sexta-feira, 28 de abril de 2017

Retrato económico na década de 1910


No primeiro número da Revista Colonial (Janeiro de 1913) Álvaro de Mello Machado, governador de Macau na época, assina um artigo - transcrito em baixo - onde traça um retrato da economia local não muito animador. Segundo o governador 2/3 dos rendimentos da então colónia provinham da exploração do jogo e da preparação e comércio do ópio. Este cenário, aliado à falta de recursos naturais, levam Álvaro Machado a defender novas ideias para dinamizar o comércio local: a construção de um caminho de ferro com ligação à China - "a não se realisar esse caminho de ferro, o futuro de Macau afigura-se extremamente modesto", escreve - a criação de uma agência comercial de produtos portugueses em Macau e o estabelecimento de uma ligação marítima regular com o território a partir de Lisboa.
Com excepção de uma pequena representação de produtos portugueses através da Agência Colonial, nenhuma das ideias foi concretizada. Curiosamente o governador era contra a grande obra que se projectava na altura, a dos Portos de Macau, por a considerar megalómana em termos de gastos. E assim foi... para além de se ter arrastado por muitos e muitos anos. Assinale-se ainda o facto do governador chamar a atenção para o potencial da actividade turística.


A pequena colonia do extremo-Oriente, que ha mais de tres séculos vem attestando ao mundo a tenacidade e a resistência dos portuguezes, não tem hoje a importância que em tempos idos lhe deu a situação privilegiada que soube grangear, iniciando o commercio europeu com a lendaria e mysteriosa China. Não tendo sabido manter-se em face da concorrência de dia para dia mais energica das auctoridades extrangeiras; debatendo-se inutilmente no regimen de asphixiante centralisação que lhe crearam os governos da metrópole; tendo deixado escapar todas as opportunidades em que, de concerto com as outras potencias, podia ter defendido e melhorado a difíicil situação em que se encontra perante a China; Macau, erguendo-se coquetiemente por sobre os graciosos contornos da pequenina peninsula que termina para o sul a ilha Heong-Shan, pouco mais é agora do que um monumento histórico das grandezas lusitanas de outras eras. Sem recursos proprios de qualquer natureza, dependendo por isso em absoluto dos territórios que a rodeiam, Macau só pôde aspirar ao papel de entreposto commercial de maior ou menor importância que desde os mais remotos tempos da sua existência tem desempenhado; se bem que, como cidade de residência e como ponto merecedor da curiosidade dos turistas, possa alcançar uma situação de relativo destaque, que não deve ser por fórma alguma despresada. Embora o commercio que por intermédio da nossa pequena colonia se efectua, attinja o valor de treze mil contos de réis, sete mil contos de importação e seis mil de exportação, a necessidade imperiosa de manter a sua qualidade de porto franco limita extraordinariamente os recursos que a fazenda publica pôde auferir com essa proveniência. E assim, tem sido necessário para fazer face aos encargos da administração recorrer a outras fontes de receita que, seguindo a linha da mais fraca resistência, neste caso as das tendências naturaes do meio, se localisaram na exploração do jogo e no commercio e preparação do opio. A estes dois poderosos auxiliares deve a Província dois terços dos seus rendimentos totaes; e sobre elles como pontos de apoio principaes gira portanto, a sua vicia administrativa. 
Todavia, o commercio relativamente importante que por intermédio de Macau se eflectua favorece algumas manifestações de actividade e garante-lhe uma densidade de população considerável (a cidade com uma area de 330 hectares tem uma população de 07:000 indivíduos) que devidamente aproveitadas pódem dar origem a um progresso compensador das energias que ali se venham a dispender. A importância de Macau como entreposto commercial vem-lhe exclusivamente da sua posição geographica e do seu porto, embora o apparecimento da colonia ingleza de Hongkong tenha reduzido a estreitos limites as vantagens inherentes a estes dois factores.
Dentro das actuaes condições, e enquanto ellas se mantiverem, não é crivel que muito se possa esperar de Macau, no tocante ao augmento do seu valor como entreposto commercial e ao seu progresso economico consequente, porque se encontra reduzido aos limites naturaes da sua esphera de acção, que hoje se reduz ás regiões extremamente próximas que d'elle forçadamente dependem. O grande problema a resolver em Macau reside, pois, no alargamento dos limites da sua influencia como entreposto commercial, combatendo não a supremacia de Hongkong, porque tal seria uma utopia, mas vencendo a concorrência dos numerosos rios e canaes que cortam os territórios chinezes vizinhos em todas as direcções, e fazendo do porto portuguez o escoamento natural dos productos das ferteis e laboriosas regiões que o' circundam. 
Em poucas palavras: o desenvolvimento de Macau depende da construcção de um caminho de ferro de penetração que, tendo por extremo a nossa colonia, facilite, tornando-se superiormente vantajoso a todos os outros meios de communicação, a sabida e a entrada das mercadorias pelo porto que nos pertence.
A construcção d'esse caminho de ferro, que constitue a única esperança de uma vida desafogada para a colonia, não é, infelizmente para nós, um objectivo de fácil alcance. E quem conhecer o estado das nossas relações com a China, nunca se poderá convencer de que uma tal vantagem se possa conseguir sem uma grande dóse de chance por nossa parte, ou sem que dêmos em troca compensações de valor, alliadas a uma bem orientada acção diplomática. Não será dar provas de um pessimismo exagerado pensar que nunca a nossa colonia de Macau verá realisada a sua grande ambição, o único emprehendimento que a pôde salvar; mas também não estamos em face de um impossível e portanto devemos - temos pelo menos essa obrigação moral - empregar todos os esforços para se alcançar o que deveria ter sido objecto das mais persistentes attenções de todos os governos. 
A não se realisar esse caminho de ferro, o futuro de Macau afigura-se extremamente modesto, demais approximando-se a passos agigantados a reducção inevitável das suas mais importantes fontes de receita - o jogo e o opio; e milagre de administração será se fôr possível conseguir que a colónia continue por muito tempo a bastar as suas próprias necessidades. Não é, porém, dos fortes cruzar os braços ante a adversidade, ainda mesmo quando ella se apresenta inevitável e sem remedio. É preciso, é indispensável luctar; para que ao menos reste a consciência de que se resistiu o máximo possível. Emquanto não apparecem os dias de desgraça, que a sorte pôde bem querer que nunca cheguem, as auctoridades portuguezas podiam aproveitar um campo de exploração que não deve ser desprezado. Macau ainda pôde ser um meio de restabelecer o commercio entre o extremo-Oriente e Portugal, favorecendo a entrada na China, dos nossos vinhos, pelo menos, e talvez de alguns outros productos de origem nacional e permittindo a importação directa de alguns productos chinezes, como o chá, as sedas, os charões, louças, trabalhos em marfim, bordados, etc. 
É este em todo o caso um assumpto a estudar e que deve prender a attenção do nosso commercio e industria de mãos dadas com o governo da colonia. A que resultados uma agencia commercial portugueza, estabelecida em Macau tendo como um dos seus principaes objectivos a collocação dos nossos vinhos, poderá conduzir? E que vantagens poderão advir para o publico portuguez da importação directa dos artigos chinezes que mais se consomem e maior apreço teem no paiz? Uma carreira de navegação directa entre Lisboa e Hongkong, muito fácil de conseguir, evitando os trasbordos e delongas a que hoje estão sujeitas as mercadorias que transitam entre estes dois pontos, assim como a extensão aos navios estrangeiros dos benefícios que as nossas pautas concedem á navegação nacional, que não existe para essas paragens, teriam indiscutivelmente uma influencia benéfica na probabilidade de realisação d'este ideal. A bôa vontade e o desejo de ganhar dos commerciantes, auxiliados pelas facilidades que o governo de Macau pôde conceder, fariam o resto.
Alguma coisa se deve tentar nesse sentido. É indispensável que o commercio portuguez se lembre de que novos horisontes se pódem abrir á sua actividade, onde energias estrangeiras se degladiam ha vários annos num esforço continuado e persistente, aproveitando as faculdades de uma colonia, onde a quasi totalidade dos capitaes são chinezes e onde as iniciativas portuguezas se resumem aos tímidos ensaios de mal orientado commercio de alguns pobres reformados a quem os azares da vida prenderam para sempre áquelle pedaço de terra. 
Álvaro de Mello Machado. Governador de Macau

