terça-feira, 15 de agosto de 2017

La précarité au défi des siècles


No "Cahiers d'outre-mer", edição nº 157 de Janeiro/Março de 1987, o belga Jacques Denis - director do departamento de geografia da faculdade de Namur -  assina o artigo "Macao : la précarité au défi des siècles". Trata-se de uma retrato sócio-económico do território no início da década de 1980 que abrange os seguintes temas: Deux mots d'histoire; Le cadre physique; La population; Les structures économiques; Industries manufacturières; Le commerce extérieur; Le tourisme; Les infrastructures; Deux mots de prospective.
Excerto:
"Façades aux tons pastels, ornées de balcons ouvragés et de lourdes portes de bois cloutées, boutiques chinoises bariolées, marchés grouillant de vie et de couleurs, temples écrasés sous leurs toits de tuiles vernissées, églises baroques flamboyantes, forteresses aux puissantes murailles, entrelacs de ruelles accrochées aux pentes des colines, il n'est pas facile, à Macao, de se situer dans le temps e dans l'espace. (...)"


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Kit Yee Tong

Kit Yee Tong, the oldest martial arts club in Macao
Standing opposite to the historic Na Tcha Temple of Mount Hill is a humble two-storey compound home to a kung fu legend more than a century old. It began in 1914, when a group of local kung fu practitioners formed a lion dance troupe to participate in the firecracker-grabbing races during major festivals. The team soon attracted more like-minded people and, in 1921, it officially transformed into a martial arts club called Kit Yee Tong, or the congregation of righteous men.
Li Fok Nga, an established kung fu expert from Hainan, was invited to be the master coach of Kit Yee Tong. Master Li specialised in Wu Hsing Hong Quan (Five Forms Fist), a kung fu style that simulates five animals – Dragon, Tiger, Leopard, Snake, and Crane. Taking the simple compound on Mount Hill as a teaching base, he quickly became a highly respected figure within the neighbourhood.
The passion for kung fu dissemination was soon overshadowed by an urge to defend the country. When the Japanese invasion of Manchuria began in 1931, Master Li volunteered to join the legendary 19th Route Army of the National Revolutionary Army, fighting in the First Battle of Shanghai. Appointed as the coach of a machete squad, he led his fellow fighters in midnight attacks on Japanese military camps. While Master Li and other warriors were risking their life on the battlefield, people in Macao were filled with a sense of patriotism. Members of Kit Yee Tong, along with other devoted individuals and associations, organised dragon dance and kung fu performances to raise funds to support China against the Japanese invasion. Unfortunately, Master Li became very sick during his military service and was commanded to return to Macao for better medical treatment. His health continued to deteriorate; he passed away at the age of 45.
Today, Master Li is remembered as the pioneer of Kit Yee Tong. A memorial tablet affixed to the entrance of the compound commemorates his wartime contributions. His training weapon, a rusted trident more than a metre long, is regarded as a spiritual mascot by the members of Kit Yee Tong. Na Tcha Festival is the biggest annual event for Kit Yee Tong. Since its establishment in 1921, the club has sent lion dance troupe to take part in the celebration each year.
Excertos de artigo de Cathy Lai e António Sanmarful in Macao, nº 41, Julho 2017. Segue-se uma tradução livre dos excertos.
A “Ou Kong Si San Kit Yee Tong” é a mais antiga associação desportiva de artes marciais chinesas em Macau.
Em frente ao histórico templo de Na Tcha, nas traseiras das ruínas de S. Paulo fica um pequeno edifício de dois pisos, que alberga uma lenda do kung fu há mais de um século. Tudo começou em 1914 quando praticantes locais de kung fu formaram um grupo de dança do leão para participar nas festividades chinesas. O grupo depressa cresceu e em 1921 foi formado oficialmente um clube de artes marciais chamado Kit Yee Tong, cuja tradução significa congregação de homens justos.
Li Fok Nga, um especialista estabelecido em kung fu de Hainan, foi convidado a ser o principal treinador do clube.  O mestre Li era especializado em Wu Hsing Hong Quan (Five Forms Fist), um estilo de kung fu que assenta a sua base nos movimentos de cinco animais: Dragão, Tigre, Leopardo, Serpente e Grou (ave). A paixão pela disseminação do kung fu seria ofuscada pelo um desejo de defender o país aquando da invasão japonesa da Manchúria em 1931 e o Mestre Li foi como voluntário para o lendário 19º batalhão do Exército Nacional Revolucionário, lutando na primeira batalha de Xangai.
Por Macau, a Kit Yee Tong, juntamente com outras associações organizaram performances de dança de dragão e leão bem como demonstrações de kung fu com o objectivo de arrecadar fundos para apoiar a China contra a invasão japonesa. O mestre Li acabaria por adoecer e regressar a Macau onde morreu aos 45 anos sendo desde então lembrado como o pioneiro do clube Kit Yee Tong.
Um quadro evoca a sua memória, bem como a sua arma de treino, um tridente enferrujado de mais de um metro de comprimento, considerado a mascote espiritual pelos membros do Kit Yee Tong. Desde a fundação em 1921 a Kit Yee Tong participa no festival em honra de Na Tcha.
Sugestão:
Se está por Macau por estes dias, não perca a oportunidade única de assistir ao “Encontro de Mestres de Wushu 2017”, um evento de celebração de artes marciais tradicionais entre 10 e 13 de Agosto. Durante o encontro, que reúne alguns dos melhores mestres mundiais de Wushu, estão previstos vários eventos que combinam elementos desportivos, turísticos e culturais: “Suncity Grupo CKF Desafio Internacional de Combate - Macau”, “Festival Wushu de Verão”, “Competição Internacional de Taolu”, e “SJM IV Campeonato Asiático das Danças de Dragão e de Leão”.
Nota: Wushu significa literalmente a “arte da guerra” e é uma expressão que designa todas as artes guerreiras, militares ou marciais. O kung fu faz portanto parte do Wushu, mas é apenas um estilo/arte marcial entre centenas que se praticam na China e um pouco por todo o mundo.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Selo D. Maria II

Os selos com efígie da rainha D. Maria II foram os primeiros selos postais portugueses emitidos em Julho de 1853 com cunho de Francisco de Borja Freire e impressos na Casa da Moeda.
Inspirados nos selos ingleses de relevo da emissão de 1847/1848, os selos D. Maria II apresentavam um busto da rainha semelhante ao das moedas em circulação na época.
Foram postos à venda com o valor facial de 5, 25, 50 e 100 réis e Portugal tornava-se o 45º país a adotar o selo postal.
De acordo com os especialistas, houve várias reimpressão destes selos: em 1863 para satisfazer requisições de correios estrangeiros; em 1885 para formar 500 colecções a fornecer às diversas administrações membros da União Postal Universal; em 1905 para oferecer a ao rei Afonso XIII de Espanha, e finalmente em 1953 por ocasião da exposição filatélica internacional, que coincidiu com o centenário do selo postal português. Em cima um selo comemorativo feito para o Ultramar português - no caso, para a Guiné - com o selo D. Maria II de 25 réis.

