domingo, 26 de fevereiro de 2017

Farol da Guia: a primeira versão

"Foi o primeiro que luziu nas costas da China. Acendeu-se pela primeira vez a 24 de Setembro de 1865. Foi construído sob a direcção do governador José Rodrigues Coelho do Amaral, sendo um hábil macaense, Carlos Vicente da Rocha, o autor do seu engenhoso maquinismo, que funcionava com um candeeiro de petróleo. A construção foi custeada pela comunidade estrangeira de Macau, tendo à testa o comerciante H. D. Margesson, que tinha a sua firma na Rua Central, n.° 17. Tão curioso era o modelo desse farol que o seu autor o enviou para Lisboa, onde se conservou muito tempo na Sala do Risco do Ministério da Marinha até que um incêndio o devorou. (...)"
Manuel Teixeira: "Toponímia de Macau".

De acordo com um registo de 1865 era assim o farol:
O pharol está na latitude de 22° ÍV N., e na longitude de 113° 33 E, de Greenwich. A elevação da luz é de 101,5 metros acima do nivel do mar, nas mais altas marés de tempo calmo.
A torre do pharol mede 13,5 metros da base à cupola, tem a forma octogonal e é pintada de branco. A lanterna é vermelha.
A luz é branca e rotatória, fazendo um giro completo em 64″ de tempo.
Pode ser vista a vinte milhas, em tempo claro."
Com o tufão de 1874 sofreu graves danos tendo de ser reconstruído o que levaria vários anos.
Só a 29 de Junho de 1910, o antigo farol cedeu lugar a outro, de aparelhagem moderna (de rotação), importado de Paris.

 Dois postais: a mesma imagem
Curiosidade: Na primeira Exposição Colonial Portuguesa, realizada no Porto em 1934, foi construída uma réplica do farol visitada na altura pelo Presidente do Conselho, Oliveira Salazar (na foto).

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Postal para "guarda-marinha" do Adamastor em 1905

Bilhete-postal dirigido a "José Botelho de Carvalho Araújo, guarda-marinha a bordo do Cruzador Adamastor em Macau". O carimbo dos correios de Macau é de 6 de Março de 1905 tendo a carta saído de Lisboa a 30 de Janeiro desse ano.
O posto de guarda-marinha foi criado em 1761 e destinava-se aos jovens que assentavam praça a bordo de uma embarcação de Guerra para receberem formação com o objectivo de se tornarem oficiais da Marinha Portuguesa. Desconheço se sera o caso, mas também poderia ser oriundo da Escola Naval e, a ser assim, este era o primeiro posto da sub-categoria de oficiais.
O cruzador Adamastor foi construído nos Estaleiros Navais de Livorno (Itália) em 1896 e financiado pelas receitas provenientes de uma subscrição pública organizada como resposta portuguesa ao ultimato britânico de 1890. Teve como primeiro comandante o Capitão de Mar-e-Guerra Ferreira do Amaral (filho do governador de Macau, João Maria Ferreira do Amaral) chegando às águas do Tejo em Agosto de 1897. 
O Adamastor desempenhou um papel importante no golpe de 5 de Outubro de 1910, que levou à implantação da República Portuguesa, sendo responsável pelo bombardeamento do Palácio Real das Necessidades.
Durante os 36 anos que esteve no activo percorreu em missões de soberania quase todos os territórios ultramarinos portugueses, desde Angola a Timor, incluindo Macau;  fez várias visitas oficiais a países estrangeiros, como o Brasil ou o Japão; e na Primeira Guerra Mundial, fez parte de operações militares contra os alemães, no norte de Moçambique.
A 6 de Novembro de 1922 o Adamastor foi feito Comendador da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. Em 1934 foi desactivado e vendido à Firma F. A. Ramos & Cª.
Missões do "Adamastor" em Macau (partida e chegadas a Lisboa):
1.ª - Outubro 1899 a Junho 1901
Missão repartida pela Divisão Naval do Índico e pela Estação Naval de Macau. 
2.ª - Novembro 1903 a Agosto 1905
Chega a Macau em Março de 1904 partindo em Agosto para Shangai onde permanece vários meses.
3.ª - Outubro 1912 a Outubro 1913
Além de Macau escala Xangai e outros portos da China; durante esta missão sofreu um acidente, 11 de Maio de 1913, ao sair do porto de Hong Kong; em meados de 1913, o então capitão de fragata, João de Canto e Castro (1862 -1934) (futuro Presidente da República, que sucede a Sidónio Pais) recebe a missão de se deslocar a Macau para aí assumir o comando do cruzador português Adamastor.
4.ª - 1926 a Abril 1928
Em Julho de 1926 chega a Xangai a fim de defender as concessões internacionais e render ao mesmo tempo o cruzador “República”. 
5.ª - Setembro 1929 a Julho 1933
Escala Macau de onde parte a 8 de Fevereiro de 1932, com destino a Xangai e dali em viagem diplomática para Japão. Volta a Xangai para protecção da comunidade portuguesa em virtude do início da guerra sino-nipónica; a 15 de Outubro de 1931, parte para Lisboa, levando o Governador de Macau, capitão de Fragata Joaquim Anselmo da Matta e Oliveira; fundeado em Macau em 1932 é reclassificado como aviso de 2.ª classe. Devido ao vançado estado de degradação é decidido o abate em Lisboa. Larga de Macau em Março de 1933 chegando a Lisboa em Julho depois de uma atribulada viagem em que é obrigado a diversas paragens por sucessivas avarias.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