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Viagens em "Primeira Classe"

in Revista Colonial, Nov. 1913. Clicar na imagem para ver em tamanho maior
"Tabella das classes em que devem ser transportados os funcionários públicos das províncias ultramarinas: Primeira classe". Em vigor no ano de 1913.


quarta-feira, 26 de abril de 2017

Ó Costa e os Jogos Olímpicos de 1956

O tenente Filipe Augusto do Ó Costa fundou o hóquei em campo em Macau no início da década de 1920 quando viveu no território em comissão de serviço.
Regressaria a Macau em Julho de 1956 (dia 21) a convite da Direcção do Hóquei Clube de Macau para preparar a selecção local com vista à representação de Portugal nos próximos Jogos Olímpicos de Melbourne.  A fotografia abaixo e uma notícia da época testemunham o facto.
Macau deveria participar nos jogos (XVI Olimpíada) que começaram a 22 de Novembro de 1956 na cidade australiana mas no final o governo de Lisboa alegou dificuldades económicas e foi tudo cancelado. Um balde água fria para as aspirações da sociedade macaense e em especial para os praticantes da modalidade, tidos como entre os melhores do mundo na altura mas que não puderam mostrar o seu valor no maior palco.
"(...) Uma longa fila de «panchões» assinalou a descida do recém-chegado ao cais, donde seguiu em automóvel reservado, acompanhado por dezenas de carros em cortejo promovido pela Delegação do Automóvel Clube de Portugal, até à Pousada de Macau. Ali efectuou-se uma modesta reunião de boas vindas, com a presença de muitas pessoas, durante a qual usaram de palavras Sr.. Dr. Carlos Correia Pais de Assunção na qualidade de presidente da Assembleia Geral do Hóquei Clube e Pedro Hyndman Lobo, como Presidente da Direcção do mesmo clube. (…) 
O sr. Tenente Filipe do Ó Costa começou aqui a praticar hóquei em campo, em 1924. Em 1926, já estava formada a primeira equipa, à qual deu  ele o nome de «Macau Hockey Club». Nos primeiros anos, nas lutas travadas contra fortes equipas da vizinha colónia britânica de Hong Kong, o «Macau Hockey Club» registou derrotas consecutivas, que nem por isso desanimaram nem o orientador e treinador nem os seus discípulos, então já em número apreciável. nas épocas seguintes, já o «onze» local não sofria apenas derrotas, pois que, sobre os fortes adversários de Hong Kong, tinha também começado a registar vitórias, algumas das quais bem honrosas. 
Até 1937, ano em que o inesquecível fundador do hóquei macaense embarcou para a Metrópole, já o agrupamento local havia registado vitórias incontáveis, umas após outras e quase todas igualmente honrosas para as cores de Macau” (…) Em 1944, um grupo de hoquistas e entusiastas d modalidade fundou o «Hóquei Clube de Macau» (…)  Assim, na primeira Assembleia Geral , efectuada nesse ano de 1944, foi o benquisto e sempre lembrado «Pai do Hóquei Macaense», por proposta dum dos primeiros directores da colectividade, proclamado «Sócio de Mérito do Hóquei de Macau» (...)” 
in Boletim Informativo da Repartição Provincial de Economia e Estatística Geral, n.º 71/72 de Agosto de 1956

terça-feira, 25 de abril de 2017

Ferry to Hong Kong (1959)

Ferry to Hong Kong é o título do filme que me proponho analisar mas também poderia chamar-se Ferry to Macau… Nalguns registos o filme surge traduzido com títulos como O Proscrito de Hong Kong e Embarque para Hong Kong.
Orson Welles (1915-1985) – realizador de Citizen Kane/O mundo a seus pés, estreado em 1941 e considerado pela crítica um dos melhores filmes de todos os tempos – também participou em muitos filmes como actor. Este foi um desses casos, embora não muito bem aceite pela crítica na época. O filme estreado em Agosto de 1959 no Reino Unido foi rodado em Hong Kong e Macau um ano antes, embora na ficha técnica surja a indicação que as filmagens decorreram somente na antiga colónia britânica. No entanto, essa informação só se pode considerar correcta no que diz respeito a cenas com a presença de actores e actrizes, pois algumas paisagens do filme que foram registadas em Macau. Mas, já lá iremos…
O britânico Lewis Gilbert (conhecido por Alfie) assina a realização do que anos mais tarde (em 2010 ao canal 4 da BBC televisão) disse ser o seu grande "pesadelo" queixando-se especialmente de Orson Welles: "Não ligava nem aos colegas actores nem ao realizador", disse, concluindo que "tudo correu mal no filme, e em especial o Orson Wells". Poucos anos depois Gilbert iria parar à saga James Bond assinando três realizações: Only Live Twice (1967), The Spy Who Loved Me (1977) e Moonraker (1979).
Orson Welles - que se estreara em 1958 com Touch of Evil - é o capitão (de nome Hart) do navio de passageiros Fa Tsan (repare-se que é muito parecido com um ferry que existia na época, o Fat Shan) que fazia as ligações marítimas regulares entre Macau e Hong Kong. Contrariado é obrigado a levar a bordo Mark Conrad (interpretado por Curt Jurgens), um exilado austríaco expulso de Hong Kong, por vadiar pelas ruas sem possuir qualquer identificação. Ao chegar a Macau as autoridades locais também não o deixam desembarcar. Num dos diálogos em que o capitão Hart tenta convencer as autoridades portuguesas a deixarem entrar Conrad (sem passaporte), o polícia português afirma: “Hong Kong may have the Money but we in Macau have our pride. (…) His not going to land.”
Conrad passa assim a viver a bordo fazendo todas as viagens entre Macau e Hong Kong. A relação entre ele e o capitão torna-se cada vez mais tensa. Conrad é aventureiro e cínico. Hart é presunçoso e dissimulado. A ‘ponte’ entre os dois é feita pela professora de ar angelical Liz Ferrers (interpretada por Sylvia Syms) que atura um e apaixona-se pelo outro.
A quase totalidade do filme foi feita em Hong Kong. ‘Abre’ com uma imagem aérea sobre a zona de Vitoria Harbour e as cenas da viagem do ferry assolado por um tufão foram feitas na doca de Aberdeen com a ajuda de aviões a hélice. Mas há também cenas filmadas em Macau. As mais significativas são as que mostram os rituais de um funeral chinês que atravessa diversas ruas do território em procissão (Av. Almeida Ribeiro, junto às ruínas de S. Paulo e na Penha junto à residência do bispo) até chegar ao Porto Interior (ponte-cais nº 27 – na Av. de Demétrio Cinatti perto da Rua do Guimarães e que actualmente já não existe), onde o caixão é embarcado no ferry. A baía da Praia Grande surge como pano de fundo de algumas das conversas que os protagonistas têm a bordo. Destaque ainda para as imagens feitas a partir da Penha e que registam a chegada à barra do Porto Interior do Fa Tsan, que a tripulação denomina por Fat Annie.
Numa das várias viagens que o filme documenta o ferry é assolado por um tufão mas como o capitão está doente será Conrad a assumir os comandos. Como se isso não bastasse a bordo estão também uns piratas. O junco onde seguiam viagem estava à deriva no delta do rio e o Fa Tsan acolhe-os a bordo. Apesar do perigo e da ameaça que representam Conrad consegue demovê-los das intenções criminosas.
Entre as várias curiosidades deste filme refira-se a existência de um nome português, Miguel Henriques, o imediato do navio interpretado por Jeremy Spenser. O polícia português, curiosamente, é apresentado como “portuguese major” e interpretado por Ronald Decent. A ponte-cais nº 27 não passa de um décor. Na época essa e outras já existiam em Macau e eram estruturas feitas em betão e não em madeira como surge no filme.
O ferry, feito de propósito para este filme a partir de uma carcaça de uma embarcação acabou por ser incluído numa publicação da Universidade de Hong Kong sendo catalogado como navio a vapor de cerca de 1900 (imagem ao lado). Uma imagem do ferry até surge na capa dessa edição de Junho de 2009, mas na verdade foi apenas um adereço de um filme…
A 27 de Abril de 1961 Howard Thompson assinava uma crítica ao filme no jornal The New York Times. “O filme é apenas recomendado aos curiosos mórbidos que podem ver Orson Welles na sua pior prestação de sempre. (…) O verdadeiro crime do filme é o desperdício da paisagem. Filmado totalmente a cores em Hong Kong está encharcado de uma atmosfera exótica mas após as primeiras cenas é uma desilusão.”
O filme começa e acaba no cais de Hong Kong, embora quase no fim, o Fa Tsan vai ao fundo já muito perto do destino final, numa das menos conseguidas cenas do filme. Mas não nos podemos esquecer que estávamos em 1958 e os recursos em termos de efeitos especiais não eram os de hoje… O ferry afunda mas os passageiros e a tripulação acabam por chegar sãos e salvos e Conrad acaba por ver compensado o seu empenho quando obtém autorização para viver em Hong Kong.
Fica feito o convite para que um destes dias passe 112 minutos frente ao televisor. Demasiado tempo para contar uma história que começa por parecer um drama, mas no fim se fica com a sensação que está meio caminho entre os registos comédia e aventura.
Por último importa referir que, em parte, a história deste filme (argumento adaptado de um livro com o mesmo título da autoria de Simon Kent – pseudónimo de Max Catto), é inspirada em factos reais, ocorridos anos antes, precisamente num ferry que fazia a ligação diária entre Hong Kong e Macau. Mas isso fica para uma próxima oportunidade…

"Ferry to Hong Kong" is a 1959 British melodrama/adventure film directed by Lewis Gilbert and starring Curd Jürgens, Sylvia Syms, Orson Welles and Jeremy Spenser.