Envelope com o selo emitido para circular em Macau que assinalou o centenário do selo português (para o Ultramar); carimbo de 3.3.1954 com marca 1º dia de venda; o valor facial do selo D. Maria II é de 5 réis.
Selo dos Correios de Macau que assinalou o centenário do selo português em 1953

domingo, 6 de agosto de 2017

Aconteceu em Mong Há

Foi há muitos, muitos anos…
Um dia, ao fim da tarde, um bul-bul de dorso verde azeitona, manchado de amarelo, fugiu de uma das gaiolas de bambu de hastilhas finas, onde o seu dono acabara de prender um lindo bebedouro em porcelana pintada. A ave voou para um dos ramos da maior árvore do Largo do Arvoredo, em Mong-Há, e ficou a balouçar-se assustada, errando à toa, sem saber para onde ir, ignorante dos caminhos da liberdade. Saltava, de ramo em ramo, entontecida, alheia ao desespero do seu velho dono, que a adquirira por bom preço e a via agora aparecer e desaparecer entre a folhagem verde escura da árvore de gondom (1).
Um rapaz azougado da aldeia, que assistira à cena, subiu lesto à árvore para apanhar o pássaro fugitivo. Porém, quando agarrou a ave, o tronco onde se apoiava cedeu ao seu peso e, desamparadamente, veio despenhar-se, de muito alto, sobre o velho banco de pedra onde os anciãos se reuniam a jogar cheong kei (2).
A queda foi fatal. Nenhum remédio foi eficaz para o curar. Foi chamado o mais famoso médico tradicional da aldeia, que achou a cura impossível. Veio a man-héong-pó. Veio o bonzo de Tou, famoso pelas suas artes mágicas curativas, que morava para as bandas de San Kiu. Tudo em vão. O rapaz morreu nos seus verdes anos, desastrosamente, sem ter cumprido a sua missão na terra. Para mais, era mau filho; não cumpria os seus deveres para com a sua velha mãe, obrigando-a a trabalhar arduamente para o sustentar, enquanto passava os dias a divagar pela cidade, jogando dados e cartas de pau (3), sem nada fazer de útil.
A partir de então, aquela árvore passou a ser temida. Na sua densa ramagem passara a habitar uma alma faminta, um espírito errado, um kwâi. Os aldeões de Mong-Há evitaram, desde aí, passar, de noite, pelo Largo do Arvoredo fronteiro ao Kun Iâm Ku Miu, onde se encontrava aquela árvore malissombrada, a mais frondosa do terreiro.
Contavam-se várias histórias…
Á-Fai, um aguadeiro da aldeia, que residia perto do chi tei (4) do Kun Iâm Ku Miu, possuía, para o transporte da água que vendia aos moradores da cidade, uma pequena zorra de madeira, onde levava os môk tong (5) cheios do precioso líquido. De noite, este pesado carro ficava na rua, diante da sua casa. O kwâi da árvore fronteira divertia-se, então, a deslocá-lo, por vezes para enormes distâncias, as quais, no dia seguinte, o aguadeiro tinha de percorrer, antes de iniciar a sua faina. E isto porque um dia Á-Fai troçara dos aldeões que acreditavam naquele kwâi que residia na grande árvore, a mais velha de Mong-Há.
De outra vez, o lou lei pak (6) da aldeia, homem já muito idoso, ao passar a desoras pelo Largo do Arvoredo, viu alguns garotos a trepar e a brincar perigosamente empoleirados nos ramos da famigerada árvore. Receoso de alguma queda desastrosa, incentivou-os, mandando-os para casa. Eram horas de dormir. Não eram horas de brincar! Como resposta, foi agredido por uma saraivada de pedras. É que aqueles garotos eram kwâis que vinham brincar com o outro que ali residia há muitos anos.
Não só os chineses, porém, eram alvo das diabruras daquela pobre alma penada. Um dia, um militar português, seguindo, de noite, em direcção à chácara da família Senna Fernandes, quando subia a chamada ladeira de San Tei num jerinxá manual, ao aproximar-se do Largo do Arvoredo, foi quase arremessado ao chão, porque o jerinxá parou bruscamente. O cule sentiu, de repente, que não podia avançar, porque o peso do seu carrinho de um só lugar aumentara inexplicavelmente, ultrapassando a capacidade de tracção dos seus braços. O militar, irritado, pensando ser manha do condutor, deu-lhe um pontapé, com certa violência. Imediatamente recebeu uma forte bofetada dada por mão invisível. É que se tratava do kwâi que vivia na árvore mofina e que se apoiara no jerinxá, fazendo-o assim parar mercê do peso adicional. A bofetada dada pelo kwâi foi de tal ordem que o militar ficou em estupor e com a boca torta (7).
Com a abertura da Avenida Coronel Mesquita o grande largo do Kun Iâm Ku Miu foi amputado e, com ele, as suas velhas árvores, entre as quais a malissombrada, que ninguém ousara, até ali, abater.
Árvore com leng… árvore respeitável. Mas também árvore onde morava um kwâi.
Vieram os bonzos. Queimaram-se papéis. Fizeram-se orações para que os deuses não se ofendessem com as transformações impostas à aldeia. E houve, ainda, quem se lembrasse do rapaz que, há muito, muito tempo, por causa de um bul-bul, passara a viver no imaginário colectivo da população pacífica de Mong-Há.
Artigo da autoria de Ana Maria Amaro in Revista Macau, Julho 1996
(1) Nome de Macau dado às árvores-de-pagode (árvores do género Ficus, cujos frutos têm a forma de pequenas esferas).
(2) Xadrez chinês.
(3) Dominó chinês. 
(4) Pequeno altar exterior dedicado a Tou Tei, o Espírito do Solo. 
(5) Baldes chineses de transporte de água, feitos em madeira.
(6) Guarda-nocturno e marcador de períodos horários.
(7) Forma local de referir acidentes vasculares cerebrais

sábado, 5 de agosto de 2017

O Polícia Sinaleiro

Função em vias de extinção, o polícia sinaleiro marca uma época em Macau (anos 50 a 70) em especial nos cruzamentos da San Ma Lou com a Av. da Praia Grande e, como comprova a imagem, no cruzamento da rua do Campo, junto ao jardim de S. Francisco. A regulação do trânsito era feita muitas das vezes numa peanha, um pequeno pedestal. Na imagem, destaque para o Pavilhão Octagonal, o Colégio Santa Rosa e para os edifícios residenciais, incluindo o edifício Ribeiro onde, anos mais tarde - depois da demolição - surgiria o cineteatro.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Un petit bout de Portugal en mer de Chine