"Amor por Macau" / "Love of Macao" por Lee Kung Kim

Embarcações abrigadas do tufão
O Museu de Arte de Macau (MAM), sob a égide do Instituto Cultural e a Associação de Fotógrafos a Preto e Branco de Macau, tem patente a exposição "Amor por Macau: Fotografias de Lee Kung Kim", onde são expostas 150 fotografias que têm Macau como tema.
Lee Kung Kim (1930-2015), experiente fotógrafo de Macau, nasceu em Meizhou e começou a fotografar nos anos 50. Foi presidente da Associação Fotográfica de Macau - a mais importante associação de fotografia de Macau, consultor da Associação de Fotógrafos da China e ainda presidente honorário de diversas associações fotográficas. Lee Kung Kim dedicou-se à fotografia por mais de meio século, tendo participado e conquistado diversos prémios em inúmeros concursos de fotografia internacionais.
Respeitando os seus desejos e dando o seu apoio à actividade cultural, os seus familiares doaram todos os seus trabalhos fotográficos, incluindo rolos fotográficos, para integrarem a colecção permanente do Museu de Arte de Macau. Para esta exposição, foram selecionadas 150 fotografias de Macau divididas nas séries patriotismo e costumes locais, dando a conhecer aspectos da vida do território nas décadas de 1960 e 1970.
 
Entrada do templo de Kun Iam
 Vista sobre o Porto Exterior e a ponte Nobre de Carvalho na década de 1970
 Pôr do Sol em Sai Van
Macau visto da Taipa
A exposição está patente ao público até 9 de Julho de 2017, no 1.º andar do MAM na Av. Xian Xing Hai. A entrada é livre. Horário: terça a domingo entre as 10h e as 19h (última admissão às 18:30 horas); encerra à segunda-feira.
Av. da República
The Macao Museum of Art (MAM), under the auspices of the Cultural Affairs Bureau and the Black-And-White Photographic Society of Macao co-organize the exhibition: "Love of Macao - Photographs by Lee Kung Kim”, featuring 150 photography works under the theme of Macao.
Lee Kung Kim (1930-2015), an experienced Macao photographer, was born in Meizhou and started taking photographs in the 1950s. He was the President and Chairman of the board of the Photographic Society of Macao - the most important photography association in Macao, the consultant of the China Photographers Association as well as the Honorary President of a number of photographic associations. He was dedicated to photography for over half a century and won awards in many international photography competitions.
Respecting his wishes and in support of cultural activities, his family members unconditionally donated all of his works to the Macao Museum of Art as permanent collection. In this exhibition, 150 excellent documental works under the theme of Macao were specially selected and divided into the series patriotism and local customs, showing the life aspects in Macao in the 1960s and 1970s.
Love of Macao 
Photographs by Lee Kung Kim
1st floor of the MAM until 9 July 2017
at MAM, located at Avenida Xian Xing Hai  Open daily from 10am to 7pm
(no admittance after 6:30pm)
Closed on mondays

