segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

"Far East Chronicles" / "Crónicas do Extremo Oriente"

Depois da exposição colectiva “Paperscapes” no ano passado, a Karin Weber Gallery convidou Eric Fok para uma exposição a solo, a primeira do artista macaense (nascido em 1990) na antiga colónia britânica, intitulada "Far East Chronicles" - "Crónicas do Extremo Oriente". Está patente até 30 de Dezembro e inclui não só trabalhos em papel como também em objectos de couro e madeira.
É já uma imagem de marca do trabalho de Eric, os mapas desenhados a caneta técnica sobre papel. Os mapas são inspirados nos registos cartográficos dos séculos 17 e 18 e ganham o aspecto antigo quando o papel é manchado com chá. Se está por Macau pode ver outros trabalhos de Eric da exposição "Light From Shadow" patente na galeria da Torre de Macau até ao final de Janeiro.

Eric Fok cursou Artes Visuais no Instituto Politécnico de Macau e já expôs em  Nova Iorque, Bolonha, Cantão, Singapura, Shenzhen, Lisboa, Londres, Taipé e Seul. Algumas das suas obras estão patentes nas colecções do Museu do Oriente (Lisboa), na University Museum and Art Gallery (Hong Kong), no Museu de Arte de Macau, na representação local da Fundação Oriente e em colecções privadas em Hong Kong, Macau, Taiwan, Singapura, EUA, Reino Unido e Itália.

Eric num trabalho de grandes dimensões para um hotel
After a joint exhibition in Karin Weber Gallery last year, Eric returns to Hong Kong with exquisitely crafted works made on tea-dyed paper, wood and leather. An eclectic collection of maps, records and objects are presented which chronicle the evolvement of cities following the Age of Exploration, post-colonial phenomenon and impact of migration of population in the Hong Kong context.
Eric Fok (b. 1990) graduated from the Macao Polytechnic Institute and currently lives and works in Macao and Taipei. Eric has taken part in many exhibitions in Macao, Taiwan, China, Portugal and Spain. His works form part of several prestigious public collections including the Macau Government Headquarters, Cultural Affairs Bureau of the Macau S.A.R., Oriental Foundation, Macau Museum of Art, The Orient Museum (Portugal), University Museum and Art Gallery (HKU), and private collections in Hong Kong, Macau, China, Taiwan, Singapore, Italy, USA and United Kingdom.
Para 2018 já está agendada uma nova exposição a solo de Eric Fok, desta feita em Taiwan. Mais pormenores muito em breve aqui no blogue Macau Antigo.
Eric Fok will have a new solo exhibition in Taiwan next month. More info very soon here at blog Macau Antigo.


domingo, 17 de dezembro de 2017

Vencedores do Passatempo 9º Aniversário

Agradeço a todos a participação no Passatempo do 9º Aniversário do Blogue Macau Antigo. Aqui fica a lista do 10 vencedores. Vão receber em casa um exemplar do livro "Liceu de Macau 1893-1999". 

Marco Paulo Dias Luís (Torres Vedras)
"Sempre que leio o blogue Macau Antigo faz-me sonhar sobre um Macau que desde que me lembro preenche o meu imaginário e fascínio pelo Oriente e incrementa sempre o meu desejo de um dia poder visitar Macau".

Anjos Mendes (Porto)
"O blogue Macau Antigo é uma fonte igual à Fonte do Lilau, mata a sede a todos mas alimenta a alma aos que sempre querem regressar a Macau".

Pedro Oliveira (Cascais)
"O blogue Macau Antigo traz memórias que poderão já estar esquecidas a quem já viveu em Macau e assim trazer algumas lágrimas e sorrisos a algumas pessoas".

Miguel Rosa (Coimbra)
"Fonte inesgotável e recurso essencial para todos os que se interessam pela história de Macau".

Catarina Oliveira (Famalicão)
"Nove anos e mais de um milhão de visitantes são as provas da qualidade dos conteúdos do blogue Macau Antigo". 

Osvaldo Carvalho (Lisboa)
"Incontornável para todos os que se interessam pela história de Portugal no Oriente"

Carmen Silva (Lisboa)
"Um marco na divulgação da história e cultura macaense em todas as vertentes".

Luís Manuel (Porto)
"Fascinante a forma moderna de contar a história de Macau".

João António (Lisboa)
"Também assim se preserva uma identidade única e ímpar, a da história e cultura macaense".

Maria Silva (Lisboa)
"Um guia essencial e acessível a todos sobre a história de Macau"


Neste ano que agora termina assinalaram-se os 90 anos da inauguração do correio aéreo em Macau. Aqui fica mais um testemunho através de um envelope timbrado. Podem encontrar mais informação sobre o tema aqui.


sábado, 16 de dezembro de 2017

Padre Cézar Brianza

O Padre César Brianza nasceu a 17 Abril 1917em Chiari, na Lombardia (Itália). Radicado no Extremo Oriente desde 1935, primeiro em Hong Kong - estudou piano com o conhecido maestro Elisio Gualdi - e Macau e depois em Xangai, que já era então uma das maiores e mais importantes e desenvolvidas cidades do mundo, de 1938 a 1949, onde concluiu o curso de Teologia e foi ordenado padre, e de novo em Hong Kong e Macau, após a entrada vitoriosa dos comunistas em Xangai, em Maio de 1949.
Em Xangai recebeu lições de Kostevich, outro grande maestro, até partir para Lisboa, em 1954, onde tirou o curso de piano no Conservatório Nacional. Dois anos mais tarde partiu para Viena, para um estágio de três meses no Augarten Palaiso, o que lhe permitiu assistir frequentemente aos ensaios do aclamado grupo coral “Viena Boys Choir”.
Professor de Música e de Religião e Moral no Colégio D. Bosco fundou em 1959 o coral dos “Pequenos Cantores do Colégio D. Bosco” dirigindo-o durante 16 anos.
Em 1962, juntamente com o Padre Áureo Castro, fundou a “Academia de Música de São Pio X”. Foi também orientador artístico da Banda da Polícia de Segurança Pública entre 1966 e 1980.
A sua dedicação ao grupo dos Pequenos Cantores em Macau teve um grande impacto não só nos próprios jovens, como também no território. Conhecido pela sua dedicação, o Padre Brianza conseguiu transmitir aos jovens do Colégio Salesiano Dom Bosco uma confiança na procura de atingir a perfeição, merecendo rasgados elogios em cada actuação. Levar os Pequenos Cantores ao Japão foi um sonho tornado realidade para o padre, mas não se ficou por aqui, havendo outras digressões às Filipinas, Portugal, Singapura e Malásia.
Para mais informações sobre a vida e obra do Padre Brianza sugiro a leitura do livro "César Brianza – a missão, o coro e o sonho da China" da colecção “Missionários para o Século XXI”, do Instituto Internacional de Macau, e da autoria de João Guedes.
Excerto:
César Brianza chega a Macau num momento de crise da cultura. Os anos da Guerra (1939-45) tinham transfigurado Macau. Tendo-se então transformado num centro de refugiados de toda a China, a colónia portuguesa acolheu durante esse período artistas das mais diversas áreas. No âmbito da música as grandes orquestras que animavam a vida cultural de Xangai e de outras grandes cidades da China mudaram-se com armas e bagagens para a colónia portuguesa. Este movimento seria reforçado a partir do Natal de 1941, data da ocupação de Hong Kong pelos japoneses, o que fez com que se registasse um êxodo semelhante dos elementos mais destacados do panorama da música erudita e ligeira, do teatro e do espectáculo em geral da vizinha colónia britânica.
Com a reposição da normalidade que começou a ter lugar a partir de 1946, outro êxodo se viria a registar, mas este em sentido contrário, ou seja os grandes intérpretes culturais que tinham animado as ‘matinés’ e ‘soirées’ dos tempos da guerra deixavam inoxoravelmente Macau. Uns regressavam aos seus pontos de origem, nomeadamente a Hong Kong que rapidamente se recompunha da tragédia da ocupação nipónica. Alguns, voltavam a Xangai confiados que a grande metrópole de outrora voltaria a alcandorar-se ao brilho de antes da guerra. No entanto a maioria desiludia-se das promessas asiáticas e rumava à Europa, aos Estados Unidos da América, ou à Austrália. Todas tinham, um destino, mas ninguém ganhara raízes suficientemente sólidas para permanecer. De facto, Macau era um território demasiado pequeno para poder manter uma classe artística profissional fosse em que domínio fosse. Finda a guerra a música e o teatro passavam de novo a depender inteiramente de mecenas de ocasião e do empenho de amadores mais ou menos dotados.
Depois disso tudo foi definhando o que levava mesmo o escritor Henrique de Senna Fernandes a afirmar que a vida cultural macaense morreu nos anos 50. O panorama não seria tão drástico como o escritor afirmava, mas não se encontrava muito longe disso.
Salvava a situação Pedro José Lobo, com o seu ‘Círculo Cultural de Macau’ que promovia iniciativas em várias áreas. Assim surgem os debates, palestras e conferências em torno dos grandes temas que animavam a vida cultural europeia e americana. Pedro Lobo financiava também a edição de livros e era já conhecido na cidade como o mecenas. Sob a sua protecção (…) nasce pouco depois a delegação em Macau do ‘Círculo de Cultura Musical de Portugal’ que trouxe até cá grandes artistas nacionais e estrangeiros. Sequeira Costa, Silva Pereira, Varella Cid, Hellen Traubel, Catarina Heinz e António David foram apenas alguns dos que aqui actuaram.
Seja como for, porém, as iniciativas promovidas por Pedro Lobo e o seu ‘Círculo Cultural’ não passam de eventos esporádicos ainda que meritórios que não chegavam para levar verdadeiramente a arte à população em geral de um modo contínuo e abrangente.
No âmbito da educação musical, esteio e pólo de atracção de músicos, o ambiente era desolador. Nesse âmbito a educação com algum grau de estruturação limitava-se quase estritamente ao Seminário de S. José, já que o ensino oficial se circunscrevia às aulas rudimentares de solfejo do Liceu.”