Em Agosto de 2010 o jornal Le Monde publicava um artigo dedicado a Macau intitulado "Macau, un petit bout de Portugal en mer de Chine". Jacques Denis assim o texto que a seguir se transcreve:
"Près de Hong Kong, l'ancien comptoir portugais redevenu chinois n'est pas intégralement tapissé de casinos. Ses bâtiments anciens témoignent de son passé mouvementé.
Nichée en haut d'une butte, l'église Madre de Deus se dresse face aux marches qui dévalent sur la place de la compagnie de Jésus. De cet édifice qui fut l'un des premiers construits par l'ordre religieux en Orient, il ne reste plus que la façade 400 ans plus tard. Tout comme à quelques pas de là, les ruines du collège Saint-Paul, la première université sur le modèle occidental en Asie.
Ces deux lambeaux d'histoire témoignent malgré les aléas et les siècles de la présence durable des Portugais dans ce confetti d'empire, en lisière de l'Extrême-Orient. A quelques brassées de Hong-Kong, non loin de Canton, au cœur du delta de la rivière des Perles, la fragile péninsule de Macau se laisse découvrir à pied, à travers les dédales de ruelles obscures aux rues relookées. A chaque détour, l'œil se fixe sur des détails du luxe et du lustre d'antan.
Malgré son rattachement à la République populaire de Chine en 1999, l'ancien comptoir de moins de trente kilomètres carrés persiste à faire valoir sa différence, symbolisée par un statut spécial, un régime politique unique et une monnaie spécifique, le pataca. L'administration comme la signalétique affichent d'ailleurs la particularité de Macau en trois langues: chinois, portugais et anglais. Visible sur les murs, cet héritage métis est encore vivace, à l'image de la tolérance multiconfessionnelle de cette cité dont la devise est : "Cité du nom de Dieu, il n'y a pas plus loyale."
En 1957,
Joseph Kessel évoqua "une côte blanche et discrète, alanguie, engourdie même dans son quartier chinois d'un charme qui tournait toujours à l'envoûtement. On eût dit qu'une opération magique avait transporté des rives atlantiques l'essence du Portugal à la pointe extrême de la baie de Canton." En juillet 2005, le Macau lusophone sera inscrit au patrimoine mondial de l'Unesco, histoire de préserver le centre-ville historique, érigé ici avant que la ville moderne ne gagne inexorablement du terrain sur la mer.
Palais baroques portugais et temples bouddhiques, places finement tressées de dalles bichromes et forts aux solides remparts, Macau a plus d'un atour à faire voir : il suffit de cheminer entre le quartier San Ma Lo, qui fut le poumon commercial de la ville, et la péninsule Penha en front de mer, qui reste le meilleur endroit pour savourer la cuisine macanaise, du nom de la population créole, fruit des unions entre Portugais et Chinois.
A deux pas de là, la maison du Mandarin compile avec élégance styles chinois, portugais et indien tandis que le temple A-Ma accueille des cars de dévots bouddhiques... Avec, en toile de fond, des buildings qui grattent le ciel dans cette cité devenue en 2007 la capitale mondiale du jeu. En levant les yeux, le promeneur découvre au loin le phare de Guia, le plus ancien des mers de Chine du Sud, qui se situe sur le point culminant de la ville, au beau milieu d'un parc surpeuplé de gymnastes zen.
Un cliché emblématique de cette faille spatio-temporelle... Tout comme le vieux quartier de Tapai aligne vastes demeures coloniales et petites maisons chinoises, dont les murs gardent le souvenir émouvant des siècles passés , et qui sont désormais menacés par l'irruption de tours aux dimensions surréalistes."


quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Escola do Magistério Primário

Pelo Decreto nº 46616 de 13.11.1965 foi criada em Macau a Escola do Magistério Primário destinada a 'criar' professores primários. Ficou instalada no edifício das Escolas Primárias Oficiais que recebeu para o efeito mais um piso, sendo as instalações inauguradas a 28 de Maio de 1966. A partir de 1982 passou também a proporcionar cursos de Auxiliares de Educação Pré-Escolar e de Habilitação de Monitores de Língua Portuguesa do Ensino Luso-Chinês.Funcionou até 1990 com a criação da Escola Superior de Educação da Universidade da Ásia Oriental.

Teor do decreto:
A expansão do ensino primário no ultramar deverá ser acompanhada do aumento de professores convenientemente preparados em estabelecimentos de ensino adequados.
Na província de Macau o problema atinge particular acuidade e urge procurar obviar à falta de professores de ambos os sexos que ali se verifica.
Nestes termos:
Atendendo ao que propôs o Governo de Macau;
Por motivo de urgência, tendo em vista o disposto no § 1.º do artigo 150.º da Constituição;
Usando da faculdade conferida pelo n.º 3.º do artigo 150.º da Constituição, o Ministro do Ultramar decreta e eu promulgo o seguinte:
Artigo 1.º É criada, em conformidade com as disposições do Decreto 44240, de 17 de Março de 1962, uma escola do magistério primário em Macau.
Art. 2.º A escola terá o quadro docente mencionado no artigo 4.º do Decreto 44240, de 17 de Março de 1962, observando-se no seu provimento o disposto nos §§ 1.º a 11.º do mesmo artigo.
Art. 3.º A prática pedagógica será realizada na escola oficial do ensino primário que for designada para o efeito pelo chefe da Repartição Provincial dos Serviços de Educação, ou em escola anexa à do magistério primário, com a designação de escola de aplicação, se assim for classificada pelo governador, ou, pelo menos, vier a ser instituída com tal classificação.
Art. 4.º O estágio será realizado em escolas primárias oficiais, sob a direcção de professores orientadores, aos quais será abonada gratificação enquanto durar o estágio.
Art. 5.º O director da escola do magistério primário será o professor de Pedagogia, Didáctica Geral e História da Educação, ao qual será atribuída uma gratificação permanente pelo exercício das funções de direcção.
Art. 6.º Enquanto as circunstâncias o aconselharem, poderá o governador nomear professores do ensino secundário e primário da província para ministrarem o ensino na escola do magistério primário, em regime de acumulação, percebendo, como gratificação, as importâncias que cabem ao exercício de cargos acumulados, segundo o disposto no artigo 60.º do Estatuto do Funcionalismo Ultramarino.
Art. 7.º É da competência dos órgãos legislativos provinciais a fixação das demais gratificações previstas no presente decreto, e bem assim das quantias destinadas a remunerar lições.
Art. 8.º Com vista ao regular funcionamento da escola, será aumentado o quadro burocrático dos serviços de educação com um segundo-oficial e um dactilógrafo e criados dois lugares de contínuo e dois de servente, mas o seu provimento não será realizado enquanto se não verificar a sua indispensabilidade.
Art. 9.º Fica o Governo da província de Macau autorizado a abrir os créditos necessários para a execução deste decreto, com contrapartida em recursos orçamentais.
Art. 10.º (transitório). No corrente ano lectivo fica o Ministro do Ultramar autorizado a fixar por despacho as datas dos exames de admissão à escola e o período abrangido pelo 1.º semestre escolar.
Publique-se e cumpra-se como nele se contém.
Paços do Governo da República, 26 de Outubro de 1965 - Américo Deus Rodrigues Thomaz - António de Oliveira Salazar - Joaquim Moreira da Silva Cunha.
Para ser publicado no Boletim Oficial de todas as províncias ultramarinas.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Ainda a "Casa dos Rapazes"


A propósito de um post já de 2015 sobre a "Casa dos Rapazes e a Obra Social da PSP" fica esta imagem onde se pode ver o edifício do lado esquerdo, numa das margens do reservatório na década de 1960/70.
PS: Em Julho último o blogue registou 12.156 pageviews, numa média diária de 392 clics.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

No tempo dos "steamers"... 1932

Anúncio do jornal Hong Kong Daily Press em Fevereiro de 1932. A Hong Kong, Canton and Macao Steamers partilhavam com a China Navigation Co Ltd a prestação de serviços relativos à ligação fluvial no delta do rio das pérolas, entre Hong Kong, Macau e Cantão. Estes "special services" publicitados são por certo relativos ao período do ano novo chinês que habitualmente tinha mais procura.
Um das embarcações referidas  é o S.S. Sui Tai que levou o padre Manuel Teixeira até Macau quando chegou pela primeira vez em 1924.
Ferreira de Castro visitaria Macau alguns anos mais tarde e faz uma descrição dessa viagem entre a então colónia britânica e o porto interior em Macau.
Estas embarcações a vapor tinham a bordo o serviço "wireless"... claro que não o que se conhece hoje relativo à internet, mas sim o sistema de comunicações TSF, telegrafia sem fios....

