeito a um bloqueio naval por parte dos japoneses sendo esta certamente a primeira viagem do advogado depois do fim do conflito.
O Dr. Pacheco Jorge, natural de Macau, onde advoga, saiu da Colónia em 24 de Dezembro, atravessou o Pacífico, demorou-se 21 dias nos Estados Unidos e chegou a Lisboa há uma semana. Na América fez conferências públicas sobre a China encontrando a mais viva curiosidade acerca dos assuntos chineses. Entre outras informações relativas à administração interna da Colónia, disse:
1. que em sua opinião a guerra civil na China se não reacenderá tudo indicando caminhar-se para a formação de um Estado Federal;
2. que em relação a Macau o Governo de Chun-King não mostra más disposições, mas que é Cantão quem decide com grande autonomia e em Cantão predominam os jovens universitários extremamente nacionalistas e, como tais, xenófobos;
3. que para êsses nacionalistas, a cessão de Macau a Portugal foi acto de um Ministro traidor, e constitui mancha da história chinesa que é preciso lavar;
4. que não reconhecem benefícios materiais resultantes do nosso domínio em Macau; também negam benefícios morais; e embora admitam vantagens da nossa acção protectora e benemerente em relação à população chinesa nos períodos conturbados, não a agradecem;
5. que assim a situação de Macau dependerá apenas da de Hong-Kong: mas esta, segundo todas as probabilidades, decidir-se-á pelo abandono da concessão por parte da Inglaterra, pacificamente negociado;
6. que a luta predominante hoje no sul da China é entre a influência inglesa e a influência americana: esta cresce de dia para dia, não só pelos poderosos meios de que se serve, como pelo grande número de intelectuais chineses educados na América e pelo facto de os americanos não terem adoptado qualquer sistema de separação racial, ao contrário dos ingleses;
7. que assim julga que os próximos cinco anos decidirão da sorte do nosso dominio em Macau, considerando portanto a situação eminentemente crítica.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Queima de panchões