Plot:

Mark Conrad, a habitual drunk and troublemaker with a shady past, is expelled by Hong Kong police after one too many bar fights. He's sent to Macao on the Fa Tsan, a ferry owned by Captain Hart. Conrad's papers are out of order and Macao refuses him entry. Unable to go ashore, Conrad is a permanent passenger on the ferry with Hart, who detests him. It's all one long, lazy voyage for Conrad until one fateful trip when an encounter with a typhoon and pirates forces Conrad to choose between an aimless drifter's life and becoming a man again.


Lewis Gilbert described "Ferry to Hong Kong" as a "my nightmare film". Orson Welles, he said, "never cared about his fellow actors, never cared about the director". Gilbert says "everything was wrong with the film - principally Orson Welles". Lewis Gilbert's comments were made in an interview on the BBC Radio 4 programme "Desert Island Discs" transmitted on 25 June 2010.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Um "erro" com quase 40 anos

Num artigo publicado na edição do Diário de Notícias de 29 Agosto 2014 sobre a transferência de Macau para a RPC em 20 de Dezembro de 1999, vem escrito que "em 1974, logo depois do 25 de Abril Portugal propusera o retorno imediato de Macau à China. Mas Pequim rejeitou a oferta, apelando às negociações para uma transferência harmoniosa".
O assunto mereceu resposta do então governador (de Nov. de 1974 a Fev. de 1979) Garcia Leandro. "Há quase 40 anos que tento esclarecer o que se passou, sem sucesso e sem correcções de erros feitos no passado. Ora a História não pode ser feita com esta leviandade". Garcia Leandro garante que "dentro do que conheço, tal não aconteceu, feito por alguém em nome de Portugal."
Em cima: Garcia Leandro enquanto governador de Macau fotografado no seu gabinete no Palácio da Praia Grande; em baixo em 1976, na AL de Macau em 1976. foto publicada na Revista Macau.

Artigo publicado no jornal Ponto Final de 26.09.2014 da autoria de João Paulo Menezes

Não fosse Garcia Leandro teimoso e o assunto provavelmente já teria sido esquecido. Mas esquecido não significa esclarecido – e é isso que
o antigo governador de Macau tem tentado fazer ao longo dos anos, não desperdiçando as oportunidades para contestar uma versão que foi amplamente difundida na segunda metade da década de 70 do século passado: que ele, em nome de Portugal ofereceu (por mais do que uma vez), a devolução de Macau à China.
Esclarecer e desmentir esta versão foi, aliás, um dos propósitos de Garcia Leandro quando publicou o seu livro de memórias macaenses (“Macau nos Anos da Revolução Portuguesa 1974-1979”).
O general conta mesmo que confrontou o professor Sonny Lo, quando este esteve em Lisboa, e que Sonny Lo reconheceu que não tinha provas do que escreveu em pelo menos duas obras: “Aspects of Political Development in Macao” (The China Quarterly, n.º 120) e “Political Development in Macau” (The Chinese University Press, 1995).
O que é que escreveu Sonny Lo? Que “Portugal offered to return Macao to China three times between 1974 and 1977”, frase que foi depois citada por Moisés Silva Fernandes.
O que o professor Sonny Lo disse, em Maio de 2009, no Centro Científico e Cultural, foi: a ter sido verdade que Portugal ofereceu Macau à China no âmbito das Nações Unidas, isso aconteceu apenas numa base informal.
O PONTO FINAL contactou o professor Sonny Lo para tentar esclarecer melhor esta questão e o investigador reafirmou a falta de provas, mas introduzindo uma cambiante: a sua fonte de informação foi outro académico de Hong Kong, Hungdah Chiu, que o escreveu na publicação “Introduction,” in Hungdah Chiu et al, “The Future of Hong Kong” (New York: Quorum Books, 1987), p. 8.
Sonny Lo assume poder estar errado, já que não tinha informações sobre as negociações entre Portugal e a China e não tem provas de que assim tenha acontecido, insistindo na hipótese de uma proposta meramente verbal.
Infelizmente não foi possível obter outras informações por parte de Hungdah Chiu, que morreu em Abril de 2011. Ainda antes dessa data foi contactado igualmente pelo PONTO FINAL, mas há muito que já não era possível obter informações, por motivos de saúde.
Os esforços de Garcia Leandro encontraram, ao longo destes anos, uma enorme adversidade: uma notícia do New York Times, com data de 1 de Abril de 1975, garante que foi o próprio a fazer essa oferta, no dia 10 de Junho do ano anterior, a Ho Yin (pai de Edmund Ho).
Embora as notícias (e os desmentidos…) sobre a hipotética devolução de Macau tenham começado logo a 1 de Junho de 1974, com uma noticia de primeira pagina do Hong Kong Standard, foi essa noticia do jornal norte-americano que mudou a forma como o processo decorreu.
Face à noticia assinada por David Binder, o então Governador de Macau não esteve de modas: disse que só podia ser uma “brincadeira do Primeiro de Abril”. Ho Yin apoiou-o, desmentindo que alguma vez tivesse proposto a entrega de Macau. E Almeida Santos considerou o artigo do NYT uma “mentira” e “especulação mal intencionada”, que tinha em vista atrapalhar os esforços de Lisboa no processo de descolonização em África, segundo escrevia Ricardo Pinto no PONTO FINAL em 2009.
Como afirma Moisés Silva Fernandes (“Contextualização das negociações de Paris sobre a normalização das relações luso-chinesas 1974-1979”, 2010), “apesar dos categóricos desmentidos do ministro Almeida Santos, da Administração portuguesa de Macau e do Governador Garcia Leandro, a versão do New York Times foi aquela que acabou por prevalecer nos meios académicos ocidentais e chineses”. O historiador português elenca aliás, neste artigo, a lista dos vários autores que ao longo das décadas seguintes insistiram na ideia da entrega (ver texto nestas páginas).
Duas conclusões parecem claras nesta altura: que a proposta, mesmo informal, chegou aos ouvidos chineses mas que não foi feita por um responsável político português, e portanto não tinha valor oficial (o que descarta Garcia Leandro).
Mas, então, quem o fez?
Todos os caminhos vão dar ao representante do Movimento das Forças Armadas em Macau, no momento da Revolução de 1974, capitão-tenente Augusto António Catarino Salgado, principal rosto da oposição à continuidade de Nobre de Carvalho como Governador e destituído de funções por Garcia Leandro, quando este sucedeu a Nobre de Carvalho.
O comandante naval Catarino foi um dos fundadores da CDM, a primeira associação cívica criada em Macau e era visto como o líder da facção mais revolucionária dos militares colocados em Macau.
O papel de Catarino Salgado no período de 1974/75 em Macau não está bem estudado, até pela indisponibilidade deste militar da Marinha para o esclarecer. Mas um dos raros historiadores que com ele falou, garante ao PONTO FINAL que sim, que Catarino Salgado fez essa proposta em Macau.
O académico em causa é Josep Sánchez Cervelló, autor do importante livro “A Revolução Portuguesa e a Sua Influência na Transição Espanhola”, que entrevistou Catarino Salgado.
Ao PONTO FINAL, o decano da Universitat Rovira i Virgili na Catalunha garante que foi o “primeiro a falar desta questão na minha tese de doutoramento”, revelando que no Arquivo Militar de Lisboa “há uma gravação que fiz ao comandante Catarino Salgado em 8 de Junho de 1986, que fala nisso. De todas as entrevistas que fiz durante dois anos deixei lá uma cópia”.
Catarino Salgado morreu há seis meses e com ele alguns dos factos que seriam importantes para compreender o que se passou. Outro camarada de armas de Catarino Salgado em Macau, o comandante Guerra da Mata, também já faleceu.
No seu livro ” A Revolução Portuguesa e a Sua Influência na Transição Espanhola”, Cervelló refere um documento do MFA, de Setembro de 1974, em que a entrega de Macau à China era um dos dois cenários apontados. Não só esse documento tem sido ignorado pelos investigadores, como um outro facto relatado por Cervelló nunca mereceu a devida atenção: Catarino Salgado contou-lhe que “veio incógnito um representante chinês, nós soubemos e tentámos falar com ele, e ao cabo de inúmeras perífrases conseguimos arrancar-lhe a seguinte resposta: ‘se nós quiséssemos irmo-nos embora, que fossemos, mas por que queríamos partir se estávamos ali há quatrocentos anos'”.
Mesmo que todos os caminhos apontem para Catarino Salgado, parece difícil que alguma vez o assunto venha a ser completamente esclarecido, por falta de interesse de quem tinha obrigação de investigar a história. Garcia Leandro continuará a dar o seu contributo, como aconteceu com um texto que enviou recentemente para o Provedor dos Leitores do Diário de Notícias, mas será caso para dizer que um erro (ou vários, se considerarmos o protagonista, o local e mesmo as datas) muitas vezes repetido, ainda por cima por académicos prestigiados, que se basearam muitas vezes em notícias de jornais, se transforma em verdade.
Uma história mal construída?
Moisés Silva Fernandes (“Contextualização das negociações de Paris sobre a normalização das relações luso-chinesas 1974-1979», 2010, pág 59) inventariou a lista dos académicos que se agarram à tese do New York Times:
– James C. Hsiung defendeu num artigo publicado numa revista científica que “[h]aving first declined Portugal’s offer to return Macao in 1974, Peking then signed an agreement the following year that allowed Portugal to continue to retain the enclave after nominally surrending its sovereignty back to China (p. 47).
– Baseado no mesmo artigo, Zhiduan Deng asseverou num capítulo de um livro que “[i]n 1974 Portugal offered to return Macao to Beijing. This was declined by the Chinese leaders. In the following year, Beijing signed an agreement with Lisbon allowing Portugal to continue its rule over Macao” (p. 292).
– Hungdah Chiu, por seu turno, argumentou, baseando se num despacho da agência noticiosa norte americana Associated Press. proveniente de Lisboa e publicado no diário The Sun, de Baltimore, em 2 de Fevereiro de 1977, que “the PRC had rejected the Portuguese offer to return Macao to China three times” (p. 8).
– Norman MacQueen argumentou que “[a] report at the end of March 1975, purportedly from western diplomatic sources, suggested that Peking had been asked directly to accept Portuguese withdrawal and had firmly refused to do so” (p. 168),
– Sonny Lo Shiu hing defendeu que “Portugal offered to return Macao to China three times between 1974 and 1977” (1989, p. 841).
– Finalmente, Julian Weiss afirmou que “Portugal tried twice – in 1967 and 1974 – to turn Macao over to China but the Chinese refused for a variety of strategic reasons” (p. 190).
O que se deduz desta lista, que não é exaustiva, já que outros autores (sobretudo com origem em Hong Kong) repetem sistematicamente a mesma informação, é que nenhum cita uma fonte primária (documento escrito, depoimento, etc.), essencial para a construção da história, já que isso demonstra um conhecimento pessoal directo dos factos. Todos se limitam a fontes secundárias, sendo que, ainda por cima, algumas das fontes primárias ainda se encontram vivas. A começar por Garcia Leandro.