sábado, 29 de julho de 2017

Bela Vista: o hotel ideal para umas férias de Verão


Em cima, um anúncio da década de 1950 onde o Hotel Bela Vista "Situado num lugar sobranceiro ao mar, donde se disfruta um magnífico panorama, é o hotel ideal para umas férias de Verão" apresenta como atributos o "serviço perfeito, quartos a preços acessíveis, asseados e com boa ventilação". Em baixo, dois exemplares de caixas de fósforos, produtos de merchandising do hotel.
Former Boa/Bela Vista (Great/Beautiful view) hotel is one of the greatest legends in Macau’s history and hospitality scene. Nowadays (since 1999) is the Residence of the Portuguese Consul General. Perched on the edge of Penha Hill one of the attractions was the location with gorgeous and expansive views over the former bay of Praia Grande.
The building, neoclassical design, was erected in 1870 as the private residence of a British expatriate couple who turned it into the Boa Vista Hotel in 1890. Over the next century, it would shift hands multiple times, becoming a hospital, a school and reverting to a hotel more than twice. It acquired the name “Bela Vista” around 1936 until the end in 1999.
O Bela Vista e a vista que proporcionava sobre a Praia Grande em 1961


sexta-feira, 28 de julho de 2017

The birthplace of horse racing in Asia

"Macao Races" é o título de uma notícia publicada na primeira página do jornal The China Mail (de Hong Kong) na edição de 12 de Novembro de 1932. Na época o hipódromo fica junto à Porta do Cerco tendo sido inaugurado em 1927. As corridas de cavalos eram um dos maiores cartazes turísticos do território atraindo multidões da vizinha colónia britânica. Foi no território que nasceram as corridas de cavalos ao modo ocidental e as raízes remontam ao século XVII. Em 1637, Peter Mundy, refere no seu diário uma corrida junto à Igreja de S. Domingos. Na toponímia local existem referências a esses tempos com nomes como a Avenida do Hipódromo ou a Rampa dos Cavaleiros.

Although Macau International Racing Sport Association was founded only in 1927 the history of horse races is much older. In 1637, Peter Mundy, who was the expedition’s commercial officer, went to the races in Macao and he wrote that experience on his diary.
The races were held in a large open square, artificially leveled, in front of the church of Sao Domingos in the heart of the attractive little Portuguese city. In 1713 when East India Company arrived in Macau, horse racing was already a popular sport with a proper six furlong track known as the Hipódromo, portuguese word meaning “horse race track”. That's the reason Macau held the first foreign european style racecourse in China.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Um Marco de Macau

Manuel Silva Mendes tem sido um nome esquecido na história de Macau. A biografia feita com paixão por João Botas resgata-o e mostra-o como um nome fundamental do território no século XX.
Macau ainda tem muitas histórias para contar. E muitas delas encontram eco no blogue "Macau Antigo", que João Botas vem animando ao longo dos anos e que é uma fonte sem fim de luz sobre o antigo território sob administração portuguesa e sobre as pessoas que por lá passaram e ali deixaram a sua impressão digital. Algumas delas foram esquecidas pelo tempo, sobretudo em Portugal, onde a história se faz muitas vezes à base de "heróis" ou de dignatários. Esquecendo muitos dos que, em diferentes latitudes, impuseram os seus sonhos. É por isso que esta biografia de Manuel da Silva Mendes vem preencher uma enorme lacuna na história de Macau na transição do século XIX para o XX.
Manuel da Silva Mendes foi, como recorda João Botas, "um dos intelectuais mais relevantes da história de Macau na primeira metade do século XX. Foi professor e reitor de liceu, juiz, vereador e um dos melhores coleccionadores de arte chinesa". Foi ali que morreu, por sua vontade expressa, já que sentindo a chamada do seu fim, para ali fez uma derradeira viagem, para comungar os seus últimos dias com a terra que amou. Ao logo das páginas, vamos desvendando a sua vida e, especialmente, a sua diversificada vida em Macau, onde fez de tudo um pouco, resguardando-se quase sempre de actividades de forte índole política. Apesar das suas convicções republicanas e, dizem, anarquistas.
Não deixa de ser curiosa a citação de Manuel da Silva Mendes que surge quase no início da biografia e que acaba por definir o próprio: "Afeiçoei-me à terra e aqui fiquei. Nunca ganhei nem perdi dinheiro no jogo, porque nunca joguei; nunca ganhei rios de dinheiro nem cousa que com isso parecesse, porque, para além de outras razões, em Macau rios de dinheiro, honestamente, ninguém pode ganhar. Mas consegui amealhar o bastante para viver modestamente e tem-me Macau, a China e amigos chineses proporcionado meios de satisfazer as minhas necessidades intelectuais. Nunca me intrometi em irritantes questões políticas ou administrativas, nunca me foi oferecido lugar algum de benesses ou honrarias, nem solicitei, nem ambicionei. E, assim, e posto que tenha sido, em regra, tratado com menos consideração do que muitos que nem sequer seis deveres tem cumprido, tenho vivido contente".
A biografia escrita por João Botas é elucidativa sobre o que estas palavras encerram. Ele foi uma figura ímpar num tempo de convulsões em Portugal, em Macau e na China.
João Guedes, talvez um dos maiores conhecedores da história de Macau, escreve no prefácio outros dados muito interessantes sobre o alvo desta biografia: "Certo é que MSM chega a Macau num momento em que nos mentideros locais (portugueses já se vê) se discutia então com certo calor a necessidade de deitar abaixo a monarquia e implantar a república". A importância da Maçonaria e das ligações anarquistas (com forte influência então na própria China) são analisadas por João Guedes, num texto muito interessante. Todo o contexto da vida e actividades de Manuel Silva Mendes está também nesta biografia que ilumina um tempo e um homem que merece sair da obscuridade a que foi destinado.
Fernando Sobral in Jornal de Negócios - 30.06.2017

terça-feira, 25 de julho de 2017

Uma fotografia de Neves Catela

Uma fotografia de Neves Catela obtida em 1930 teve pelo menos dois fins distintos. Serviu de ilustração a um guia turístico da época que apresentava o território como "the oldest foreign colony in China" e tinha como mote "include a trip to Macao on your round the world tour"... "three & half hours from Hong Kong".
A mesma imagem foi ainda usada como capa da edição de 16 de Outubro de 1939 da revista portuguesa "Ilustração" com a legenda "uma linda paisagem de Macau", nada mais nada menos que um pôr-do-sol captado a partir da Avenida da República.
PS: é também uma foto de Neves Catela que serve de capa ao livro "Macau 1937-1945: os anos da guerra"