Queima de panchões na rotunda Ferreira do Amaral, junto à ponte Nobre de Carvalho e com o Liceu nas traseiras. Ano novo lunar de 1985.
A queima de panchões é um dos vários rituais típicos das celebrações do ano novo chinês e significa o afastamento dos maus espíritos. Desde o final do século XIX e até à década de 1960 (foto abaixo) o seu fabrico tinha bastante expressão no território, tendo a partir dessa altura entrado em declínio.
Filipe Paiva assina a 14 de Agosto de 1903 um artigo sobre os "pau-chaus" ou "estalos chinezes" que seria publicado na Revista Portugueza Colonial e Marítima, Nº 073, a 20 de Outubro desse ano. Segue-se um excerto:
"Era esta uma pratica que vem citada em um livro intitulado Kuig-ts'u-sui-she-ki, publicado pela epoca do sexto seculo da nossa era. Ora este livro, abre com um capitulo que diz: "O primeiro dia do primeiro mez é o dia dos tres principios (querendo dizer que começa o anno, o mez e a estação) e no tempo de Confucio chamava-se kran-yuch ou seja em portuguez - o monte regulador. Ao cantar do gallo, o povo levanta-se, e a primeira cousa que faz é queimar e estalar bambus, em frente das suas habitações, a fim de expulsar para bem longe os malignos demonios chamados Shan-são."
- Em um romance muito moderno, relativamente a tudo quanto é chinez, que é o Hung-low-meng, ou em portuguez "Sonhos da Camara Vermelha" - ha uma especie de enygma cuja solução é o "pau-chang". Disse que é modernissimo, porque n'este Far-East, todas as leis, usos e costumes são tão extraordinariamente antigos que este romance, datando do ultimo seculo, é perfeitamente actual. Entrando no dominio da superstição, fere-nos a curiosidade perguntar o que serão esses taes Shan-são, que teem medo e se affastam pressurosos, quando algum bambu, aquecido pelo fogo estala com ruido.
Na collecção enorme da litteratura china, o livro chamado Shen-i-King, diz alguma cousa sobre o maligno. Cita o repositorio de sciencia: "Entre as montanhas da China Occidental, ha uns seres de forma humana, mas apenas de um pé e meio de altura, que são por natureza muito inoffensivos; porém, se são offendidos ou atacados causam grande damno aos homens produzindo-lhes doenças, alternadamente por meio do frio e calor.
Chamam-se Shan-são. Ora queimando bambus ao fogo, produzindo assim uns estalidos seccos e rapidos, ficam os Shan-são amedrontados e procuram imediatamente fugir para longe." (...) Porém, o panchão alastrou-se, passou a ser usado tambem pelos habitantes de Macau, que o empregam em diversões e festas para animar e excitar com o seu ruido as reuniões, ao ar livre, pelo luar de agosto, quando o Tai-phun não revolve os ares em confusão medonha, e mesmo quasi adquire foros de official, quando festeja pessoas gradas, que regressam à metropole, ou tornam de longas demoras; mas o verdadeiro motivo, aqulle que vimos se vae perder nas longas eras archaicas, é sempre o mesmo, o pretexto de exorcismar os malignos Shau-siau quer elles, sedentos e avidos, se queiram apoderar de algum novo governador que chega á colonia, ou esteja atormentando alguma gentil nhonha de olhar maguado e pé ben fêto que festeje as suas juvenis primaveras em reunião macaista."
Nota: 
Filipe Emílio de Paiva (1871-1954) era oficial da Marinha portuguesa e era 1º tenente quando esteve como oficial imediato da canhoneira Diu aquando da missão de serviço na Estação Naval de Macau entre 1903 e 1905.
Deixou registos muito 'vivos' e detalhados da sua passagem por Macau nos primeiros anos do século XX não só no que diz respeito à comunidade macaense e portuguesa mas também em relação à comunidade chinesa e aos seus hábitos. 
Sob o pseudónimo literário de Emílio de San Bruno, escreveu cinco romances cuja acção decorre nas então colónias portuguesas. "O caso da Rua Volong - scenas da vida colonial" foi o título baseado em Macau e editado em 1928.