domingo, 23 de abril de 2017

Portugal, China, Macau... em 1949

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 Hotel Central



Com a chegada ao poder dos comunistas na China em 1949 vivem-se momentos de grande apreensão em Macau e também em Portugal já que ninguém sabe qual será o futuro do território. Nesta época várias personagens se vão destacar. Uma delas chama-se O Lon, director clínico do Hospital Kiang Wu desde 1936 e tido como o primeiro secretário da célula do Partido Comunista chinês (PCC) em Macau. Será um interlocutor privilegiado do governador Albano de Oliveira, que conhece bem a realidade local e a quem é garantido que em Macau tudo ficaria na mesma.
O Lon parte em 1951 para Macau mas já antes o seu irmão, Cheng-peng, revolucionário clandestino radicado em Hong Kong, funda em Agosto de 1949 em Macau a Sociedade Comercial Nam Kwong. Será durante largas décadas a representação oficiosa da China em Macau...
Outro dos nomes que emerge naqueles anos em Macau é o de Ho Yin. Estará à frente da Associação Comercial de Macau, da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu e da Associação de Beneficência Tong Si Tong...
Pelo facto de Portugal e China não terem relações diplomáticas será através destas múltiplas associações que oficiosamente a China tratará de acautelar os seus interesses em Macau durante muitos anos não tomando posições públicas sobre Macau.

A excepção foi a celebração do 4º centenário de Macau, em 1955, e de que  Ho Yin era membro da comissão organizadora. Seria o governador de Hong Kong, Alexander Grantham, que durante uma visita a Pequim recebe de Zhou Enlai a informação de que a RPC não autoriza Macau a comemorar o aniversário. E seria isso mesmo que acabaria por acontecer, não obstante estar tudo preparado. Até monumentos foram derrubados... mas sobre isso falarei numa próxima oportunidade.
O jornal Diário do Povo, órgão oficial do PCC, chega a escrever: “O povo chinês nunca se esqueceu de Macau, nem se esqueceu que tem direito a exigir a devolução deste território das mãos de Portugal”. Mas não passou de apenas isso... declarações. As comemorações foram canceladas e a vida em Macau continuou tranquilamente.






quinta-feira, 20 de abril de 2017

Jose P. Rizal: 1861-1896



Nascido nas Filipinas em 1861 (Calamba) no seio de uma família rural abastada, mas com ascendência chinesa através de um trisavô, José P. Rizal formou-se como médico em Madrid, onde começou a luta pela independência.
De Espanha seguiu para Paris e Heidelberg, onde aprofundou os estudos de medicina e dedicou-se à escrita inspirando vários movimentos de libertação.
Essa luta obrigou-o várias vezes a ter de fugir do país. No segundo exílio forçado viajou por várias paragens. 
Foi assim que a 18 de Fevereiro de 1888 - com 27 anos - passou por Macau oriundo de Hong Kong tendo ficado hospedado em casa de Juan Francisco Lecaros, um influente homem de negócios filipino casado com uma portuguesa que vivia no território.
Nessa ocasião, acompanhado por outro exilado filipino a residir em Hong Kong, José Maria Baza, Rizal chegou a Macau através do vapor Kiu-Kiang. Durante a curta estadia visitaram o Jardim de Camões, o teatro Dom Pedro V, um casino, igrejas, pagodes e assistiram a uma procissão. Rizal deixaria registos dessa visita no seu diário e nas cartas que escreveu.
A 20 de Fevereiro regressaram a Hong Kong e Rizal seguiu depois viagem rumo ao Japão a bordo do vapor Oceanic.
Rizal fixaria residência em Hong Kong, então uma colónia britânica, entre 1891 e 1892, tendo montado consultório como oftalmologista (imagem abaixo).
Regressado às Filipinas em 1892 seria julgado num tribunal militar e condenado à morte pela sua luta contra o colonialismo. Foi executado a 30 de dezembro de 1896 pelo exército espanhol em Manila. 
Considerado um herói nas Filipinas, no lugar onde foi fuzilado, ao lado das muralhas do Forte Santiago, foi construído um parque memorial em 1913, que é o pulmão da cidade e inclui com uma estátua de 15 metros de altura, erguida junto ao seu túmulo.
Um pouco por todo o mundo existem alusões à sua vida e obra. Em 2001 por ocasião do seu 150º aniversário o consulado das Filipinas em Macau inaugurou um busto de Rizal, (último imagem deste post).
Nos muitos textos da sua autoria ficou célebre o que escreveu na véspera da execução. Ficaria conhecido por "Mi último adiós" e "Mi ultimo pensiamento" mas na verdade o texto original não tinha título e começa como a expressão "Adios pátria adorada".