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Ensino Primário Luso-Chinês

Decreto-Lei n.º 22/77/M de 25 de Junho

Artigo 1.º
É aprovado o Regulamento do Ensino Primário Luso-Chinês, que faz parte integrante deste decreto-lei e baixa assinado pelo chefe da Repartição dos Serviços de Educação.
Art. 2.º
É revogado o Diploma Legislativo n.º 1 716, de 3 de Setembro de 1966.
Dos objectivos e órgãos
Artigo 1.º
O ensino primário luso-chinês tem por fim fornecer às crianças chinesas a formação correspondente ao ensino primário chinês e um conhecimento básico da língua portuguesa que permita maior aproximação e compreensão entre as duas principais comunidades de Macau. Visa ainda facilitar-lhes o ingresso na vida social do Território, sem barreiras de língua, e o prosseguimento de estudos no ensino secundário oficial português, se o desejarem.
Artigo 2.º
Para o efeito referido no artigo anterior, criar-se-ão escolas com organização própria, denominadas Escolas Luso-Chinesas, onde serão instruídas, gratuitamente, crianças chinesas ou portuguesas, desde que estas últimas queiram optar pelo ensino chinês.
Artigo 3.º
O ensino primário luso-chinês será ministrado gratuitamente nas escolas que o Governo determinar, com separação de sexos ou em regime misto, conforme as conveniências do serviço e as normas pedagógicas aconselháveis.
Artigo 4.º
A Escola Luso-Chinesa "Sir Robert Hó Tung" é a primeira de uma rede de escolas a criar com a mesma finalidade.
Art. 5.º (Revogado)
O curso professado nas Escolas Luso-Chinesas será distribuído por sete anos de aprendizagem, compreendendo uma classe pré-primária e seis classes primárias.
Artigo 6.º
O ensino curricular será ministrado em Língua Chinesa (dialecto cantonense), mas a aprendizagem da Língua Portuguesa será obrigatória.
Artigo 7.º (Revogado)
1) O ensino da Língua Portuguesa tem como objectivo não só dar aos estudantes o conhecimento do idioma corrente e rudimentos da cultura portuguesa, mas também a possibilidade de expressarem nesta língua as matérias curriculares programadas em língua chinesa.
2) Esse ensino será ministrado em todas as classes, devendo o nível dos alunos que terminam a 6.ª classe das Escolas Luso-Chinesas ser equivalente, no que respeita ao conhecimento daquela língua, ao dos alunos aprovados na 4.ª classe da instrução primária em português.
Artigo 11.º (Revogado)
O ensino compreende as seguintes matérias:
a) Língua Portuguesa; b) Língua e literatura chinesa; c) Aritmética e ábaco; d) Rudimentos de Geografia e História da China; e) Ciências da Natureza; f) Moral e Educação Cívica; g) Canto Coral; h) Desenho; i) Trabalhos Manuais; j) Língua estrangeira: Inglês; k) Educação Física.
Artigo 99.º (Revogado)
1) Nas escolas luso-chinesas, além do horário normal das turmas da sua população escolar própria, poderá haver cursos vespertinos ou nocturnos para Chineses que queiram aprender a língua portuguesa.
2) O curso poderá ser frequentado por indivíduos de ambos os sexos, com idade superior a catorze anos, havendo separação sempre que o número de alunos o justifique.
Artigo 103.º (Revogado)
Os professores e agentes docentes referidos no artigo anterior devem conhecer a língua chinesa (dialecto cantonense) pelo menos falada, e o seu serviço será gratificado nos termos do Decreto Provincial n.º 4/76, de 28 de Fevereiro, ou ulterior disposição legal.
Artigo 134.º (Revogado)
Os professores de Língua Portuguesa das escolas luso-chinesas deverão ser diplomados por qualquer Escola do Magistério Primário Oficial e terão de fazer prova de ter conhecimento da língua chinesa (dialecto cantonense) pelo menos falada. Tal conhecimento deve ser comprovado mediante a apresentação de certificado emitido pela Repartição dos Serviços de Assuntos Chineses.
Artigo 138.º (Revogado)
1) Para efeitos de recondução, no fim de dois anos de serviço, os professores de língua chinesa do quadro, deverão demonstrar que possuem conhecimento, ainda que rudimentar, da língua portuguesa, mediante certificado passado pelos Serviços de Educação.
2) A passagem do certificado mencionado no número anterior será precedida de uma prova de carácter sumário em termos a regulamentar por despacho do Governador.
Sala de aulas na década de 1970. Foto de Ou Ping


sábado, 22 de julho de 2017

Em busca do Inominado


"Em busca do Inominado: Silva Mendes e sua reescrita de alguns trechos do Dao De Jing e do Nan Hua Jing" é o título da tese de mestrado em Literatura Portuguesa da autoria de Erasto Santos Cruz apresentada em medos de 2016  na Universidade de S. Paulo e agora tornada pública.
"Esta dissertação tem como objetivo apresentar a obra Excerptos de Filosofia Taoista do autor Manuel da Silva Mendes, considerado o primeiro português a estudar e divulgar a tradição taoísta chinesa em Macau. Baseado nos conceitos de que tradução é uma recriação ou reinvenção, apresentados por Haroldo de Campos em sua obra Da transcriação poética e semiótica da operação tradutora, 2011, procurar-se-á analisar quatro poemas da obra em questão a fim de demonstrar que estes tratam-se de adaptações dos trechos dos livros clássicos do pensamento chinês 道德經 Dào Dé Jīng de 老子 Lăozĭ, e 南華經 Nán Huá Jīng de 莊子 Zhuāngzĭ. Para se atingir este fim, será feita uma análise comparativa com os originais em chinês clássico e com as traduções para o inglês do sinólogo escocês James Legge, tradutor com o qual Silva Mendes dialoga. A análise também servirá para mostrar as semelhanças e diferenças entre as versões poéticas do autor português e as originais, em sua grande parte escrita em prosa."
"Fala o vulgo, discute e discreteia. E cuida em seu orgulho saber tudo: Contempla o sábio o mundo que o rodeia. E, por fim, recolhido, fica mudo!... "
Manuel da Silva Mendes in Excerptos de Filosofia Taoista (1930)

quinta-feira, 20 de julho de 2017

As ruas do Bazar

“As ruas mais importantes que cortam o Bazar e estabelecem a ligação entre ele, a rua Marginal e o centro da cidade, na direcção Leste/Oeste são: a Rua da Felicidade e a Rua das Estalagens, duas ruas estreitas, tortuosas, tendo em alguns pontos a máxima largura de 6,5 metros! Estas ruas são ligadas transversalmente por outras, em piores condições ainda: a Rua dos Mercadores, a do Mastro, a do Aterro Novo, etc., chegando nestas travessas a haver largura de 3 metros e não sendo a maior nunca superior a 7 metros. 
Resulta deste estado do Bazar, uma aglomeração enorme de casas de negócio, e portanto de gente e carros pelas ruas, que se atropelam constantemente, dificultando o trânsito e o comércio. A estes inconvenientes acresce, como consequência, que as condições higiénicas daquele recanto são deploráveis, isto é: uma falta de ar e luz em todas as habitações, becos e ruas, e um fétido insuportável por toda a parte.”
Foto publicada na "Ilustração Portugueza" em 1908
Em cima, o relato do Director das Obras Públicas, engenheiro Augusto Abreu Nunes, a 11 de Fevereiro de 1903... muito semelhante a um outro, de 1841 no Géographie universelle: ou description de toutes les parties du monde” de Conrad Malte-Brun:
“Toutes les rues sont étroites, tortueuses, plus ou moins en pente, mais propres et bordées de petites maisons à un seul étage, en pierre et blanchies à la chaux. Au centre de la ville européenne est situé le Bazar ou la ville chinoise, réunion de petites rues à peine larges de deux mètres et bordées de chaque côté de magasins et de boutiques. Ce quartier est inteèrement peuple de Chinois. Un groupe de rochers, près d´une des plus hautes éminences d la ville, forme un antre appelé grotte du Camoens: la tradition dit que c´est la que le poéte de ce nom composé son fameux poême de la Lusiade. Un habitant de Macao a su encadrer dans son jardin cet endroit pittoresque, asile sacré du malheur et du génie".