Mr. Lee Kung Kim was born in Meizhou in 1930. He moved to Macao in 1947 and passed away in 2015. He had lived in Macao for 69 years, witnessing the vicissitudes of Macao. His love for Macao, as well as the scenes that he had seen in Macao, are all preserved in his works.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Museu da Taipa e Coloane

O edifício é da década de 1920 e começou por ser o Edifício das Repartições Públicas. Fica na rua Correia da Silva (Taipa). Serviu depois a Câmara Municipal das Ilhas e alberga actualmente o Museu da história da Taipa e Coloane.
No museu, para além de se poder ver como era o edifício de dois pisos no interior estão ainda patentes achados arqueológicos resultantes de escavações feitas entre 1973 e 2006, incluindo das próprias fundações do edifício. As nove galerias incluem ainda testemunhos de como era a vida nas ilhas da Taipa e Coloane em tempos remotos. 
No rés-do-chão aborda-se a história e cultura dos tempos antigos da Taipa e Coloane, ilustrada por quadros e projecções de vídeos, nomeadamente “Arqueologia na Taipa e em Coloane”, “Alteração Territorial e Transformação das Aldeias na Taipa e em Coloane”, “Religião na Taipa e em Coloane ”. No 1º andar podem ver-se cenas do quotidiano: “Câmara Municipal das Ilhas”, “Economia da Taipa e Coloane” e “Características dos Edifícios e Desenvolvimento da Taipa e de Coloane”. Destaque ainda para uma antiga sala de reuniões com decoração dos anos 60.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Macau por Emma Sandys

Emma Sandys (1843-1877) foi uma pintura britânica da segunda metade do século 19 que ficou conhecida sobretudo pelos retratos a óleo. Ainda assim é-lhe atribuída a autoria de alguns trabalhos onde retrata Hong Kong e Macau, neste último caso, a "Praya Grande". Admite-se como muito provável que nunca tenha viajado para tais paragens pelo que certamente se inspirou em outras obras muito em voga na época. Natural de Norwich, aprendeu com o pai a técnica da pintura sendo o seu primeiro trabalho de 1863. Fez várias exposições em Londres e Norwich entre 1867 e 1874. Morreu com apenas 34 anos.
Emma Sandys (born Mary Ann Emma Sands) (1843-1877 was a 19th-century English painter. She was born in Norwich where her father, Anthony Sands gave her some early lessons. In 1853 the family added a ‘y’ to their surname. She was influenced by her brother Frederick Sandys, one of the Pre-Raphaelite Brotherhood, and his friend Dante Gabriel Rossetti. Her earliest dated painting is marked 1863 and she exhibited her works in both London and Norwich between 1867 and 1874. Her works were mainly portraits.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Macau na década de 1950 por Levy Gomes