After arrived in Hong Kong in February 8, 1888, the journalist, poet, doctor, activist and Filipino hero José P. Rizal (1861-1896) made a short visit to Macau. He was 27 years old. On February 18, accompanied by Jose Maria Basa, a Filipino Hong Kong residente exiled for being part of the 1872 revolt which led to the execution of Gomburza, Rizal boarded the ferry steamer, Kiu-Kiang for Macau.
While in Macau, he and his friend stayed at Don Juan Francisco Lecaros home, a Filipino gentleman married to a Portuguese lady.
Rizal toured the famous places of Macau such as pagodas, botanical gardens, casino, theatres, churches, and witnessed a Catholic procession (19th february), in which the devotees were dressed in blue and purple dresses and were carrying unlighted candles.
On his diary Rizal wrote that Macau is small, low and gloomy and it looks sad.
On 20th February Rizal and Basa returned to Hong Kong, again on board the ferry steamer Kiu Kiang and after he took the steamer Oceanic on his way to Japan. On his way back he pratice medicine (ophthalmology) in Hong Kong from 1891 to 1892 (see image above), when he returned to Manila.
He was executed by the spanish authorities in Manila on 30th December 1896. On the eve of his execution we wrote the poem knowned as Mi Último Adiós (My Last Farewell) but Rizal didn't wrote a title. The poem starts with "Adios pátria adora" / Farewell my adored land" .
In June 2011 the Consulate of the Philippines in Macau inaugurated a bust of José Rizal in its facilities to mark its passage through the territory and his 150th birthday (image on the left.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

A tribute to Sheng and Guqin - 向笙和古琴致敬

Chinese Music and Musical Instruments: 2nd Lisbon conference 8-9 May
2017年5月8/9日中国民乐与乐器: 里斯本第二届研讨会
Dias 8 e 9 de Maio tem lugar em Lisboa, no Centro Científico e Cultural de Macau, a Chinese Music and Musical Instruments: 2nd Lisbon conference.
Nesta edição serão abordados temas como a história do Sheng e do Guqin, dois icónicos instrumentos chineses; a notação musical na China antiga; o xamanismo; o taoísmo; a produção discográfica durante o período da Revolução Cultural; infraestruturas culturais em Macau nas décadas de 80 e 90; ensino e performance da música chinesa em Macau; património cultural intangível na República Popular da China e a música chinesa e a globalização.
A conferência, aberta a todos os interessados mediante inscrição prévia, conta com a participação de etnomusicólogos e investigadores de renome internacional como Andreas Steen (Denmark), François Picard (France), Frank Kouwenhoven (Netherlands), Frederick Lau (Hawaii); Helen Rees (USA), Leung Hio Ming (Macau, RAEM); Stephen Jones (United Kingdom), Xiao Mei (People's Republic of China). De Portugal, conta com a participação da investigadora Shao Ling e dos doutorandos Enio de Souza e Leonor Dias Azedo.
Paralelamente à conferência será realizado um recital de Sheng e Guqin, por dois músicos do Conservatório de Shanghai, Chen Jiannan e Lu Xiaozi; exibido o filme Li Manshan: Portrait of a Folk Daoist (80 min.), de Stephen Jones e apresentada a mostra de aguarelas Sizhu 丝竹, Silk and Bamboo: Chinese Musical Instruments, de Mariot Leitão.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Primeira Capitania Geral de Macau (1623-1626): segunda parte


A justiça centrara-se até esta época nas mãos do Ouvidor de Macau, letrado cujas funções englobavam o julgamento de todos casos cíveis e crime da cidade, o qual Ouvidor, a partir de agora, só estava autorizado a dar sentença com o parecer e acordo do Capitão-General. Este estava investido de tão vasta autoridade no que respeitava o foro judicial que podia ordenar a prisão de fidalgos e de capitães da viagem de Japão, remetendo-os para Goa onde cabia ao Vice-Rei o julgamento final. O Governador possuía também o largo poder de condenar em 5 anos de degredo todo o morador de Macau que cometesse algum crime grave e se mostrasse perturbador da paz da cidade, o que, obviamente, fez nascer no seio da comunidade, funda antipatia contra o poder quase absoluto do Capitão-Geral.
As questões financeiras relativas à manutenção de Macau, até este momento sob a alçada dos moradores mais graves da cidade e discutidas no Senado pelos representantes do povo, passaram a estar sujeitas ao parecer e autorização do Capitão-Geral. O alvará de 9 de Maio de 1623 emitido pelo conde da Vidigueira, estabelecera que toda a artilharia que se fizesse em Macau necessitava do consentimento de D. Francisco Mascarenhas. Do mesmo modo, não era permitido dispender-se dinheiro algum nas fortificações e outros melhoramentos ou obras da cidade sem que fosse ouvido o Capitão-Geral.
O Capitão-Mor da viagem, vindo de Goa, que, como foi referido, fundeava em Macau a sua armada pelo espaço de 6 meses enquanto se processava o trato do ouro e seda na feira de Cantão, viu-se automaticamente destituído de qualquer jurisdição sobre a cidade, perdendo as suas anteriores prerrogativas e remetendo-se apenas à alçada sobre a tripulação dos seus navios e os mercadores que viajavam à sua guarda.
A D. Francisco Mascarenhas, como delegado do Vice-Rei da Índia e do rei de Portugal na China, cumpria manter e implementar boas relações diplomáticas com o Tutão, principal dignitário da corte de Pequim e os Mandarins de Cantão, a fim de defender a integridade política da cidade e não provocar desnecessárias represálias por parte das autoridades chinesas. A autoridade do Capitão-Geral imposta desta sorte a uma sociedade detentora de larga autonomia e que sempre sobrevivera corajosamente sem qualquer achega dos cabedais régios, foi, como é óbvio, fortemente contestada. À pequena colónia de Macau, habituada a decidir das suas questões em plena democracia à maneira das antigas cidades independentes, era difícil aplicar uma autoridade decorrente de um centro de poder que a comunidade vagamente reconhecia. O Senado recusou, pois, liminarmente, os moldes do governo de D. Francisco Mascarenhas, «por serem em prejuízo da mesma cidade e contra as liberdades com que ate agora se sustentou e foi em grande crescimento em proveito do estado da India».
A Câmara Municipal, os seus vereadores, em nome da população, puseram em dúvida a provisão que estabelecia a obrigatoriedade do parecer do Geral quanto às despesas a efectuar nas fortificações e mais obras, uma vez que o dinheiro provinha da bolsa dos particulares e de empréstimos prodigamente feitos pelos moradores de Macau.
A cidade fez saber ao Vice-Rei que só voluntariamente dispendia o seu dinheiro em prol da colectividade, e não era ao Capitão-Geral que competia decidir dos cabedais alheios. Não punham os cidadãos em dúvida a idoneidade e mérito de D. Francisco Mascarenhas, mas, no caso de lhes ser enviado, mais tarde, novo Capitão-Geral, havia o perigo de que ele, levado de ambição e proveito particular, «aproveitar se a custa da cidade o que lhe não estava bem...». Refutou também a população de Macau o poder que assistia ao Geral de mandar presos para Goa quaisquer dos seus membros, pois existia uma provisão datando do vice-reinado de Aires de Saldanha que determinava que «nenhum morador desta cidade podera ser emprasado pera a India; mas que sendo culpado, sua causa se tratara na cidade diante do ouvidor de Sua Magestade». Concluiu a comunidade, de modo peremptório, que as ordens e regimentos régios só se aplicavam às praças onde havia feitorias e corriam os dinheiros próprios da Coroa, o que não era o caso de Macau, onde não existiam rendas de Sua Magestade «senão dinheiros dos próprios moradores».
Vamos assistir a três anos de insanáveis disputas entre o Capitão-fidalgo, o Senado e a população em geral, nomeadamente os poderosos e arrogantes magnates da cidade. Outra força de peso se opôs ao Geral de Macau, tornando-lhe ainda mais difícil a tarefa da governação: a poderosa Companhia de Jesus. Os religiosos da Sociedade consideravam o recém-vindo como um potencial concorrente em relação à influência crescente que detinham. Os Jesuítas devem ser considerados não apenas sob o prisma da sua relevante posição política mas também devido aos seus fortes interesses económicos no comércio da prata com o Japão.
D. Francisco Mascarenhas, alvo da animosidade da Câmara da cidade, por um lado, e dos influentes Jesuítas, por outro, sofreu um forte movimento de rebelião que despontou no dia 10 de Outubro de 1624. A tradição local atribuiu a origem do motim ao mau governo do Geral embora esta versão não seja inteiramente de crer. A verdadeira razão deve-se ao facto da comunidade de Macau não suportar, tradicionalmente, a ingerência de estranhos, embora ali postos por vontade real, nos negócios da sua cidade.
Um frontal choque armado ocorreu entre a população descontente e o grupo partidário do Capitão-Geral. A Câmara lançou, inclusivamente, uma ordem, depondo D. Francisco Mascarenhas, e os juízes e vereadores percorreram as ruas da cidade intimando os soldados, os forasteiros, e a população em geral, a recusar obediência ao capitão, sob pena de ser considerado rebelde quem o contrário fizesse.
A razão capital do descontentamento colectivo e do aceso motim, deveu-se à proibição por parte de D. Francisco Mascarenhas, de se realizar a rendosa viagem de Macau para Manila, onde, em troca da seda resgatada na feira de Cantão, se comprava a preciosa prata do Peru. O desempenho de D. Francisco Mascarenhas na capitania geral saldou-se por um largo fracasso, por um frontal desacordo entre a colectividade e o poder instituído, por uma interminável agenda de acesas reclamações feitas pelo Senado ao Vice-Rei. No dia 8 de Abril de 1626 recebeu D. Francisco Mascarenhas uma carta de guia do conde da Vidigueira, em nome d'Él-Rei, intimando-o a entregar a cidade a D. Filipe Lobo, o novo Capitão-Geral, que assumiu o poder em 19 de Julho do mesmo ano. Todavia, não podemos assacar totalmente a D. Francisco Mascarenhas todo o peso da culpa do desagrado do povo de Macau, pois, como foi referido, o que descontentara a gente fora a tentativa de centralização do poder materializada no Capitão-Geral. Também D. Filipe Lobo, o segundo governador de Macau, não conseguiu impedir que os moradores da cidade lhe votassem grande ódio, como se deduz das sucessivas queixas ao Monarca, traduzindo uma insanável desobediência e rebeldia à autoridade central.
Outros governadores se sucederam e a recepção por parte dos vassalos da Coroa portuguesa em Macau registou a marca do forte espírito de autonomia que sempre caracterizou a pequena «república» das costas da China.
O conde de Linhares, em carta de 26 de Setembro de 1634, dirigida ao Geral de Macau, Manuel da Câmara de Noronha, aludiu à premente necessidade de «refrear a loucura dos moradores». Uma década volvida, elevou-se a vez do vice-rei conde de Aveiras, o qual, igualmente, referindo-se à sociedade rebelde de Macau, fez lembrar que «não era novo mandar se tirar de povos os homens prejudiciais e inquietos».
Nos meados do século XVII, quando a miséria se abateu sobre a cidade de Macau, fruto do fecho do riquíssimo trato com o Japão, da ruína do comércio em Cantão e da ronda ameaçadora dos Holandeses nos mares da China, os Portugueses do Extremo Oriente voltaram-se finalmente para Goa, buscando o auxílio material que lhes minguava.
No «Memorial do miseravel estado da Cidade do Nome de Deus de Macao», redigido em 1768, e endereçado ao vice-rei, conde de Vila Verde, pode ler-se:
«Digo pois Senhor apezar de todo o sentimento que visto por falta de Mercancia não ter por nenhum caminho remedio a conceruação daquelles pobres e desterrados moradores. Se digne Vossa Magestade de o por quando Seja Servido a Sinco Fortalezas que naquella Remota terra estão com hum Geral, hum Feitor, oitenta Soldados, hum Sargento Mor e Vinte e quatro Artilheiros, que por Credito, e Respeito da coroa de Portugal Sempre Se sustentou naquella cidade com os dereitos que dos Navios tirarão, E em sua falta com as fintas que entre sy fazião os moradores quando tinhão com que as fazer, tudo Se acabou, torno a dizer, se acabarão tambem as Fortalezas, Se para ellas não for logo Remedio Sem dillação... o qual he justo que não falte a huma Cidade que tem por nome a de Deus».
Artigo da autoria de Manuela Blanco Velez.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Primeira Capitania Geral de Macau (1623-1626): primeira parte