Em 1997 a sua passagem pelo território ficou compilada num livro intitulado "Um marinheiro em Macau, 1903: álbum de viagem".

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O "velho" ano novo chinês: 2ª parte

"No último dia do ano, no 30.º do derradeiro mês lunar, as inscrições vermelhas apostas nos muros fronteiros às casas e nos umbrais das portas (…) são arrancadas, desprezadas e destruídas, depois de haverem cumprido com sucesso a missão de que eram encarregadas, e substituídas por outros dizeres semelhantes.
Ao romper do novo ano, o Deus da Cozinha – Tsao Wang – dedicado companheiro que não guarda rancores, entre estrondosos foguetes regressa, mais uma vez, disposto, com a sua presença, a conceder uma indicação de bom augúrio, uma promessa de amparo. À sua chegada, aumenta o número de fogos a queimar, a alegria intensifica-se, a festa atinge proporções de uma batalha: é preciso amedrontar e afugentar os maus espíritos, que, desleais e pérfidos, quisessem aproveitar-se do descuido geral para se implantar na casa e influenciar, perniciosamente, o destino e sorte da família, durante o decorrer do ano que desponta. Todos os cuidados são poucos; e, para salvaguarda maior, os cautos chineses preparam-se com astúcia e habilidade e colocam guerreiros armados à entrada das portas. Dois bravos generais, que remontam às idades passadas e usufruem um prestígio enriquecido pelo mérito demonstrado em séculos sucessivos, desde os Tangs, impedem o ingresso dos espíritos intrusos e malévolos. (…)
Os celebrados ninhos de andorinhas, as deliciosas barbatanas de tubarão, os ovos de 100 anos, dezenas e dezenas de iguarias famosas e requintadas, servem-se em família, no meio de intermináveis partidas de mah-jong, bulhentas, onde o matraquear das cartas de bambu batidas na mesa faz como que parte do jogo e, até altas horas da noite, – predilecto passatempo –, serve de ocupação aos Celestes, que, encantados e absorvidos, nem se apercebem do correr das horas… Urge que fiquem saldadas as dívidas ao encerrar do ano; desculpas não são de admitir. Com o Ano Novo, vida nova. Todo aquele que tem uma existência difícil busca, ansioso, o meio de livrar-se de embaraços e, em último recurso, realiza um empréstimo, possivelmente em condições ruinosas, para saldar a antiga dívida. É uma questão de honra que tem de ser resolvida. Se a infelicidade teima em perseguir o indivíduo, se as contas não podem ser prestadas, a fuga impõe-se como solução.
No entanto, o regozijo público é a lei que vigora: desgostos e mágoas devem ser abandonados para dar lugar ao ruído, ao prazer, à alegria. E, de facto, os caprichos luminosos dos fogos de artifício rasgando, esplêndidos, o firmamento sereno, em voos alucinados, as explosões repetidas dos mais violentos petardos a relembrar a cada instante a data festiva que se comemora, os sons extravagantes e estrondosos das orquestras improvisadas, expandindo-se com estampido nas ruas, – todo este bizarro e atraente conjunto tem o condão de formar uma atmosfera característica, singular, que consegue imprimir, no espírito de todos os que a presenciaram, uma recordação duradoura e rara, dificilmente extinguível.”
Final do excerto que seleccionei a propósito das celebrações do novo ano lunar. Da autoria de Luís Esteves Fernandes, faz parte do livro “China de ontem, China de sempre” (1948). LEF foi um diplomata português. Em Pequim foi Encarregado de Negócios na década de 1920-30; entre 1940 e 1945 foi enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário de 2ª classe no Japão. A sua carreira abrange os períodos de 1920 a 1961. No livro "De Pequim a Washington: memórias de um diplomata português", escrito entre 1964 e 1966 e editado em 2007 fica-se a conhecer mais sobre a sua vida.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