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

"Macau Palace": o primeiro casino flutuante

Numa altura em que surgem notícias da abertura para breve de um novo casino em Macau, com as características de flutuantes, recordo o primeiro de todos, e também o primeiro do que viria a ser o império da STDM: o Casino Macau Palace atracado na Ponte Cais nº 12B do Porto Interior e que entrou em funcionamento a 26 de Maio de 1962.
 Para além de casino tinha ainda um restaurante de comida chinesa com o mesmo nome.
Curiosidade: algumas cenas do filme "James Bond 007 - The Man with a Golden Gun" foram filmadas neste casino.

Na altura - Janeiro 1962 - a STDM tinha acabado de assinar um contrato com o Governo de Macau que lhe garantia a exploração, em regime de exclusividade, de jogos de fortuna ou azar ou outros jogos em casinos, por um período de oito anos, de acordo com a portaria n.º 18267, de 13 de Fevereiro de 1961.

Stanley Ho era um dos 10 sócios da STDM (criada em Maio de 1962 com capital social de 3 milhões de patacas) e o segundo em termos de maior número de acções; o número um era Eric Fok; Teddy Yip e Yip Hón eram os outros dois sócios com valor significativo de acções. Com substancialmente menor participação em termos de capital social, estavam: Lai On, Ho Hung Tsin, Chan Ka Sun, Lui King Fat, Yip Wai Chan e Yip Ping Yin.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Canto e Castro: de guarda-marinha a Presidente da República

João do Canto e Castro da Silva Antunes Júnior (1862-1934) foi um oficial da Marinha e quinto Presidente da República Portuguesa, de 16 de Dezembro de 1918 a 5 de Outubro de 1919. Enquanto militar passou por Macau entre 1884 e 1887.
Numa edição de 1898 da publicação "Portugal em Africa: revista scientifica" (de onde é a ilustração) pode ler-se:
"Este heroe que preparou o caminho que guardou aberto o campo a tantos outros heroes João do Canto e Castro Silva Antunes nasceu em Lisboa a 19 de maio de 1862 sendo seus paes José Ricardo da Costa Silva Antunes e D Maria da Conceição do Canto e Castro Mascarenhas Valdez Em novembro de 1881 alistou se na companhia de guarda marinhas e tendo completado o respectivo curso foi promovido a guarda marinha em outubro de 1883 Seguiu em janeiro de 1884 para Macau onde fez a estação de tres annos que ora então o tempo requerido para a promoção a 2º tenente regressando em abril de 1887 e sendo promovido a este posto depois do competente exame pratico em julho. Enquanto esteve em Macau passando ali o transporte Africa com destino a Timor obteve licença para seguir n elle até esta longinqua possessão portugueza afim de colher mais conhecimentos n essa ilha e nos portos onde o navio tocava.(...)"
Filho de um general seguiu também a vida militar, mas na Armada, sendo esse um dos dois motivos que levaram o Presidente da República, Sidónio Pais, a convidá-lo para o cargo de secretário de Estado da Marinha (o mesmo que ministro), em Outubro de 1918, era, então, contra-almirante. Outro motivo prendeu-se com as suas convicções monárquicas - ainda que fosse considerado um moderado - que permitiriam, por um lado, combater a tradicional implantação republicana na Armada e por outro, ser bem aceite num Governo sidonista, numa época em que este se aproximava cada vez mais à direita e ultra-direita e se afastava do centro. Mas esteve por pouco tempo à frente da pasta da Marinha - apenas cerca de dois meses (9 de Outubro a 14 de Dezembro de 1918) - pois o assassinato de Sidónio Pais conduziu à queda do elenco governamental e à escolha de Canto e Castro para lhe suceder. Chegava assim à Presidência da República um monárquico que, pouco tempo antes, tinha sido convencido a muito custo a integrar um Governo republicano e a quem o desempenho do mais alto cargo da Nação embaraçava. A agitação política então vivida dificultou o exercício do cargo, marcado por revoltas militares, greves e quedas e eleições de vários governos.
Em 5 de Outubro de 1919 foi eleito um novo Presidente, António José de Almeida, permitindo a Canto e Castro retirar-se. Foi ainda governador de Lourenço Marques e de Moçâmedes na década de 90 do século XIX. Morreu em 1934.
In Biografias da Rede de História Contemporânea.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Filipe Emílio de Paiva e o "Álbum de Viagem"

Volto hoje ao livro/diário de Filipe Emílio de Paiva (1871-1954), "Um marinheiro em Macau 1903-1905" para mostrar mais algumas imagens do livro, mais alguns excertos e, pela primeira vez, uma fotografia do próprio.
Emílio de Paiva foi oficial da armada - com o nome de Filippe - em todas as colónias portuguesas do seu tempo. Em Macau assumiu as funções de oficial imediato da canhoneira Diu, em missão de serviço na Estação Naval de Macau entre 25 de Abril de 1903 e 28 de Fevereiro de 1905.
Foi ainda escritor tendo registado a sua passagem pelo Extremo-Oriente, incluindo Macau. Num dos poucos registos publicados na imprensa da época podemos encontrar um artigo da sua autoria na edição de 20 de Outubro de 1903 da Revista Portugueza Colonial e Marítima.


(...) "Anda nas ruas a procissão chinesa em honra do deus Kuang-ti, suponho que é o deus dos Exércitos, por isso durante estes três últimos dias de Julho de 1903, tem vivido, o bairro china, uma contínua agitação e barulho. Vindos de Cantão, de Sam-Sui, de Hong Kong, de todas as ilhas, da Taipa, da Lapa, de Ma-lau-chau, Coloane, etc., estão continuamente a desembarcar das lorchas, juncos, tancás e vapores, milhares de forasteiros que, risonhos, de fatos ricos, se dirigem para os colaus, hospedarias e restaurantes chineses a tomar lugar, sobraçando leque, sombrinhas e maletas forradas de pele de porco, cestos e embrulhos. Talvez estejam mais de cem mil forasteiros.
No bairro china, ou Bazar, naquelas vielas e estreitas ruas, na Rua da Felicidade, na do Auto, na do Jogo, e noutras, acotovela-se gostosamente uma multidão alegre, de cabeças bem escanhoadas e de rabichos bem entrançados acabando em delicada borla de torçal negro, ou branco, se se está de luto. Estala a panchonada, e os tantans soam por todas as ruas, vendedores ambulantes ajoujados sob o peso dos tabuleiros e canastras de bambu e rota atravessam a turba e fazem bom negócio com os bolos, frutas, refrescos, chá, sopas diferentes, carnes de porco, patos, galinhas, rodas de ananás, confeitos, pevides, amendoim, enfim mil comestíveis que se compram a ínfimas sapecas.
As pipa-t'-chai, ou sejam rapariguitas gentis que foram desde pequeninas educadas a saber cantar e tocar, e que adornam os colaus com as suas caritas pintadas e penteados cobertos de flores e de alfinetes de pérolas finas, falsas ou não, estrearam cabaias novas ornadas com desenhos e bordados exóticos, e andam doidas de contentes em grupos alegres, correndo nos jerinxás, de lenço bordado e lequezinho nas finas mãos de esfusiados deditos. (...)"