Artigo da autoria de Manuela Blanco Velez
Nos alvores do século XVII, o mais extremo território do Estado Português da Índia situava-se no litoral da China, na pequena península de Heung-San (Ansão), onde em 1557 se haviam fixado os Portugueses, dando origem a uma povoação que, três décadas volvidas, o rei de Portugal fez cidade, denominada Santo Nome de Deus de Macau. De mero burgo de mercadores transformou-se num florescente empório cuja riqueza se reflectia na sumptuosidade dos edifícios e no pecúlio dos seus moradores. Segundo uma fonte coeva, Macau, no início do século XVII, era considerada a melhor e mais rendosa das terras portuguesas na Ásia, «escala de todas as mercadorias que da Índia iam para a China e Japão e outras partes do Oriente».
Através da barreira da Porta do Cerco transitava, anualmente, grande quantidade de sacos de arroz, para alimento da cidade, pelo que a porta era aberta seis vezes por mês e a mercadoria conjuntamente inspeccionada pelas autoridades civis e militares chinesas. Debruçada sobre o mar, a cidade de Macau manteve-se aberta, indefesa e sem fortificações por não as permitir a desconfiança dos Mandarins.
Sempre foi considerado controverso o estatuto da colónia portuguesa de Macau, variando as opiniões acerca da precária instalação dos Portugueses em terras do Imperador da China. Há historiadores que asseveram ter sido o território de Macau objecto de doação imperial à Coroa portuguesa. É a posição do P.e Manuel Teixeira que considera que Macau foi concedido aos Portugueses «sem penção, foro ou tributo». Esta opinião fica invalidada pelo facto de, desde o início do estabelecimento europeu na península de Ansão, ter sido desembolsada uma anuidade para o tesouro do Império, à guisa de renda de um solo cuja propriedade nunca foi alienada pela China. O foro instituído em 1557 e pago pela cidade ao Imperador ascendia a 500 taéis, provando que o chão de Macau não era português nem jamais fora objecto de conquista. O texto de uma carta do Senado de Macau confirma esta proposição:
«Não estamos aqui em terra nossa, conquistada por nós, como são as maes fortalezas da Índia onde somos senhores... senão na terra del Rei da China onde não temos um palmo de chão, maes que o sitio desta cidade, a qual posto hê de nosso Rey, o dito sítio é do rey dos chinas...».
De sublinhar esta dependência dos Portugueses face à China e às leis do Imperador. Da corte de Pequim, através dos Mandarins de Cantão, emanavam ordens e provisões tocantes à colónia portuguesa e, a jurisdição do Tutão, vice-rei da província, exercia-se plenamente no território de Macau. As relações com os Mandarins eram respeitosas e prudentes pois deles dependia o abastecimento da cidade e o trânsito das indispensáveis lanteas de arroz. O trato na feira de Cantão, de onde provinham o ouro e a seda, obedecia às apertadas regulamentações chinesas que os Portugueses respeitavam com fidelidade. Macau encontrava-se, pois, à mercê dos Mandarins.
No ano de 1614, Macau viu-se obrigada a curvar-se perante o decreto imperial, cujo texto, gravado em pedra à entrada da cidade, impôs que todo o navio fundeado no porto fosse sujeito à prévia medição e proibiu a edificação de novos prédios sob pena de serem demolidos. A ofensa foi grande, mas os Portugueses de Macau, longe de Goa e esquecidos do governo da Metrópole, não ousaram o protesto. A arrogância dos chinas fazia sentir a sua evidente fraqueza e a precária situação em terra do Imperador.
As relações entre a cidade de Macau e as autoridades de Goa, inversamente, caracterizavam-se pela ampla liberdade e a quase autonomia da comunidade portuguesa. O Vice-Rei, no distante assento da Índia, pouco podia interferir na vida da cidade, sendo as decisões de ordem administrativa tomadas pelo importante órgão municipal eleito democraticamente pelos cidadãos - o Senado da Câmara. Boxer deu relevo a esta curiosa administração municipal que fez de Macau, por séculos, uma instituição democrática única entre os restantes territórios portugueses do Oriente, os quais eram regidos por altos poderes militares centralizados. Os moradores ou cidadãos elegiam popularmente os seus representantes, que, por seu turno, nomeavam três residentes para vereadores, os quais, conjuntamente com dois juízes ordinários, um procurador da cidade e um secretário, formavam a assembleia governativa. Competia a esta câmara a administração civil, financeira e política da cidade.
Até 1623, a autoridade municipal era partilhada, temporariamente, pelos capitães-mores que, vindos de Goa, comandavam as armadas, as quais, após estacionarem em Macau cerca de seis meses para o trato na feira de Cantão, prosseguiam até Nagasaki a trocar a seda pela prata. No Livro das Cidades e Fortalezas da Índia, cuja redacção data de cerca de 1582, refere-se que «nesta povoação (de Machao) não ouve nunca capitão que residisse ordinariamente nella, sómente o capitão das viagens de Iapão, que se fazem cadanno, como diremos em seu lugar, serue de capitão da terra, emquanto nella está, e quando se vay, hé vindo outro capitão da outra viagem, de maneira que muito pouco, ou nenhum tempo, está sem capitão».