Na "Nota ao leitor" de "Esboço da história de Macau 1511-1849" editado em 1857, Artur Levy Gomes - foi chefe da repartição superior dos correios da província de Macau na década de 1910 - traça um retrato de Macau na década de 1950. Eis um excerto:
(...) Territorialmente consta da cidade propriamente dita, que abrange toda a península, e das ilhas adjacentes, contando, presentemente, no seu conjunto, pouco mais de catorze quilómetros quadrados de superfície.
Privilegiadamente situada no delta comum dos dois rios, Chu-Kiang (rio de Leste, ou das Pérolas) e Si-Kiang (rio de Oeste) a oitenta milhas da cidade e porto de Cantão, capital da grande província de Kuang-Tung, distrito de Heung-Shan (1), a 22°-11′-50″ de latitude N., e 113°-33′-30″ de longitude E. de Greenwich, tendo na sua parte peninsular a pequena área de 3,5 quilómetros quadrados, árida e deserta ao tempo da concessão, está hoje repleta de edifícios e de luxuriante vegetação, aumentada territorialmente em quase três quilómetros quadrados de terrenos conquistados ao mar. É ligada por um pequeno istmo à ilha de Heung-Shan (montes odoríferos) e cercada de ilhas pequenas e agrestes, possuindo um porto natural pouco espaçoso e fundo, mas bastante abrigado. Colocada quase sob o trópico, na zona semitropical ou de transição, com uma temperatura média de 22°,2 e uma sensível estabilidade térmica, pode dizer-se que tem um clima salubre e invejàvelmente temperado. (...)

Possui urna configuração topográfica suavemente ondulada, em declives mais ou menos acentuados, e praias que se esbatem em curvas e recortes grácis, colinas revestidas de pujante vegetação, jardins encantadores pela sua policromia e frescor, plainos coalhados de casario em que se mistura o exotismo da arquitectura chinesa com as linhas sóbrias e pesadas das antigas construções europeias, aparecendo já em alguns edifícios modernos o futurismo arquitectónico importado da América.
Os seus templos cristãos, os pagodes budistas, os hotéis modernos, o característico bairro chinês com o seu bazar e ininterrupto vaivém dum formigueiro humano; os clássicos jerinxás, o tan-tan dos vendedores ambulantes, enfim um mundo exótico em miniatura, prende a atenção do europeu, gravando-se-lhe indelevelmente na retina e no ouvido.
A beleza poética da remançosa «Gruta de Camões», sobranceira ao Patane, evoca-nos, na sua ensombrada solidão, recordações saudosas do nosso poeta máximo.
Para a parte nova da cidade, sobressaem os massiços de verdura da colina da Guia, coroada, a cento e dez metros de altitude, pelo seu majestoso farol, o primeiro que iluminou as costas da China; o campo da Flora e a Avenida Vasco da Gama, com os seus dois monumentos, recordam-nos, na sua modéstia, um deles, a nossa maior glória marítima, e o outro, um dos factos mais brilhantes da História de Macau.
Ilustração do livro
Bem arborizadas estradas talam os terrenos de Mong-Há e, ao fundo, destaca-se a Ilha Verde, emergindo das águas do Porto Interior. As montanhas do Cathay, as Nove Ilhas aflorando no rio das Pérolas, a da Lapa, a da Taipa, a de Coloane, e mais para o sul as de D. João e Wong-Kam encerram Macau, qual preciosa gema, em escrínio maravilhoso.
Antes da eclosão da última guerra sino-japonesa, tinha Macau uma população que orçava por cento e sessenta mil almas, constituída por enorme  maioria  de  chineses  que  habita,  de  ordinário,  a parte sudoeste da península, por macaenses, europeus e alguns indianos. A população das ilhas da Taipa e Coloane anda por uns dez mil habitantes, na quase totalidade chineses, marítimos de profissão, ou comerciantes.
É sede de uma Diocese, a mais antiga do Extremo Oriente, e tem quatro freguesias: Sé, S.Lourenço, Santo António e S. Lázaro, esta última pertencente à comunidade chinesa católica. Há nela também a freguesia da Taipa e Coloane, sob a invocação de Nossa Senhora do Carmo. Tem ainda sob a sua jurisdição eclesiástica as Missões de Heung–Shan e Shiu-Hing, em território chinês, Malaca e Singapura em territórios ingleses. É este conjunto que compõe o Padroado do Oriente. Possui igualmente bastantes pagodes ou igrejas do culto budista, alguns bastante sumptuosos e até anteriores à nossa ocupação, como o da Barra, e, no cemitério dos protestantes, uma capela desse culto. (...)
Nota: o livro de mais de 400 páginas tem de ser lido com atenção dado o elevado número de erratas e outros informações históricas erradas.(...)"