"Permanecendo um certo tempo em Macau, mais tarde ou mais cedo, tem que se ir aos tintins, ou lojas de bricabraque chinesas. Aglomeram-se estas lojas por detrás da Igreja de Stº António. Tudo o que há de mais esquisito e disparatado em mobílias, loiças, antigas e modernas, chinesas ou europeias, aparece no amontoamento destas lojas, de envolta com lixo, maus cheiros, a cozinha e o menage dos proprietários.
Quem tem paciência para andar de um para outro tintin, rebuscando, regateando, consegue às vezes, mas raramente, encontrar algum bordado antigo e raro, alguma porcelana, jarra ou chávena de algum valor, e que se adquire barato. Porém isto já está tão explorado, e como em Hong Kong o mercado é maior e mais rico, os tintins de Macau nada dão ao curioso, que recompense a maçada de regatear com os chineses, discutir, entrar e sair em recusas de oferecimentos cinco ou seis vezes na mesma loja. (...) Mas nestas lojas está tudo amontoado! São barracas que extravasam a rua. louças, botas e sapatos, ferragens, armas, pratos e estatuetas, oleografias, números dos jornais ilustrados, ingleses ou franceses, tudo isto abrigado do sol ou da chuva por toldos seguros por varas de bambu, ou ripados de tábuas negras ardidas pelo sol e pela chuva. (...) É isto o que se chama um tintin."
Imagens de "Um Marinheiro em Macau -1903 - Álbum de Viagem"
de Filipe Emílio de Paiva. Museu Marítimo de Macau, 1997

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O "Victoria" nos tempos do cinema mudo

No início do século XX o cinema chegava a Macau. Henrique de Senna Fernandes, apesar de nascido em 1923, registou para memória futura esses tempos no livro "Cinema em Macau". Segundo ele "era uma diversão desprezada, qualquer coisa equiparada à exibição de saltimbancos, apresentado em barracões de feira, que se admirava com curiosidade despicienda e sorriso desdenhoso, e de que até se tinha vergonha de falar”.Nesses tempos dos “filmes mudos em barracões sujos e desconfortáveis, em pleno Bazar, coração da cidade chinesa” surgiram vários cinematógrafos.
Do Chip Seng, na Rua da Caldeira, com bilhetes entre os oito e os 35 avos, ao Tin Lin, no Largo de Hong Kong Mio, com preços entre os dez e os 50 avos. Havia ainda o Olympia, na Rua do Hospital (actual Rua Pedro Nolasco da Silva) e partir de 9 de Janeiro de 1910, na actual Rua do Dr. Soares (então Rua da Cadeia), junto ao edifício do Senado, surge o Victória. Naqueles primeiros tempos, ainda em construção abarracada os filmes exibidos eram essencialmente curtas metragens. O Victória (que tb terá existido na Calçada Oriental) viria a mudar de instalações em 1921 passando para o edifício no cruzamento da Rua dos Mercadores com a Av. Almeida Ribeiro, (até 1971) onde hoje se situa o banco Tai Fung.
Ainda de acordo com Henrique de Senna Fernandes “Apesar de todos os espectáculos, o Vitória foi essencialmente uma casa de cinema. E citamos o Vitória, porque foi nele que se desbobinaram os melhores filmes mudos, não havendo outro cinematógrafo que se lhe equiparasse”.
Vejamos então quais os êxitos de bilheteira da época quando o sonoro dava os primeiros passos e o mudo ainda vingava: “O êxito de Fairbanks era tão grande entre a rapaziada de Macau que, nos dias que se seguiam à estreia das suas películas, desapareciam dos jardins, hortas e quintais, pela cidade e fora de portas, todas as estacas de bambu, convertidas em espadas para a petizada se esgrimir em grupos rivais, com grande perigo para os olhos e desespero de jardineiros e horticultores que então abundavam nesta Terra do Nome de Deus”.
Além de Fairbanks havia ainda Charlie Chaplin: “O maior deles foi sem dúvida Charlot. A sua aparição na tela (...) enchia o Vitória. Os chineses, simplesmente, adoravam-no.”Já quanto às condições da sala de cinema, a opinião era bem diferente: "Quem desconheça o Vitória poderá julgar tratar-se de um cinema confortável, luxuoso, de bons assentos, e à altura dos magnífico, filmes que exibia. (...) Denominando-se a primeira casa de espectáculos, sem outra a fazer-lhe sombra, era, assim, um monumento de desconforto".

domingo, 10 de dezembro de 2017

Alcino António Sauvage


Filho de Silvestre Joaquim Sauvage e de Eulália Carolina Fonseca d’Almeida e Sauvage, Alcino António Sauvage assentou praça a 17 de Março de 1860.
Frequentou o curso de Artilharia (1867) e de Engenharia (1868), ambos na Escola Matemática e Militar de Goa. Desconhece-se o que fez período de tempo que se seguiu, mas sabe-se que foi de Lisboa e não de Goa que partiu quando a 12 Setembro de 1874, foi nomeado Conductor de Obras Públicas da Província de Macau e Timor. Na mesma data foi promovido a Alferes.
Toma posse do lugar, em Macau, a 6 de Dezembro desse ano. A 11 de Abril 1877 foi nomeado chefe de secção de Timor, para onde partiu a bordo do barco holandês “Trio”. Chegou a Timor a 2 de Junho de 1877 e esteve no território até 16 Dezembro de 1878. Durante a sua estadia fez parte de duas comissões; uma que inspecionou as companhias de Timor e outra relacionada com o funcionamento das alfandegas.
Retomou o seu lugar como Condutor de Obras Públicas em Macau em a 19 de Janeiro de 1879.
Tenente em 28 de Outubro de 1880.
Desempenhou o cargo de Director interino das Obras Públicas de Macau e Timor em 1881, trabalho pelo qual recebeu um louvor. Voltou a desempenhar este cargo por diversas vezes. Entre elas, pelo menos nos períodos compreendidos entre 14 Novembro de 1884 e 26 de Novembro de 1885, de 2 de Novembro de 1888 a 24 Maio de 1889 e entre 5 de Julho de 1892 a 15 de Dezembro de 1893.
Em diversos períodos foi Secretário do Conselho Técnico de Obras Públicas e pertenceu a diversas comissões.
A 30 de Novembro de 1885 embarcou para Goa com seis meses de licença que mais tarde foi prolongada por mais um ano. Regressou a Macau 5 de Maio de 1887. Durante esse ano e os que se seguiram foi o responsável pelos edifícios públicos, fortalezas, quartéis jardins e arborização da cidade de Macau. Trabalhou por exemplo na construção de uma parte da muralha marginal na Praia Grande em 1875.
Capitão por decreto em 12 de Abril de 1888.
A 9 de Fevereiro de 1893 foi nomeado Conductor de 1ª classe.
Nos primeiros meses de 1894 regressa a Lisboa com uma licença por motivos de Saúde, que se prolongaria por todo esse ano. A 6 de Fevereiro de 1895 foi exonerado do cargo nas Obras Públicas de Macau e passa para a 4ª Repartição da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e do Ultramar.
Texto de Alice Santiago Faria in "Construindo o Imperio Português no Século XIX", 2013

sábado, 9 de dezembro de 2017

Foto-Legenda: Rua de S. Lourenço/Rua do Padre António

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Curiosidade: A Rua do Padre António é uma homenagem a António José da Costa, nascido em Macau, e cujo pai tinha o mesmo nome. O pai foi um comerciante abastado chegando a ser vereador do Senado e interinamente governador, em Janeiro de 1780, na sequência do falecimento do então governador, tendo exercido esse cargo apenas 8 meses. Após a tomada de posse do seu sucessor, recolheu-se à sua residência, conhecida por Casa das Dezasseis Colunas. O seu filho herdou inúmeros bens, incluindo a já referida casa, conhecida em chinês por “sâp lôk chü” (ou seja, dezasseis colunas), devido ao facto de o prédio possuir esse número de pilares. Depois de ficar viúvo abraçou a vida religiosa ficando conhecido por Padre António. Tal como noutros exemplos de ruas de Macau também aqui o nome em português nada tem a ver com a designação em chinês. Em cantonense a rua chama-se “Kou Lau Kái” (高樓街, Kou (alto), Lau (prédio) e Kái (Rua), ou seja, Rua do Prédio Alto.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Nossa Senhora da Conceição