Cumpre referir que o capitão-mor da viagem do Japão, enquanto estante em Macau, dado que nos confins do Extremo Oriente a questão da defesa contra os Europeus não se colocava de momento e a cidade se oferecia largamente aberta e confiadamente desprotegida, formava junta com o Ouvidor e inquiria apenas dos feitos dos moradores, tentando impor a ordem na comunidade. Residia em Macau cerca de um milhar de portugueses, «gente distinta e de muitos haveres», proprietária de amplas e ricas casas, cujas salas bem mobiladas luziam com as baixelas de prata e onde numerosos escravos chinas e cafres vestidos de damasco, serviam os seus amos. Acrescente-se que os opulentos Portugueses de Macau, trajando à maneira de Portugal entre os Chineses, se faziam transportar nas ruas em norimono, cadeira levada à mão por escravos, índice de forte poder económico que detinham.
Podemos nomear, de entre a abastada sociedade portuguesa de Macau, Lopo Sarmento de Carvalho, grosso mercador, e seu cunhado António Fialho Ferreira, António e Jorge Galvão Godinho, poderosos magnates da cidade, Gaspar Borges da Fonseca, casado em Macau, rico armador e benemérito nos empréstimos que fazia à fazenda real, Ponciano Lanços de Abreu, com posição proeminente nos negócios da região, Pero Martins Gaio e Francisco de Carvalho Aranha, importantes benfeitores da cidade, Lourenço Lins Velho e Jácome Rodrigues de Lira, personalidades relevantes do burgo e tantos outros.
No dizer de Ponciano Lanços de Abreu, em missiva dirigida a D. João IV no ano de 1642, «os moradores E a natta da Nobreza e Caualeiros da India Recolhidos aquy das armadas deste Sul, povoam a cidade».
De referir que esta sociedade portuguesa de Macau se caracterizava por forte individualismo e espírito de independência, fruto do largo poder económico que detinha e da plena consciência de que a cidade dependia inteiramente do seu apoio financeiro. Da arrogância dos Portugueses de Macau provinha a permanente indisciplina nos vários sectores da vida citadina e era com grande espírito de rebeldia que esta elite reclamava contra as ordens emanadas de Goa.
A fazer fé nos feitores ingleses estanques em Bantam, os Portugueses de Macau eram puros rebeldes contra o vice-rei da Índia e a cidade palco permanente de cenas sangrentas entre os moradores. Frei Jesus Maria descreveu-os como gente despótica e soberba, vivendo como lhe ditava seu gosto e não respeitando minimamente a autoridade dos capitães-mores que lhes chegavam de Goa e se sucediam num intermitente governo que nada solucionava. Na palavra do conde da Vidigueira, «as differenças que entre elles hauia eram taes que hera esta a mayor guerra que alli se podia temer».
O florescente trato da China, do Japão e de Manila, que deixava elevados dividendos, de tal sorte engrossara aos Portugueses de Macau a fazenda e a bolsa, que eles se consideravam autónomos e bem longe da obediência às leis de reino de Portugal.
Todavia, quando do brutal ataque dos Holandeses à barra de Macau no ano de 1622, foram os particulares que, dando prova de grande coesão, organizaram a defesa, armando os seus escravos e distribuindo armas pela população, de tal sorte que os inimigos foram esmagadoramente derrotados e não mais repetiram a proeza.
A partir desta hora algo mudou na comunidade portuguesa de Macau e a poderosa oligarquia financeira e mercadora do burgo tomou consciência da vulnerabilidade da terra e da necessidade de um centro de comando que provesse à defesa da povoação. Assim, elevaram-se muralhas ao redor do burgo contra outro eventual ataque inimigo, com cabedal oferecido pelos magnates locais, nascendo mesmo à entrada da barra o forte de Santiago. Ergueram-se também os baluartes de Nossa Senhora da Penha de França, de São Francisco e o forte de São Paulo que era «a força de maes consideração e importância que ali passou a haver».
A poderosa comunidade portuguesa de Macau escreveu então ao vice-rei conde da Vidigueira rogando lhes concedesse o título de cidade para a sua colónia e privilégios de cidadãos para os seus moradores. Entretanto, o Monarca, conhecedor da situação, achou por bem enviar-lhes um Capitão-General com plenos poderes para os governar, estabelecer a defesa e instituir a ordem. É bem explícito o regimento do cargo de primeiro Capitão-General outorgado pelo Rei:
«... Se entende e pratica o muito que conuem hauer na cidade  na cidade de Machao Capitão que resida E assista nella, E como primeira e prinçipal obrigação Sua tratte de a assegurar E defender. E de ter para isso em toda a boa ordem E preuenção que cumprir contra quaesquer intentos dos Enemigos da Europa... E para apazigoar E compor os moradores della que ficauão em grandes dissenções e discordias».
Eis que se criou a primeira capitania-geral em Macau, para a qual se designou D. Francisco Mascarenhas, que passara à Índia na armada que transportara o vice-rei D. Francisco da Gama, conde da Vidigueira e se ocupava, no ano de 1622, da defesa da barra de Goa e do Forte de Aguada. Era D. Francisco Marcarenhas fidalgo de grandes méritos; servira a Coroa portuguesa durante 22 anos, fora governador de Mazagão, militar na Flandres e na Alemanha e tudo indicava que desempenharia exemplarmente a função de Geral da cidade de Macau.
1626. John Spencer
D. Francisco Mascarenhas tomou o poder das mãos do conde da Vidigueira no dia 6 de Maio de 1623, rendendo-lhe homenagem e prestando-lhe o juramento da praxe. A autoridade concentrada na pessoa do Geral de Macau era amplíssima, à qual um minucioso regimento englobando o governo civil e militar, concedia a necessária ratificação. Como poderoso representante do rei de Portugal no Império da China, D. Francisco Mascarenhas era responsável pela organização militar da cidade, tendo sido o primeiro capitão a ordenar companhias de infantaria, em número de 200 soldados, para a defesa contra o inimigo.
No regimento estabelecia-se o vasto poder militar do primeiro governador de Macau, pois o Monarca frisara «hey por bem de o encarregar e prouer do dito cargo de Capitão geral da cidade de Machao com todo o poder, mando e Jurdição, E alçada Sobre toda a gente de guerra de presidio daquella cidade». D. Francisco estava também autorizado a instituir um conselho de defesa que integrava o Bispo do Japão, o Padre Governador do Bispado da China, o Sargento-mor da praça e o Vereador mais velho do Senado, os quais deveriam reunir «sempre que as cousas o pedirem para se trattar E assentar o que nellas se deuia prouer».
(continua...)

domingo, 16 de abril de 2017

Museu de Macau: desde 1998

Composto por dois níveis subterrâneos e um terceiro acima da plataforma no topo da Fortaleza do Monte, o Museu de Macau começou a ser planeado em 1995.
A construção iniciou-se em Setembro de 1996 sendo inaugurado a 18 de Abril de 1998.
De um total de 2800 metros quadrados, cerca de 2000 são área de exposição onde se conta a história do território.