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Uma história de piratas...

Um destes dias recebi do leitor José Azevedo e Silva um e-mail que publico neste post. É uma história e um apelo e diz respeito a um episódio com piratas ocorrido em 1925.
Envolve a lancha canhoneira "Macau", na altura comandada pelo Primeiro Tenente João Vaz Monteiro de Azevedo e Silva (1896-1954), pai de José Azevedo e Silva que nasceu em Macau a 29 de Setembro de 1925 tendo regressado a Portugal com poucos meses de vida. Esta história, ocorrida no ano em que ele nasceu, é portanto aquilo que ele ouviu contar ainda criança em conversas de família.
Não obstante a vitória reclamada pelas tropas portuguesas em 1910 sobre os piratas que 'infestavam' o delta do Rio das Pérolas com sucessivos ataques em mar alto e às ilhas da Taipa e Coloane, a verdade é que esse feito serviu apenas para atenuar, ainda que de forma significativa o flagelo. Os actos de pirataria continuariam até praticamente à década de 1950. São inúmeros os casos ocorridos. O que José Azevedo e Silva relata é de 1925 e nunca antes ouvira falar...
A canhoneira "Macau" (na imagem acima na doca das Oficinas Navais em Macau) fez serviço de patrulha no território no início do século XX.  A embarcação foi encomendada aos estaleiros Yarrow & Co. Ltd., de Glasgow (Escócia), tendo sido entregue à Marinha portuguesa em 1909. Foi o navio Nº 60 do Regimento de Sinais da Armada e utilizou o distintivo “C.T.A.X.”, como indicativo do Código Internacional de Sinais.
A embarcação seria abatida ao efectivo da Armada a 15 de Agosto de 1943, sendo entregue aos responsáveis militares japoneses da força expedicionária que invadiu a China, por troca com 10.000 sacos de arroz. Passaria a navegar com o nome "Maiko". Em 1949 seria capturada por militares chineses, passando a integrar a frota da marinha da China sob o nome “Wu Fang”.
"Quando o delta do rio das pérolas era ainda infestado por piratas que atacavam as embarcações mercantes que cruzavam a zona era fundamental o trabalho de fiscalização e prevenção de embarcações como a canhoneira "Pátria" e a lancha Canhoneira "Macau". Numa ocasião um barco pirata atacou uma embarcação de comércio e levou de refém todos os passageiros que não tinham calos nas mãos. Os que tinham mãos calejadas eram considerados pobres e como não tendo dinheiro para resgates eram deixados seguir. 
As freiras pertenciam a uma missão católica sediada num antigo templo chinês situados na região de Macau. Não tendo dinheiro para resgates o Superior da Missão pediu auxílio ao Governo de Macau que decidiu destacar a lancha canhoneira "Macau" para libertar as freiras tentando não usar a força de forma a não colocar a vida das reféns em risco. Depois de detectado o refúgio dos piratas o comandante da "Macau", Tenente Azevedo e Silva, foi até ao local, falou com eles e conseguiu convencê-los que aquela senhoras eram pobres vivendo de esmolas e de mãos postas pediam a Deus que protegesse os homens cá na terra.
O apelo foi bem sucedido e as freiras libertadas. Como forma de recompensa, o superior da missão ofereceu ao tenente Azevedo e Silva dois leões de pedra que guardavam a entrada do templo. O comandante recusou tão caro presente mas o padre insistiu... e a oferta foi aceite pelo Imediato da canhoneira. Azevedo e Silva acabaria por aceitar um disco de pedra redonda - com cerca de 80 cm de diâmetro - com dragões esculpidos dos dois lados.
Aquando a morte do meu pai, a minha mãe e os meus irmãos, concordámos em oferecer esta peça ao Museu da Marinha que a teve exposta na Sala do Oriente. Anos mais tarde, com o encerramento desta sala, perdeu-se um pequeno quadro que continha a descrição destes factos. A quem porventura possa ter mais informações sobre estes factos solicita-se que enviem para: macauantigo@gmail.com de forma a poder fornecê-las à direcção do museu e assim solicitar aquela instituição para voltar a expor a peça.