A Imaculada Conceição ou Nossa Senhora da Conceição é, segundo o dogma católico, a concepção da Virgem Maria sem mancha (em latim, macula) do pecado original. O dogma diz que, desde o primeiro instante de sua existência, a Virgem Maria foi preservada por Deus da falta de graça santificante que aflige a humanidade, porque ela estava cheia de graça divina. A Igreja Católica também professa que a Virgem Maria viveu uma vida completamente livre de pecado.
A festa da Imaculada Conceição, comemorada em 8 de dezembro, foi definida como uma festa universal em 28 de Fevereiro de 1476 pelo Papa Sisto IV.
A 1 de Dezembro comemora-se a Restauração da Independência de Portugal (1640), então sobre o domínio de Filipe III de Portugal e o IV de Espanha. Este rei jurou e fez jurar a todas as Corporações eclesiásticas, Universidades e Catedrais dos seus domínios, o defender o Mistério da Conceição Imaculada.
Seia depois, “a 25 de Março de 1646, a Corte e os representantes dos três Estados (clero, nobreza e povo) sob proposta de D. João IV, proclamaram a Senhora da Conceição como Rainha e Padroeira de Portugal e juraram defender sempre esse privilégio augusto e celebrar com muito particular afecto e solenidade a sua festa”, de acordo com Benjamim Videira Pires, que acrescenta:
“Em 11 de Setembro desse ano, expediram-se cartas para todas as Câmaras da metrópole e do Ultramar, a fim de que as respectivas autoridades, com o clero, a nobreza e o povo, ratificassem e repetissem o acto da Corte e dos três Estados, elegendo também e proclamando Padroeira deste Reino, a Virgem Nossa Senhora da Conceição”.
A imagem da Imaculada Conceição foi colocada no centro da fachada da então igreja Mater Dei (hoje ruínas de S. Paulo), em 1640. Por cima está a estátua de Jesus Adolescente e, mais alto ainda, a do Espírito Santo.
A estátua da Imaculada pode ser vista em várias igrejas de Macau e até no Salão Nobre do edifício do Leal Senado, encontra-se um oratório com as estátuas de Nossa Senhora da Conceição.
Imaculada Conceição, elevada em 1646, por desejo do Rei D. João IV, a padroeira de Portugal e no ano seguinte de Macau, sendo por isso o dia 8 de Dezembro feriado oficial. É um dos quatro padroeiros de Macau, a par de João Baptista, Santa Catarina de Sena e S. Francisco Xavier.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

"As obras do porto e a política chineza": 1920





Em Agosto de 1910 o governador de Macau, Capitão Eduardo Augusto Marques enviou a Lisboa, o director das Obras Públicas, engenheiro (civil e de minas) António Pinto de Miranda Guedes, com o objectivo de acelerar a solução política de alguns problemas estruturais de Macau, essencialmente ligados às obras no porto interior e no porto exterior.
Entretanto deu-se a implantação da República em Outubro e Miranda Guedes esteve quase a ser Governador de Macau. Acabaria por ser nomeado provisoriamente em Novembro de 1910 Governador de S.Tomé e Príncipe (menos de um ano depois foi exonerado). Em 1913 seria louvado pelo trabalho técnico que desenvolveu nas Obras Públicas de Macau onde foi director. Este livro, publicado no Porto em 1920, inclui os vários artigos da autoria de A. Pinto de Miranda Guedes publicados primeiramente em separatas na Revista Colonial.
Curiosidade: Em Janeiro de 1933 a antiga Rua do Asilo foi rebaptizada de “Rua de Eduardo Marques” em homenagem ao antigo governador.
O arruamento tem início na Estrada do Cemitério e prolonga-se até à Calçada da Igreja de S. Lázaro e Rua de S. Miguel.
Biografia
A. Pinto de Miranda Guedes completou o curso de Conductor de Obras Públicas no Instituto Industrial e Comercial de Lisboa. Estudou Engenharia Civil e Minas na Escola do Exército tendo frequentado o curso nos anos lectivos de 1894-95 a 1896-97.
Em Agosto de 1897 foi nomeado Conductor de Obras Públicas de 1ª classe, provavelmente, para a província de S. Tomé e Príncipe para onde segue viagem a 23 de Outubro. A 8 de Novembro desse mesmo ano foi nomeado para o cargo de Director Interino das Obras Públicas de S. Tomé, cargo que ocupou até Janeiro de 1898. Entre Outubro de 1899 e Abril de 1901 trabalha no estudo de Caminho de ferro de S. Tomé.
Transferido para a Direcção de Obras Públicas da província de Angola por portaria de 6 de Novembro de 1900, para o cargo de Engenheiro Auxiliar. Toma posse do lugar a 13 de Abril de 1901.
Em Janeiro de 1902 regressa a S. Tomé para chefiar a brigada de estudos das estradas da ilha, regressando, depois de alguns meses de licença em Portugal. Em Julho de 1903 regressa a Angola para trabalhar no Caminho de ferro de Malange como chefe de divisão dos estudos. No fim desse ano volta a chefiar a secção de Agrimensura.
Em Julho de 1904 volta para Lisboa, por motivos de saúde, onde ficou aproximadamente um ano. Em Maio de 1905 foi nomeado para estudar o sistema viário de S. Tomé, ficando como engenheiro ajudante no Ministério das Obras Públicas. Para efectuar esse estudo deslocou-se ao território, de onde regressou apresentando-se no Ministério das Obras Públicas em Fevereiro de 1906.
A 20 de Setembro de 1906 foi nomeado Director das Obras Públicas de Macau.
Durante a sua estadia colaborou com o General José Emílio Castelo Branco em projectos de melhoramentos sanitários da cidade de Macau, tendo ficado responsável pela elaboração do “Projecto e Plano Geral de Saneamento de Macau” aquando do regresso do General Castelo Branco a Portugal. Foi presidente da comissão de saneamento da zona do Bazar Chinês e trabalhou também no projecto de melhoramentos do Porto de Macau. Ocupa este cargo entre 3 de Novembro desse mesmo e Agosto de 1910.
No início de Novembro de 1910 foi nomeado, provisoriamente, Governador de S. Tomé e Príncipe. Foi exonerado desse cargo em Setembro de 1911 tendo seguido para Macau e reassumido as suas funções de Director das Obras Públicas a 18 de Novembro de 1911.
Em Dezembro de 1911 fez parte de uma comissão de organização de um serviço de profilaxia de doenças tropicais e trabalhou na aplicação do regulamento de salubridade das edificações urbanas de 1906. Fez ainda parte da direcção do Museu Luiz de Camões, tendo sido nomeado em março de 1912.
Esteve em Macau até Abril de 1914 quando foi exonerado do seu lugar, a seu pedido.
Em Novembro de 1914 tomou posse como Director dos Caminhos de ferro de Angola, cargo de que tomou posse a 6 de fevereiro de 1915.
Em Março de 1917 foi nomeado para a Direcção das Obras Públicas da Índia, mas não chega a ocupar esse lugar por ser sido de imediato transferido para o lugar correspondente em Moçambique. Tomou posse em Moçambique a 1 de Outubro de 1917 e até ao fim desse ano acumulou o lugar com o de Inspector das Obras Públicas, o que acontece novamente no início do ano de 1919. Em Maio de 1919 foi exonerado do cargo de Director das Obras Públicas e segue para Lisboa em meados de Agosto desse mesmo ano.
A 15 de Novembro de 1920 foi nomeado secretário dos serviços de Obras Públicas de Angola e partiu novamente para o território de onde regressou em 1922 por motivos de saúde, sendo considerado em Janeiro de 1923 incapaz de voltar a fazer serviço no Ultramar.
Desde essa data passou a trabalhar nos serviços técnicos da Câmara Municipal do Porto, como chefe da Divisão de Obras Públicas e mais tarde (depois de 1927) como Director dos Serviços Municipalizados de águas e Saneamento, lugar que ainda ocupava em 1931.
Fez parte do Conselho Superior de Obras Públicas e do Conselho Inspector de Instrução Pública, entre diversas comissões sobretudo ligadas a assuntos dos territórios ultramarinos.
Deixou diversas publicações sobre o seu trabalho nas colónias, nomeadamente sobre as Obras do Porto de Macau, sobre Angola e sobre a sua experiencia como Governador de S. Tomé.
Texto (Biografia) de Alice Santiago Faria.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