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Um Brado

Título de um artigo publicado no jornal "A Voz de Macau" de 23 de Fevereiro de 1932
Os jornais de Hong Kong anunciam a venda da colecção
Dr. Silva Mendes: "uma rara oportunidade para coleccionadores. À venda a bem conhecida colecção do Dr. Silva Mendes, etc..."
Numa época em que, como se diz, a preocupação da humanidade é o culto da arte, ler tal notícia sem um calafrio, sem um estremecimento, sem um protesto, seria uma manifestação de indeferentismo que, felizmente, se não nota em todos. Ainda há quem pratique um pouco esse culto e vibre de indignação ao ver anunciada, em língua estrangeira, a venda de uma colecção preciosa, seleccionada, durante trinta anos por um artista português em terra portuguesa. É na verdade uma rara oportunidade; uma oportunidade que devia ser aproveitada, não por coleccionadores estranhos, mas pelo Governo da Província. Macau passaria a ter um museu, digno desse nome, com a dupla qualidade de ser um elemento valiosíssimo para aqueles que quizessem dedicar-se ao estudo da arte chinesa e de atraír à Colónia curiosos, coleccionadores, artistas e estudiosos que, para isso, é sobejamente conhecida a colecção.
Muito antes do falecimento do Sr. Silva Mendes, o jornal chinês de Hong Kong, Va Seng, publicava notas acerca de pinturas da sua colecção, algumas das quais classificava de relíquias. E, se é certo que nem todas terão o mesmo valor, não é menor verdade que são para cima de tresentas e cincoenta pinturas, escolhidas por (como dizem os coleccionadores chineses) o homem que mais conhecia a pintura chinesa no Sul da China. Mas não só as pinturas, embora seja o forte da colecção.
São os barros: cerca de tresentos exemplares de vários tipos, espécimes das épocas que vão de Sung a Ch'in Lung. É a estatuária de bronze de Tang e Ming. São os bronzes preciosos de On a Sung. É a loiça funerária das mesas épocas. É a estatuária de barro, moderna, mas de autores afamados já no Sul da China, como Chang Nam e Pun Ioc Si. São, embora muito desfalcadas pela explosão do paiol da Flora, as porcelanas delicadas dos séculos XVIII e XIX. São os quadros de Chinnery: um auto-retrato, um crayon, quatro quadros pequenos, uma aguarela e duas paisagens do norte da Europa. São muitas, muitas, muitas coisas mais, que seria impossível citar aqui. Sem acrescentar que entre essas preciosidades se encontram algumas que interessam, particularmente, a Macau, como os cobiçados quadros de Chinnery, que nesta terra viveu e ensinou, como os dos seus discípulos Marciano Baptista e Lam Kua e como os de Belsito. É certo que só um destes pintores é português. Mas todos o são na arte; todos fixaram, na tela, motivos portugueses; todos sentiram a alma portuguesa.
Há muito, há dezenas de anos, que se sentiu em Macau a utilidade e necessidade de um Museu. O Museu Luis de Camões foi aberto ao publico há uns três ou quatro anos, e para o ser, foi necessário que as direcções que por ele passaram dispusessem de uma enorme força de vontade e se sujeitassem a muito trabalho e muitas sensaborias.
É que o Museu não teve, nunca, nem dotação nem rendimentos; dos objectos que o constituem, uns são oferecidos e outros (a maior parte) depositados, confiados à guarda, conservação e responsabilidade individual dos membros da Direcção. Possue já, é certo, alguns documentos de valor para estudo da nossa influência no Oriente; mas está longe de atingir os fins que tem em vista uma instituição desta natureza, o que só conseguirá quando o Governo da Província se decidir a aproveitar oportunidades raras, como a que se lhe depara agora.
Esta à venda a colecção Dr. Silva Mendes, um museu que, como disse o doutor Juiz Brito e Nascimento na sua oração fúnebre, "está aí a lembrar a administração da colónia a indesculpável incúria de não ter feito o mesmo em quatro séculos do governo." Que se procure, desde já, reparar essa incúria de quatro séculos. Que a administração da Colónia não perca a oportundiade de enriquecer o Museu Luís de Camões, enriquecendo, assim, o património artístico a legar aos vindouros.

Li Tie Guai - Um dos Oito Imortais do Taoísmo. Huang Bing. Final da Dinastia Qing (1821 – 1911) peça com 67.5 cm de altura
NOTA: o governo de Macau com o apoio de particulares viria a adquirir parte significativa do espólio de obras de arte de Silva Mendes - com destaque para as peças de cerâmica de Shiwan - e ainda hoje podem ser vistas no Museu de Arte de Macau.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Um Marinheiro em Macau: 1903

Um Marinheiro em Macau 1903 - Álbum de Viagem
Edição: Museu Marítimo de Macau, 1997. 
Trata-se de uma edição profusamente ilustrada com fotos de Macau e Cantão tiradas pelo autor, e ainda cartões-de-visita, postais e documentos da época e uma colecção de reproduções de aguarelas do autor sobre motivos chineses. 
As origens desta edição remontam ao início do século XX. Filipe Emílio de Paiva escreveu um álbum com anotações da viagem da canhoneira Diu durante a estação de serviço no Oriente em 1903. Os 3 volumes por ele produzido seriam oferecidos pela viúva à Sociedade de Geografia de Lisboa em 1957. Durante quase 40 anos os documentos ali permaneceram até serem redescobertos pelo arquitecto Jorge Graça e pelo tenente coronel Armando Cação quando procediam a investigações para o futuro Museu de Macau. O assunto e o interesse na sua divulgação acabou por chegar ao conhecimento do director do Museu Marítimo de Macau que viria viabilizar a publicação em 1997 de "Um Marinheiro em Macau 1903 Álbum de Viagem", com o trabalho do 

Festividade de Kuan Tai em Macau. ca. 1903 (do livro)
Filipe Emílio de Paiva (na época Primeiro Tenente de Marinha e mais tarde Contra Almirante) tinha como pseudónimo literário o nome de Emílio de San Bruno. Nessa qualidade escreveu  três romances para 'apoiar' o esforço colonial português. Um sobre Angola, outro sobre Moçambique e outro sobre Macau intitulado "O Caso da Rua Volong - Scenas da Vida Colonial" (1928) impresso em Lisboa pela Tipografia do Comércio.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

De Macau a Fuchau (1866)

"De Macau a Fuchau - Cartas a J. M. Pereira Rodrigues, recordações de viagem" é uma obra da autoria de Gregório José Ribeiro publicada em Lisboa pela Typographia Universal em 1866.
Na verdade trata-se da publicação de uma série de  sete cartas-folhetins escritas pelo capitão-tenente da Armada e que já antes tinham sido mostradas no jornal Ta-Ssi-Yang-Kuo.
O livro é sobre uma viagem feita em Dezembro de 1857, entre Macau e Fuchau, na distância de 627 milhas, a bordo de um brigue.
Excerto: (...) A 20 de dezembro do anno do Senhor de 1857 largamos da barra de Macau e a 22 fundeamos na bahia de Hongkong primeiro marco desta romaria. Pouco nos demorámos aqui; da colonia nada direi pois nem a terra fui. Os camaradas acharam augmentada com coisas colossaes e incríveis; eu, ingenuamente o digo, nada lhe achei do espantoso! (...)
Fuchau, também conhecido por Fuchou, Foochow, Fuchow e Fuzhou (em Pinyin), é a capital da província chinesa de Fujian.
Há registos de em 1869 a canhoneira a vapor "Camões" estar sob o comando do Capitão-Tenente Gregório José Ribeiro.