O "velho" ano novo chinês: 1ª parte

“O facto de a República haver instituído o calendário gregoriano não implicava necessariamente o esquecimento do velho Ano Novo chinês. Vivazes tradições, enraizadas no íntimo dos Celestes, estão ligadas àquela data, pilar que fixa o princípio das maiores festividades nacionais e o único período de férias que eles se permitem. Não havia de ser com a publicação de uma lei que o povo, que a nação em peso abandonaria a série de superstições e de formalidades extravagantes que, na sua mente, desempenham o maior dos papéis na vida e felicidade familiares, para adoptar um processo original de contagem do tempo, desprovido de vantagens evidentes, imediatas, obra dos bárbaros do Ocidente.
Necessário é relembrar que, mesmo depois de os astrónomos chineses estarem a par dos progressos da ciência astronómica europeia, quando se aproximava o momento de um eclipse, os mais altos funcionários do observatório, tal como o povo nas ruas, reuniam-se e tocavam com desespero em bombos, pratos de metal, nos mais extraordinários instrumentos, a fim de afugentar o dragão maléfico que diligenciava devorar o Sol ou a Lua!
A quietude e silêncio da cidade são estrepitosamente interrompidos nesse período festivo. Durante 10 dias, com fragor, os Celestes entregam-se, de alma e coração, à comemoração da maior data do seu calendário. A sobriedade, compostura de maneiras, espírito de economia, desapareceram para dar lugar a um estado anormal, traduzido em manifestações de mil espécies, que vão desde o simbolismo tranquilo de queimar incenso em honra dos espíritos, ao lançamento ininterrupto de petardos, estrondeando, incessantes, em horas infindáveis de martírio, sem consentir um instante de alívio.
Nos jardins, nos pátios, nas ruas, em todo Pequim, fogos de artifício, vistosos, fantásticos, deslumbram a retina e explicam o fim modesto atribuído pelos chineses à pólvora, a qual unicamente se transformaria em artigo destruidor graças aos ensinamentos dos jesuítas; nas lojas, grandes ou pequenas, ricas ou pobres, o pessoal reúne-se numa das salas e organiza uma orquestra infernal, em que as notas doces dos violinos morrem sufocadas pelos sons monstruosos tirados dos bombos tocados com força destruidora a ensurdecer o transeunte…
Dez dias antes do Ano Novo, o prólogo, a bem dizer, da sua grande revista inaugura-se quando, pela meia-noite, no meio de aclamações, o Deus da Cozinha é trazido para a rua e queimado. Então, o seu espírito sobe aos céus e dá conta ao Criador dos actos da família em que viveu. Para que o deus agradecido só repita coisas agradáveis ou com o propósito de que fale pouco por ter a boca pegajosa, antes da largada para a grande viagem servem-se bolos adocicados em que o mel predomina. Entretanto, os preparativos vão num crescendo: as limpezas e lavagens das casas, dos móveis, acompanham a higiene individual, que é escrupulosamente cuidada por esta ocasião. As habitações e as gentes sofrem uma renovação completa, tendente a transformá-las de molde a apresentarem-se dignas das venturas e benéficas influências de que o Ano Novo será quiçá o mensageiro.
Em consideração aos numerosos amigos que costumam acorrer nos primeiros dias de festa para cumprimentar e exprimir votos de prosperidade, os mais variados e abundantes manjares – não esquecendo o Chu po po, bolos de carne – foram com antecedência preparados, em virtude do descanso obrigatório que se segue e que, à uma, sem discrepância, é acatado. É uma azáfama constante, barulhenta, uma agitação que revolve a casa em todos os sentidos e faz perder a habitual tranquilidade e paz de alma dos Celestes…" (continua)
Excerto do livro "China de Ontem - China de Sempre", da autoria de L.Esteves Fernandes, antigo Encarregado de Negócios em Pequim e Ministro no Japão", editado em 1948 pela Empresa Nacional de Publicidade.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A capelinha da Fortaleza do Monte