"Coolies Reading a Proclamation"

Na imagem ao lado um dos muitos registos que George Chinnery fez enquanto viveu em Macau com o título "Cules lendo uma proclamação em Macau".
"Coolies Reading a Proclamation, Macao" antique print from a salvaged 1927 copy of magazine "The Studio"- An Illustrated Magazine of Fine & Applied Art (vol. 94) from an oil painting by George Chinnery ca. 1840.
George Chinnery (Chinese: 錢納利; 5 January 1774 – 30 May 1852) was an English painter who spent most of his life in Asia, especially southern China. 
Chinnery was born in London, where he studied at the Royal Academy Schools. In 1802 he sailed to Madras (Chennai) on the ship Gilwell. He established himself as a painter there and then in Calcutta (Kolkata), where he became the leading artist of the British community in India.
From 1825 until his death in 1852 Chinnery based himself in Macau, but until 1832 he made regular visits to Canton (now Guangzhou). He painted portraits of Chinese and Western merchants, visiting sea-captains, and their families resident in Macau. His work in oil paint was closely imitated by the Cantonese artist Lam Qua, who himself became a renowned portrait painter. Chinnery also painted landscapes (both in oils and in watercolours), and made numerous drawings of the people of Macau engaged in their daily activities. At the time, westerners were restricted in their access to China, trading out of settlements in Macau and later Hong Kong, where Chinnery also went - His interest in the local scene does indeed set him apart from most western artists of the time. In 1846 he made a six-month visit to Hong Kong, where he suffered from ill health but made detailed studies of the newly founded colony. He died in Macau on 30 May 1852 and is buried there.
Other than artistic value, his paintings are historically valuable as he was the only western painter resident in South China between the early and mid 19th century. He vividly depicted the life of ordinary people and the landscape of the Pearl River Delta at that period.
Substantial collections of Chinnery's drawings are to be found in London in the Victoria and Albert Museum and the British Museum; and in Salem, Mass., at the Peabody Essex Museum. Other notable groups are held in Birmingham Museum and Art Gallery, UK; the Hong Kong Museum of Art; the Macau Museum; and the Macau Museum of Art.