domingo, 16 de julho de 2017

The Junks and Sampans of the Yangtze

G. R. G. Worcester lived in China more than 30 years where he work as a river inspector for Costums Departmet. In 1947 this book (2 vol.)  was published: The Junks and Sampans of the Yangtze. A Study in Chinese Nautical Research. Shanghai: Statistical Department of the Inspectorate General of Customs. In almost 500 pages on this first edition we find over 200 plates and maps inscribed by the Inspector General of Customs.
G. R. G. Worcester viveu na China mais de 30 anos tendo trabalhado como inspector dos serviços de alfândega. Foi dessa experiência que resultou a obra The Junks and Sampans of the Yangtze onde estão registadas mais de 250 tipos de embarcações de juncos e sampanas que sulcavam o Yangtze e também o delta do rio das Pérolas havendo várias referências a Macau, nomeadamente sobre as lorchas.
The Junks and Sampans of the Yangtze is the definitive work on the river craft of China, lavishly illustrated with photographs, diagrams and maps. Eager to record folk customs before they disappeared forever, Worcester recorded over 250 types of river craft, noting that “some of the finest types, as a result of the last few difficult years, have gone for ever, particularly the many varieties of deep-draught salt-junks and, of course, the lorchas, and many others.” A shorter version of Volume I was first published in 1940 under the same name; this 1947 edition was published as part of a series on Chinese Maritime Customs. Another edition was published in 1971 by Naval Institute Press.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Tap Seac: foto-legenda

Duas perspectivas sobre o campo do Tap Seac em meados do século XX
Clicar na imagem para ver em tamanho maior

quarta-feira, 12 de julho de 2017

A Viagem de Camilo Pessanha até Macau

No 150º aniversário do nascimento de Camilo Pessanha que se comemora este ano...
 
Camilo de Almeida Pessanha, em Coimbra onde nascera, formou-se em Direito em 1892 e após um breve período de advocacia em Óbidos, seguiu para Macau nomeado, por Boletim Oficial de 10 de Fevereiro de 1894, professor do Liceu dessa cidade no Extremo Oriente. Fora um dos 39 professores a concurso, aberto a 19 de Agosto de 1893 pela Secretaria do Ministério da Marinha e Ultramar, para leccionar no Liceu Nacional de Macau ainda por inaugurar pois fora fundado a 27 de Julho desse ano.
No Echo Macaense de 29 de Agosto de 1893, com o título Echos da Metrópole, refere-se terem as Cortes encerrado a 15 de Julho e depois disso mandado proceder ao concurso para provimento dos lugares de professores do Liceu de Macau. O sr. Silva Bastos, secretário particular do Ministro das Obras Públicas concorreria à cadeira de História, sendo possível vir a ser nomeado secretário do mesmo liceu. Mas esta era uma notícia prematura, escreve o jornal, porquanto a escolha do ocupante desse posto dependia do corpo docente e tinha de ser aprovada pelo Governo de Lisboa, ainda sobre proposta do respectivo Governador de Macau. Desabafa o redactor:
“Oxalá que na escolha dos professores não predominem os empenhos, recaindo a nomeação em indivíduos que não possuem outros merecimentos senão o de serem afilhados deste ou daquele trunfo político.”
José Horta e Costa, então deputado por Macau, advogara a criação do liceu nessa cidade e José Azevedo foi informado que se Pessanha não tivesse participado numa reunião do Partido Progressista (na altura encontrava-se no poder o Partido Regenerador, mas tal não era grave já que os dois partidos tinham um pacto e governavam Portugal alternadamente sobre orientação de Inglaterra) a sua nomeação estava garantida, como conta Daniel Pires.
Ainda assim conseguiu, a 18 de Dezembro, ser um dos quatro escolhidos. Com 26 anos, Camilo Pessanha parte então de Portugal, contratado como Professor do Liceu Nacional de Macau, estabelecimento de ensino que ia abrir as portas para colmatar o espaço vazio das Humanidades, num tempo em que a educação escolar apenas se destinava a preparar os jovens para o mundo do trabalho na área comercial.
Outra notícia do Echo Macaense, de 29 de Agosto de 1893, refere o que se diz em Lisboa acerca do provimento do Governo de Macau, mas as informações não são concordantes pois constara há tempos que ia ser nomeado para Governador o sr. Ferreira de Almeida. No entanto, uma outra versão garantia que “este sr. vai ser nomeado para Macau, mas para dali ser transferido para Cabo Verde e ocupando o seu primeiro lugar o sr. Horta e Costa”.
Este último pertencia nessa altura a uma comissão que estudava as causas da depreciação da moeda de prata na Índia e em Macau. Formularam-se quesitos respeitantes a Macau e Timor para se adoptar como unidade monetária a pataca, subsidiária em prata e cobre, sendo daí calculados os vencimentos dos funcionários públicos. Já quanto à Índia, “não se tomou resolução, aguardando-se o parecer de Inglaterra com respeito aos efeitos da crise da prata nas suas colónias ultramarinas”.
A viagem, a bordo do navio espanhol Santo Domingo, iniciara-se a 19 de Fevereiro de 1894. Depois de cinco dias em Barcelona, o navio levou apenas mais dois até atracar em Port-Said, no Egipto. Cruzando os 162 km do Canal do Suez (inaugurado a 17 de Novembro de 1869), desembocava agora no Mar Vermelho onde, nos umbrais do Oceano Índico, aportou em Adém (na Arábia Feliz, actual Iémen, então na dependência do Comissariado da Província Britânica da Índia). Depois atravessou o Mar Arábico até Colombo, no Sri Lanka, onde permaneceu apenas por duas horas.
O vapor espanhol seguiu então pelo Estreito de Malaca até Singapura e daí para Manila. Camilo Pessanha chegou a Macau no dia 10 de Abril de 1894, mas será pela viagem feita em Janeiro desse ano pelo novo Procurador dos Negócios Sínicos, Álvaro Maria Fornelos, que conseguimos desfazer a dúvida sobre o percurso dos barcos desde Manila até Macau: iam primeiro a Hong Kong e, noutra embarcação, seguia-se até ao porto de Macau, que sofria de um adiantado estado de assoreamento. Com apenas cinquenta anos, Hong Kong era já o principal porto dos vapores provenientes da Europa.
Viagem de Hong Kong para Macau
Camilo Pessanha, às duas da tarde de 10 de Abril de 1894, embarcara muito provavelmente no vapor Heungshan para Macau. Este barco da Hong Kong, Canton & Macau Steamer Co. Ltd., capitaneado pelo inglês William Edward Clarke, já por várias vezes ficara encalhado no Porto Interior devido ao assoreamento e por isso nos jornais da época era publicada pelo secretário da Companhia, T. Arnord, a tabela das horas de partida de Hong Kong para Macau nos meses de Maio a Agosto do referido vapor.
Para se perceber o insólito e excepcional procedimento que a companhia Hong Kong & Macau Steam Boat tinha com os habitantes de Macau, o jornal político e noticioso O Independente, cujo redactor principal era José da Silva, apelava a 25 de Julho de 1891 que esta reconsiderasse a sua atitude:
“Já não é pouco a elevada tarifa de passagem entre Macau e Hong Kong, uma distância de 38 milhas, por 3 patacas, se a compararmos com o mesmo preço para a passagem entre Hong Kong e Cantão, que é mais do que o duplo da distância. (…) Note-se que entre Macau e Hong Kong o principal elemento servido pela companhia é português, enquanto no outro trajecto não o é. Este tratamento diferencial é já por si só injustíssimo e repugnante. A companhia é inglesa. Como regra, paga aos seus empregados portugueses menos do que aos empregados ingleses. Se quisermos fazer sobressair esta grande diferença, basta lembrar que pagava ao seu secretário português, Costa, umas 300 patacas por mês, enquanto ao seu sucessor, o inglês Arnhold, que não vale mais do que valia o Sr. Costa, paga 700 patacas mensalmente. Assim a poderosa companhia quando paga a um português, paga menos, quando recebe de um português, exige mais, com a circunstância agravante de que ela sabe muito bem, até pelos jornais da colónia, onde tem a sua sede, que se fartam de o dizer que os portugueses estão pobres. É talvez por isso que os explora, porque, em geral, é à custa dos desgraçados e infelizes que os avarentos argentários se opulentam. Sobre esta injustíssima exploração lembrou-se ainda de proibir aos seus empregados o encargo de pequenas encomendas, como é uso fazer-se em todos os navios mercantes que traficam na China, para cobrar, ela, em seu proveito, uns 10 avos por cada pequeno pacote. Ainda neste caso foi só em Macau e portanto, e especialmente, no elemento português que a companhia quis acertar, o que é sobre maneira revoltante. (Não esquecer que os mais antigos aliados de Portugal, os ingleses em 11 de Janeiro de 1890 tinham-lhe feito um Ultimatum, o que provocara um protesto nacional pelo roubo das terras africanas entre Angola e Moçambique.) Não pedimos aos directores portugueses, que há na companhia, que exerçam a sua influência a fim de que se acabe com este procedimento injusto e até vexatório, porque bem sabemos que, em se tratando dos seus compatriotas, são aqueles senhores directores lusitanos os primeiros a atacá-los e amesquinhá-los…”
O hotel Boa Vista que chegou a albergar o Liceu onde Pessanha foi professor
Macau à vista
Pessanha mergulha nas primeiras imagens de Macau: são de montes e são de praias que, num iniciático momento, se misturam, pois ainda desconhece os nomes do que avista do barco ao contornar a península. Mais tarde saberia o nome daqueles lugares e assim, apresentando a primeira visão, apareceu-lhe, ao passar pela Enseada das Portas do Cerco, a Praia da Areia Preta, então usada para piqueniques pela nata da sociedade macaense. Uma escondida e pequena ilha demarcava-se, enquanto o barco seguia a Sul e se postava o forte edificado, em 19 de Fevereiro de 1852, na Colina de D. Maria II, sobranceiro à Praia de Cacilhas. Vagueando o olhar e terminada a praia, situada na base do Ramal dos Mouros, dava agora pelo Monte da Guia e, sempre a trepar, até à parte mais alta do cume, dentro da Fortaleza depara com a plataforma onde um provisório farol de madeira aproveita o antigo aparelho de iluminação, enquanto espera ser um dia reconstruído e retomar a sua traça original.
Em baixo, sob a Praia da Guia, a Chácara do Leitão, onde por vezes Pessanha, na companhia do proprietário, Francisco Filipe Leitão, haveria de espairecer. Levantando os olhos, no alto da Colina de S. Januário, observa o Hospital Militar Conde de S. Januário, inquilino recente a ocupar o lugar do Baluarte de S. Jerónimo, construído por volta de 1622 pela muralha proveniente da Fortaleza do Monte e que nesse local fazia uma mudança da trajectória para Sul. Então já demolido, restava parte da muralha a descer até à Fortaleza de São Francisco (a ocupar o lugar do convento franciscano demolido em 1864), ao nível do mar.
À sua frente e sobre as águas, a Bateria 1.º de Dezembro, construída em 1872 e remodelada em 1888. Continuando a estibordo, apresenta-se-lhe a belíssima baía, enfeitada de um elegante casario. Alguém aponta em direcção a um fortim, chamado de S. Pedro, erguido na altura em que se construíram as muralhas da cidade e demolido, tal como a Bateria 1.º de Dezembro, por razões urbanísticas, em 1934, sempre presentes no quotidiano das cinco estadias em Macau de Camilo Pessanha.
À direita do Fortim de S. Pedro está o hotel onde se irá hospedar e, recuando um pouco, a moradia que muito mais tarde virá a ser a sua alugada residência e onde viverá até à morte. Após a passagem da Baía da Praia Grande, que termina na Fortaleza de Nossa Senhora de Bom Parto, aparece a enseada com a Praia do Tanque dos Mainatos, seguindo-se por entre penedos a Baía do Bispo, e contornando a parte Sul da península navegava o vapor bem próximo da Fortaleza da Barra. No entanto, outras fontes referem que a seguir à Baía da Praia Grande havia outras duas, a do Bom Pastor, que da curva de Bom Parto chega à ponta da Santa Sancha e na Praia do Bispo, onde os ingleses do Hotel Bela Vista nadavam, por isso reconhecida também pela formosíssima Praia da Boa Vista.
Na ponta Sul da península, a Fortaleza da Barra ou de São Tiago, e à entrada da Barra do porto interior o antiquíssimo Templo de A-Má, divindade protectora dos mareantes. Por fim, antes do vapor atracar numa das três ponte-cais de madeira, surge a Praia do Tanque do Maniato. Sobe agora o barco pelo Porto Interior, um canal do Rio Oeste entre a Ilha da Lapa e a península de Macau, “por entre uma infinidade de grandes lorchas e de pequenos tankás, entre os quais se via um único vapor, o da carreira de Cantão” – observação de Adolfo Loureiro, seguramente não muito diferente da presenciada por Pessanha, que assim chega, aparentemente, são e salvo a Macau.