João Vaz Monteiro de Azevedo e Silva (1896-1954)
Militar da Marinha, comandou os navios "Diu" e a canhoneira "Macau" em Macau e a "Bartolomeu Dias" na Índia. Casou em 1905 com Laura Avelar Lopes de Carvalho tendo tido quatro filhos.
Em meados de 1923 embarcou na lancha-canhoneira "Macau" onde esteve até Setembro de 1925 ainda que com uma diligência na canhoneira "Pátria" entre 1 e 23 de Outubro de 1925, ano em que foi promovido a 1º Tenente. Em 1926 terminou a comissão em Macau.
De regresso a Portugal foi responsável pela Direcção das Pescarias, director da Biblioteca de Marinha, professor da Escola Naval e da Escola Náutica e membro da ”Comissão Permanente de Direito Marítimo” tendo contribuído para a elaboração de leis ainda hoje em vigor. Foi ainda juiz no Tribunal de Marinha e membro do Instituto Superior Naval de Guerra.
Em 1935 foi promovido a Capitão-Tenente da Marinha de Guerra e em 1940 a Capitão-de-Fragata. Terminou a carreira militar com a patente de Capitão-de-Mar-e-Guerra. Morreu a 24 de Dezembro de 1954.
Condecorações (Ordem Militar de Avis): Grau de Comendador, com Decreto de 21 de Novembro de 1947; Grau de Grande-Oficial, decreto de 27 de Setembro de 1954.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Ainda a Fonte dos Amores

Existe na taipa uma inscrição num muro com a designação Fonte dos Amores. A actual configuração do muro - já sem a fonte - dá para perceber como era a fonte... original.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

O.K. Hit Songs

A propósito do Dia Mundial da Rádio - celebra-se anualmente a 13 de Fevereiro pois foi nesta data que a United Nations Radio emitiu pela primeira vez, em 1946, um programa em simultâneo para um grupo de seis países - escolhi para tema deste post a "O.K. Hit Songs"
Muito popular nas décadas de 1950 e 1960 a O.K. Hit Songs era uma revista mensal de pequeno formato que incluía as músicas - letra e acordes - que eram sucesso na época e às quais, por norma, só se tinha acesso através da rádio ou das jukebox em alguns cafés. Tinham a vantagem para os leitores não só de poder aprender a letra mas também, para os que tocavam piano ou guitarra, de poder reproduzir os grandes sucessos musicais. Registada em Hong Kong cada exemplar da publicação custava um dólar de Hong Kong sendo a revista impressa em Macau.


Na época os Beatles eram um dos grupos mais populares. Refira-se a este propósito que por certo muitos habitantes de Macau se deslocaram a Hong Kong a 9 de Junho de 1964. Nesse dia os Beatles deram um concerto no Princess Theatre em Kowloon. Este concerto teve a particularidade de não contar com a presença de Ringo Starr. Internado num hospital de Londres foi substituído na bateria por Jimmy Nicol. Relatos da época indicam que o concerto não esgotou, algo raro por aqueles dias de beatlemania.
Para saber mais sobre a história da rádio em Macau sugiro a leitura deste post.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