domingo, 3 de dezembro de 2017

Quando Macau mudou para que tudo ficasse na mesma

No dia 3 de Dezembro de 1966, com os ventos da revolução cultural chinesa a soprarem fortes em Macau, uma multidão amotinada atacou vários símbolos da administração portuguesa, incluindo o Palácio do Governo e o Leal Senado.
Foi o culminar de um período de tensão que começou com um incidente relacionado com as obras numa escola da Associação dos Estaleiros da Ilha da Taipa.
Em 2016 a Rádio Macau emitiu uma reportagem da autoria do jornalista Hugo Pinto, na qual se recordam os tumultos e também o que esteve por detrás de toda a agitação. O texto que se segue é uma adaptação do guião da reportagem.
Aqui no blogue existem vários posts sobre o tema; basta utilizar o campo de pesquisa (no topo à esquerda) e/ou a etiqueta "eventos1966" (em baixo à direita).
Esta é uma história de ideias radicais, de duas visões extremas do mundo, de como se confrontaram e de como foram usadas para atingir objectivos não declarados. É uma história de como a radicalização do discurso foi alimentada para construir uma narrativa e conduzir a uma acção. É a história de quando os extremos se opuseram e, em Macau, alguma coisa teve de mudar, para que tudo ficasse na mesma.
A antecâmara
“Eu estava a jantar quando ouvi um barulho enorme. Já sabia um bocadinho de chinês. Cheguei à janela e vi um grupo enorme, que tinha vindo do lado do Hospital Kiang Wu, para baixo, com bandeiras, a ofender os portugueses. Dirigiam-se aqui para a Avenida Almeida Ribeiro, nessa noite, no dia 1. No dia 2, fui trabalhar. Quando fui comprar um maço de cigarros, a vendedora diz que não vendia cigarros a portugueses. Quando saí do serviço e fui apanhar o autocarro para casa, a revisora disse-me que ia deixar-me entrar, mas que, no dia seguinte, não, porque era proibido os portugueses usarem os transportes públicos”.
Há 50 anos, nos primeiros dias de Dezembro de 1966, António Cambeta testemunhou o que pouco antes parecia impensável em Macau.
A população chinesa, desde sempre maioritária na então colónia portuguesa, revoltava-se contra as autoridades. Não era a primeira vez, mas já tinham passado mais de quatro décadas desde a última grande revolta. E agora sopravam da China os ventos da revolução cultural. Uma onda vermelha ameaçava cobrir o país e Macau não escapava. “1,2,3”. Foi assim, numa alusão à data (o dia 3 do mês 12), que ficaram conhecidos os acontecimentos que culminaram um período invulgarmente tumultuoso, que começou a 15 de Novembro.
Na manhã desse dia, cerca de uma centena de jovens começam a montar andaimes e a destelhar três velhas casas na Taipa, na Rua Direita Carlos Eugénio. Ali ao lado pretendia-se construir uma escola primária para os sócios da Associação dos Estaleiros da Ilha da Taipa. Num relatório secreto, a Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), haveria de escrever que “os comunistas requereram licença para construir uma escola há cerca de oito meses”, mas o pedido ficara esquecido na gaveta. O administrador do Concelho das Ilhas, Rui de Andrade, assistiu à demolição quando passava de carro. Intrigado, enviou polícias ao local. Foram mal recebidos e os desacatos não tardaram, resultando em dois feridos e seis chineses detidos. Entre a comunidade e na imprensa de língua chinesa falava-se em 40 feridos.
Eram falsidades, acusa Moisés Silva Fernandes na obra “Macau na Política Externa Chinesa entre 1949 e 1979”, onde o investigador da Universidade de Lisboa aprofunda o período do “1,2,3”. O académico escreve que o objectivo, traçado pela chamada “elite chinesa”, era provocar uma reacção: em Macau, mas também na China. Era dessa forma que as figuras proeminentes da sociedade chinesa de Macau procuravam legitimar-se perante a liderança comunista. Tinha sido há poucos meses que Mao Tse-tung lançara o país na Revolução Cultural. Na China, estava em curso uma campanha de purificação de todas as esferas da cultura, da política e da sociedade.
Ninguém estava a salvo. Nem o presidente, Liu Shaoqi, que chegou a ser acusado de contra-revolucionário. Algo tinha mudado no outro lado da fronteira, onde as autoridades portuguesas não costumavam ver motivos de preocupação.
Num dos discursos que proferira, Lopes dos Santos, que governou Macau entre Abril de 1962 e Novembro de 1966, afirma que Portugal tinha “uma tradição de paz e amizade (...) sem nunca ter feito a guerra, como o próprio Mao reconhece”.
Em Novembro de 1966, Lopes dos Santos pediu a exoneração alegando motivos familiares. Salazar nomeou como sucessor Nobre de Carvalho, que foi posto ao corrente do que se passava na China com a revolução cultural, mas não em Macau. O novo governador só chegaria a Oriente no dia 25 de Novembro. Até lá, Mota Cerveira seria o encarregado do Executivo. Coube a este comandante militar liderar as primeiras negociações após o incidente da Taipa. A Mota Cerveira os chineses reclamaram uma indemnização para as vítimas da carga policial e a demissão do segundo-comandante da PSP e do administrador do Concelho da Ilhas.
As negociações ainda decorriam quando Nobre de Carvalho chegou a Hong Kong sem saber que se passava em Macau, como confessou o ex-governador ao jornalista Ricardo Pinto, numa reportagem para a TDM, em 1996: “O governador foi daqui [de Lisboa] sem saber o que se estava a passar em Macau. Vim a saber que estavam tendo lugar acontecimentos sérios pelo governador de Hong Kong, quando me foi receber no aeroporto de Kai Tak, e me fez saber que a situação era preocupante”.
Em Macau, Nobre de Carvalho rapidamente mergulhou nos problemas em que o território se afundara. Face à recusa de ceder às exigências chinesas, a imprensa, com o diário Ou Mun à cabeça, intensificava a campanha de ataques contra a administração portuguesa. Os guardas-vermelhos começavam a marchar pela cidade.
Reivindicação sobe de tom
Em Macau há dois anos, onde cumprira o serviço militar, António Cambeta, então funcionário numa agência comercial, olha para trás e recorda que havia entre a comunidade chinesa um mal-estar que, de repente, transbordara: “Havia dentro da população chinesa um rancor acumulado ao longo dos anos, porque a administração portuguesa era toda corrupta e tratava mal os chineses. Não havia chineses em postos de comando. Nunca houve, quase até à entrega de Macau à China. Para tratar qualquer assunto, em qualquer departamento público, era tudo à base de dinheiro. Os chineses já estavam cheios. Aproveitaram a circunstância da revolução cultural na China para dar a volta ao sistema”.
Com o passar do temo, o tom ia subindo. As exigências aumentavam. Não bastavam já as duas demissões, nem as compensações monetárias. Era preciso também apresentar um pedido de desculpas ao jornal Ou Mun, acusado de agitador, e ainda tirar os cassetetes aos polícias. A administração portuguesa tinha também de reconhecer publicamente os erros cometidos a partir de 15 de Novembro. Mas a pressão começou a chegar também de Hong Kong, através da agência de notícias oficial chinesa, a Xinhua. Tudo em crescendo até ao dia 3 de Dezembro, quando o átrio do Palácio do Governo foi invadido. No exterior juntavam-se já centenas de manifestantes. Jovens, na maioria. A polícia carrega. Jactos de água e gás lacrimogéneo são lançados sobre a multidão, que, entretanto, se concentra junto ao tribunal, na Praia Grande, e também no Leal Senado. Sem resistência, a então Câmara Municipal foi invadida e saqueada, bem como a secretaria notarial, ao lado da Farmácia Popular.
Eduardo Tavares, seminarista em 1966, recorda o momento em que o padre Manuel Teixeira, historiador e então membro da comissão para o restauro dos códices rasgados, acorreu ao Leal Senado: “Estava num dos corredores do Seminário de São José e ele [padre Teixeira] desce as escadas do terceiro para o segundo andar, assim muito apressado. Perguntei-lhe, ‘então senhor padre, onde é que vai?’ E diz, ‘ó rapaz, cala-te, vou salvar Macau.’ Porque é que ele diz isso? Porque houve exageros e um dos exageros foi ir ao Leal Senado e deitar as coisas para a rua, livros e outras coisas. Outro foi ir ao cartório notarial e também muitas coisas voaram. E então ele diz que foi salvar aquilo. E parece que foi, que ainda apanhou muita coisa”.
Para o padre Teixeira, aquele tinha sido o pior golpe que o arquivo sofrera. O historiador estimou que um terço dos manuscritos estavam perdidos. Passados 50 anos, o agora ex-padre Eduardo Tavares recorda que, na altura, era difícil não perceber que algo estava mal em Macau, mesmo com a protecção dos superiores, que não queriam os noviços alarmados pela tensão: “A gente ouviu durante aquele ano de 1966, até Julho de 1967, os altifalantes em muitas partes da cidade, com ‘slogans’ contra portugueses, americanos, estrangeiros. Havia ali uma certa xenofobia”.
Um dos símbolos detestados do colonialismo estava no centro do Leal Senado. Era a estátua do herói macaense da batalha do Forte de Passaleão, o coronel Nicolau Mesquita.
A 3 de Dezembro de 1966, a estátua foi derrubada e arrastada para a casa de banho pública da Almeida Ribeiro. “Aqui é o teu lugar”, escreveram. António Cambeta afirma ter visto a estátua ser deitada abaixo por “chineses indonésios”. Também Moisés Silva Fernandes destaca que os “chineses ultramarinos da Indonésia foram instrumentalizados para precipitarem os distúrbios em Macau”. No dia 3, a força da autoridade sentiu-se com maior impacto quando a turba se aproximou do comando da PSP, na Rua Central. Já com os militares nas ruas, abre-se fogo contra a multidão, que começa a dispersar.
O governador impõe o recolher obrigatório.
Depois de, no dia 3, os manifestantes terem atacado os símbolos da administração portuguesa, no dia seguinte foi a vez de os alvos terem sido as instituições ligadas a Taiwan – associações e grupos de apoio a refugiados da República Popular da China.
Como acontecera antes, também desta vez os incidentes foram descritos por vários jornalistas, tanto chineses como ocidentais, como tendo sido organizados, nota Moisés Silva Fernandes. Ainda no dia 4 é feito o balanço dos incidentes: três mortos no dia 3 e cinco no dia seguinte. No total, oito mortos, todos chineses: um operário, um comerciante, um empregado, dois aprendizes e três alunos. Feridos terão sido mais de 200. A violência iria desaparecer das ruas de Macau, mas o mal já estava feito. Ao longo dos anos foram feitas críticas à actuação das forças de segurança – ora pela brutalidade, ora por não terem sabido actuar no tempo certo. António Cambeta, que iria integrar as forças de segurança, garante que havia “falta de preparação”, quer por parte dos polícias, quer por parte das tropas.
Manobras de bastidores
Depois dos incidentes, a necessidade de encontrar um desfecho para a crise levou a que a elite chinesa tivesse criado, com o apoio de Pequim, a Comissão de Luta Contra a Perseguição Portuguesa. Era a chamada “comissão dos 13”, que concertava as posições alinhadas com a China continental para negociar com o governador Nobre de Carvalho. Começavam novas manobras de bastidores.
Em fundo, um ambiente tenso e ameaçador, recorda António Cambeta: “Havia receio. Macau estava bloqueado. Havia navios chineses a controlar toda a área marítima de Macau”. Havia receio entre a comunidade portuguesa, mas também chinesa, acrescenta Cambeta: “A comunidade chinesa estava dividida em várias partes. Aqueles que sabiam a realidade da China tinham receio daquilo que os comunistas pudessem fazer, porque revolução cultural é uma coisa e o Partido Comunista Chinês, até ali, nunca tinha sido hostil para com Macau, antes pelo contrário. Precisava de Macau como contraponto de entrada e saída de mercadorias. O receio que havia era da revolução cultural. A maioria era malta nova, estudantes com outra mentalidade. Se viessem invadir Macau, o que aconteceria aqui? Os próprios habitantes chineses de Macau estavam divididos”.