Em fins de Agosto de 1971 foi encontrado um nicho nesta fortaleza, acerca do qual escreve o P. Videira Pires: «O Visitador dos Jesuítas no Oriente, Pe. Jerónimo Rodrigues (1619-1621 e 1622-1626), fala, a propósito da batalha contra os holandeses em 1622, de que foi testemunha, de «la hermida de Nues tra Señora del monte de S. Paulo». 
Um documento, que publiquei em primeira mão, afirma que os Jesuítas chamavam ao Monte «Nossa Senhora do Monte» e Bocarro, em 1635, escreve que a Fortaleza de «Sam Paulo» era «chamada por outro nome a Madre de Deos».
Se o Monte foi adquirido por Valignano, nos fins de século XVI, para recreação e refúgio, em caso da ataque dos holandeses, é natural que tivesse uma capelinha, pois o Colégio da Madre de Deos achava-se ocupado pelas senhoras mais nobres da terra. Ora, segundo os depoimentos do 1.º capitão-geral D. Francisco de Mascarenhas a seus amigos, em 1623, não havia, na Fortaleza, de que ele se apoderara sem para tanto ter apresentado ordem de El-Rei, «capela ou cubiculo ou cousa alguma que pareça religiosa ou de religião». Portanto, se é certo que, antes de 1633, havia uma capelinha no Monte, enquanto ele esteve eompletamente nas mãos dos Jesuítas, e, depois dessa data, ela desapareceu, é porque Mascarenhas a mandou ou destruir (o que nos custa a crer) ou entaipar, para justificar, perante as cortes de Goa e Lisboa, a sua brusca ocupação.
«A cabeça do governo político de Macau» foi sempre, até Soares Audrea, excepto o breve intervalo de 1784-1789, o Leal Senado. Os Jesuítas não reconheceram, assim como grande parte da população, autoridade mais que militar a Mascarenhas e, por isso, nunca lhe apresentaram o título de posse do Monte. O usufruto dela, pelo menos em parte, também lhe não foi tirado, mesmo no decreto de 28 de Fevereiro de 1630, pelo próprio monarca. Eles mantiveram a sua porta e chave privativa, podendo ir lá quando queriam.
Mais há mais. O Pe. José Montanha, Provincial do Japão de 1749 a 1752, atesta, nos seus Aparatos para a História do Bispado de Macau (Ta-Ssi-Yany-Kuo, ps. 410-421, e Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Set. de 1969, p. 871), que, no «corpo da guarda, logo à entrada sudeste da Fortaleza, «está hua Capellinha». Quer isto dizer que, em 1750, ou a primitiva capelinha havia sido desentaipada, ou tinha sido construída outra nova. Somos pela primeira alternativa, a fim de alinharmos com a hipótese referida de que Mascarenhas se não atreveu a destruir a capelinha primitiva e pelas razões abaixo expendidas.
Na década de 1950, nesta perspectiva, ainda era visível a Fortaleza do Monte
Aconteceu que, nos últimos dias de Agosto próximo passado, umas obras, que estão ainda em curso, fizeram aparecer, detrás da pedra de armas da Fortaleza, perfeitamente entaipado, com argamassa antiga (taipa), um nicho nìtidamente religioso, com duas pequeníssimas colunas salomónicas de cada lado. A cor vermelha, bastante bem conservada, o estilo barroco, o estuque... levam-nos a crer que se trata duma obra exactamente coeva da fachada de S. Paulo, se não anterior.
O centro do «corpo da guarda», de que nos falam Bocarro e Montanha, situava-se precisamente nesse local do nicho. Por cima do nicho, há um arco, em parte destruído por incúria e ignorância e que devia continuar para a entrada, até formar o espaço necessário para um altar--assim o supomos. E aqui teríamos nós a tal «Capellinha» no «corpo da guarda» do Monte, de que nos fala claramente Montanha, em 1750.
Nas plantas das fortalezas de Macau que acompanham o relatório do tenente Carlos Julião, de 24 de Dezembro de 1775, vê-se, na do Monte, perfeitamente, o «corpo da guarda», com as duas saídas laterais de que fala Bocarro, mas não há nenhuma cruz indicativa da capela, como nos esboços da Barra e da Guia. Calculamos que terá sido, de novo, entaipada, após 1762, data da expulsão dos Jesuítas. 
Diga-se a verdade que a posição da capela, naquela entrada, só vinha obstruir os movimentos e contribuir para a sua profanação, sobretudo em épocas menos religiosas.
Em conclusão: Havia uma capelinha de Nossa Senhora, no Monte, anterior à construção da Fortaleza e enquanto os Jesuítas tiveram a posse completa dele. Em face da descoberta efectuada fortuitamente, em fins do mês de Agosto de 1971 perante o testemunho seguro do Pe. Montanha, combinado com o plano da Fortaleza de 1775, essa mesma «capellinha» estava no centro do «corpo da guarda» e terá sido desentaipada, provàvelmente depois que Mascarenhas saiu de Macau, e, de novo entaipada, após 1762». Esta capelinha desapareceu há muito.
Texto do Padre Manuel Teixeira