Em 2016, Vhils criou um mural com a imagem de Camilo Pessanha no jardim
do Consulado de Portugal em Macau, cidade onde o poeta viveu e morreu
Os companheiros de viagem
Entre os perto de quatrocentos passageiros que com Camilo Pessanha viajaram no vapor Heungshan, provenientes do reino, vinham para trabalhar na colónia os senhores António Augusto de Almeida Arez, como delegado do Procurador da Coroa e Fazenda desta Comarca, e Hermano de Castro, farmacêutico, e sua Senhora. Dos nove professores de Liceu nomeados para esta província, chegavam os srs. dr. Horácio Afonso da Silva Poiares, para a 1.ª cadeira, de Língua e Literatura Portuguesa, dr. Camilo de Almeida Pessanha para a 8.ª cadeira, Filosofia Elementar, e o engenheiro civil Mateus António de Lima, para a 2.ª cadeira, Língua Francesa. Este último, pouco tempo depois seria também nomeado Condutor das Obras Públicas, após a exoneração do condutor de segunda classe, o Tenente António Mendes da Silva. Já o quarto professor do Liceu para leccionar a 7.ª cadeira, Geografia e História, João Pereira Vasco, só chegou a Macau a 12 de Maio de 1894, tomando posse dois dias depois.
Os restantes cinco professores encontravam-se em Macau pois, pelo Artigo 7.º, “Os lugares de professores das 3.ª, 4.ª, 5.ª, 6.ª e 9.ª cadeiras serão providos em indivíduos, funcionários do Estado em Macau, de reconhecida aptidão para as disciplinas que hajam de professar, sendo preferidos os que tiverem já prática do magistério das mesmas disciplinas”. Viajava também com os três professores do Liceu o Cónego Francisco Pedro Gonçalves, ex-reitor do Seminário de S. José, mas este, oito dias depois, a 18 de Abril seguiu para Singapura no cargo de Superior das Missões.

Após três horas de navegação, encosta o vapor no cais ponte da carreira de Hong Kong. Haveria alguém à espera de Camilo Pessanha e dos outros dois professores? É provável que sim, mas desconhecendo esse facto, pois que ninguém a isso se refere, terão sido tratados do modo como ocorreria ao comum passageiro.
Artigo da autoria de José Simões Morais publicado no hoje Macau 7.7.2017