Hoje, António Cambeta diz que o sentimento de há 50 anos teria ressonâncias quando Macau passou a ser administrada pela China. Era a incerteza. “O sentimento”, diz, “era quase igual”. Se nos anos 1990, a população de Macau vivia com a guerra das seitas nas ruas, nos anos 1960 eram outras as facções que também se digladiavam. Em 1966, assistiu-se ao maior agravamento do conflito entre comunistas e nacionalistas, os dois lados que tinham estendido até Macau a luta travada na clandestinidade. Exilados em Taiwan, os nacionalistas tinham na antiga colónia portuguesa uma importante base de apoio e liberdade de movimentos. Mas os comunistas, em Pequim, estavam atentos e seguiam de perto o que se passava. Salazar recusava dialogar com os comunistas, que considerava o grande inimigo. Devido à ausência de relações diplomáticas entre Portugal e a China, entre 1949 e 1979, as funções de mediação entre as duas partes foram desempenhadas pela chamada elite chinesa de Macau. Desde a chegada dos portugueses, em 1555, as autoridades chinesas usaram mandarins para gerirem Macau e contactarem com a administração portuguesa. O arranjo só foi desfeito em 1849, quando o governador Ferreira do Amaral expulsou as autoridades chinesas de Macau. Desde então, era à elite comercial chinesa do enclave que cabia a mediação. A partir de 1949, com a instalação no poder por parte dos comunistas, a elite chinesa volta a assumir um maior destaque. Em Macau, a elite chinesa controlava associações e escolas, recebia títulos honoríficos de Pequim e de Lisboa, e acumulava dinheiro e poder com as concessões, sobretudo do jogo e do ouro.
O metal mais precioso
A neutralidade de Portugal na Segunda Guerra Mundial deixou Macau de fora do conflito e também do acordo Bretton Woods, assinado com o objectivo de apertar o controlo sobre o preço do ouro no mercado global. Rapidamente, Macau tornou-se uma praça mundial do metal precioso. Entre 1949 e 1969, foram importadas para Macau 900 toneladas de ouro. Não há registos oficiais de terem saído do território, mas é de presumir que os lingotes tenham ido parar sobretudo a Hong Kong, onde terão sido revendidos. Caso contrário, como escreveu o investigador João de Pina-Cabral, as ruas de Macau estariam pavimentadas a ouro.
Desde o final da década de 1940 que o ouro era controlado por um consórcio formado por Pedro Lobo, chefe dos Serviços Económicos de Macau, e pelos empresários chineses YC Liang, e Ho Yin. Eram dois destacados membros da elite chinesa, composta pelos chamados “capitalistas compatriotas vermelhos”. A maioria pertencia à Associação Comercial Chinesa, onde pontificava Ho Yin, o patrão dos patrões.
Mas no final da década de 1950 e o principio da década seguinte, quando Jaime Silvério Marques governou Macau, os interesses desta elite, e em particular de Ho Yin, foram abalados pelas mudanças na atribuição de concessões, como recorda João Guedes: “Corria nessa altura, pouco antes do '1,2,3', que o governo português iria tirar a licença ao Ho Yin”. O investigador da história de Macau e ex-investigador da Polícia Judiciária recorda como importante o momento depois do atentado à bomba falhado contra Ho Yin, em Maio de 1966. A Polícia Judiciária, instalada em Macau havia dois anos, vai entrar em acção e desequilibrar o jogo de forças entre comunistas e nacionalistas: “Nesse momento, a Polícia Judiciária faz uma série de rusgas, nomeadamente em templos budistas, onde estava armazenado o armamento, e era muito, nacionalista. Alguns analistas dizem que isso terá desequilibrado definitivamente o jogo de forças em Macau. E os comunistas, que são muitos, mas não estão armados, finalmente encontram a oportunidade de passar para a mó de cima”.
De acordo com João Guedes, as associações tradicionais em Macau - das desportivas, onde se agrupavam as seitas, às de moradores - eram dominadas pelos nacionalistas, que também contavam com o apoio dos capitalistas: “Os comunistas praticamente não dominavam nada aqui em Macau, incluindo os dirigentes da Associação Comercial Chinesa, que eram todos nacionalistas. A Ho Yin há quem lhe chamasse comunista, no calor do ‘1,2,3’, como também ao Ma Man Kei. Ora, nenhum deles era comunista. O único era o Chui Tak Kei, o homem de quem não se fala. Falava português, é o homem que tem uma intervenção inicial no ‘1,2,3’, para a resolução da escola da Taipa, e depois a sua acção esbate-se, precisamente porque era do partido e o protagonismo é dado depois a Ho Yin e a Ma Man Kei”. João Guedes diz que no “1,2,3” se misturam diferentes agendas, nem sempre declarando à partida os objectivos. Havia muita encenação, diz o investigador: “Todas essas movimentações políticas da Associação Comercial e dos seus membros, e até dos comunistas, foram movimentações muito teatrais. Aquilo não correspondia seriamente ao que se passava. E depois foi por todos aproveitado. Também todo aquele caos da revolução cultural aproveitava a todos, nomeadamente ao governo chinês. Quando as coisas corriam mal, deitava as culpas para cima dos guardas vermelhos e estava resolvida a situação”. Foi neste contexto que a elite chinesa de Macau viu uma oportunidade na instabilidade política. Para Moisés Silva Fernandes, “era uma oportunidade única para os capitalistas compatriotas vermelhos prostrarem e fragilizarem a administração portuguesa”. O objectivo era evitar que a concessão do ouro caísse nas mãos da Sociedade de Turismo e Diversões de Macau, de Stanley Ho.
Mas não estavam em causa apenas os negócios da elite chinesa de Macau. O comércio do ouro também era de grande importância para a China. Com uma moeda que não era aceite no comércio internacional, Pequim vai depender do ouro transaccionado em Macau e Hong Kong: “É preciso ver que apesar de Macau ser muito pequeno em dimensão geográfica, por aqui sempre correram milhões e milhões. Pode dizer-se que cada membro da elite chinesa, como lhe chama Moisés Silva Fernandes, era um potentado e tinha a sua agenda, mas o Ho Yin tinha uma agenda particular, que era a do ouro”, observa João Guedes.
Segundo Moisés Silva Fernandes, a administração portuguesa era apenas “um actor menor no comércio deste precioso metal”, mas era ao mesmo tempo uma garantia. Daí que o regime de Mao Tse-tung, escreveu Moisés Silva Fernandes, tivesse adoptado uma postura de pragmatismo em relação à administração portuguesa de Macau. Nesse sentido, o investigador considera que “a dependência [do ouro] contribuiu para que [Pequim] tudo fizesse para garantir a continuidade da presença portuguesa no enclave (...) entre Dezembro de 1966 e Janeiro de 1967”, os dias mais quentes do “1,2,3”. À China de Mao convinha fazer uma demonstração de força, mas para “soviet” ver, diz João Guedes: “Era preciso, de alguma forma, satisfazer o comunismo e dizer que os imperialistas não estavam aqui à borla, nem com o consentimento dos comunistas chineses, e que quem mandava eram eles. Essa era a agenda do Partido Comunista Chinês, que não pretendia, de forma alguma, expulsar os portugueses daqui. Quem pretendia expulsar os portugueses, e nunca se fala disso, eram os nacionalistas. Eram eles que tinham essa agenda desde finais do século XIX”. Era um jogo de sombras, mas também um jogo de forças, no qual a elite chinesa sabia de antemão que Salazar queria a todo o custo evitar uma repetição do que tinha acontecido em Goa, em 1961, noutro fatídico mês de Dezembro.
A rendição de Goa
Cinco anos antes, em 1961, no dia 18 de Dezembro, a União Indiana atacou Goa, Damão e Diu com 30 mil homens, um número dez vezes superior aos três mil soldados portugueses que defendiam a chamada “Índia portuguesa”. Salazar dissera que não previa “tréguas nem prisioneiros portugueses”, apenas “soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos”. Mas o governador Vassalo e Silva desobedeceu às ordens e rendeu-se em menos de 24 horas. Poucos dias depois da invasão de Goa, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Estado Novo, Franco Nogueira, propôs a Salazar uma viragem na política colonial. A mudança passava pela entrega de Macau à China. Salazar recusou dizendo-se “preso às ideias do passado”. Mas o ditador também se mostrava atento ao perigo vermelho que alastrava na Ásia, ameaçando toda a África. Por todo o lado, agitavam-se movimentos revolucionários e de independência. Salazar e o Estado Novo estavam cada vez mais isolados. “Orgulhosamente sós”.
Uma Igreja empenhada
Em Macau, fiel a Salazar era a Igreja, observa João Guedes: “A Igreja está dentro e fora da política ao mesmo tempo. Estando dentro da política, influencia directamente as decisões que são tomadas pelos políticos e, neste caso, pelo governador Nobre de Carvalho. Mas por outro lado, a Igreja não tem o tempo dos políticos. A Igreja tem a infinidade dos tempos. Há aqui uma questão de princípio muito clara. O Vaticano não reconhece os comunistas. Mais, o Vaticano está em guerra contra os comunistas”.
Para João Guedes, a Igreja tinha uma estratégia contra o inimigo comunista, e os padres em Macau faziam parte do esforço: “O padre Teixeira e todos os outros padres que estavam aqui, não eram de modo nenhum missionários isentos do ponto de vista político. Todos eles eram militantes da União Nacional, o partido único que havia em Portugal. A obrigação deles era dirigir politicamente o seu rebanho. [O bispo] Dom Paulo José Tavares, na altura, toma uma posição de firmeza contra os comunistas. Desde o princípio, dá ordens muito claras aos seus padres, que é lutar contra a subversão e enquadrar os alunos católicos. Ou melhor, os alunos que frequentam o ensino católico. E o ensino católico, nessa altura, tinha nas mãos quase toda a educação em Macau”.
Em Macau, a Igreja era a mais fidedigna caixa de ressonância de Salazar. A instituição há mais tempo em Macau, a Igreja tinha uma influência que ia além da tradicional esfera da comunidade portuguesa. Durante o “1,2,3”, esse poder foi usado, considera João Guedes: “Há uma tentativa de os comunistas obrigarem os estudantes das escolas católicas a seguirem a escola Hou Kong, nomeadamente na invasão do Palácio do Governo, e os alunos das escolas católicas são impedidos de o fazer. Isso demonstra que a Igreja Católica não tinha uma influência teórica sobre a população. Não, ela mandava, porque mandou que os alunos não colaborassem. E atenção, porque na altura, e hoje, a maioria dos professores era chinesa. E os católicos em Macau sempre foram muito poucos”.
A influência da Igreja de Macau chegava longe, sublinha João Guedes: “São os padres que mantêm Salazar informado do que se passava. Suponho que deve ter tido mais importância o que disse o cardeal Cerejeira ao Salazar, do que o que lhe disseram o governador Nobre de Carvalho ou Mota Cerveira, com os relatórios que fizeram aqui”.
Alguma coisa tem de mudar
A meio das negociações entre o governo português de Macau e a “comissão dos 13”, no dia 14 de Janeiro de 1967, Salazar escreve a Nobre de Carvalho. Com os acontecimentos em Goa ainda frescos na memória, o presidente do Conselho dava indicações sobre a atitude a tomar: “Não temos aí forças para bater as forças chinesas – seria uma impossibilidade – mas para garantir a ordem e lutar até ao extremo limite pela dignidade e pela soberania nacional. Contamos aqui que, em caso de necessidade, todos cumprirão o seu dever, mesmo com os maiores sacrifícios”.
Os “maiores sacrifícios” acabaram por ser o que muitos classificaram de humilhação. No dia 29 de Janeiro de 1967, um domingo, Nobre de Carvalho dirige-se à sede da Associação Comercial Chinesa, no Largo do Senado. Ali, em pouco mais de dez minutos, o governador assinaria dois documentos em que as autoridades portuguesas assumem toda a responsabilidade pelo que admitem ser “o incidente sangrento de 15 de Novembro na Taipa” e os “trágicos acontecimentos de 3 de Dezembro”. Comprometem-se também a não permitir “quaisquer actividades” de agentes nacionalistas no território. Ainda nesse dia, na China dá-se por terminada a “revolução cultural” em Macau. E
ra o fim de uma era, outra começava. Eduardo Tavares entende que “o ‘1,2,3’ deixou feridas em Macau que ainda não estão completamente saradas: "Entrei na comunidade chinesa e aperecebi-me que a compreensão não era muito grande. Essa falta de compreensão ainda se mantém. Ainda conheço hoje pessoas com mais de 70 anos que todas as recordações que têm são recordações negativas”. Depois do “1,2,3”, em Macau cumpria-se à letra o pensamento de Don Fabrizio, herói de “O Leopardo”, o romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa sobre os temores e a incerteza das revoluções: “É preciso que alguma coisa mude, para que tudo fique na mesma".
Agradecimentos: TDM - Rádio Macau (texto); Fotos: arquivo Blog Macau Antigo