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Uví, sã tempo di carnaval!

Além do Natal e do Ano Novo, o Carnaval foi a festividade tradicional macaense que mais atenção mereceu do nosso Adé, nos seus apreciados poemas “maquistas” e nas peças que talentosamente apresentou e ensaiou, em récitas inolvidáveis em que também participou, de alma e coração, como actor e encenador.
Nesses poemas, como “Macau - sa Carnaval”, “Entrudo na Macau”, “Carnaval di Agora” e “Olá Bôbo”, Adé caracterizou fielmente o ambiente de folia e animação em que a comunidade macaense outrora alegremente mergulhava, com desfiles, ranchos de mascarados, actuações de tunas, “assaltos” carnavalescos, comédias, matinés especiais para crianças, com concursos dos melhores trajes, dançaricos em clubes e bailes de máscaras que se prolongavam até alta madrugada. Ainda era assim, com todo o fulgor, no segundo quartel do século passado, acentuando-se o seu declínio, progressivamente, nas décadas seguintes, não obstante os esforços de algumas agremiações recreativas e culturais para manterem viva uma benquista tradição.

Alguns dos versos de Adé, alusivos ao Carnaval, visaram também a crítica social, como é evidente em “Macau - sa Carnaval”, quando o poeta faz saber que “Gente entretido co política,/Nom-tem vagar vestí bôbo./Quim querê olá bôbo/Co um-cento babuzéra na bóca,/Nancassá isperá carnaval.” (“Gente entretida com a política,/Não tem pachorra para se mascarar./Para se verem por aí bobos,/Com a boca cheia de baboseiras,/Não é preciso esperar pelo carnaval.”). Ou, no mesmo poema, quando se refere com sarcasmo ao carnaval de todos os dias: “ ‘Macau di agora únde têm carnaval?’/Chacha, geniado, ta gurunhá!/‘Querê olá bôbo? Têm pa olá/Tudo ora, na roda di áno,/Maz nunca sã bôbo di carnaval!’ ” ( “ ‘Macau de agora com carnaval?’/Resmungava a Avozinha irritada./‘Querem ver bobos? Podem vê-los/A toda a hora, à roda do ano,/Mas não são esses do carnaval!’”)
Para deleite dos cultores do patuá, aqui está um dos mais conhecidos poemas de Adé dedicados ao Carnaval:
Carnaval di Agora
Carnaval já sai di casa,
Co tudo su boboriça.
Já vêm co calor di braza,

Mostrá laia-laia parabiça.
Cháqui-cháqui Carnaval,
Nhu-nhum qui bom divertí:
Olá nhónha na quintal,

Sai mám azinha chubí.
Nôs sentí qui nom têm chiste,
Seléa mau carnaval;
Quim más bôbo quim más triste,

Quim murúm como pardal!
Hoze em dia Carnaval
Nom têm sabôr nim amôr:
Ramendá áde sim sal,
Co chiquía di apô.

Non mestê nhónha pensá
Qui unga dia intéro
Lôgo têm bôbo pa olá,
Co tuna di musiquéro.

Carnaval di aquelora,
Qui sã nádi más voltá.
Mui-Mui, Marica, Teodora,
Sã qui capaz pandegá.

Unga dia Títi Bita,
Pegá na quánto sobrinha,
Botá dominó di chita,
Usá bôbo azinha-azinha.

Trêz galo-dôdo brejéro,
Corê trás di bôbo fémea.
Ilôtro fugí ligéro,
Gritá “nôs nunca sã fémea”!

Quánto más nhónha corê,
Más acunga trêz seguí
Bôbo sua perna tremê,
Chomá Bita decidí.

Tremê como vára-vérde,
Bita pegá saia erguí
Empê perto di parêde,
Fingí ta fazê sisí.

Galo-dôdo ficá triste,
Virá costa sai di ali
Já sentí que non têm chiste,
Pegá nhu-nhum pa bulí.

Nunca sã inventaçám,
Estunga estória di bôbo.
Gente antigo sã pimpám,
Sã capaz bulí co bôbo.
 
Bôbo-bôbo di agora,
Nuncassá cubrí su rôsto;
Máscra têm, cada unga ora,
Cadacê com unga gôsto.

Têm bôbo feo, têm chistoso,
Na Carnaval di agora.
Quim sã bicho venenoso,
Quim sã diabo tudo ora.

Neste poema, Adé descreve cenas cómicas das festas carnavalescas, goza com o ridículo de certas situações picarescas, critica os verdadeiros bobos do seu tempo (“Bôbo-bôbo di agora,/Nuncassá cubri su rôsto”) e confirma que “Hoze em dia Carnaval/Nom têm sabôr nim amôr” (“Hoje em dia, o Carnaval/Não tem sabor nem amor”). São, de facto, outros os tempos e outros, bem diferentes, os hábitos e as vontades duma comunidade que se dispersou pelo mundo, levando consigo e revivendo, longe da terra amada, as suas mais genuínas tradições.
Artigo de Jorge Rangel, Pres. do Instituto Internacional de Macau, publicado no JTM de 13-2-2012

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Ano Novo Lunar: 2015 - Kung Hei Fat Choi