A primeira Av. do Coronel Mesquita


 
Antes da conclusão da avenida que liga a baía da Praia Grande ao Porto Interior - denominada Av. Almeida Ribeiro (San Ma Lou), havia um troço de arruamento, entre a Praia Grande e o Largo do Senado, que se denominava Av. do Coronel Mesquita. Na fotografia acima, tirada aquando da demolição do edifício onde veio a ser construído o BNU (fotos abaixo), pode ler-se o nome da antiga avenida.
No vol. 4 da Cronologia da História de Macau (de Beatriz Basto da Silva) pode ler-se que só em 1918 a Avenida de Almeida Ribeiro foi aberta completamente. O último troço completou-se então com a demolição da casa do rico comerciante Lin Lian, possibilitando estabelecer o cruzamento da Av. de Almeida Ribeiro com a Rua da Praia Grande.
Nota: actualmente a av. Coronel Mesquita vai desde a zona do Hoi Fu até ao Porto Interior.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Lorcha Amasona: 1863

Relação da tripulação da lorcha Amazona num total de 65 pessoas em 1863... 
um dos vários tipos de embarcações que sulcavam as águas do delta do rio das pérolas.
A "Lorcha Macau" num projecto de construção de 1988

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Igreja da Natividade de Nossa Senhora / S.S.M.V. Mariae Nascenti

em cima: fotomontagem (clicar para ver em tamanho maior)
A igreja que é hoje a Sé catedral de Macau começou por ser uma pequena ermida dedicada a Nossa Senhora da Natividade. Em 1623 foi reconstruída em taipa (composto de terra e palha) mas só cerca de 200 anos mais tarde foi construído um edifício em tijolo e pedra (ilustrações abaixo) sendo consagrada com catedral em 1850. Com o violento tufão de 1874 o edifício ficou gravemente danificado.
O projecto de reconstrução foi então confiado ao arquiteto macaense José Tomás d'Aquino. Já no século XX, em 1937, a catedral foi novamente reparada, mantendo muitos dos traços da anterior reconstrução.
É uma igreja de grandes dimensões, decorada com vários altares laterais, púlpitos de mármore e vários vitrais com imagens do nascimento da Virgem Maria e dos Doze Apóstolos. Nos altares laterais, podem-se ver as imagens do Sagrado Coração de Jesus, de Nossa Senhora de Fátima, de Cristo Rei, de S. João Baptista (padroeiro da Cidade de Macau), de S. José e de Santa Teresa do Menino Jesus.
A Igreja da Sé é uma das várias existentes em Macau e está incluída na Lista dos monumentos históricos do "Centro Histórico de Macau" sendo classificada pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Lara Reis e a moradia "Sol Poente"

"Neste edifício legado pelo rotário Fernando Lara Reis à Santa Casa da Misericórdia foi instalado por iniciativa do Rotary clube de Macau o primeiro centro de luta anti-cancerosa nesta cidade no dia 15 de abril de 1951."
A lápide numa das paredes da moradia denominada Sol Poente testemunha a sua utilização depois da morte do proprietário. E ao que consta foi a primeira clínica do género em toda a China.
Nessa data o governador, Comandante Albano Rodrigues de Oliveira, assistiu à cerimónia de abertura da clínica. Pedro José Lobo era o provedor da SCM e também esteve presente, como se pode verificar abaixo em duas imagens reproduzidas pela revista Mosaico nesse ano.
Em 1988 o edifício passou a a albergar a sede da Cruz Vermelha que ali esteve durante muitos anos. Por volta de 2014 o edifício foi readquirido pela SCM que ali tenciona instalar uma creche.
O edifício fica na Av. da República.
Pelo blogue existem diversos posts sobre Lara Reis e o seu legado, como este.
As fotos actuais são da autoria de Bessa Almeida.
 O registo fotográfico da inauguração em 1951 nas páginas da revista Mosaico.
Fernando Lara Reis, nascido em Leiria em 1892 morreu a 14 de Janeiro de 1950 no Hospital Conde S. Januário, com 57 anos.