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Passatempo 9º aniversário/ 40.000 pageviews em Novembro

A fazer história desde 2008, o blogue Macau Antigo celebrou este mês de Novembro o 9º aniversário com o segundo melhor registo de sempre em termos de leitores: mais de 40 mil pageviews (40.036) em apenas 30 dias.
Para assinalar o aniversário terá lugar de 1 a 15 de Dezembro um passatempo. Os autores das 10 melhores frases sobre este projecto vão receber em casa um exemplar do livro "Liceu de Macau 1893-1999".
Enviem as frases juntamente com nome e morada para o e-mail: macauantigo@gmail.com
Postal da Praia Grande com uma vista do Monte da Guia na década 1940/50

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Feira Industrial de 1926: discurso inaugural

No dia 7 de Novembro de 1926, um domingo, o Almirante Hugo Lacerda, governador interino de Macau na época, proferiu o discurso de abertura da da primeira Exposição Industrial e Feira de Macau. Uma ideia antiga do governador Rodrigo Rodrigues... que teria lugar em Mong-Há e esteve patente até 12 de Dezembro desse ano.
Excertos do dicurso:
"(...) Tudo o que vemos em volta, todas estas barracas vistosas e engalanadas, cheias de artigos de variado valor, partiu da ideia de se estabelecer um simples mostruário de produtos de Macau. (...) O que vemos em volta não representa um acontecimento isolado e com restrita significação como a alguns poderá parecer; liga-se fundamentalmente com todo o ressurgimento de actividades industriais e comerciais que de há tempos se notam nesta cidade, a despeito de todas as dificuldades do viver político da China; liga-se naturalmente com as previsões do aproveitamento do porto de Macau, este novo e valioso instrumento do progresso. Indústria, comércio, navegação e viação terrestre dão-se as mãos, quando há uma população obreira como a de Macau e a que há em volta de Macau. (...) Dentro do progresso material se deve contar muito em Macau com o benefício trazido por forasteiros; não basta a produção e o tráfego de mercadorias, é preciso atrair a concorrência de pessoas por todas as formas dignas de uma cidade moderna; é necessário considerar o valor do que se chama o Turismo. A Direcção das Obras dos Portos não tem descurado este importante aspecto da questão dentro dos limites das suas possibilidades, indo até ao ponto de fazer sacrifícios, como por exemplo o estabelecimento de uma pista de corridas de cavalos, nos terrenos conquistados defronte da Areia Preta, crente em que estes sacrifícios terão largas compensações indirectamente para o porto e sem dúvida mais directamente para a cidade. Pena é que não possamos fazer neste momento, também a inauguração deste melhoramento como se chegou a julgar possível. (...)
Recinto da feira
Voltando à exposição propriamente dita e atendamos também aos que nela trabalharam. O que está à vista não é mais do que uma tentativa, é certo, mas quando se considerem todas as dificuldades que resultaram dos fracos recursos, quando se considere ainda que tudo isto representa uma novidade para Macau, quando se atenda a que a maior parte do trabalho directivo e não directivo foi realizado com pessoal das Obras dos Portos, já tão sobrecarregado de serviços, fica-se defronte de qualquer coisa admirável; para cúmulo até a Natureza parece que quis experimentar a resistência do prestimoso Comissariado com um violento tufão que reduziu o que estava feito já em estado adiantado a um montão de ruínas. 
Foi esse momento crítico. Mas o momento mais crítico foi talvez aquele em que, havendo já compromissos importantes, foram negados quase totalmente os recursos ao Comissariado. Felizmente que essa enorme dificuldade foi removida, porque, a instâncias deste Governo, Sua Exa. o actual Ministro das Colónias, Capitão Tenente João Belo, autorizou que, pelos fundos do Conselho de Administração das Obras dos Portos, fosse aumentada aquela importância com $2000 (patacas). Creio que com esta experiência ficará bem vincada em todos a convicção da necessidade de nos futuros orçamentos da Colónia, ou na distribuição de verbas da Direcção das Obras dos Portos, se consignar a importância até pelo menos de $20 mil para anualmente se realizar a Feira de Macau. Aproveito ainda esta ocasião para dizer que este certame veio dar grandes facilidades para se realizar um melhoramento mais permanente – o estabelecimento dum museu comercial e etnográfico da Colónia - cuja falta se vinha fazendo sentir e mais se sentiria com o desenvolvimento da vida do porto. (...)
Não está terminada ainda a missão do Comissariado da Exposição, mas por menos que tivesse que fazer de ora avante, já se tornou digna dos maiores louvores por todo o seu trabalho e dedicação, que não poderá ser esquecido por este Governo e pela Colónia.”