O ano novo lunar é a festividade mais importante da cultura chinesa e está profundamente enraizada na sociedade macaense como escreveu em 1944 Luís Gonzaga Gomes na revista Renascimento. O novo ano lunar é 'dedicado à cabra/carneiro/ovelha, um dos 12 animais do zodíaco chinês. Tem início a 19 de Fevereiro de 2015 e vai até 7 Fevereiro de 2016. São nativos deste signo as pessoas nascidas em: 1931, 1943, 1955, 1967, 1979, 1991, 2003 e 2015.
Esta época festiva é marca por vários rituais ao longo de 15 dias (com ligeiras alterações de região para região):
1º dia - Acolhimento dos deuses dos céus e da terra: as pessoas abstêm-se de comer carne para garantir uma vida longa e feliz. 2º dia - rezas em memória dos antepassados. 3º e 4º dias - filhos prestam homenagem aos pais. 5º dia - pessoas ficam em casa para acolher o Deus da Riqueza (Po Woo). 6º ao 10 º dia - visitas aos parentes, amigos e templos. 7º dia - agricultores mostram os seus produtos. 8º dia - jantar em família e orações a Tian Gong, Deus do Céu. 9º dia - oferendas ao Imperador de Jade. 10º ao 12 º dia - convidam-se amigos e parentes para o jantar. 13º dia:  come-se apenas arroz simples. 14º dia - preparativos do Festival da Lanterna que será realizado na noite do 15º dia.
Algumas das festividades de origem chinesa realizadas
em Macau num postal da década de 1980
Celebrações em Macau
16.2.2015 em Macau. Foto de Rogério Caixeiro
A Direcção dos Serviços de Turismo de Macau realiza a Parada da Celebração do Ano da Cabra nos dias 21 de Fevereiro, das 20h às 23h, e no dia 28 de Fevereiro das 20h às 21h. Nesta parada desfilarão exuberantes carros alegóricos e grupos artísticos de Portugal, Itália, Japão, Coreia, Malásia e Tailândia, entre outros, que percorrerão alguns dos bairros e zonas mais tradicionais e importantes da cidade, estando Portugal representado pela Marcha de Alfama, a vencedora das Marchas Populares de Lisboa em 2014.
Estão ainda programados espectáculos culturais para a Praça do Lago Sai Van, no dia 21, bem como ao encerramento das celebrações no Jardim do Mercado de Iao Hon, no dia 28, e a um grandioso espectáculo de fogo de artifício que se realizará no dia 21, pelas 23h, nas baías em frente da Torre de Macau e do Centro Ecuménico Kun Iam.

Celebrações em Portugal
Em Arroios (Lisboa) de 16 a 21 de Janeiro acontece o evento "Semana da China" com exposições, workshops, artes marciais, música, danças, etc...
De 16 a 21 Fevereiro: Exposições “Beautiful China” e “Red China”
Café Estúdio – Largo do Intendente Pina Manique
Bazar de Beneficência Chinês
Largo do Intendente Pina Manique
16 Fevereiro (10h-13h):  Workshop Escrita de Caracteres Chineses
Destinatários: Crianças dos 6 aos 10 anos
Local: Espaço “Intervir para o Futuro” – Rua Martim Vaz nº 42 – 1ºesq
16 Fevereiro (14h-17h): Arte em Recorte de Papel e Música Tradicional Chinesa
Sala de Leitura Clodomiro Alvarenga
18 Fevereiro (10h-13h): Pintura de Máscaras e Nós Chineses
Sala de Leitura Clodomiro Alvarenga
19 de Fevereiro (14h-17h): Workshop de Pintura de Máscaras, Arte em Recorte de Papel e Escrita de Caracteres Chineses
Sala de Leitura Clodomiro Alvarenga – Mercado do Forno do Tijolo
20 de Fevereiro (17h-20h): Mostra de Produtos, Arte Chinesa, Dança, Música e Artes Marciais
21 de Fevereiro (11h-12h): Comemoração do Ano Novo Chinês | Desfile
Dança do Dragão, Dança do Leão, Dança de Tambores de Cintura, Companhia de Acrobacia Hunhan, Performance de crianças de escola de dança chinesa.
Desfile do Largo do Intendente de Pina Manique ao Largo do Martim Moniz.
No Porto - Hospital da Prelada da Santa Casa da Misericórdia do Porto - vai estar patente até finais de Março a exposição fotográfica “Macau é um Espectáculo: As Artes nas Ruas de Macau”. A mostra organizada pelo IIM inclui mais de 50 fotografias da autoria de membros da Associação de Fotografia de Macau, as quais estiveram em itinerância por Portugal e pelo Brasil, com o apoio da Fundação Macau.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Les Nuits de Macao: 1933 (2ª parte)