1º piso: Apresentação da história de Macau, actividades comerciais, religiões e culturas das duas civilizações. 
2º piso: Tradições e arte popular de Macau, cerimónias religiosas e festivais tradicionais.
3º piso: Macau contemporâneo focando algumas personalidades da literatura e das artes.
 Fachadas de edifícios e uma sala "macaense"


sábado, 15 de abril de 2017

Donas honradas, mulheres livres e escravas

Em 2011 Elsa Penalva publicou o livro "Mulheres em Macau: donas honradas, mulheres livres e escravas" que aborda o período entre 1590 e 1660. De seguida publico uma resenha da obra da autoria de Ana Paula Wagner.
O primeiro ponto a ser evidenciado é que as mulheres são as protagonistas dessa obra, o que já se encontra anunciado no próprio título do trabalho. São mulheres de diferentes estatutos sociais, que viviam em Macau entre finais de Quinhentos e meados de Seiscentos. No topo da hierarquia local estavam as "donas honradas". Conforme ressaltado por Elsa Penalva, essa condição, ser "honrada", não se ligava necessariamente a uma conduta moral reta; mas era acrescida de uma valoração positiva facultada "pelo enlace com um homem com poder econômico, e com possibilidades de acesso às elites atinentes ao exercício do poder político". Abaixo desta categoria, "donas honradas", encontravam-se as mulheres livres e, depois, as escravas. Para estas últimas, equivalia situar-se na base da pirâmide social macaense, no lugar mais indesejado. Num campo intermediário estavam as mulheres livres. Entretanto, para esses dois segmentos sociais, independentemente da condição de livre ou escrava, "significava ter que se organizar, atendendo à sociedade patriarcal em que se inseriam". Eram mulheres que, no geral, tinham dinâmicas de vida muito trabalhosas.
Porém, o universo feminino em Macau era muito mais complexo e diversificado do que a existência dessas três categorias, contando também com a presença de órfãs, religiosas, viúvas com posses ou não etc. Essa heterogeneidade é devidamente explorada pela autora no livro, além de ser redimensionada em razão do caráter multicultural da sociedade macaense, com indivíduos de diferentes procedências, como Portugal, China e Japão, por exemplo. Desse amplo quadro, a autora acaba por apresentar maiores detalhes do segmento das mulheres economicamente mais favorecidas. Tal circunstância deriva, possivelmente, de uma escolha feita por Elsa Penalva e, certamente, do tipo de documentação utilizada para a elaboração da pesquisa.
Em grande medida, ao problematizar a inscrição das mulheres na vida social de Macau, a autora procura não superestimar as ações delas, buscando equilibrar sua argumentação. A conclusão que chega é que "sem capacidade política, nem autoridade pública, e com reduzida intervenção social, a mulher em Macau, dificilmente escapava à dominação masculina a partir da riqueza de que dispunha". Ou seja, a maior parte delas encontrava-se submetida a uma valoração fundamentada em índices de riqueza e, nesse ambiente, o casamento era considerado a principal garantia de segurança e de sobrevivência material. Mas, por outro lado, a condição de viúva, quando acompanhada de poder econômico, facultava à mulher a "manutenção do prestígio social e a aproximação ao universo masculino".
Elsa Penalva não valoriza demasiadamente o papel da mulher em Macau, mas também não as vitimiza, procurando sempre um ponto de equilíbrio. No que diz respeito ao casamento, por exemplo, percebido como um importante mecanismo do processo de inserção social e de diferenciação entre o grupo feminino, ele foi um instrumento bem aproveitado pelas mulheres que viviam em Macau. Ainda que em algumas circunstâncias o matrimônio tenha sido imposto, as mulheres buscaram construir espaços de movimentação e, na medida do possível, procuraram atuar independente dos códigos sociais a que estavam sujeitas.
Como indicamos, a autora acabou privilegiando, em seu estudo, as mulheres economicamente melhor favorecidas, no caso, as viúvas com posses. Particularmente no que se refere a esse grupo social, as ideias de passividade feminina não se configuravam como majoritárias no período em análise, séculos XVI e XVII. Em relação ao aspecto econômico, algumas viúvas conseguiram ultrapassar determinadas barreiras e chegaram a ser as responsáveis pelo gerenciamento de seus patrimônios (garantindo a sua rentabilidade), constituindo-se em grande feito para a conjuntura daquela sociedade:
Algumas [mulheres], após terem enviuvado, tornaram-se elementos activos no meio mercantil em que viviam. Foi o caso de Isabel Reigota que entre 1652 e 1663 se opôs ao jesuíta Manuel de Figueiredo à data, Procurador da Vice-Província da China. Em causa estava o comércio do sândalo, e uma luta pelo poder travado no seio da Companhia de Jesus. O comportamento desta viúva deixa entrever uma aprendizagem de âmbito prático, fruto da observação atenta da actividade do marido, Francisco Rombo de Carvalho, e do contacto com os jesuítas com que privava. A sua casa, local de práticas dos vários saberes a que tinha acesso como mulher, permitira também a aquisição de conhecimento próprios do universo masculino, que, face à morte do marido, se tornaram recorrentes, funcionando como mecanismos de manutenção e sobrevivência.
A história da Isabel Reigota, indicada acima, sintetiza muito bem a argumentação da autora, e apresenta todos os elementos envolvidos na trama oferecida pelo livro. Ou seja, revela o cotidiano de mulheres que, por meio do casamento com um indivíduo com posses, tem acesso a um ambiente que lhes possibilita desenvolver conhecimentos e habilidades, que foram utilizados no momento em que seus cônjuges faltaram. Do mesmo modo, evidenciam as relações estabelecidas entre algumas ordens religiosas instaladas em Macau e determinados segmentos populacionais, fosse no contato para cuidar dos assuntos sagrados, ou sociais, ou econômicos.
Como se nota, paralelamente à história da condição social das mulheres de Macau, a autora descortina alguns aspectos do mundo religioso institucional da localidade, particularmente aquele que dizia respeito à Companhia de Jesus. Conforme Elsa Penalva, essa ordem era a que tinha maior poder em Macau, "pela sua antiguidade, modelo de aproximação à população, e ocupação logística do terreno. Isto pelo menos desde 1565 até inícios da centúria seguinte". As Clarissas, ordem religiosa feminina que se instalou em Macau, em 1633, também ganhou atenção da autora. Segundo seu argumento, a partir de 1642, essas religiosas "funcionaram como um grupo de pressão nas lutas pelo poder que se desencadearam na cidade", passando a se constituírem nas grandes oponentes à Companhia de Jesus naquele território. Entre as Clarissas estavam as filhas de mercadores abastados e influentes que se estabeleceram em Macau. Nota-se, assim, a configuração de um quadro bastante complexo que interliga o cotidiano das mulheres e as disputas religiosas e econômicas locais.
Sem dúvida, o livro em questão atende aos interesses daqueles leitores que buscam informações sobre as experiências das mulheres na Macau dos séculos XVI e XVII; contudo, também contempla a história de algumas ordens religiosas instaladas naquela localidade. Em grande medida, esse é um dos méritos do livro, fazer com que diminuam as distâncias que separam Macau de seus leitores. Embora a sociedade macaense tenha suas particularidades, devidamente exploradas e contextualizadas pela autora, tem-se a impressão de que é possível identificar algumas semelhanças com a história de outros territórios de colonização portuguesa, em especial nas questões relacionadas ao cotidiano das mulheres. É nesse sentido que dizemos que o livro de Elsa Penalva permite estabelecer algumas aproximações, desde o contato com esse espaço geográfico que constituía Macau até o conhecimento de experiências sociais nele desenroladas e comuns a outras sociedades.
Outra grande contribuição do livro Mulheres em Macau é a publicação, como anexos, de três documentos redigidos no século XVII, especificamente entre 1644 e 1690. Embora esses textos tenham sido escritos por homens e, portanto, nos digam muito do universo masculino, as mulheres que tiveram suas histórias vividas em Macau continuam sendo as protagonistas daquelas narrativas. Aliás, essa preocupação com as fontes e o recurso a um sólido trabalho documental é um dos pontos fortes da obra. Elsa Penalva pesquisou uma vasta documentação para compor seu trabalho, como os legados da Santa Casa da Misericórdia de Macau, documentos relativos a Câmara Municipal, processos inquisitoriais e registros de contendas relativos a Macau. Saliente-se, a propósito, a cuidadosa transcrição e referenciação dos documentos e da bibliografia consultada. Por fim, os capítulos apresentados no livro têm como base os estudos empreendidos pela autora em sua tese de doutorado (defendida em 2005) e comunicações apresentadas em congressos, porém ampliados à luz de novas indagações. Enfim, o que se tem em mãos é uma investigação de grande fôlego que requer e merece uma leitura atenta.
Artigo da autoria de Ana Paula Wagner, pesquisadora do Centro de Documentação e Pesquisa em História dos Domínios Portugueses