«Pas ici, Foun Sem: viens à l'hôtel Miramar, ce soir, vers onze heures. On te laissera monter? Chambre 44». Onze heures. Je n'ai pas prévenu le portier ; mais elle avait l'air si certaine de pouvoir venir... Onze heures et quart... La demie... Décidément... Un chuchotement, des pas furtifs ; et voici Foun Sem, accompagnée d'une grande fille mince, aux traits accusés, aux cheveux plus fins que ceux des Chinoises. Elles se glissent toutes deux chez moi, Foun Sem présente: «C'est mon amie Affonsi Teize...» Alphonse XIIl ? Que Sa Majesté me pardonne, mais cette petite lui ressemble : visage long et mince, nez bourbonien, lèvre habsbourgeoise. Tout Macao la connaît sous ce surnom baroque qu'aucune Chinoise ne pourra jamais prononcer.
«Affonsi Teize ne parle pas anglais, chuchote Foun Sem, et elle vient voir un Européen qui ne parle pas chinois ; je vais faire l'interprète, puis je reviens...» Avec sa souplesse silencieuse de chatte, elle ressort, entraînant " Affonsi Teize", comme un remorqueur attelé à un transatlantique... Dix minutes, une demi-heure... Petite Foun Sem, tu abuses. Quand tu arrives enfin, tu mérites une petite scène de reproches, qui n'émeuvent guère ton impassibilité orientale. Il ne faut pas se moquer de moi. Tu réponds: «Velly solly (pour very sorry, je suis désolée).» Mais une lueur de malice pétille dans tes prunelles, entre les paupières mi-closes comme celles d'une chatte. Et puis soudain, sur un mot sec, sur une intonation plus dure, ton expression change, et deux larmes perlent soudain au coin de tes yeux. 
C'est mon tour d'être velly solly: pardon, mon petit, faisons la paix; si facilement, quand tes doigts défont les brides de soie vert amande qui, de haut en bas, boutonnent sur le côté ta robe mauve; quand tes gestes ont une inflexion si délicate, et puis si tendre ou si passionnée...
Macao, avril.
Tu viens de partir. Et tout à l'heure je vais m'embarquer pour Hong-Kong. Dans la chambre, je reste seul devant la baie merveilleuse où passent les jonques aux voiles nervurées, que nous regardions ensemble, au matin de chacune de tes visites, durant cette semaine trop courte. De notre dernière matinée, je garde deux images charmantes. Dans la salle de bains dont tu avais laissé la porte largement ouverte, tu as barboté comme une enfant; la baignoire semblait trop grande pour ta gracilité, et je voyais l'eau ruisseler, ondée ou rosée, sur ton corps aux formes à la fois menues et pleines, à peine safranées, de la couleur des roses-thé. Et tu gardais ta grâce tranquille et mesurée de petit félin, tout en souriant avec cette insaisissable subtilité dont il me reste une nostalgie.
Un peu plus tard - plus habillée - tu montrais à mon ami Vicente Silva quelques cuillers de nacre et deux noyaux d'abricot sculptés en bouddhas. De ce que je t'avais donné, cela seul semblait compter; et tu les tenais dans tes mains fines en les regardant de tout près, avec une joie passionnée; comme Vicente ne comprend pas l'anglais, tu lui roucoulais des mots chinois qu'il comprenait encore moins, mais où il entendait un accent de plaisir irraisonné; et c'était soudain une explosion d'enfantillage, ravissante parce que si spontanée, et parce qu'elle contrastait si fort avec ton raffinement, et ta philosophie fataliste de petite prostituée d'Orient. Adieu, Foun Sem ! Ou peut-être, au revoir!